Fim dos tempos 2

25 Capítulo 25 - Tínhamos esquecido como era


Notas iniciais
Ola pessoas, mais um capítulo, espero que gostem.

Pov – Tommy

Vejo Daryl se afastar em direção a sua casa, Glenn e Jeff abrirem covas, Rick e Katie com a ajuda de Beth tentam consertar o portão agora um pouco torto por ter sido muito forçado.

Continuo meu trabalho de recolher corpos junto com os outros, não quero entrar na minha casa ainda, estar de volta sem Gina me causa uma dor tão grande quanto o momento que ela me deixou, dividíamos aquela pequena casa desde que nos estabelecemos na vila, naquela época éramos apenas amigos, cada um tinha seu quarto e sua vida.

Claro que Gina se intrometia em tudo, mas isso mais me divertia do que causava problemas, nunca pensei que viveria mais tempo que ela, sempre achei que em algum momento eu me atiraria no meio dos zumbis para salva-la, nunca me passou pela cabeça algo diferente e preciso me acostumar com isso, é uma dor diferente desde que tudo começou, você sente a perda, ela dói, machuca e revolta assim como antes, mas não há tempo para o luto, é preciso seguir, continuar e não se pode chorar, assim como agora.

─Tommy, aquela menina, talvez ela precise de alguma coisa! – Megan se aproxima de mim me fazendo soltar o corpo que arrastava para a caminhonete, olho para Liv, meio que me esqueci dela.

Liv estava parada no meio da rua, os braços cruzados no peito, os olhos assustados como sempre, perdida, eu suspiro, Gina me pediu para trazer a garota, não falou nada de cuidar dela.

─Me esqueci dela, vem comigo Megan, deixa eu te apresentar.

─Claro! – Megan segue comigo até Liv que fica mais tensa quando nos vê chegando.

─Liv, está é a Megan, ela vive aqui e pode te ajudar no que precisar.

─Oi – Megan diz sorrindo, Liv responde num fio de voz – Seja bem-vinda, vai gostar de ficar conosco, acho que deve estar com fome e sede, vem até minha casa, trouxe roupas? – Ela nega, me olha um tanto confusa, quase como que me pedindo autorização para acompanhar Megan.

─Vá com ela, a Megan te empresta umas roupas e depois... Bom estou ocupado agora, depois pensamos no resto.

─Obrigada! – Liv diz a Megan e depois de me olhar segue com Megan para a casa de Daryl, volto ao trabalho, ajudo Rick com o portão já que as garotas não tem força suficiente e então nos sentamos um pouco, Beth nos traz água, só agora me dou conta da sede que estou sentindo, Daryl retorna.

─Como está o Nick? – Pergunto e ele sorri.

─Bem, está em casa então acho que está aliviado – Ele olha para Katie – E muito arrependido – Completa.

─Já vem você querendo livra-lo do castigo, não acham que ele precisa de uma lição? – Ela nos questiona, ninguém diz nada, ela dá de ombros – Nada demais gente, só uma boa bronca!

Uma mulher surge de dentro de uma das casas, nunca a vi e se me lembro quando deixei a vila ninguém morava naquela casa, é bonita e caminha em nossa direção muito decidida, tem as roupas sujas de sangue e um ar cansado.

─Quem é? – Pergunto curioso.

─Lauren, é uma médica, já contei o que aconteceu quando esteve fora – Rick me diz e agora me lembro, a morte de Lizzie e Mika, os novos membros do grupo, um garotinho e o infeliz que causou tudo, que no momento está sendo tratado pela mulher que caminha para nós.

─Como ele está? Beth pergunta assim que ela se aproxima, trocamos um olhar e um aceno de cabeça.

─Brian está morrendo, cortar a mão não foi o bastante, no momento a febre está baixa, mas ele perdeu muito sangue e com a febre acho que é apenas questão de tempo.

─Pena! Beth diz abatida, é sempre triste perder alguém, é como perder uma batalha – Quer alguma ajuda?

─Não Beth, só vim tomar um pouco de ar, tenho que ficar lá com ele, você sabe, para quando acontecer.

─Entendemos, vamos reunir o grupo para os funerais, não precisa vir se não se sentir à vontade! Katie avisa.

─Se puderem me chamar gostaria de participar, Bob e eu ficamos próximos nos últimos dias, dividimos informações e com isso acabei me aproximando muito de Sasha também.

─Nesse caso chamamos você – Rick avisa, ela assente, olha em direção ao nosso pequeno cemitério no fim da rua, sigo seu olhar, quero fazer algo para Gina, deixar um espaço para ela, é um modo simbólico ao menos de tê-la conosco.

Lauren continua ali, olhando para o cemitério, ficamos todos em silencio num misto de cansaço físico e tristeza.

─Fazia tempo não é? – Katie diz se encostando em Daryl, os olhos marejados – Nos esquecemos como era, Gina, Bob, Sasha, achei que isso tinha acabado.

─Nunca acaba! – Beth diz também abatida.

─Vamos deixar as pessoas se refazerem e então recomeçamos, não foi sempre assim? – Rick diz puxando Beth para seus braços e pela primeira vez sinto falta de ter alguém ao meu lado, Gina tanto fez que conseguiu me deixar assim pronto para começar algo, mas então me deixou.

─Tommy! – Só então vejo Nick parado diante de mim, olho para ele sem entender o que se passa – É a Liv sabe, ela está lá em casa com a Megan.

─Sei disso Nick.

─E não vai lá? – Ele me pergunta – Quer dizer, trouxe ela, a menina agora vai ser sua filha não vai, você precisa mostrar onde ela vai morar, essas coisas, ela já comeu e a minha irmã juntou umas roupas para ela, mas e o resto, a menina é a maior medrosa do mundo.

─Nick eu ainda sou o cara que devora criancinhas, então melhor cuidar da sua vida! – Ele olha para o pai, depois me encara.

─Vou levar ela para sua casa e a doutora pode dar uma olhada nela – Então ele olha para Lauren – Ela pode estar doente né?

─Soube que tem uma mocinha nova, claro que posso dar uma olhada nela.

─Então vou mandar a Megan levar ela na sua casa e depois para a casa do Tommy!

Nick diz já caminhando para longe, nem me dá o direito de escolher, me irrita, bom o que não me irrita?

─Só porque explodiu um galpão o garoto já acha que pode me desafiar, mas que grande cara de pau é esse seu filho Katie!

─Se não quer a menina ela pode ficar comigo, não costumo abandonar adolescentes solitárias! ─ Lauren me diz impaciente, quem essa mulher pensa que é?

─Nem eu moça, eu costumo salvar adolescentes solitárias, como aliás fiz com Liv e ela não precisa de sua caridade! – Me arrependo na mesma hora, que merda de decisão é essa, a mulher se oferece para cuidar da menina e eu recuso só pelo prazer de desafia-la, mas que grande imbecil eu sou.

─Vou voltar para perto do Brian! – Ela diz de modo vago, sem se dirigir a ninguém em especial, depois nos dá as costas e some para a própria casa, todos estão me olhando.

─Mulherzinha intrometida, aposto que vão se dar muito bem! – Digo apontando Katie e Beth – Maggie também, vai adorar a nova intrometida da vila.

─Deixa de ser ridículo Tommy, a moça é ótima.

─Katie ela não tinha nada com isso, eu salvei Liv umas dez vezes desde que cheguei naquele lugar.

─Que bom, mas não tire conclusões apressadas, estamos todos muito tensos.

Nos dispersamos, vou para minha casa finalmente, não posso ficar lá fora para sempre e no fim da tarde vamos fazer os funerais, quero preparar algo para Gina.

A casa está do mesmo jeito que deixamos, ando pelos cômodos, não tínhamos muita coisa, era apenas um sofá num canto, na cozinha um armário, uma mesa e um fogão, os quartos eram diferentes, eu tinha apenas minha cama e um guarda-roupa, já Gina tinha um milhão de pequenas coisinhas de mulher, nunca entendi porque alguém precisa de tanto no meio do fim do mundo, Liv pode ficar com o quarto dela e cuidar da própria vida, já é uma moça e não precisa de mim para nada.

Entro no quarto de Gina, sinto aquele perfume leve que sempre vinha dela, me faz sorrir, é quase como poder vê-la rindo despreocupada, comentando sobre a vida amorosa dos membros da vila, se metendo em tudo, ao lado da cama tem uma foto dela com os pais, foi o que restou da vida que tinha antes, recolho a foto, vai me lembrar dela quando um dia me esquecer seu rosto.

Como esqueci o rosto de todos que passaram por minha vida desde que o apocalipse começou, olho em volta, respiro fundo e me sento em sua cama, o que naquele emaranhado de coisas tem mais a cara dela?

Quando penso em Gina a imagem que me vem à mente é a da pequena mulher que matava zumbis sem medo com aquele facão gigante que a primeira vista parecia quase maior que ela.

─É isso, o facão de Gina, vou colocá-lo junto a uma cruz no nosso cemitério e isso sempre vai nos lembrar Gina.

Decidido eu volto para meu quarto, recolho algumas roupas limpas, tomo um banho me visto e desço, logo vamos ter a cerimonia e depois é seguir em frente como sempre.

─Oi Tommy! – Megan diz entrando com Liv e Carl, vai ser bom para ela fazer amigos e assim ela aprende logo a se virar, não quero ter que ficar cuidando de uma mocinha e ainda mais uma cheia de problemas que não sei lidar.

─Entrem! – Eu convido, o que é uma bobagem já que eles já entraram porque nessa vila ninguém costuma bater e esperar por um convite.

─A gente só veio mesmo deixar a Liv, já vamos indo! – Carl diz acenando – É bom ter você de volta.

─Tchau! – Os dois dizem deixando a casa muito rápido, que ótimo, agora aqui estamos os dois, parados um olhando para a cara do outro sem saber o que dizer.

─Eu não sei o que tenho que fazer, onde devo ficar, me desculpe.

─Não se preocupe, vai ficar no quarto da Gina – Ela fica com os olhos tristes – Vem eu te mostro.

Subo mais uma vez, dessa vez seguido por ela, caminho apressado, não sei muito como lidar com ela, com Gina por perto era mais fácil.

─Aqui – Mostro o quarto – É tudo seu, arrume como quiser, não sei, mexa nas coisas e se precisar de algo que falte aqui, fale com as meninas, elas te arrumam.

─Tudo isso é meu? Ela anda pelo quarto, mexe naquelas coisas todas, quase sorri – O que tenho que fazer?

─Nada, a Gina gostaria que ficasse com essas coisas, e está tudo bem, sobre a comida damos um jeito, vou pegar com a Beth ou a Maggie, quem cuidava disso era a Gina.

─Posso cozinhar, eu sei, não é grande coisa, mas aprendi em um dos acampamentos que passei e posso aprender com quem estiver disposto a ensinar.

─Não precisa fazer nada disso, não para mim, não é uma troca ou coisa assim, e não precisa ter medo das pessoas aqui, ninguém vai te maltratar ou te obrigar a nada.

Me lembro de como a menina foi tratada pelo nojento do Tom, me dá raiva só de lembrar, ela desvia o olhar, é um assunto bem delicado que não pretendo tratar com ela.

─Obrigada Tommy, nem acredito.

─Vou indo, no fim do dia vamos ter um funeral, apareça, acho que podemos tentar fazer algo para Gina.

─Eu vou.

Dou as costas e deixo a menina, nos reunimos no fim da tarde, a vila está de novo com a mesma cara de antes, o grupo se reúne e noto mais um corpo enrolado em lençóis, deve ser o tal Brian, olho em busca de Lauren, ela parece abatida.

Enterramos os corpos, silenciosos como de costume, colocamos as cruzes sob suas covas, caminho então com o facão de Gina e a cruz que eu mesmo preparei, Gina era alegre demais para lagrimas, só coloco a cruz próxima a algumas flores depois coloco a faca diante da cruz, Liv está do meu lado e vejo que seca as lágrimas, ficamos um minuto ali, cada um com sua dor pessoal.

Maggie e Katie estão de mãos dadas, eram muito amigas de Gina, depois cada um segue para sua casa, Beth se aproxima de mim, Beth é sempre gentil.

─Traga Liv e venha comer alguma coisa Tommy, foi um dia infinitamente longo, acho que precisa se alimentar um pouco.

Quando entro na casa de Beth a doutora estava lá, Judy mostrava alguns desenhos para ela, ela sorri e acho que tem um belo sorriso que se desfaz no momento que me vê, que se dane se não gosta de mim, eu também não gosto nada dela.

Comemos, eu o tempo todo conversando com Rick, marcamos uma reunião do conselho para a manhã seguinte, temos muito o que conversar e decidir, Liv se isola num canto com um prato na mão, depois se oferece para ajudar Beth que é claro não permite, então me levanto para ir dormir, parece que não durmo a semanas, a última vez que deitei numa cama Gina estava em meus braços, vai ser difícil dormir.

Liv se aproxima de mim quando nota que pretendo ir para casa, isso é muito esquisito, Lauren também se ergue e vem até mim com passos decididos, ela parece ser uma mulher bem decidida, parece que só restaram mulheres assim, donas do mundo.

─Precisamos conversar um instante.

─Se vai me acusar de mais alguma coisa eu dispenso.

Eu a encaro, mas ela ergue o queixo em desafio, me encara de volta muito firme, bufo de má vontade, acho que a mulher não vai desistir de uma conversa, que fale de uma vez então.

─Vá em frente! Digo de mal humor.

─Em particular! Ela responde impaciente.

─Que inferno! – Resmungo – Liv, pode ir na frente, não se preocupe é seguro e a porta está aberta.

Liv me obedece prontamente, se despede de todos aos sussurros e deixa a casa.

─Pronto, vamos indo e me fala no caminho.

Aceno para todos, ela mais educada agradece o jantar abraça e beija Judy e Beth e me obriga a esperar feito um idiota.

─Pode ser ainda hoje? Ela se apressa um pouco e vem ao meu encontro, vamos caminhando, minha casa fica no fim da rua, a dela um pouco antes.

─Eu examinei a menina, ela parece bem, mas conversei um pouco com ela em particular, fiz umas perguntas, sabe que ela tem só dezesseis anos?

─Sim, era isso, quer me dizer a idade da garota?

─Não, quero dizer que descobri que ela sofreu abuso e que precisa de cuidados emocionais.

─Fique à vontade, eu já sabia do abuso, por isso ela veio comigo, mas não sei como acha que posso ajuda-la então não conte muito comigo.

─Acha que só porque está viva anda e fala fez muito por ela?

─Não moça eu...

─Lauren! – Ela me corrige de mal humor, reviro os olhos.

─Lauren eu não fiz nenhum favor, apenas trouxe a menina e dei abrigo a ela, mas traumas todos temos, não posso fazer mais nada, ela pode se levantar e seguir em frente ou se encolher e chorar, a decisão é dela.

─Pensei que ela podia me ajudar, eu posso ensinar o que sei para ela, meus conhecimentos médicos, seria bom para ela que é jovem e inteligente e para o grupo.

─Está me pedindo? – Paramos na porta dela.

─Que idiota você é, não, estou dividindo isso com você, me oferecendo para ajudá-lo com a menina e está sendo ridículo.

─Amanhã mando ela procura-la.

Dou as costas a mulher e sigo para casa, que se dane, ela não sabe quem eu sou de onde eu venho nem o que passei, não conhece minhas perdas e não tem o direito de me acusar ou exigir nada.

Não encontro Liv quando entro, sigo para meu quarto, a porta do quarto de Gina está fechada, ela deve estar lá dentro e quero que ela e a médica intrometida me deixem em paz.

Me atiro na cama com a péssima sensação que os dias de paz estão com os dias contados, Katrina me vem à mente, aquela mulher e seu grupo ainda pode nos causar problemas, ainda pode destruir o que estamos a muito tempo tentando manter, fecho os olhos cansado e só consigo ver Gina, eu os abro apressado, acho que dormir hoje não é boa ideia. Voltamos a perder.

Notas finais
Espero que tenham gostado, vamos ter alguns capítulos mais tranquilos, depois novos problemas vão surgir. Beijos e comentem.