Fim dos tempos 2
12 Capitulo 13 - Sangue e dor
Notas iniciais
Pov – Mika
Eu queria ser diferente, queria poder apenas seguir em frente e esquecer as coisas que nos aconteceram, aceitar Maggie e Glenn e deixar Lizzie para trás, mas não posso, ainda hoje escuto a voz de Carol me dizendo para ser forte, para proteger Lizzie por que ela não entendia as coisas e era confusa.
O grupo sempre nos protegeu, desde a morte do meu pai estamos sempre sendo cuidadas e protegidas, primeiro Carol, depois Maggie e Glenn, e no tempo que ficamos na estrada antes de chegarmos a vila os adultos estavam sempre cuidando da nossa proteção, mas Lizzie não enxerga assim, só enxerga os zumbis, essa obsessão por eles vai nos matar algum dia.
─Mika? Maggie se aproxima de mim na varanda, se senta ao meu lado sorrindo – Podemos conversar?
─Claro! Adoro Maggie, ela é sempre alegre e corajosa, queria que fosse mesmo minha mãe, mas Lizzie nunca me deixou chama-la assim.
─Onde está Lizzie?
─No quarto pelo que sei, está lá desde a briga de ontem.
─Sabe se ela comeu?
─Levei comida para ela! Aviso baixando meu olhar, sinto um pouco de vergonha, todos sabem que minha irmã tem problemas, às vezes tenho medo que pensem que eu também tenho – Conheceu os novos moradores?
─Sim, pareceram boas pessoas, viu o garotinho?
─Vi, acho que já se juntou ao Matt e a Judy, mais um para eu cuidar, mas não estou reclamando, gosto das crianças, e cada um tem seu trabalho.
─Parece a Beth falando! Maggie ri, depois o sorriso some e ela me olha séria – Precisamos conversar Mika, às vezes me sinto um pouco culpada.
─Você? Estranho, ninguém era mais legal comigo e Lizzie do que Maggie.
─Lizzie tem problemas, eu acho que sempre soube, mas não fiz nada e isso parece ter te deixado com um peso grande nas costas não acha?
─Ela é minha irmã, é minha responsabilidade, Lizzie não é má, apenas confusa, desde o começo, acho que já era antes.
─Porque acha isso?
Não sei até onde posso ir, o que posso contar das coisas que sei, o que vai levar essas pessoas a ajudar e o que vai levar ao caminho contrário, fico um tempo em silencio.
─Pode confiar em mim Mika! Ela parece tão firme e decidida.
─Minha mãe dizia que Lizzie fazia coisas cruéis, ela ia a um médico antes do mundo acabar, mas não sei que médico, nem que coisas cruéis ela fazia.
─Mas sabe das coisas que ela fazia depois que o mundo acabou, das coisas que fazia na prisão.
─Sei, talvez eu pudesse ter impedido, mas só agora essas coisas fazem algum sentido para mim.
Maggie segura minha mão, arruma meus cabelos e me faz olhar para ela, tem os olhos firmes.
─Pode me contar?
─Ela juntava ratos numa caixa, nunca entendia o porque e então uma vez fui atrás dela, Lizzie alimentava os zumbis na cerca da prisão, quando eles se juntaram e derrubaram a cerca achei que a culpa era dela.
─Mas não disse a ninguém.
─Carol tinha nos deixado, estavam todos doentes inclusive a Lizzie, achei melhor ficar quieta.
─Sabe se foi ela quem abriu as grades no bloco A?
Aquela história era tenebrosa, meu pai ainda estava vivo quando ela fez isso, ele sabia e me fez jurar não contar ou expulsariam todos nós, meus olhos se enchem de lágrimas, acho que é a resposta que Maggie quer, ela me abraça e fico ali uns minutos.
─Eu evitei algumas coisas, consertei outras, mas nem sempre podia fazer algo.
─Lizzie não é sua responsabilidade, nem é culpada por ela ser assim, não precisa levar todo esse peso.
─Carol me mandou cuidar dela, disse que ela era confusa sobre os zumbis, Lizzie acha que são como nós, na verdade às vezes acho que ela pensa que são melhores, quase como seres escolhidos, superiores, ela chama de mudança, eu chamo de morte.
─Obrigada por confiar em mim, não se preocupe, ninguém culpa você e vamos ajuda-la, ao menos vamos tentar, mas Lizzie é um perigo para ela mesma, então tente entender que não é boa ideia deixa-la por ai.
─Sei que não! Depois Maggie se afasta, e eu sigo para dentro, anoitece e vou levar o jantar de Lizzie, ela não está presa nem nada, mas prefere não sair e posso entender isso.
Minha irmã sorri quando me aproximo, se senta na cama e começa a comer muito animada, os olhos tem um brilho débil que me assusta, eu tenho medo de Lizzie, sempre tive, amo minha irmã mas tenho medo desse olhar.
─Meu olho ficou roxo, foi o soco que aquela idiota me deu no nariz!
─Vai melhorar, não se preocupe.
─As pessoas aqui não querem acompanhar as mudanças, vivem como no começo deviam ter entendido que agora tudo pode ser melhor, não precisamos mais morrer, isso devia ser um presente, mas não, todos tratam isso como um fardo.
─Contei para Maggie.
─O que? Ela fica indignada.
─Não falei muito, apenas os ratos, o bloco A... – Ela me olha de um modo diferente, com raiva, depois parece repensar e sorri.
─O que ela disse?
─Que vai te ajudar! Aviso – Não pareceu brava ou decepcionada, não precisa se preocupar.
─As pessoas tinham que ver sabe, tinham que assistir e então entenderiam, tenho certeza disso.
─Eu já vou descer Lizzie, não quer ficar um pouco lá na sala?
─Não, vou dormir, o que vai fazer amanhã?
─O de sempre, cuidar das crianças pela manhã, assistir aulas com a Beth e depois voltar para casa.
─Viu a Megan ou o Carl? Ela me pergunta quando já estava de pé na porta.
─Passaram aqui em frente mais cedo, acho que estão bem, não devia ter esperanças.
─Não quero o Carl, mas se ele pudesse entender, as pessoas poderiam ouvi-lo, pelo menos Rick ouviria e ele é o líder.
Não respondo nada, apenas saio fechando a porta atrás de mim, eu não sei o que ela quer que a gente veja, depois da morte é só um corpo podre e fétido caminhando e devorando carne humana, nada mais que isso, a minha ou a dela, tanto faz, eles apenas não sabem a diferença.
Fico lendo um pouco na sala, depois subo para dormir no quarto de Maggie, Glenn faz questão ele fica no sofá, acho um tanto chato separar os dois, mas eles tem medo que durma com Lizzie, acho um exagero, o problema da minha irmã é com os mortos, não com os vivos, ao menos é assim que vejo.
Pela manhã saio em busca das crianças, é minha função ficar de olho nelas, Judy, Matt e Andy o garotinho novo estão brincando na frente da casa de Beth, me sento ali um pouco, a mãe de Andy está conosco, ela sorria despreocupada.
─Está gostando daqui Maria?
─Muito, não achei que lugares assim existiam, eles parecem seguros – Diz olhando os garotos correrem um atrás do outro rindo.
─Estão, temos um bom sistema de segurança, e a casa é boa?
─Perfeita, eu e Lauren ficamos com um quarto e o Brian com o outro, ele foi muito bom cuidando de tudo esse tempo que ficamos na estrada, e parece ter se adaptado melhor que todos, está com os homens fazendo a segurança, Lauren também parece que gostou.
─Que bom, eu cuido das crianças sabe, essa é minha função, então se quiser pode fazer outras coisas, seu filho pode ficar comigo.
─Tem certeza?
─Tenho, mais tarde Beth dá aulas para eles, ensina a ler, escrever, fazer contas, Andy pode ir com Judy e Matt, no fim da aula eu o levo para você.
─Nesse caso acho que vou até nossa casa, quero dar uma olhada em tudo, arrumar um pouco, Maggie é sua mãe?
─Não, mas cuida de mim desde que meus pais morreram.
Não entro muito em detalhes, ela sorri, chama o filho e avisa que vai para casa, diz que ele devia me obedecer e depois caminha para a rua de trás tranquila.
─Amy podemos jogar aquele jogo de damas? Judy me pede – Quero ensinar ao Andy, Matt também quer.
─Vamos, está lá em casa, acho uma boa ideia, assim saímos desse sol um pouco e podem tomar um copo de suco de limão.
─É verdade que antes tinha um monte de sucos diferentes? Matt me pergunta enquanto caminhávamos todos para minha casa.
─É, tinha muitas frutas sabe, e todo tipo de suco que se podia fazer com elas, de várias cores, vermelho, verde, amarelo.
─O Nick me falou que tinha sorvete, que era como neve com sabor e sempre colorido, o Andy não acredita.
Entramos em casa, Lizzie ainda está no quarto, acho que nunca mais vai sair de lá, pego o jogo sobre a estante e armo na mesinha no centro da sala, os três se sentam no chão em volta dela, sorriam muito felizes.
─Oi! Lizzie surge na sala, ela me olha sorrindo – Então tem mesmo gente nova?
─Sim, esse é Andy, a mãe dele deixou ele comigo, eles vão jogar damas, vou fazer um suco, quer?
─Claro! Eu fico contente que ela parece mais animada, deixo as crianças na sala com ela e vou para cozinha, mas não tem mais nenhum limão, volto distraída.
─O suco fica para depois, não tem mais limão.
─Se quiser ir buscar eu posso ficar de olho neles.
Olho para os três sentados em volta da mesa, estão completamente distraídos, Matt está explicando o jogo e não vou demorar mais do que dez minutos, olho então para Lizzie, acho que não tem nada demais, afinal o que ela poderia fazer?
─Certo, eu já venho crianças, vou buscar alguns limões com o Jeff.
Nenhum deles me responde, nem se lembram mais de mim, deixo a casa fechando a porta atrás de mim, caminho despreocupada, estava chegando na horta e dou de cara com Nick que vinha desanimado, sorrio para ele, sei o quanto acha chato o trabalho na horta, Amy não está com ele, deve ter ficado com Mary, ainda falta muito para o bebê nascer mas Jimmy está bem preocupado.
─O Jeff ainda está na horta? Pergunto a Nick.
─Sim, está cuidando das plantas medicinais dele com o Bob! Ele me acena e segue seu caminho, dou uns passos e então ele me chama, me viro para ele – Onde está meu irmão?
─Lá em casa com a Judy e o Andy, vim buscar limão, quero fazer suco para eles.
─Maggie e Glenn não estão de guarda nos muros? Ele me pergunta de testa franzida.
─Acho que sim, mas eles estão jogando, qualquer coisa a Lizzie dá uma olhadinha neles.
─Vou até lá! Ele me diz balançando a cabeça como se não tivesse gostado de saber que deixei as crianças com Lizzie, minha irmã construiu uma imagem horrível, ninguém confia nela para nada.
Continuo meu caminho despreocupada, Jeff me acena de longe, sorri acho ele um dos caras mais legais daqui, Maria, e Lauren estão com ele, ficam todos me assistindo aproximar.
Pov – Nick
Ideia estúpida essa da Mika de deixar a psicopata da irmã cuidando dos pequenos, minha mãe e meu pai vão ficar bem bravos, sem contar a Megan, vai ficar revoltada, já vi que vou acabar de novo tendo que cuidar das crianças, não sei o que é pior, a horta ou os pirralhos atrás de mim.
Aceno para Carl e Megan que estão na oficina, quando ele não tem nada para fazer fica atrás da minha irmã, e meu pai ainda me quer de olho neles, é muita coisa só para mim.
As janelas da casa de Maggie estão com as cortinas fechadas, subo os três degraus da varanda e caminho até a porta, não os escuto, é estranho, Matt é caladão, mas Judy fala sempre sem parar, ergo a mão para bater na porta, penso um segundo, algo não parece bom e me sinto estranho, desisto de bater, será que estou ficando como minha mãe?
Abro devagar e dou uns passos para dentro, meu coração gela, Lizzie se ergue assim que me vê, os olhos arregalados, as mãos sujas de sangue e uma faca, no chão Andy com a barriga aberta, pego a pistola e aponto para ela, dou alguns passos em sua direção.
Então vejo Matt sentado no sofá tremendo com os olhos arregalados, Judy também está no chão, agora posso vê-la, ela segura a barriga que sangra um pouco.
─Larga a faca Lizzie! Eu digo estranhamente não consigo gritar, minha mão treme um pouco, mas não desvio meus olhos dela – Anda Lizzie! Ela continua me encarando, está quase sorrindo.
─Precisa esperar Nick, assista comigo!
─Matt, vem aqui! Chamo meu irmão, ele se levanta, mas ela o segura antes que possa fazer qualquer coisa, aponta a faca para seu pescoço.
─Nick! Ele chora me estendendo as mãos, ela o aperta mais, me lembro de já ter estado assim, meu pai e minha mãe ficaram calmos, negociaram, tenho que fazer o mesmo, se atirar posso acertar Matt, se gritar por socorro posso assusta-la e ela vai machuca-lo.
─Precisa esperar Nick, vai ver e entender, não é triste como pensam, é bonito, eu tive que fazer, é o único jeito, tinha de ser eles, seu pai... Daryl é importante, se vir o Matt, ele vai entender e a Judy, nossa o Rick nunca mais vai ter coragem de trata-los como trata quando assistir a transformação deles.
─Larga o Matt e eu te ajudo, deixa ele ir.
─Mas ele é o mais importante, o filho da Katie e do Daryl!
─Lizzie, o garoto, ele vai se transformar logo, deixa eu tirar as crianças daqui.
Olho um segundo para o corpo da criança no chão está ao lado de Matt, se acontecer vai pega-lo, firmo a arma.
Minha mãe sente, meu pai sempre chega, eles vem, eu sei... “Não confie tanto em mim Nick, confie em você, no que você pode fazer para ficar vivo” as palavras de meu pai me vem à mente, não posso esperar que eles cheguem, preciso fazer algo.
Escuto o choro de Judy, ela parece agonizando meu coração acelera ainda mais, meus olhos ardem um pouco, não mato pessoas, não faço isso, não pode ser assim não pode, mas Lizzie não entende isso, não aceita.
Eu não devia ter que fazer isso, ninguém devia, mas é isso que o mundo é agora, se não posso fazer o que é preciso então talvez eu não tenha uma chance, meu pai me treinou, eu posso fazer, sei que posso porque é meu irmão e é só uma bebê, então não se trata de escolhas, é apenas fazer o que é preciso para continuar.
─Lizzie! Eu peço pela última vez – Judy precisa do Bob, ela está sofrendo!
─Não! Ela grita impaciente — Não vai me tirar isso, chega! Lizzie aperta a faca na mão e então ouço um gemido baixo.
Olho incrédulo o pequeno corpo dar os primeiros sinais, volto minha atenção a Lizzie, ela abre o sorriso mais demoníaco que já vi.
─Veja! Diz orgulhosa do seu feito.
─Nick! Matt grita quando a mão do garoto segura sua perna.
As coisas acontecem todas de uma vez, primeiro vislumbro a sombra de Megan surgindo atrás de Lizzie e erguendo a arma, mudo a mira de minha arma que antes apontava para a cabeça de Lizzie e acerto a cabeça do zumbi no chão ao mesmo tempo que escuto outro disparo que explode a cabeça de Lizzie seu corpo desaba empurrando Matt para longe o sangue se espalha sobre meu corpo e o dele.
Foi o segundo mais intenso de minha vida, passou lento, mostrando que não podia mais ser apenas um menino, nem mesmo posso me encolher e chorar.
A vida me deu uma chance uma vez quando perdi o dedo, não vou desperdiçar, vou proteger os que amo.
Megan corre até Judy, verifica o ferimento, faz pressão com a mão, enquanto pego Matt que parecia catatônico apenas olhando tudo com os olhos perdidos.
─Calma Judy! Megan tenta parecer segura – Vai Nick! Me pede para buscar ajuda, mas então com um estrondo a porta se abre, não sei se todas aquelas pessoas entendem o que afinal se passou ali, é um mundo de sangue e dor, é o fim dos tempos.
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