Fim dos tempos 2
27 Capítulo 27 - Pai e filha
Notas iniciais
Pov – Megan
Assim que a reunião chega ao fim sigo para a oficina, quero dar uma boa olhada no carro que Tommy trouxe, saber se tem condições de ser usado, Jimmy já está lá, abraço ele assim que o vejo.
─Isso é hora de chegar preguiçosa? – Ele sempre me chama assim, faz isso desde que era uma menininha, mostro a língua para Jimmy que devolve o gesto com um sorriso amistoso – Como foi a reunião?
─Legal, decidiram preparar mais a vila, achar um novo lugar para substituir o galpão, um monte de pequenas coisas.
─Megan, acho que não gosta muito dessas reuniões.
─Acho que não mesmo – Admito.
─Mas precisa ser mais ativa nelas, um dia vai comandar todas essas pessoas sabe disso não é?
Muitas pessoas me dizem isso, mas acho tão estranho e difícil de entender, faz parecer que um dia meus pais, Rick e todos os outros vão nos deixar e simplesmente não consigo imaginar nada disso.
─Não estou falando de Morte Megan ─ Jimmy me diz — Falo do tempo mesmo, do cansaço, precisa estar pronta para proteger e dirigir esse lugar, você, o Carl, o Nick, e vou ficar muito orgulhoso dos meus irmãos quando esse dia chegar, e tranquilo também.
─Vou sempre fazer o melhor, mas agora quero saber mesmo é como a Mary passou a noite?
─Estou aqui não é? Então é porque ela ficou muito bem, Daryl e Matt ficaram um pouco com a gente e isso a acalmou, além de saber que tudo está resolvido finalmente, acho que voltamos a ter uma vida normal afinal.
─Normal é ótimo! – Rimos os dois e começamos a trabalhar, na hora do almoço Jimmy segue para casa, o carro estava bom e decido começar a trabalhar nele para juntar à nossa pequena frota, limpar um pouco, trocar uma peça ou outra, me distraio com o trabalho.
─Muito ocupada linda? – Só de ouvir sua voz já fico feliz, paro o que estou fazendo e vou até ele na porta, passo meus braços por seu pescoço.
─Para você nunca! – Nos beijamos longamente, sinto tanto a falta dele, mesmo estando tão perto, isso mais do que tudo me fez decidir.
─Eu amo você sabia?
─Não sei não, melhor me mostrar – Carl me beija – Te amo.
─Vamos jantar lá em casa hoje? – Ele convida.
─É por isso que te amo, sempre me livra da comida da minha mãe, isso é sem dúvida uma prova de amor.
Ele ri e fica simplesmente lindo, os olhos azuis brilham, fazem meu coração bater descompassado.
─Preciso te contar uma novidade – Ele presta atenção – Sabia que vamos ter um casamento na vila? O primeiro casamento da vila?
─Que casamento? – Ele fica pensativo, fico assistindo sua mente trabalhar em busca dos possíveis candidatos – De quem estamos falando?
─Já se esqueceu do pedido que me fez é isso? – Brinco e ele fica espantado, seu sorriso se alarga ao mesmo tempo que me abraça me girando, fico surpresa, Carl não costuma ter rompantes de felicidade.
─É sério isso, vamos mesmo finalmente...
─Mas tem umas coisas que precisa saber antes de ficar todo animado.
─Manda, eu aguento.
─Vou ter uma conversa com meu pai, mas quero que fale com ele, acho que ele vai gostar disso e na verdade eu também vou.
─Posso fazer isso, já fiz uma vez e era só um menino, agora minhas pernas estão bem maiores, ele bem mais velho e corro mais que ele.
─Bobo! – Eu o beijo – Mas as flechas de Daryl Dixon continuam tão rápidas quanto sempre foram.
─Tinha que me lembrar, mas além disso o que mais, qual outra prova de fogo tenho que enfrentar para finalmente ganhar o direito de me unir a princesa, enfrentar um dragão?
─É pior lindo, deixei minha mãe e as meninas prepararem uma cerimônia oficial, eu sei que acha tolice, que não precisamos disso que o mundo acabou...
─Nossa linda isso vai ser um acontecimento, Maggie, Katie e Beth fazendo isso, tem mesmo certeza?
─Tenho, quero fazer isso pelo papai, é importante para ele, é importante para todos, principalmente depois dos últimos acontecimentos, dá esperança as pessoas, nunca comemoramos nada, aniversários, natal, não temos mais nada disso, quero presentear essas pessoas.
─Linda você é... Linda! – Trocamos um longo beijo – Podia dormir lá em casa hoje, foi tão bom aquele dia.
─Não amor, agora falta pouco e fiquei bem tímida com seu pai e a Beth por perto, vamos esperar, vou procurar meu pai agora, contar a ele e depois disso fica livre para escolher o melhor momento.
─Quando ele estiver dormindo?
Belisco Carl, ele geme e ri, me puxa para ele e me beija o pescoço, me esquivo, sou agarrada de novo e me rendo a um longo beijo, sempre me rendo, depois nos afastamos, chega de trabalho por hoje, vou tirar essa roupa suja de graxa e conversar com meu pai, Carl me ajuda a fechar a oficina, nos despedimos com mais um longo beijo.
─Posso contar ao meu pai que se decidiu?
─Pode, mas vai chegar tarde, seu pai provavelmente já sabe, contei para mamãe e isso significa que ela já contou para Maggie e para Beth que já contou para seu pai e se não correr meu pai fica sabendo antes de ter nossa conversa.
─Não importa quanto tempo passe, onde estejamos as coisas são sempre as mesmas, as vezes parece que moramos todos num quarto.
─Sim e eu adoro isso! – Beijo Carl enquanto caminhamos de mãos dadas.
─Adora por que é do time da fofoca como a sua mãe.
─E mesmo assim me ama! – Eu o beijo e corro para dentro, tomo um banho rápido, me visto e deixo meus cabelos soltos, depois fico me olhando um minuto no espelho, como digo a ele? É a pessoa mais importante da minha, me conhece e me entende mais do que ninguém, é difícil fazer isso.
Caminho para fora, Nick estava sentado na porta, contando suas aventuras pela milésima vez, Amy ouvia com os olhos brilhantes, orgulhosa dele, eu os olho um segundo.
─Então eu puxei o pino da granada e atirei, não pensei muito, apenas fiz o que tinha que fazer.
─Ei falastrão, viu o papai?
─Nos muros, está de guarda, mas acho que já deve estar acabando, mamãe está na casa da Maggie, parece que todas as garotas estão.
─Já começaram? – Eu pergunto e ele me olha sem entender, dou de ombros – Esquece, vou falar com o papai e é particular, não vai lá.
─Sobre o casamento?
─Que droga, deixa eu correr antes que seja tarde.
Eu os deixo, Nick continua a contar de onde parou, já repetiu a história tantas vezes que acho que já decorou.
Meu pai está sentado nos muros, as pernas balançando para o lado de fora, o muro tem uns três metros, é largo e se pode sentar ali e observar.
Subir não é problema para mim, num minuto estou caminhando pelo muro, meu pai me olha, sorri quando me aproximo, me sento a seu lado, ficamos em silencio, observo o horizonte, o céu está azul, a falta de poluição mesmo em tão pouco tempo mudou um pouco o clima, o céu é sempre mais azul, os dias mais claros, as noites mais estreladas, um contraste com a paisagem terrestre, aqui é só morte e destruição, nada parecido com o pouco de mundo que vi antes do apocalipse, olho as proximidades da vila, ainda tem marcas dos zumbis, sangue, arranhões pelas paredes, sinais de passos, e o cheiro de morte insuportavelmente forte, suspiro.
─Admirando a paisagem? – Meu pai me pergunta.
─Sim – Me encosto em seu ombro – Não vi muita coisa antes do fim, sabe como eram as coisas, então não tinha viagens de férias, passeios no parque.
─Sei como é ratinha.
─Sabe, ninguém mais do que você sabe.
─Queria ter podido dar mais a vocês.
─Deu tudo que tinha, não contente foi procurar por mais, nunca nos faltou nada, nada do que realmente importa.
─Não sabia que podia fazer até já ter feito.
─Eu sempre soube que podia – Passo meu braço pelo dele, me encosto em seu ombro de novo, ele segura minha mão – Por isso quando ainda não era o papai nós te seguíamos o tempo todo.
─Dois ratinhos assustados.
Ele sorri com a recordação, eu também, é nostálgico, mas é bom, porque ainda estamos todos aqui e poderíamos não estar.
─Aquele tempo que ficamos na estrada, sem direção, segurança, todo mundo diz que foi um período horrível, para mim não foi.
─Foi onde mais senti medo – Ele aperta minha mão, o pai mais carinhoso que já vi.
─Estávamos sempre em risco, correndo, fugindo e nesse tempo eu podia ver o quanto me amavam, você sempre sabia onde eu estava, tinha o tempo todo um olhar sobre mim, quando podíamos dormir, nos colocavam entre vocês dois, eu já tinha matado um homem, andava armada e mesmo assim ainda tinha tanta proteção quanto Nick ou Matt que era só um bebê.
─Você também era meu bebê, ainda é ratinha, descobri muito por acaso nessa coisa estranha e deliciosa que é ter uma família que filhos não crescem.
Beijo a bochecha do meu pai, ele ri voltamos a olhar o horizonte de mãos dadas, quero guardar esse momento dentro de mim como tantos outros que tenho de nós dois.
─Quando estávamos em perigo real, cercados por zumbis, sendo perseguidos por sei lá o que, já fomos muito perseguidos não é?
─Muito!
─Você crescia, ficava maior e mais forte.
─Me sentia maior e mais forte, não tinha escolha.
─Se para muitos foi um período de sofrimento, para mim foi de compreensão, eu finalmente tinha um pai que me amava, me protegia e nada mudaria isso.
─Nada, nunca.
─Talvez por isso quando o Carl me pediu para morarmos juntos...
─Casar! – Ele me corrige, sorrio, esse é meu pai e seus conceitos antiquados que eu amo muito.
─Quando Carl me pediu para casar com ele eu tenha ficado tão confusa, não queria perder isso, não queria mudar nada.
─Mas agora? – Ele me pergunta percebendo o rumo da conversa.
─Esses últimos dias foram esclarecedores para mim, primeiro porque me lembrei da mamãe me dizendo que não trocaria seus braços por nada.
─Mamãe me acha irresistível – Ele brinca e relaxamos um pouco.
─Acha mesmo, e quando estava lá dentro de casa cuidando das pessoas, muito mal aliás, já que não vi seu ratinho encrenqueiro fugir – Ele ri, balança a cabeça em negação, Nick sempre nos deixa em alerta – Quando vi Sasha morrendo sem que pudéssemos fazer nada, daquele modo dramático, lento e sofrido, eu pensei sobre o tempo, que ele é implacável e que talvez eu não tivesse outra chance de construir uma história com o Carl e realmente quero estar com ele papai.
─Acredite, eu entendo isso, talvez se não tivesse minha pequena eu não entendesse tão bem, mas entendo porque não posso abrir mão dela, por que somos uma coisa só.
─Isso me fez entender que quero dar uma chance para minha história com o Carl ou ela pode nem mesmo acontecer.
─Fez finalmente uma escolha! – Meu pai diz sorrindo – Isso quer dizer que está curada dos traumas.
─Na verdade não, o que aconteceu é que me dei conta que não preciso escolher, o Jimmy me mostrou isso sem querer, a Mary e ele estavam lá em casa, você e a mamãe cuidam dele do mesmo jeito de sempre, nada mudou.
─Jimmy é outro bebê.
─Vê, não perco nada papai, só ganho.
─Finalmente o mini xerife conclui o plano maligno de me roubar você!
─Acho que não, se eu ganho você ganha, por que me ver feliz te faz feliz.
─Esse discurso está com uma cara de Nick – Rimos, meu irmão tem mesmo esse talento de virar tudo a seu favor – Mas está certa, eu gosto do Carl, admiro e acredito no que ele sente por você.
─Eu também, eu sei que pode dar certo, agora eu sei e quero isso.
─Veio me pedir, me comunicar ou o que?
─Vim só dividir o que estou sentindo com você que é quem mais me entende, o pedido fica por conta do Carl.
─Ótimo, assim ganho tempo para preparar minha lista de exigências, vai ser como um sequestro só entrego a refém se ele cumprir tudo.
─Isso é com vocês, só queria que soubesse como me sinto, por que eu sei que já sentimos os mesmos medos e pode compreender melhor que a mamãe por que ela teve uma vida de amor e respeito e por mais que saiba como deve ser ruim viver diferente nunca sentiu na pele o desprezo e o medo.
─Marca não é? – Ele comenta, passa o braço por meu ombro e me traz para perto num abraço compreensivo.
─Bem fundo, nunca vou poder agradecer o bastante.
─Nem precisa ratinha, fomos o remédio um para o outro, e no centro de tudo a mamãe.
─É, sua pequena atiradora de facas.
─Admiro muito a força da mamãe, não só a força física, isso é evidente que ela tem, é rápida, ágil e inteligente, mas a força interior, a coragem, minha pequena enfrenta a vida de frente, é forte, mas o que mais amo na mamãe é que apesar de tudo isso ela é delicada também, e suave, sabe ser sensível e me deixa cuidar dela.
─E gosta disso, de precisar cuidar dela?
─Esse é o ponto, eu não preciso, ela me deixa fazer, sua mãe é auto suficiente, mas me deixa acreditar que não, que precisa de mim, você é como ela, dona da situação, das escolhas, faz o que quer, toma decisões e é forte, então acho que precisa deixar o Carl acreditar que precisa dele.
─Preciso! – Eu conto a ele e meu pai ri, nega com a cabeça.
─Não precisa, minhas garotas não precisam de nada, ele sabe disso, não o deixe inseguro sobre isso, quando eu tinha medo as coisas eram mais difíceis para mim, eu pensava, olha essa mulher, ela é perfeita, porque me daria uma chance, se pisar na bola ela me manda para o inferno, e então eu fazia exatamente isso, pisava na bola e morria de medo de perde-la.
─Acha que o Carl se sente assim?
─Tenho certeza, ele se parece mais comigo do que quer admitir, tem seus fantasmas também, então não o deixe no escuro, deixe que ele ache que é frágil que pode fazer escolhas quando na verdade sempre vai ser você a decidir tudo.
─Papai você é o melhor pai do mundo.
─De que mundo, esse de hoje ou o de antes? Porque faz diferença! – Franzo o nariz, faço careta e rimos.
─Esse papai, esse que é mais difícil, o de antes era mais simples, mais fácil, esse é para poucos.
─Nesse caso é um elogio – Papai suspira – Então vamos ter um casamento?
─Papai esse é outro ponto que quero contar, fiz uma loucura, falei com a mamãe sabe, ela nunca me perdoaria se não falasse primeiro com ela.
─Eu sempre digo, é a dona do jogo.
─Mas deixei que ela e as meninas organizassem tudo.
─Uou! – Meu pai se afasta um pouco para me olhar – Quanta coragem ratinha, sabe o que isso significa não é? Vamos ter de tudo, desde vestido branco a valsa.
─Sim papai, mas estou te contando isso porque é o pai da noiva, vai sobrar para você!
─Nada de casamento discreto na torre?
─Nada! – Mas apesar do medo me sinto feliz com isso, ele sorri, beija minha testa e ficamos ali, olhando o horizonte em silencio, até que por fim o dia mais uma vez perde a batalha e a noite nos cobre.
─Daryl? – Nos viramos e Jeff acena – Podem vir, é minha vez.
─Estamos descendo fazendeiro.
Meu pai brinca com o nosso responsável pela horta, descemos os dois e seguimos um ao lado do outro.
─Vou no Jimmy antes de ir para casa, o que acha que é?
─Tomara que seja menina, assim ganhamos dos meninos, mas o Matt diz que é menino, e já mudou o nome umas cinquenta vezes, ele e Amy passaram uma tarde discutindo isso.
─Vocês sabem que é tudo inútil não é, que no fim o ratinho que vai escolher e convencer todos vocês que é o nome mais perfeito do mundo?
─Sabemos, ele seria um advogado dos bons se o mundo não tivesse acabado.
─Mas ele já é muito ocupado trabalhando em causa própria.
Quando chegamos na porta de Jimmy eu paro um pouco, ele faz o mesmo e me olha, aperta meu nariz, me puxa para um abraço.
─Obrigada papai! – É o que consigo dizer antes de começar a chorar.
─Obrigada filha, mas vamos deixar a humilhação das lágrimas para o dia do vestido branco?
─Está certo.
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