Fim dos Magos

3 1.3 Névoa Mágica


Notas iniciais
O nome dessa segunda parte do capítulo deveria ser chamada Névoa da Vingança, mas nem fechei o primeiro capítulo ainda, vou ter que aguardar o próximo revenge da Rainha Sem Nome. O 1.4 será meio pesado, estou avaliando se postarei ou irei alterar o conteúdo, ou adiarei a explicação do quê acabou de acontecer nesse (1.3), já que tudo tem uma razão.

É óbvio que ninguém esperava me ver adentrar naquela catedral, os olhos de espanto, de ódio, de desgosto, de desejo, de encanto, estão todos lá. Me perseguindo pelo canto dos olhos, enquanto traço meu caminho em direção ao corpo de Arperio sobre um altar de granito vermelho.

Eu cresci entre a nobreza, vivi minha adolescência entre as freiras, e namorei muitos soldados quando larguei meu hábito, minha batina e véu de pérolas.

É óbvio que sei o que estou fazendo, aliás, eles também sabem, mas é diferente comigo aqui, somos todos aliados, mas também inimigos, definir uma posição neste momento é um acerto, ou um erro fatal, é disso que eu gosto, de presenteá-los com caos.

O símbolo de ¹Baltania está encrustado na parte de trás de meu vestido. A lua maior ao fundo, e dentro dela, as três luas menores do lado esquerdo em forma decrescente, laçadas por uma linha tênue a uma vara de pesca ao centro e do lado oposto desta, o sol a direita.

Após subir os degraus do altar, me aproximei dos dois jovens clérigos que estavam ao lado do corpo, eles se entreolham. Tentei persuadi-los a saírem, com minha expressão de poucos amigos, mas eles permaneceram como estátuas ali, com uma vela de incenso sobre um castiçal de prata em suas mãos, e claro, suas batinas de cor azul com um laço branco envolta de seus pescoços como um cachecol.

“Saiam”, “Ou perderão suas cabeças antes do começo da noite”, pois é, essa sou eu sendo delicada, não bastou mais que dois segundos, para que os dois jovens entendessem o próprio desespero e apressassem os passos para sair dali.

Então, só estava eu e o velho Arperio, com seus cabelos negros longos, sem barba, rosto enrugado, em um traje vermelho vivo que destoava do vermelho rajado do altar de granito.

“O quê ela faz aqui?!”, “Alguém vai lá, e a expulse!”, era possível ouvir alguns homens e mulheres dizerem de perto ou de longe. Provavelmente alguém da família Vashari, ou de algum dos condados vizinhos querendo demonstrar apoio e repúdio em favor da soberania Gar.

Um ancião eclesiástico se aproximava em passos lentos e curtos, mas estendi minha mão esquerda para cima, que estava com um adorno de prata, para alguns era uma jóia, mas nela havia linhas de metal que desenhavam os símbolos retomados de Baltania, e os de ²Savlen. Bastou-lhe enxergar, e o mesmo recuou e voltou-se para seu assento entre outros anciões do clero. O nervosismo em seus olhares era um prenúncio de quê em breve viriam a ordenar minha prisão ou retirada à força do Reino Bvahir.

“Faz um tempo que não nos vemos Arpero”, eu digo, quase um sussurro. Acho que um pequeno sorriso se formou num instante, mas se foi. “Soube que você procurou por mim, por muito tempo, até que se esqueceu como eu me parecia, dizem alguns”.

Eu olho para trás. E enquanto falo, vejo a todos com meus olhos, tantas faces conheço ou não reconheço mais.

“Seus filhos estão aqui. Seus netos. Meu pai. Meus irmãos. Todos os nobres de ²Gar estão”, torno-me a falar diretamente ao finado em vestes suntuosas. “Eu não esqueci de você”, “Você sempre adorou presentes”, “O vinho envenenado que você bebeu quatro anos atrás, fui eu que preparei, com as mais delicadas pétalas de ³gahamihr”, “A carne de cordeiro que lhe fez você agonizar por meses a dois anos fui eu que preparei o tempero”, “Os óleos que você utilizava para controlar a dor muscular, custou caro, mas finalmente todos puderam se ver livre de escutar sua voz”, “Um presente de dor te enviei a cada mês desde que me tornei rainha”. “E agora acabou”, “Eu vim me despedir”, “Nossas desavenças acabaram, agora você vai agonizar em *¹Bravanglir”.

Dentro das mangas de meu vestido, há uma pequena garrafa vítrea com *²serenia, feita pelos mais habilidosos perfumistas de Baltania. Um óleo semi-radiante azul. Tão hipnotizante, e perigoso. Eu tiro a tampa, e o derramo com despreso sobre o corpo de Arpero. Escuto um ‘Oh!’ da plateia que me vislumbra detrás.

O que havia de ser dito, foi dito. Muitos que estavam assentados se levantam em pavor, surpresa, indignação e horror.

O quê esperavam de mim? Lágrimas?

Eu olho para todos. E digo *³“Alian Aliotos”. Não há um nobre neste momento que não engolisse seco essas palavras.

Eu não me importo muito com a soberania dos Vashari, e não haveria oportunidade melhor de me apresentar diante Yunto Vashari, o novo Vol Rei de Gar. E ele está lá. Na primeira fileira real. Testemunhando com seus olhos vermelhos e expressão sóbria o que digo, ele não vem ao socorro do corpo de seu pai, ele não vem ao meu encalço enquanto desço os degraus e vou embora. Não estamos aqui para guerrear, ainda não.

Alguns dos soldados da guarda real são acionados pelos outros Vashari; eles poderiam usar suas magias para me impedir de ir embora, poderiam destruir tudo e talvez todos dentro desta catedral ao fazer isso, mas a superstição de falecerem junto ao monarca sepultado em Bravanglir era maior, só precisei estalar os dedos ao trilhar minha saída pelo corredor principal, e a fuligem púrpura do óleo de serenia que corroía tudo que tocava, soprou e cobriu toda a catedral, a visibilidade era quase nula, o cheiro intenso, era acre, era almíscar, era intragável, assim como aquele sepultamento pomposo preparado para um monarca tão repugnante e como foi o Vol Rei Arpero Vashari.

* * *

¹ Baltania, reino da Rainha Sem Nome. Localizado ao Norte de Gar, no Continente médio Liskar (Lembra a Dimensão da América Central/Austrália).

² Gar é o nome do Continente Leste. Vasto (Lembra a dimensão da América do Sul)

³ Flor de coloração vermelha, cujas o sabor das pétalas é bastante acre, possui propriedades medicinais, porém, altamente venenoso se absorvido em grande quantidade.

*Bravanglir é uma espécie de inferno/limbo.

*²Serenia; Uma flor lilás, cujos poros podem causar combustão se misturados com valadin, um líquido secretado por uma espécie de sapo de Baltania. --- Existe um ditado em Baltania, que aqueles que são cremados através de Serenia, são amaldiçoados, impedidos de voltar a uma possível reencarnação, e aprisionados em Bravanglir.

*³Alian Aliotos — ‘A justiça é/será cruel’

**¹Vol Rei — Rei Soberano de Reis.

Notas finais
Reescrever essa parte do capítulo foi osso, muita coisa deleta e um outro bocado de novidade foi acrescentado, talvez algum dia eu explique o quê aconteceu na primeira versão do velório, por outro lado consegui dar um nome melhor para o novo Vol Rei (Yunto) Vashari. E adiei o passado desta Rainha para o próximo capítulo ou muito depois, estou digerindo a ideia de trazer tais informações cedo ou deixar para soltar aos poucos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.