Fim Dos Tempos
45 Capítulo 45 - Reféns
Notas iniciais
Pov – Katie
O dia amanhece gelado e posso ver as marcas da geada ainda na janela de nossa cela, agasalho Nick e Megan com um pequeno exagero de roupas, eles resmungam um pouco, mas não podíamos arriscar uma doença num mundo como o nosso, meu coração pesava pela decisão da noite anterior, mesmo assim estava consciente de que não tínhamos outra escolha.
Daryl estava pronto e me olhava esperando por mim, beijo meus ratinhos e então vejo Carl parado na nossa porta, eu sabia que se ele pudesse já tinha se mudado para nossa cela a muito tempo.
Daryl esconde um sorriso, e descemos os cinco, ele tinha razão essa família não parava de crescer, eu já nem olhava muito para as outras crianças com medo de acabar adotando mais alguma. Quando vejo Lola e Bruce no café sinto um baque no coração, não os olho muito, com medo de me trair.
Daryl aperta minha mão e sentamos com nossa família, mais silenciosa que de costume, vejo o olhar rancoroso de Carol sobre mim, provavelmente me culpando pelos últimos acontecimentos.
Não sei o quanto carrego dessa culpa, se ela pesa mais sobre mim do que sobre os outros, se devo apenas esquecer e seguir em frente, creditar mais essa na conta de Deus e essa brincadeira dele de acabar com tudo, erguer os mortos tinha sido uma piada de muito mau gosto, me pergunto por que devia me culpar se Ele e não eu havia começado com isso, lutar pela vida não podia ser pecado, nem mesmo ter esperanças, se ele tinha planos assim sinistros devia esperar que nos rebelássemos, que lutássemos com unhas e dentes, não quero essa culpa, eu sabia que carregaria outras, ainda havia muito mais pela frente.
Beth se senta conosco, olha Nick brincando no meu colo e sorri, eu sorrio de volta me lembrando das palavras de Rick ele a incluíra em suas preocupações, mas a questão era se ela estava na mesma posição que seus filhos, como apenas mais uma criança a ser cuidada, se fosse assim seria constrangedor para ela.
–Desculpe tê-lo deixado sair ontem atrás de você! Ela diz a Daryl que meneia a cabeça.
–Não consigo encontrar ninguém menos culpado que você nessa história Beth! Ele diz e ela sorri.
–Pensei em transferir as aulas para agora de manhã! Ela comenta enigmática, sabíamos do que se tratava, eu faço que sim com a cabeça por que pretendia seguir com meus pequenos para nossa cela depois do almoço e ficar por lá.
–Vou até lá! Daryl me diz e eu sabia o quanto estava sendo difícil para ele se sentar com eles e fingir que tudo estava bem, beijo seus lábios de leve lhe dando força, era tudo que podia fazer.
–Vamos para aula crianças? Beth convida e eles a seguem junto com as outras crianças, eu ajudo Maggie com a louça e a limpeza, Carol segue para longe, nunca ficávamos juntas embora eu achasse aquilo uma grande bobagem, depois vejo Daryl seguir para o pátio com a dupla, Lola caminhando na frente, meu coração se aperta por ele e pelos dois, seguro minhas lágrimas, quando acabo sigo com Maggie e Glenn para a vigia do portão, Jimmy se aproxima nos parando no meio do caminho.
–Viram o Hershel? Ele pergunta.
–Na cela dele por que? Maggie questiona.
–O Bob está apagado a muito tempo, eu sei que ele e a tal Lola, bom vocês sabem, mas acho que se ela está de pé ele também deveria, afinal está acostumado a beber.
–Tem razão Jimmy vá chamar o Hershel – Glenn pede e seguimos com as armas para o portão.
Fico silenciosa olhando Daryl caminhar com os dois pelo pátio e Lola jogar aquele charme vulgar sobre ele que ficava visivelmente constrangido, depois de um tempo ele caminha até mim.
–Tudo bem? Pergunto e ele afirma com um gesto de cabeça.
–Onde estão os pequenos? Pergunta preocupado.
–Com a Beth na aula! Respondo, ele me abraça e me beija.
–Jimmy está preocupado com o Bob! Conto para tentar distraí-lo – Ele está apagado, desde a festinha particular.
–Chamaram o Hershel? Daryl questiona alarmado.
–Ele foi chamar, e os dois foram para onde?
–Dormir pelo que disseram, mas decidiram partir amanhã e acham que vou com eles.
–Uma fuga? Pergunto só por curiosidade.
–Sim, uma partida sem despedidas no meio da noite, mas não fiquei convencido, tem algo neles, não sei acho que só queriam me distrair, fiquem atentos.
Daryl olha para o carro o mustang preto estacionado e com o tanque cheio, mas sem nada de valor no porta-malas, depois me olha tenso, mais tenso que de costume, eu olho para o horizonte, para floresta diante dos meus olhos, vejo três errantes saindo dela, com seus passos cambaleantes em seu andar débil, olhos de vidro mortos e vazios, eles caminham lentos para nossos portões, tão lentos quanto a vida que ganhamos depois que a morte dominou tudo com seu manto negro e pesado.
–Vou falar com o Rick, e ver como está o Bob! Daryl me avisa e depois se afasta.
Volta a caminhar lentamente de um lado para outro do meu pequeno perímetro enquanto Maggie cobria o dela a alguns metros e Glenn fazia o mesmo mais adiante.
Uma nuvem pesada sobre todos nós, uma longa hora se passa, e vejo Daryl voltar, ele caminha para mim e sorrio, adorava seu andar de dono do mundo.
–Falei com Hershel! Eu e Maggie nos juntamos a ele, Glenn fica em seu posto – Ele acha que ele pode ter sido dopado! Daryl conta – Está apagado ainda, mas apenas dormindo mesmo.
Vejo Rick caminhando em nossa direção, junto com Carl que assumiria a guarda com o pai, Michonne estava com eles se preparando para sua saída diária, desde que Lola e Bruce chegaram ela era a única que saia todos os dias, usava o cavalo para dar uma busca na região, quando ela voltasse as coisas aconteceriam.
–Soube do Bob agora! Rick comenta parando diante de nós – Acha que podem ter dopado o Bob? Ele pergunta.
–Talvez! Daryl responde – Quem mais faria isso?
–Mas por que? Michonne pergunta, Bob era reconhecido como o bêbado da prisão, era um cara legal, mas estava sempre meio a parte, eu fico pensativa o que ele poderia ter que os atraísse e então olho para Daryl assustada.
–Bob é um dos que anda armado! Eu os lembro – Tem uma boa pistola e duas facas! Aviso com o coração acelerado.
–Quem está com eles agora?
–Jimmy! Rick responde – Acabo de passar por Tyresse e Sasha.
Começa um pequeno frenesi de gestos e olhares tensos, armas sendo sacadas e o grupo se unindo, muito rápido se preparando para o que pudesse suceder, então o mundo para no mais longo instante da minha vida.
Vejo Megan e Nick saindo do nosso bloco de celas, sendo guiados por Lola que apontava uma pistola para a cabeça de Nick e Bruce que tinha uma faca no pescoço de Megan.
–Megan! Carl grita e dá um passo em sua direção, Rick o seguro.
As crianças caminhavam na frente deles seguras por suas mãos brutais, as lágrimas corriam soltas pelos rostos delicados, nenhum de nós baixa a arma, nenhum de nós se move, eles caminham até o carro, param diante dele e eu sabia qual era o plano, fugir levando meus filhos com eles.
–Chegou a nos enganar por um tempo! Bruce diz a Daryl – Mas dois irmãos não poderiam ser mais diferentes! A faca no pescoço de Megan criava uma pequena marca vermelha, ela puxava o ar com força, prendendo o choro dividida entre pedir socorro mudo ao pai e o conforto dos olhos de Carl que chorava preso pelos braços de Rick, Nick tremia.
–Bruce solte as crianças, ninguém vai impedir vocês de partir! Daryl promete.
–Desesperado papai Dixon? Lola ri parecendo um tanto chapada – Quando Raul nos disse que tinha umas garotinhas presas nunca imaginei que seriam um problema! Ela conta olhando dessa vez para mim, os olhos um tanto perdidos – Saímos para fazer o que sempre fazemos, caçar armas, tínhamos uma boa cidade, com tudo que precisávamos, só faltavam armar.
–Caçar armas nunca foi muito difícil, se encontra um grupo de sobreviventes e depois é só contar uma história triste e seguir com eles, matar todos e levar as armas! Bruce olha para Tyresse, mostrando a ele o quanto tinha sido ingênuo – Quando Raul nos disse que o grupo tinha um homem com uma besta eu cheguei a pensar em você! Ele olha Daryl nos olhos.
–Bruce estávamos apenas buscando comida, não atacamos ninguém! Rick conta.
–Acham que isso é uma vingança, eu nunca liguei a mínima para Raul e aquele bando de alucinados! Ele ri trazendo Megan mais para perto, minhas pernas fraquejam, não conseguia pensar em nada para fazer, ninguém se rendia, nenhuma arma dava sinal de se acomodar – Como ia dizendo achei mesmo que podia ser os irmãos Dixon, mas depois soube que havia uma negra com eles, uma negra com uma espada! Ele procura Michonne com o olhar, ela tinha sua espada em punho e rezo para que se controlasse, meus filhos estavam em risco – Merle nunca andaria por ai com uma reles negra! Ele cospe as palavras preconceituosas mostrando todo seu nojo – Mas o pequeno Dixon de coração bom...
–Lola, me escute, ainda posso seguir com vocês, não estava mentindo! Daryl tenta convencê-los.
–Olhe para você querido, é obvio que não pretende abrir mão dessa pequena família de contos de fada! Ela solta o braço de Nick para arrumar os cabelos, mas sem tirar a arma de sua têmpora, me fazendo estremecer – Vamos embora, levamos as crianças conosco como garantia!
–Mataram quase todos naquela vingança sobre Raul, mas cinco de nós estava fora, foi uma coincidência encontrarmos justamente vocês! Bruce lembra – E uma sorte achar um lugar como esse, quem sabe voltamos!
–Temos muitas armas! Lola entrega — Estivemos tão perto, vasculhando as fazendas, pena não termos encontrado vocês antes! Ela troca o peso para outra perna, aperta mais o ombro de Nick, meu ratinho treme ainda mais, deixando meu coração apertado, preciso pensar em algo, afastá-los do perigo.
–Agora vão abrir o portão e nos deixar partir! Bruce anuncia.
–Eu vou! Daryl diz – Eu vou no lugar dos dois — Ele solta a besta devagar no chão e a pistola que carregava – podem fazer o que quiserem comigo, apenas soltem as crianças.
–Com tanta gente desprevenida aqui acha que fomos buscar esses dois por que? Bruce esbraveja – Eu sei o quanto valem para o grupo, o quanto valem para você! Ele grita, um filete de sangue escorre pelo pescoço delicado de Megan e dou um passo à frente, dominada pela angustia e o medo – Você pode ser o irmão bonzinho Daryl, mas ainda é um Dixon! Seu grito de fúria ecoa pela prisão, a maioria dos moradores tinha seguido para a segurança do lado de dentro, nós ainda estávamos ali, no maior e mais angustiante impasse por que já passamos.
Todo o peso da decisão da noite anterior perdendo sua força, a ética e a filosofia voltando para o pequeno e insignificante espaço que ocupava na vida de todos depois que o fim começara.
–Eu vou! Peço soltando meu cinto de facas atirando minha arma no chão num misto de desespero e certeza, quero minha família viva, nada vale mais do que isso – Por favor, eu vou, desarmada não posso ser um perigo!
Dou um passo lento para eles, mostrando minha disposição, eles se olham decidindo, os olhos de Lola faíscam ante a ideia de me ter nas mãos.
–Não vamos matar as crianças, só abandoná-los na estrada a uma boa distância.
Bruce declara com todo desdém que aquela voz rouca podia demonstrar, uma sentença de morte eu penso, como a que nós havíamos dado na noite anterior.
–Isso é o mesmo que mata-los! Aviso – E se vão fazer isso, não temos razão nenhuma para deixar que partam, não sem uma grande confusão! Finjo que estou segura, mas estava longe disso – pode ser que acertem alguns de nós, mas sem dúvida, nenhum de vocês vai sair, por outro lado se me levarem...
Deixo a questão no ar, tentando fazê-los pensar, Lola me queria, isso era fácil de ver, Bruce agora calculava o perigo, os minutos rolavam lentos, todos paralisados.
–Maldição! Bruce pragueja e me encara – Venha! Eu olho para Daryl, lá estava o mar azul e nebuloso de águas profundas.
–Você não desiste, eu não desisto! Digo suave minha voz cheia de alivio por poder proteger meus bebês.
–Nunca! Ele me olha fixamente, e então caminho para os Braços de Bruce.
Assim que me aproximo ele empurra Megan para longe ela tropeça e corre para junto de Daryl, ele a coloca para trás dele depois de um rápido olhar, Carl se solta do pai e ela o abraça.
–Agora solte ele e podemos ir! Digo tentando parecer forte, mesmo me sentindo arrastada para o inferno.
–Nem pensar boneca, o fedelho vai te manter calminha! Ele aperta meu braço e sinto a lamina fria encostar em meu pescoço, a adrenalina corria em minhas veias, preciso proteger Nick e por isso não posso me render ao medo, decido juntando minha coragem.
–Abram logo o maldito portão! Lola grita, jogando os cabelos vermelhos para trás, ela arrasta Nick para o carro, rezo para não olharem o porta-malas, Nick é jogado atrás, ele chora e depois sou colocada a seu lado, ele me abraça, tremulo e gelado, a arma nunca se afastando de mim.
Lola e Bruce entram, ela me apontava a pistola, não me atrevo a lutar e correr o risco de ferir Nick, ouço o barulho do portão sendo aberto, mas não olho para nenhum deles, fixo meus olhos no rosto pálido e sem expressão de Lola, nas mãos um tanto tremulas que me apontavam a pistola de Bob.
–Se formos seguidos eles morrem! Bruce grita quando arrancava em alta velocidade, não ouço o portão se fechar e sabia que eles viriam atrás, apenas dando espaço para o carro ganhar velocidade e depois Daryl me caçaria ainda que fosse no inferno.
Bruce estava alucinado, dirigia feito um louco com o carro a cento e oitenta por hora vejo no velocímetro, procuro o cinto de segurança e prendo Nick, ele me olhava chorando, eu me seguro quando quase bato a cabeça no vidro, Bruce dirigia e gritava cantando vitória, acho meu próprio cinto e me prendo, depois aperto a mão de Nick, eles não nos deixariam em lugar nenhum, eu sabia que se não fizesse nada nenhum de nós deixaria aquele carro com vida.
–Acha que o combustível é suficiente? Lola pergunta por sobre os gritos e risadas de Bruce.
–Pegamos outro carro na estrada quando o combustível acabar e aproveitamos e resolvemos o probleminha ai de traz! Ele diz e me olha pelo retrovisor – Então boneca, é ou não uma máquina?
Fico muda, Nick apertando minha mão, sem conseguir segurar o choro, a velocidade nos fazendo pressão e nos mantendo grudados no banco.
–Vamos ficar bem! Ponho toda convicção que consigo na minha voz, dizendo baixo para que ele pudesse ouvir, ele faz que sim com um movimento de cabeça, estávamos nos afastando muito rápido, eu não podia ficar longe demais, não se quisesse voltar, olho em volta, só a mata fechada dos dois lados, do lado direito a mata descia mais aberta, dando sinal de que mais abaixo um vale se formaria.
Penso em Daryl eu sabia que ele assim como o resto de nosso grupo estava na estrada, mas em algum momento Raul desviaria da principal e Daryl nos perderia, eu precisava de um plano, só o que tinha era minha pequena faca na bota, eu nunca seria rápida o suficiente, mesmo que pegasse um, o outro acabaria comigo e meu pequeno ratinho estaria sozinho.
Nick aperta minha mão, chora em meio a seu pequeno desespero, Lola se vira para me encarar, me olha com olhos perdidos, a arma apontada para mim sem muita firmeza.
–Tentou mesmo me afastar dele! Ela diz com a voz enrolada – Ele é bem gostoso, mas é só, agora o podre Daryl vai chorar e tenho certeza largar tudo e caçar, isso é o que vai fazer e vamos esperá-lo, se essa merda toda não matar ele eu vou adorar fazer isso, só pelo desprezo e pela coragem dele em trair dois velhos amigos!
–Ele nunca vai encontrar vocês! Eu tento convencê-los – Se nos deixar ir ele nunca vira atrás de vocês.
–Nem vai precisar boneca! Bruce continua – Vamos juntar nosso grupo e voltar! Ele acelera, os olhos vidrados na estrada sem realmente ver, íamos acabar sofrendo um acidente, olho para Nick que parecia bem seguro no banco, os dois estavam sem cinto e completamente entorpecidos.
Fixo meus olhos na estrada diante de mim, com medo do que meus olhos avistavam ao longe, uma horda parecia caminhar dominando toda estrada, pelo menos cinquenta, talvez mais, nunca conseguiríamos passar por eles, um grito fica preso em minha garganta, Lola nota meu pânico e se vira num movimento lento depois grita, um grito alucinado.
Fale com o autor