Fim Da Justiça
6 Que os ataques comecem - Parte 2
Notas iniciais
A nova ferramenta de monitoramento instalada recentemente na Torre de Vigilância consistia em obter dados, mais precisamente sinais vitais, de todos os membros da Liga. Para o caso do herói que estivesse em missão não tiver condições de solicitar reforços. Obviamente, para que essas informações fossem passadas para o sistema principal, era necessário que o membro estivesse usando o dispositivo que se assemelhava a um comunicador, o qual todos estavam habituados. A única diferença era a sua função.
O aparelho, além de mostrar a localização exata, monitorava os batimentos cardíacos, pressão sanguínea e atividades cerebrais do usuário. Esse gadget era suficientemente inteligente, conseguia diferenciar batimentos mais intensos causados por estresse ou por exercícios físicos, devido a um minúsculo software aprimorado, alojado. Portanto, dificilmente, ocorreria erros de interpretação. Após processar todos os dados, eram encaminhados para a matriz, que, o indivíduo que tivesse permissão para operar o sistema pela Torre, os receberia em tempo real, podendo assim, acionar reforços com mais rapidez e eficiência.
De fato, as criações de Bruce Wayne eram de se impressionar, concluíra J’ohn J’onzz. E também, era de se acreditar que o milionário quisesse estar no controle de absolutamente tudo e de todos.
O marciano ponderava sobre a obsessão de controle do Batman. Era como se o herói afirmasse, indiretamente, que não confiava em ninguém. Por isso, a questão vinha a tona: quem garante que o Batman não monitorava a Torre da sua batcaverna por um sistema muito mais sofisticado? Quem garante que ele, neste exato momento, por exemplo, não estivesse vigiando? Mas todos eram amigos ali, não eram? J’ohn acreditava nisso... Não tinha motivos para desconfiar das pessoas que conviviam e que lutavam ao seu lado, por que alguém sentiria o contrário?
Em contrapartida, relembrou da primeira vez que esteve de frente com o Homem-Morcego. Não pôde negar, sua visita fora, no mínimo, desagradável.
— Bem-vindo ao lar, Sr. J’onzz.
— Por que eu não—
— Por que não sentiu minha presença como faz com os outros? Este é meu segredo.
Era uma época complicada para todos. Os noticiários não paravam de falar sobre os seres heroicos super-poderosos que surgiam a cada dia no mundo todo. Os governos quase entraram em crise por não saberem o que fazer exatamente para deter esses “heróis”, caso eles se voltassem contra a liderança do país, da humanidade. Não havia leis para esse tipo de circunstância. Só com o tempo e com as inúmeras vitórias na salvação do planeta, os heróis foram sendo aceitos. Entretanto, ainda havia casos onde alguns desses “aspirantes benevolentes” eram discriminados. Pelo fato de, quem sabe, não serem tão carismáticos como o alienígena de Metrópolis.
Era o caso do Batman que, diferente dos outros, não era dos mais amigáveis e era conhecido pelos seus métodos violentos no combate ao crime em Gotham City. Fazia parte da minoria de heróis sem poderes sobre-humanos e, além do mais, o cavaleiro das trevas não fazia questão alguma de ser adorado como o escoteiro. Pelo contrário.
— Eu não sei o que você é ou de onde você veio. Mas meus instintos me dizem que é confiável. E não se engane, é preciso uma lasca de meteoro radioativo de R$70mil dólares para deter o de Metrópolis... Para você, só preciso de uma moeda para comprar fósforos. [1]*
Não deve ser fácil lidar com seres mais poderosos e ainda se sobressair em missões praticamente impossíveis de serem realizadas por um ser humano normal, mas ele mostrou ser capaz, simplesmente usando o raciocínio lógico e técnicas de combate. Em outras ocasiões, J’ohn se colocou, por várias vezes, na mesma situação e compreendeu as atitudes do colega soturno. Contudo, não deixou de questionar-se a que ponto chegaria a desconfiança de Batman e o quanto isso afetaria os membros da Liga.
Suas contestações foram atravessadas ao receber um chamado da Mulher Maravilha.
—--
Flash iniciara a sua segunda volta em torno do planeta. Xingava-se a todo momento por ter caído na armadilha do seu rival. Era um tremendo golpe baixo usar seu amigo próximo para coagi-lo. Mas o que esperar de um vilão? No entanto, sentira aliviado que o Lanterna sequestrado era um holograma.
— Só você mesmo, Wally... Para acreditar que seu amigo seria pego... Só com o idiota do Flash... Que acontece essas coisas... Humf. Meu Deus... Tô cansando...
Porém, surgiu a possibilidade de que aquela bomba poderia não ser uma bomba, afinal. Mas, será que ele teria coragem de desacelerar sequer um pouco para saber? Se parasse por meio segundo, a bomba explodiria.
— Okay... É melhor... Eu pedir ajuda... Pra Liga.
—--
John Stewart ouvira pelos corredores uma risada, a qual o levava a crer que era de uma criança.
— Não é possível... Uma criança aqui?
Era pouco provável que alguém da tripulação tivesse trazido uma criança, seja ela parente ou não, para o porta-aviões. Mas, mesmo assim, Lanterna resolveu apurar o caso, primeiro. Já que não podia correr o risco de deixar qualquer vítima para trás.
John entrara em cada quarto que podia, atrás dessa criança, até encontrá-la. O que, na verdade, ele não esperava.
Era uma menina, realmente. Morena, segurava um urso de pelúcia sem um olho. Ela não sorria. Tinha os olhos fixados em John. O cavaleiro esmeralda tentou se aproximar dela.
— Olá... Não se preocupe, eu vou te tirar aqui, está bem?
— Não vai!!! – ela berrou.
John se sentiu confuso por aquela situação. “Por que essa menina está aqui? E por que ela não quer sair? Talvez, está com medo... Mas do quê?”, John se questionava.
— Não tenha medo, menina. Eu não vou te machucar, está vendo isso? – Apontou para o símbolo dos Lanternas Verdes em seu peito. — Quer dizer que sou um dos mocinhos, não vou lhe fazer mal.
— Então... Por que você... A deixou morrer?
“De quem que ela está falando? De sua mãe?”, John percebeu que estava tremendo ao ouvir o que a menina disse. Ela estava perdida aqui dentro, supostamente com a mãe. E o responsável pelo desastre no porta-aviões causou a morte dela... E ele, o dito herói, por não ter chegado a tempo, não cumpriu o seu papel. O de salvar as pessoas. Do que vale dizer “eu sou herói”, se não cumpre com o dever? Será que ele nunca foi um herói de verdade? Será que fora iludido pelos Guardiões? Será que, para eles, John Stewart era só uma “piada galática” esse tempo todo?
A menina começou a chorar. John se afastou, saindo do quarto. Não sabia mais o que fazer.
— Do que você tem medo, Lanterna? – Thaal Sinestro estava parado no meio do corredor.
—--
— Mulher Maravilha, aqui é o J’ohn. O que precisa?
— J’ohn, preciso falar com você. É urgente.— Havia nervosismo na voz de Diana. Algo tinha acontecido.
— O que houve, Diana? Está tudo bem?
— Está, ao menos ainda. Preciso falar com você, agora! Onde você está?
— Estou... Na Torre.
— Será muito mais seguro se conversarmos aí. Não posso falar muito... Me teletransporta, J’ohn.
Caçador de Marte fez o que foi solicitado, mesmo tendo estranhado a pergunta dela sobre onde ele se encontrava. Todos sabiam que era o turno dele monitorar pela Torre. A mesma sensação que lhe invadiu ao receber o chamado do porta-aviões, o arrebatou com o de Diana. A amazona logo em seguida, apareceu, vestida como de costume. Estava com a aparência de quem acabara de sair de uma luta.
— Diga-me, Diana, o que aconteceu?
— A Mulher-Leopardo aconteceu – dizia enquanto se aproximava do marciano. Diana esfregou as mãos no rosto para dissipar o cansaço estampado, no entanto, J’ohn sentiu-se desconfortável, o tom da voz de Diana estava mais grave que o habitual. — Ela quase me dopou com isto. – A princesa amazona mostrou uma seringa.
— Posso analisar esta amostra?
— Não só pode, J’ohn... – Destampou a seringa. Neste momento, Flash chamou no painel, o que distraiu o marciano. Fora a oportunidade perfeita de atacá-lo. Diana avançou para cima do Caçador de Marte e injetou todo o conteúdo da seringa no pescoço do herói marciano. – Como saberá, por experiência própria o que essa merda faz!
J’ohn a empurrou para longe, enquanto segurava forte o pescoço, exatamente no local onde levou a aplicação. Não tardou para sentir os efeitos do veneno. Cambaleou, quase não conseguindo chegar perto do painel. Apertou o botão para que o Flash pudesse ouvir o que estava acontecendo.
— Fla...sh... – tentou chamá-lo. Sentia dores horríveis.
— J’ohn, aqui é o Flash... Estou precisando de ajuda... Estou com... Uma bomba presa em meu pulso... Oof! Não sei mais... Quanto tempo eu vou... Oof! Aguentar! Você pode me ouvir? J’ohn? Oof... Oof... J’ohn?
Diana se levantou, viu que o marciano caíra no chão e agonizava de dor. Quanto mais se aproximava, mais revelava quem era, de fato. Grandes massas de barro começaram a brotar no corpo que, antes, parecia ser da Mulher Maravilha.
Assim como havia tirado a seringa, a criatura gosmenta que se apresentara, retirou de seu próprio “corpo”, um isqueiro. Se aproximou do painel, desligou a comunicação entre a Torre e o Flash e preparou sua saída. Voltou-se ao marciano que gemia de dor.
— Vou seguir o script... Aliás, enganar um marciano não era uma tarefa fácil, mas, como pode ver, sou um ótimo profissional. Ainda posso ser ator, quem sabe? – Riu. — O que injetei em você foi um veneno. Você irá eliminá-lo pelo suor, após seu corpo absorvê-lo... Foi o que me disseram.
J’ohn se esforçava para ver quem era o intruso. Alguns pingos de barro caíram no rosto do moribundo. Era o Cara de Barro. Percebendo a dificuldade do herói em enxergá-lo, Cara de Barro fez questão de se aproximar ainda mais, nivelando os olhos. Concluiu seus dizeres:
— A notícia ruim é que isso não irá matá-lo, não ainda... A notícia melhor é que você vai expelir magnésio...
— N-não! — J'ohn grunhiu de espanto e agonia.
Cara de Barro acendeu o isqueiro e, sem mais delongas, o jogou em J’ohn J’onzz, que se tornou uma enorme bola de fogo. O marciano berrava desesperadamente, se levantou do chão e começou a se debater no painel de controle. Consequentemente, uma parte do painel foi totalmente destruída. O vilão, por sua vez, se moveu até o teletransportador e saiu da Torre, enquanto admirava seu feito, o Caçador de Marte em chamas.
—--
Shayera conseguiu retirar todos do porta-aviões, mas reparou que as “chamas amarelas” não haviam sido exterminadas. John demorava demais.
— Alguém sabe como isso tudo começou? – Shayera interrogou um soldado da marinha que estava mais próximo, todo encolhido.
— E-eu... Não sei... N-não sei muito bem c-como começou. Só... Só sei q-que... Que eu vi um c-cara... Um cara c-coberto de... De p-palha!
— Palha? Do que você está falando? – Shayera se aproximou do soldado, só aí notou que ele estava em pânico. Foi observando os outros, a grande maioria tinha olhos vidrados para o nada. Estavam paralisados de medo.
O capitão do porta-aviões era o único, quiçá, mais lúcido do local.
— Capitão! – gritou Shayera – Preciso saber o que aconteceu no seu navio.
— Alguém o invadiu. Estão dizendo que foi um homem de palha, mas você viu a situação da minha tripulação? Estão todos alucinados! Eu não posso afirmar isso, porém, tanto quanto você, eu quero saber quem foi e por quê.
— Vocês precisam sair daqui. Há uns 3km tem uma base de patrulha que vocês poderão se abrigar e pedir ajuda. – Shayera apontara o caminho que os soldados deveriam seguir. — Não vou poder ajudar vocês, porque preciso voltar ao porta-aviões.
— Mas e você? Se precisar de ajuda? – O capitão observou a mulher pássaro alçar voo.
— Se eu encontrar o causador desta bagunça, é ele que precisará de ajuda. – Empunhou sua maça, voou em direção ao porta-aviões.
[1]* Esse evento ocorre na edição Liga da Justiça: A Nova Fronteira, 2003.
Fale com o autor