Fille du soleil
2 Shawn
Notas iniciais
Fiquei meio tonto com aquelas luzes coloridas piscando freneticamente. Corpos se contorciam ao meu redor acompanhando a batida da música.
– Relaxa, Shawn! – Aaron disse ao meu lado, e me deu uma lata de Diet Coke – Você parece que viu um monstro.
– Ainda não, mas provavelmente nós vamos ver um.
– Mas se você continuar tenso assim, o monstro vai nos achar mais rápido.
Tentei dançar um pouco, mas meus membros rígidos devem ter gerado uma cena no mínimo engraçada. Aaron também se mexeu um pouco, mas, treinados desde crianças para a sobrevivência no campo de batalha, era bem improvável que tivéssemos ginga ou algo do tipo. Enquanto isso eu observava cada canto da boate, procurando algo suspeito, mas o mais interessante que eu vi foi uma jovem loira deslumbrante no balcão do bar. Ela usava um vestido florido e não tirava seus olhos azuis de mim.
Puxei Aaron para o bar – a essa altura nossas bebidas já tinham acabado — e uma garota afroamericana nos atendeu. Seu sorriso me fez esquecer rapidamente da loira.
– Posso ajudar? – Ela falava de um jeito provocante, enquanto mexia nos cabelos encaracolados que lhe caíam sobre os ombros.
– Quero outra coca, por favor. – Aaron disse
– E uma margueritta — brinquei, e Aaron me deu uma cotovelada.
– Ele é menor de idade, traz um suquinho de laranja pra ele.
A garota riu e antes que eu pudesse protestar ela se afastou. Segundos depois ela voltou trazendo a coca e uma caixinha de suco.
– Só tinha de uva, desculpe.
– Adoro uva! – eu disse, contrariado. Depois de beber um pouco do meu suco e lançar um olhar mortífero para Aron, perguntei: — Qual é seu nome?
– Kelli. E o de vocês?
– Shawn Collins ao seu dispor – Kelli riu, mas um brilho diferente perpassou seu olhar. Fúria, talvez? Aaron não respondeu, ele olhava para ela, desconfiado. Resolvi deixar pra lá – E este é Aaron.
No momento em que eu imaginei como seria namorar uma mortal comum, – ainda mais uma linda como a que estava a minha frente — levar uma vida comum, sem o risco iminente de morte, Kelli se transfigurou. Sua pele ficou totalmente branca, seus olhos assumiram um vermelho intenso e presas surgiram em seu sorriso sádico.
– Nós estávamos esperando vocês. – Então ela voltou ao seu sorriso hipnotizante. Olhei para Aaron no momento em que ele olhou para mim. – Agora venham comigo, queridos, se não quiserem que os mortais paguem o preço.
Larguei o suco e a segui. Ela havia saído de trás da bancada e se dirigia a uma portinha perto dos banheiros que tinha uma plaquinha com algo escrito, mas minha dislexia não ajudou muito. Aaron ia à minha frente e quando olhei para trás, aquela loira linda me seguia, com um sorriso malicioso no rosto.
– Oi, gato! Eu sou a Tammi. – Ela sussurrou pra mim e me empurrou de leve. Continuei andando e apertei minha adaga que eu escondia no cós da minha calça. Quando enfim chegamos à sala, vi várias prateleiras cobrindo as paredes, cheias de garrafas e várias pilhas de caixas no chão. Mas o que mais me chamou atenção foi uma garota caída num canto, com cordas em volta de seu corpo. Pelo tamanho não parecia ter mais de quatorze anos, mas de onde eu estava não dava para dizer se estava viva ou morta.
– Foi muito esperta, senhora — Tammi disse e se colocou ao lado de Kelli, em frente à garota caída – ao manter essa meio-sangue viva.
– Mas é claro que fui. Porque me satisfazer com uma se mais viriam buscá-la?
– Então era uma armadilha! – vociferou Aaron – vocês obrigaram a garota mandar a mensagem de Íris para o acampamento.
Elas riram maleficamente e assumiram suas verdadeiras formas. Tammi era quase igual a Kelli, só que um pouco menor. O que me chamou a atenção foram suas pernas: Ambas tinham uma perna peluda com um casco de burro no final, e a outra era quase humana, só que de bronze. A aparência delas ficou ainda mais esquisita quando lembrei que usavam vestidos floridos e fofinhos. Elas arreganharam os dentes e atacaram. Saquei minha adaga e ataquei Tammi, que vinha para cima de mim. Ela era rápida e esquivava dos golpes com facilidade. Enfim consegui acertar sua cabeça com o punho da adaga e ela cambaleou então eu chutei seu peito com força e ela caiu nos pés de uma pilha de caixas, fazendo com que uma avalanche de papelão caísse sobre ela, deixando somente a perna de bronze inerte para fora.
Enquanto isso, Aaron disparava sua arma contra Kelli, que desviava rapidamente. Corri para ela, para distraí-la, e quando ela olhou para mim, um projétil de bronze celestial em chamas acertou sua cabeça, fazendo com que ela explodisse em pó.
Aaron engatilhou sua arma e apontou para a pilha de caixas, mas Tammi não estava mais lá.
– Isso não vai ficar assim – ela disse ameaçadoramente da porta, de volta à forma humana, e sumiu na multidão.
– Fica com a garota! – Aaron gritou e correu porta a fora.
Fui até ela. Tinha a pele pálida e cheia de sardas, cabelos ruivos lisos que estavam bagunçados; usava uma camisa branca lisa e uma saia preta. Parecia tão fraca, seus lábios tremiam e sua fraca respiração emitia ruídos roucos. Seus braços e pernas estavam cheios de hematomas e cortes, alguns bem profundos e ainda sangrando. Senti uma estranha vontade de protegê-la
Apoiei ela no meu braço e sacudi de leve o ombro dela. Ela arregalou os olhos azul-cinzentos e me encarou, apavorada.
– Não... Não me machuque! – ela sussurrou, embora eu tenha percebido que ela tentara gritar.
– Shh... Calma! Eu não vou te machucar. Eu sou como você, uma meio-sangue, e aquelas garotas já foram. – peguei um cantil cheio de néctar que eu sempre carregava no meu bolso do casaco e derramei um pouco em sua boca seca. Fiquei com medo de que ela engasgasse, mas ela engoliu e a cor retornou gradualmente ao seu rosto.
– Consegue falar? – perguntei
– Sim. – ela respondeu, com a voz mais firme.
– Qual o seu nome?
– Stewart. Lindsey Stewart. E o seu?
– Collins. Shawn Collins. – ela riu, mas parece que o esforço foi demais para ela, pois logo o sorriso deu lugar a uma careta. – Não se mexa. Vou te levar para um lugar seguro. Eu vou cuidar de você.
Peguei-a no colo com cautela. Aaron entrou na sala, ofegante:
– Ela sumiu. Como está a garota?
– Machucada. Mas vai ficar bem. Temos que mandar uma mensagem de Íris para o acampamento, mas vai ser difícil achar um arco-íris a noite.
– É. Me lembre de inventar algo que possa criar um. – Esqueci de mencionar que Aaron é filho de Hefesto e não há nada que ele não possa construir com metal e algumas engrenagens. – Vamos pegar um táxi para o acampamento o mais rápido possível.
***
Depois de convencermos o motorista que era ali mesmo que iríamos ficar – no meio da rodovia, onde só havia floresta dos dois lados – descemos do táxi. Aaron já tinha pegado nossa mochila que havíamos escondido na boate, Lindsey já conseguia caminhar depois de ter comido ambrosia e eu tremia de frio, pois meu casaco estava com ela.
– Bom, depois de terem me salvado, acho que posso confiar em vocês o bastante para presumir que sabem para onde estamos indo. – Lindsey disse, mexendo em seus brincos de argola.
– Está certíssima. – Respondi, enquanto caminhávamos por entre as árvores.
Quando estávamos a alguns metros do pinheiro de Thalia, um carro prateado freou bem ao nosso lado, nos assustando. Dele saíram um grupo bem estranho: Um casal de mortais – não me pergunte como, mas eu consigo reconhecer o que as pessoas são de verdade – um sátiro e um jovem ciclope carregando uma semideusa inconsciente.
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