Shawn e Alice correram para mim, animados. Alice me abraçou.

– Eu sabia! Você é nossa irmã!

– Eu avisei! – Shawn disse.

Aaron que, depois de processar o ocorrido, havia corrido para perto de nós, disse:

– Então você é irmã do meu melhor amigo? Interessante...

– Não entendi. – Eu disse. Por que aquilo seria interessante? Ele ignorou.

– Precisamos contar para Quíron. Agora mesmo! – Alice disse.

Quando viramo-nos em direção à Casa Grande, vimos Quíron, na sua forma de centauro – quando eu iria me acostumar de verdade com aquela visão? – ao longe, vindo em nossa direção. Quando enfim se aproximou, disse com sua voz tranquila:

– Bom, as notícias literalmente correm nesse acampamento. – ele riu — Você já pode se instalar no chalé sete, no jantar lhe apresentaremos aos outros campistas. Mas antes, escolha uma arma no arsenal. Messi é a responsável por ele e vai te ajudar.

– Tudo bem. – minha voz soava mais trêmula do que deveria. Senti que se desse mais um passo minhas pernas iriam ceder por conta do nervosismo. Eu precisava processar aquela informação súbita. O homem que conquistara minha mãe muitos anos atrás era Apolo, um deus grego que controlava o sol e, segundo meus conhecimentos sobre mitologia, também controlava as... Profecias, é isso! – Só um... segundo – contei três respirações profundas e segui adiante. Ouvi Shawn murmurar algumas palavras entre as quais distingui “Alice’, ‘ficar’ e ‘treinamento’. Escutei também algumas outras vozes das pessoas ao meu redor, mas meu cérebro zumbia e repetia constantemente ‘filha de Apolo’. Depois do choque, eu já estava de frente ao arsenal, Aaron havia me levado. Ele parou ao meu lado.

– Está tudo bem?

– Sim. Eu estou bem.

Neste momento dois campistas saíram pela porta. Uma era uma garota de cabelos castanhos longos que paravam na cintura, era do meu tamanho, mas seu rosto parecia ser um pouco mais velho. O outro era um garoto negro de uns treze anos que segurava uma espada com a metade de sua altura.

– Obrigada, Messi – o garoto disse.

– De nada – ela respondeu. Sua voz era aveludada, mas tímida. Notei que uma espada pendia em uma bainha de couro amarrada ao seu quadril. Ela nos viu e se aproximou, e estendeu a mão para mim.

– Olá, eu sou Messi Van der Wall, você deve ser a nova campista.

– Isso, sou Piper Martín — respondi, apertando sua mão. Ela parecia bem tranqüila, me estudando com seus olhos verdes. – Quíron me mandou aqui para escolher uma arma.

– É óbvio. Entre, fique a vontade. Ah, oi, Aaron!

–Oi!

Entrei e me deparei com uma enorme sala coberta de espadas arcos, flechas, facas, lanças, machados, e todos os tipos de armas — que não sejam de fogo- que você conseguir imaginar, organizadas em prateleiras. Haviam também algumas caixas de madeira empilhadas num canto. Andei lentamente analisando as armas, sinceramente eu não sabia nem por onde começar. A maioria estava muito empoeirada, como se não recebesse uma faxina há anos. Toquei o cabo de uma espada e instantaneamente o cabo se avermelhou e esquentou. Afastei meus dedos subitamente, temendo me queimar.

– Só pode ser usada pelos filhos de Ares. – Aaron me informou, e me dei conta que ele estava atrás de mim.

– Você tem uma espada? – questionei virando-me para olhar em seus olhos. Eram incrivelmente negros. Logo uma estranha sensação de pânico me invadiu, quando as imagens do sonho se projetaram em minha mente.

– Não, prefiro lâminas mais curtas, isto é, só quando não tenho chance na luta corpo a corpo. Porque você não tenta os arcos? – Ele pegou um arco prateado do topo de uma prateleira. Seu cabo era muito fino e parecia frágil, e a corda era praticamente invisível. Aaron passou o arco para mim e quando meus dedos envolveram o metal frio, tive a sensação que aquilo era mais resistente do que eu imaginava. Tencionei a corda ao máximo, mas ele era um pouco grande demais para mim. Devolvi a Aaron. Tentei mais dois arcos, que Messi me indicara, mas – pode me chamar do que quiser – simplesmente não gostei deles.

Então Aaron puxou Messi para um canto e cochichou alguma coisa para ela, então eles começaram um diálogo aos sussurros.

– Eu estou aqui ainda, sabia? – Eu falei.

– Tudo bem, você venceu! – Messi falou erguendo as mãos em rendimento. Aaron ergueu o canto direito da boca em um sorriso. Pegou a minha mão e me puxou para a parede oposta á porta. Uma sensação de formigamento se espalhou pelo meu braço, puxei a mão e só depois percebi o quanto isso fora rude. O sorriso de seu rosto desapareceu, mas ele apontou para um arco ocupando exatamente o centro da prateleira. Tinha uma camada espessa de poeira por cima, mas depois que ele pegou, soprou a poeira e limpou o resto com a barra da camisa. O arco tinha detalhes encravados e sua forma fora artisticamente moldada, tinha um tom fraco de dourado, mas o mais estranho era que ele não tinha corda.

Peguei o arco. Notei a frustração no rosto do garoto. Deveria acontecer algo?

– Eu avisei. – Messi falou hesitante. Mas antes que eu pudesse piscar novamente, o tom de dourado ficou mais forte.

– Tente atirar – Aaron disse esperançoso.

– Mas como? Não tem corda? – Indaguei.

– Tente.

Bom, eu não deveria me surpreender com o que aconteceu em seguida, depois de todas aquelas coisas esquisitas que tinham me acontecido nas últimas vinte e quatro horas. Mas ainda assim me assustei quando puxei a corda inexistente, e ela se materializou entre meus dedos, junto com uma flecha dourada e fina.

Aaron e Messi sorriram e trocaram um olhar significativo.

– O que era pra acontecer? –Perguntei – O que está acontecendo?

– Esse arco está aí há quase cinqüenta anos, quando seu dono morreu em uma batalha. Sabíamos que era destinado a um filho de Apolo, mas até agora ninguém conseguiu usá-lo. Até as Caçadoras de Ártemis o examinaram detalhadamente. – Aaron explicou.

– Caçadoras de Ártemis?

– Isso – Messi começou – Seguidoras de Ártemis que renunciam a companhia de garotos em troca de acompanhar a deusa em suas caçadas e da imortalidade.

– Interessante – respondi – então eu sou a escolhida por um arco velho de madeira pintada. Super normal.

– Acho que nossa visita terminou – Aaron disse

– Então o arco é meu? – perguntei. Messi assentiu. – Ahn... Obrigada, Messi.

– De nada. Seja bem vinda ao acampamento meio- sangue.

– Obrigada.

***

Eu estava em um dormitório com três camas de armação dourada e lençóis brancos. As paredes tinham um tom de dourado bem claro. Uma cama estava perfeitamente arrumada, as outras estavam com algumas dobras e em seu lençol e tinham alguns objetos pessoais em suas mesinhas de cabeceira. Cada cama tinha um grande baú aos pés. Depositei o arco mágico na cama mais arrumada e abri o baú, vi minha mochila da escola, três camisetas laranja do acampamento,três calças jeans, sabonete, escova, pasta de dentes, e outras coisinhas de higiene pessoal. Vasculhei a mochila. Nada do meu celular. Eu queria mais do que tudo conversar com o Josh. Claro que eu não ia contar tudo, até porque eu não imaginava qual seria sua reação. Mas sua voz me acalmava e conversar com ele me fazia muito bem.

Mas aí lembrei que seu número estava anotado em minha mão. Olhei para ela e só consegui entender um oito e um sete. Uma enorme frustração me invadiu e senti vontade de bater em algo, mas me contive. Onde estava meu celular? Quem sabe quantas vezes ele me ligaria durante todo o verão? E se ele pensasse que eu não queria falar com ele?

– MERDA!

– Calma Piper! – A dona da voz era Alice. Ela estava na porta acompanhada de uma garota de uns doze anos, também loira – O que aconteceu?

– Não consigo achar a porra do meu celular! – murmurei, voltando a vasculhar a bolsa pedindo aos deuses que me ajudassem a encontrar o telefone.

– Nós não temos permissão para usar celulares aqui no acampamento.

– Por quê?

– Quando um semideus faz uma ligação, meio que manda um sinal para todos os monstros num raio de quilômetros. E dá pra imaginar o que acontece depois.

Me joguei sentada na cama e expirei ruidosamente.

– Nossa, como ela é chata... – a garota atrás de Alice sussurrou, mas não tão baixo.

– E quem é ela? – perguntei, enquanto Alice guardava seu material de arco e flecha no baú. A outra garota também tinha um arco. Ah, por favor, não me digam que ela é minha irmã, pensei.

– Sua irmã – Alice falou. Yupi! – Scarlett Wilson.

A garota acenou com a cabeça. Acenei de volta tentando não rir. Scarlett?! Sério? Era o nome da garota mais chata da minha turma, que implicou comigo e com o Josh durante todo o ano. Aí você sabe... Depois de um tempo, ter um inimigo em comum une as pessoas.

– O jantar é às sete e meia – Scarlett começou, e continuou explicando por um bom tempo sobre as regras do acampamento: As harpias de limpeza, — mulheres galináceas que te devoram se você sair depois do toque de recolher — as obrigações de cada Chalé, – a do Chalé sete era ficar responsável pela enfermaria — o jogo de capture a bandeira nas sextas, – tipo o capture a bandeira normal, só que com armas letais – as revisões dos chalés, – a depender do nível de limpeza do seu chalé, você recebe uma tarefa mais ou menos ruim – e outras coisinhas. Que tipo de acampamento de verão era aquele?

Mesmo assim agradeci à garota, que se mostrou bem mais simpática.

Depois de tomar um banho, ainda frustrada, peguei meu arco mágico – eu ainda achava que ele era um delírio por causa do estresse- e caminhei sob os olhares dos outros até a praia e sentei na areia, apoiando meus cotovelos no chão e absorvendo ao máximo os últimos raios de sol do dia. A bola de fogo incandescente lançava tons de vermelho e amarelo mesclados tanto no céu azul sem nuvens quanto no oceano. Aí lembrei de que meu pai controlava aquilo. Quanta loucura para um só dia! Se eu não tivesse visto Quíron passar de senhor aleijado para centauro treinador de heróis, provavelmente eu teria saído correndo e gritando por ajuda pensando que eu fora seqüestrada por um bando de lunáticos. Apesar de que, ainda era uma hipótese a ser considerada.

E se eu simplesmente saísse andando dali, pela costa até chegar à civilização, encontrar meus pais e tentar esquecer tudo aquilo? E se eu levasse uma vida de adolescente normal ao lado de Josh? Mas logo lembrei do que Quíron dissera na enfermaria: “A medida de que o semideus toma consciência de sua identidade, seu cheiro se torna mais forte e os monstros passam a persegui-lo com mais vigor, e , é claro, em maior quantidade.” Eu não podia expor minha família e meus amigos a um perigo desses.

Lembrei da noite anterior ao primeiro dia de aula desse ano letivo que acabara. Depois de ser expulsa pela terceira vez, meus pais haviam me matriculado no internato Hoodgie. Eu estava no jantar quando vislumbrei a imagem de um garoto que eu nunca havia visto antes, de cabelos castanhos até os ombros, feições duras, mas atraentes e olhos cor de mel. Assim que eu cheguei na escola, vi o mesmo garoto. Josh. Depois de algumas semanas observando-o intrigada, descobri que o que eu sentia por ele era mais que curiosidade, mas só no segundo semestre começamos a nos falar, depois de descobrirmos que odiávamos a mesma pessoa.

Passamos os meses seguintes ocupados em zoar Scarlett Jones e suas comparsas, fazer pegadinhas e contrabandear salgadinhos e refrigerantes – no internato eles eram proibidos! E eu sempre tentando fazê-lo me notar como mais do que uma amiga. Até que, enquanto dividíamos uma garrafa de Mountain Dew escondidos num armário de vassouras, depois de termos enchido o armário da Scarlett de comida de gato, ele me dá um beijo. Rápido. Tímido. Mágico.

Mas era o último dia de aula. Aí quando eu saí da escola ansiosa para as aulas retornarem para que eu visse Josh novamente e pudéssemos quem sabe, começar um relacionamento, minha vida virou de cabeça pra baixo.

Quando o sol se pôs por completo, me senti mais cansada, talvez até mais fraca. Ouvi passos atrás de mim, então, instintivamente peguei o arco, preparei uma flecha e apontei para o invasor.