Notas iniciais
O capítulo ficou curto, me desculpem por isso, mas eu não queria enrolar muito.

O chacoalhar do trem impedia o loiro de dormir, atrapalhando-o cada vez em que adormecia. Seus olhos estavam com profundas olheiras da insônia provocada pelo trem, e aparentava não ter forças nem para virar a página do livro em seu colo, coisa que o fazia com movimentos leves de seus dedos no ar. Era um Sumonitor, um dos novos invocadores para a Legião. Se é que fariam uso dele nela. Trajava a capa dos Sumonitores, negra com detalhes arroxeados, por cima de uma blusa de um roxo mais escuro e uma calça jeans preta.

Ele encarou seu reflexo pálido na janela. Mesmo com o vidro embaçado pelo frio externo e o aquecedor do vagão, seus traços fortes e belos podiam ser vistos. Parecia um fantasma, ou alguém que estava morto há um tempo e havia voltado. Desviou o olhar do fantasma para seu livro, quase adormecendo até ser sacudido pelo trem novamente. Irritado, levantou-se e abriu a porta do seu leito.

Lourenço saiu de seu vagão, andando pelo trem até o final da locomotiva, onde, geralmente, ficavam as bagagens. Carregava seu livro, com os pensamentos perdidos em algum lugar no tempo. E ele seguia seu caminho em silêncio até ouvir uma porta abrir estrondosamente e um ser das sombras atingi-lo em cheio no rosto e derrubando-o no chão. A jovem gritou com agonia de dentro do quarto que o ser saíra, o que alertara perigo a Lourenço e algumas pessoas que estavam ali.

– Discutere tenebras – “Dissipar a escuridão” dizia, estendendo a mão para a esfera negra que queimava em roxo. Um pequeno circulo surgiu em sua palma e estendeu-se até circunda-la, seguido de um lampejo que saiu de seu centro em direção ao ser, atingindo-o. — Solviti! – O ser paralisou por um tempo antes de começar a tremeluzir e explodir em pequenos pedaços. Sem perder tempo, Lourenço correu em direção ao quarto.

A jovem estava caída no chão, com o ventre totalmente exposto. Suas palmas iluminavam-se de verde e apagavam logo após. Não tinha forças o suficiente para se curar, e estava morrendo.

– Acalme-se... Eu... Eu acho que eu posso. – O loiro estava paralisado, olhando para a horrenda cena. Não sabia o que fazer. Mesmo estudando anos para ser um melhor invocador, ele continuava inútil como sempre. Ele se ajoelhou ao lado da mulher, estendendo suas mãos. Não se lembrava das palavras. – Eu não posso.

– Não há tempo... – A jovem murmurava repetidamente aquilo, olhando para ele. Seu delineador preto estava borrado pelas lágrimas que escorria. – Ali... Alícia... Ache Alícia... Ache Alícia. – Ela encarou o teto, com um vazio sobre-humano no olhar — Ainsi soit-il...

–

Quando, finalmente, chegou a Caótica, Lourenço carregava um peso imenso em seu coração. E o sangue em seu livro tornava mais presente à lembrança da jovem. “Alícia...” repetia “Ainsi soit-il”, e aquela voz o perturbava profundamente. Os bellatores, guerreiros de vestimenta negra como a noite, entraram rapidamente no trem enquanto ele aguardava na estação. E logo saíram com o cadáver da mulher com o rosto tatuado. Correu seus olhos do rosto feminino ao céu, encarando as luas que decoravam o céu roxo-escuro de Caótica; o Deus da Lua, azulado e belo, ao norte, reluzindo sua magia pela noite, e Deus do Sangue, avermelhado e horrendo, ao sul. Cruzou seus dedos e fechou os olhos, recitando a antiga oração a sua lua azulada.

– Poderia me contar o que aconteceu, senhor... – Lourenço descruzou os dedos e reabriu os olhos, encarando o local. A jovem sorriu para o loiro, e, por um momento, seus olhos brilharam. – Lourenço, certo? Faz tempo que não vem ninguém novo aqui, então não sei se isso ainda funciona.

Ela era alta, com os cabelos cacheados até a altura de seus ombros, escuros como a noite. Seus olhos eram castanho-escuros, naturalmente, mas estavam claros agora. Seu corpo magro estava protegido pela armadura negra com um B em prata no meio do peitoral. Às costas, um arco composto e uma aljava. Na cintura, duas pistolas e uma espada.

– Chamo-me Virginia. Bellatore de nível 5. – Ela estendeu a mão para o Sumonitor. Ele encarou a mão e seguiu, com o olhar, até o rosto da jovem, que corou e abaixou a mão.

– Bellatores não deveriam odiar Sumonitores por natureza? – Perguntou, olhando dela para o chão.

– Acho que já estamos crescidos o suficiente para entendermos que essa disputa besta de Magia com Força não trouxe nada mais que problemas. E, ainda, o Capitão se recusa a ver... – A jovem se calou, sentando-se ao lado do loiro. – Esqueça. Está sendo um dia cansativo para todos. Sumonitor, você é?

– Lourenço. – Disse o jovem, após um longo silêncio. – Você acertou, meu nome é Lourenço. Venho do Norte para servir a Legião. Mas me parece que só trouxe problemas.

– Acalme-se, rapaz. Isso acontece em uma frequência absurda, ou pelo menos vem acontecido em uma frequência maior que o normal. Mas, como é uma testemunha, precisaremos de seu depoimento. Mas esta tarde para irmos todos para a delegacia. Venha, eu lhe arranjarei um lugar para dormir. – Ela sorriu, levantando-se. – Nunca veio à Cidade, correto? Bom, ela é um pouco maior do que a história diz. Então, venha rápido.

Lourenço projetou um sorriso, mas seu rosto não pareceu concordar com aquilo, transformando-o em uma careta. Levantou-se, tentando afastar da mente a imagem horrenda da mulher.

– Ainsi soit-il. – Murmurou, olhando para a lua avermelhada sobrepondo uma imensa torre no centro da cidade.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.