Notas iniciais
Foi mau a demora, inspiração não vinha

Depois de ver meu professor de história em um castelo mágico, eu soube que tudo era possível.

O Sr. Sherman entrou no salão como se fosse uma coisa natural para ele e, mesmo depois que me viu, ele não perdeu a compostura, me olhando como se nós estivéssemos em mais um dia de aula na faculdade, com ele me ensinan-do sobre guerras e conflitos antigos e eu fazendo anotações sobre aquilo que ele explicava.

– Olá, senhorita Sulley. Como vai? – ele perguntou com a maior calma do universo.

A minha voz simplesmente não saia e eu fiquei parada, encarando o ho-mem com a boca aberta feito uma idiota.

– Eu sei, Taylor, que parece loucura me ver aqui, mas....

– Parece loucura? – eu falei para ele, finalmente recuperando minha voz, que veio repleta de indignação. – É uma completa loucura. Como...

– Como posso estar aqui? – ele completou a minha pergunta. – Taylor, eu acho que Lady Ariadne já lhe informou que você é uma feiticeira muito poderosa, correto? – eu assenti. – E uma feiticeira com um poder tão grande e extraordinário como o seu não deve ter somente um guardião.

– O que você esta querendo dizer com isso?

Ele suspirou e continuou, com a mesma voz calma a e serena que usava durante as aulas:

– Mirian só foi designada para ser sua guardiã depois que eu solicitei ajuda á Ariadne, pois eu não poderia te vigiar fora da faculdade; então eu solicitei um guardião mais jovem, um que pudesse cuidar de você sem levantar suspeitas e no qual você pudesse confiar.

Fiquei calada por alguns minutos, pensando em tudo o que ele falava, até que me irritei e falei:

– Então foi realmente tudo uma farsa; você e Mirian somente agiram por conta de que foram designados a cuidar de mim.

Ele me olhou sério, sem nenhuma expressão de culpa.

– Para ser sincero com você, senhorita Sulley, sim, eu me aproximei de você pelo fato de que eu incumbido da sua segurança; mas no tempo em que eu atuei como seu instrutor de história, eu me fascinei com você, com a sua fome pelo saber, com a sua sede de conhecimento. E, principalmente, com o seu po-tencial para a magia.

Eu bufei.

– Quantas vezes eu vou ter que repetir. Eu. Naão. Sou. Uma. Feiticeira. Mas que droga.

O Sr. Sherman me olhou e deu risada.

– O que foi? – eu perguntei, quase dando risada também, contagiada com o sorriso dele.

– Perdoe-me, mas essa sua teimosia para mim já é uma coisa habitual; eu me acostumei com ela.

– Só você! – Fedra falou atrás de mim.

Eu virei e a encarei, séria, antes que ela revirasse os olhos e olhasse para o Sr. Sherman.

– Tudo bem – falou Ariadne. – Taylor, você não mudou de ideia sobre ficar conosco, não é?

Olhei para Maggie e depois para Ariadne.

– Não! Eu ainda vou ficar.

– Ótimo, então, Maggie, por favor acompanhe a senhorita Sulley até o nosso refeitório. Você deve estar com fome Taylor.

Assim que ela falou a palavra Fome, meu estomago roncou. Eu não havia percebido a quanto tempo eu não comia.

Eu assenti e Maggie me levou para fora do salão. Mas, antes de sairmos, eu me virei para o meu antigo professor e me aproximei dele, antes de o abra-çar e falar, de modo que somente le pudesse ouvir:

– Obrigado por estar aqui.

Ele me olhou e abriu um sorriso ainda maior que o de antes. Eu retribui o sorriso antes de sair com Maggie.

– Obrigada, Taylor – Maggie falou enquanto caminhávamos pelos corredores, que pareciam não ter fim.

Eu á olhei e sorri.

– Obrigada pelo que? Eu não fiz nada.

– Fez sim; você aceitou ficar aqui. Em todo o tempo em que estive treinando no Castelo de Luz, eu jamais conheci alguém como você, com quem eu pudesse falar sem ter medo de ser ridicularizada e humilhada.

– Nossa o pessoal daqui é tão idiota assim? Pensei que fossem somente aquelas duas que tentarão me enfrentar na sala de treinamento. Como era mesmo os nomes delas?

– Penthesileia e Hisminas. Duas vadias.

Eu a olhei com cara de espanto.

– O que foi? – Maggie perguntou.

– Nada é só que é estranho ver uma garota delicadinha feito você xingar alguém.

– Não deixe que a minha aparência engane você, Taylor. Existe uma razão para o ódio de Penthesileia e Hisminas tem de mim.

– E qual é?

Ela me olhou séria e falou, com uma voz sombria:

– Eu já quebrei o pescoço de Hisminas em uma batalha e a perna de Penthesileia quando á joguei contra a parede com a minha telecinesia.

Eu fiquei encarando a menina, agora um pouco apreensiva.

– Mas então por que você tem medo delas?

– Não bem um medo... é mais por segurança. Os pais delas, Ares e Éris, já me ameaçaram por ter ridicularizado suas filhas e me prometeram que se eu voltar a tocar em alguma delas eles me amaldiçoavam. Claro que eu nunca dei importância para as palavras de um babaca como Ares e uma vadia como Éris, mas tento ficar na minha.

– Você tem muitos inimigos aqui?

– Não, na verdade são somente elas e mais uma garota, Aluzia, mas essa não mora aqui.

– Quem é Aluzia?

– Uma das filhas de Selene, como Febe e Astéria.

Passamos um tempo em silencio enquanto nos dirigíamos ao refeitório, quando uma coisa me veio a mente e eu perguntei:

– Maggie... o que Astéria quis dizer quando disse que Febe sabia bem como Mirian era uma ótima guardiã?

A garota comprimiu os lábios e olhos para trás, para se certificar de que ninguém nos vigiava.

– Para ser sincera, eu nunca soube a verdade, mas já ouvi boatos de que elas, Mirian e Febe, tiveram um caso, um relacionamento romântico, enquanto Febe passava uns dias aqui no castelo para estudar sobre a nossa magia. Astéria nunca aceitou isso.

– Não sabia que Mirian era lésbica. Ela nunca me falou nada.

– Ela nunca falou nada para ninguém; é um segredo que ela guarda á sete chaves. Ela e Febe.

– Mas então como Astéria sabe? E, pelo visto, Ariadne e Fedra também sabem.

– Não sei nada sobre essa parte; Ariadne deve ter sabido por conta de que ela é a comandante daqui e nada se passa nesse castelo sem que ela saiba. Chegamos!

Maggie parou na frente de uma porta de carvalho que era entrelaçada com videiras e ladeada de enormes estatuas de mármore branco que representavam dois garotos altos que estavam vestidos com grandes túnicas. Estranhamente, parecia que eu conhecia aqueles garotos.

– Maggie, quem são esses? – perguntei.

Ela me olhou séria.

– Era de se esperar que você soubesse, considerando que você passou quase uma hora pensando que os havia machucado.

Eu franzi a testa e olhei para as duas estatuas; se supetão eu me lembrei daqueles dois.

– Por que as estatuas de Silas e Klérigo estão aqui? – perguntei.

Maggie me olhou séria e falou:

– Essas estátuas estão em todas as principias entradas do castelo; na entrada do refeitório, no pátio de entrada e, caso você não tenha percebido, na entrada do salão de Ariadne. Elas são como uma lembrança de que em todo e em qualquer lugar, a magia esta presente

– Tudo bem – falei. – Podemos?

Maggie assentiu e abriu as portas.

O refeitório era uma sala grande, feita de mármore negro que tinha, em cada ladrilho, uma flor de Liz branca que era rodeada de varias outras flores de Liz menores. Em todos os cantos, e no centro também, havia inúmeras mesas de piquenique com toalhas brancas por cima; as mesas eram rodeadas por seis cadeiras, todas ocupadas por adolescentes que não tinham mais do que dezesseis anos de idade, como na sala de treinamento. O teto era feito de vidro e a luz da lua penetrava, banhando todos em uma luminosidade pálida; em cada parede havia um castiçal de prata onde queimava um tipo de fogo azulado estranho. Na outra parede do recinto, havia uma grande bancada refrigerada com vários tipos de comida, desde queijos e frutas, e um tipo de forno elétrico, havia uma grande quantidade de pizzas e outras coisas salgadas; em cima de uma bandeja quadrada de prata, havia cinco jarras de ouro, algumas soltavam vapor.

Maggie fez sinal para que eu a seguisse até a mesa com a comida e foi o que eu fiz. Chegando lá, eu peguei uma bandeja de plástico azul escura que havia em uma mesinha de prata ao lado da bancada de comida. Peguei uma fatia de pizza de camarão e enchi um copo de vidro com o liquido que exalava o va-por; chá de camomila.

– O que foi? – Maggie perguntou, me olhando com a testa franzida.

Só quando ela me chamou foi que eu percebi que estava cheirando o copo de chá e, possivelmente, parecendo uma idiota.

– Nada...desculpa. Gosto de chá de camomila.

– Não precisa pedir desculpas. – Maggie também pegou um pouco de chá e começou a cheirar o copo. – Também adoro esse cheiro.

Nos duas começamos a dar risada e ela me levou para uma mesa que estava quase vazia, só havia um garoto nela. Ele tinha cabelos louros lisos, arrumados milimetricamente em uma franja longa, olhos castanhos claros, pele pálida e um corpo musculoso, mas não muito. A camisa que ele usava era preta e tinha o desenho de uma rosa vermelha no centro, as calças jeans também eram pretas, assim como o coturno de couro. Ele usava um cordão de prata com uma guitarra como pingente e tinha um piercing na sobrancelha.

– Olá Mags – ele sorri para Maggie.

Maggie retribui o sorriso.

– Olá, Evan – ela respondeu sorrindo. – Essa aqui é Taylor Sulley, do Rio de Janeiro. Ela chegou ontem á noite.

– Olá, Taylor Sulley. Seja muito bem vinda ao Castelo de Luz, a morada das bruxas e dos idiotas que só porque usam armaduras acham que são guerreiros.

– Não somos bruxas, Evan, somos feiticeiras.

– E qual seria a diferença? – Evan pergunta.

Maggie olha para ele e revira os olhos.

– A diferença é que... cala a sua boca Evan – ela falou dando risada.

Evan também deu risada.

– Venci – ele me olha e fala. – Prazer, Taylor, eu sou Evan Arciere.

– Espanhol? – perguntei.

– Não, sou de ascendência italiana.

– Legal. Nunca conheci um italiano.

– Buonasera, signorina.

Eu olhei bem para ele e falei:

– Desculpe-me, mas eu péssima nessa coisa de línguas estrangeiras.

– Ele disse Boa noite, senhorita – Maggie traduziu.

– A... ta. Boa noite.

Evan sorriu para mim e olhou por cima do meu ombro.

Atrás de mim, havia um garoto de mais ou menos dezessete anos; ele tinha cabelos pretos arrepiados, olhos azuis escuros e uma boca linda. Estava vestindo uma camisa branca de algodão, uma jaqueta de couro preta e calças jeans azuis escuras. Assim como Evan, ele tinha um colar de prata, mas o seu pingente era uma adaga de prata.

– Oi, Evan – ele falou, sorrindo.

– Olá, Andrew. Como vai?

– Vou bem, obrigado. E você? Ta tudo bem?

– Sim, estou.

Andrew assentiu.

– Podemos nos falar mais tarde?

– Mas é claro – Evan respondeu, olhando fixamente para o garoto.

Enquanto o garoto, Andrew, ia embora, eu me virei para Evan e falei:

– Quem é esse gato?

O menino me olhou bem sério e falou, com a voz meio distraída:

– É o Andrew Angylion, um dos lideres dos Filhos da Escuridão.

– Mas, para outros efeitos, você pode chamá-lo de Namorado do Evan – falou Maggie.

– Maggie!! – Evan a encarou sério.

– O que?

O garoto continuou a olhá-la, balançando a cabeça negativamente.

– Ele não é meu namorado, Taylor – ele falou para mim, mas ainda olhan-do para Maggie.

– E daí se ele for? – perguntei.

Maggie sorriu para mim e olhou para Evan, ainda sorrindo.

– Viu? O único que ta se fazendo aqui é você, Evan. Eu não ligo para isso e, pelo que eu sei, Andrew também não. Taylor você tem algo contra?

Fiz que não com a cabeça.

– Eu até tinha um amigo gay quando ainda estava no Rio, o Alexius, e ele era um dos meus melhores amigos, ainda mais que a Mirian. E falando nela, onde está Mirian?

– Possivelmente na sala de treinamento... ou com Febe.

Evan olhou para ela com a testa franzida.

– Como assim? Por que Mirian estaria com Febe?

Eu olhei para Maggie e ela também me encarou, enquanto isso eu lhe passava uma mensagem pelo olhar: Ele não sabe?

Maggie negou com a cabeça e Evan olhou para nós com uma cara de confuso que era hilária.

– O que? – Evan perguntou.

– Desculpa, Ev – eu falei com carinho. – Assunto de meninas.

O garoto me olhou bem sério e sorriu.

– Ev? Que legal; a gente mal se conhece e você já me deu um apelidinho carinho. Que fofa, Tay.

Eu quase me matei de dar risada.

– E vai ser sempre assim, Ev; adorei conhecer você. E também foi um prazer imenso conhecer a Mags.

Eu sorri para ambos e eles me retribuíram o sorriso.

Esta foi a amizade mais rápida que já fiz e, se depender de mim, jamais ela vai se acabar.

Notas finais