Filhos do Poder – Devotas da Magia
4 Ariadne
Notas iniciais
Acordei em uma cama de lençóis pretos com a cabeça apoiada em um travesseiro branco. Minha cabeça latejava e doía, a sensação de que minhas veias pegavam fogo havia desaparecido; meus olhos ardiam e tive que piscar várias vezes para que minha visão se ajustasse a claridade e eu pudesse ter uma visão distinta do aposento em que estava.
O piso do quarto era feito de mármore branco polido e decorado com desenhos segmentados; a mobília era composta por um armário de portas de vidro preto, uma cômoda com várias gavetas, a cama em que eu estava e um criado mudo ao lado da cama. Em cima do criado mudo, havia um grande vaso de vidro transparente com rosas vermelhas e um copo d'água.
Levantei-me e fui em direção de uma porta ao lado da cômoda; era o banheiro, mas um banheiro meio estranho. Nele havia uma pia de cerâmica branca, um armarinho preto na parede e o box. Abri o armarinho e fiquei um pouco confusa, pois ao invés de shampoo e outras coisas para o banho, nele havia armas medievais: adagas, espadas e até um arco e flechas de prata e ouro.
– Tudo bem!- eu falei para mim mesma.
Lavei o rosto, tomei banho e penteei o cabelo, depois voltei para o quarto; a cama tinha sido feita e em cima dela havia um vestido branco que pro-vavelmente ia até os meus pés. Sequei-me, vesti o vestido e amarrei o cabelo em um rabo de cavalo. Quando terminei de me arrumar, alguém bate a porta e, sem esperar permissão,Mirian entrou. Ela usava um vestido carmim sem man-gas; na cintura ele tinha um cinto de ouro com adagas presas. Seus cabelos ver-melhos escuros estavam trançados com fitas douradas.
Ela sorriu para mim e disse:
– Sabia que você iria ficar linda nesse vestido.
Eu olhei para baixo para examinar o vestido em meu corpo.
– Ele é seu?
– Não, é de Ariadne, a irmã mais velha de Fedra.
– Oposto que ela fica melhor nele do que eu!
Mirian riu.
– Você vive dizendo que os outros são mais bonitos que você, pelo amor dos deuses.
Eu a encaro.
– Deuses? Começou a ficar possuída pelo espírito do Sr. Sherman.
Ela riu. Mesmo sorrindo ela parecia cansada, seus olhos verdes não pa-ravam de piscar como se ela estivesse lutando para ficar acordada.
– Falando em Ariadne e Fedra, elas disseram que queriam vê-la.
– Tudo bem.
– Então podemos ir?
Eu assenti.
*****
Passeamos pelo enorme castelo que, segundo Mirian, era uma espécie de academia de treinamento para guerreiros e feiticeiras.
– Academia de treinamento? Guerreiros e feiticeiras?
Mirian olhou para mim com as sobrancelhas franzidas e falou:
– Isso, Taylor; pelo mundo, existem muitas pessoas que se escondem dos humanos por serem diferentes, e, a maioria das vezes, essas pessoas são guer-reiros e feiticeiras que, por não possuírem treinamento, tem medo de se mos-trar ao mundo. — Ela parou e virou-se para mim. — Aqui no Castelo de Luz recru-tamos essas pessoas especiais para que tenham o treinamento adequado e para que possam ter uma chance de sobreviver, de lutar contra as criaturas malignas que vagam pela Terra.
– Então resumidamente vocês percorrem o mundo a procura dessas “pessoas”- fiz sinal de aspas com as mãos.
– Não! Nós somente interferimos na vida das pessoas quando temos certeza de que ele, ou ela, não é um humano completo, que em suas veias corre sangue divino.
– Mas até que vocês saibam, a pessoa já vai estar morta, não?
Ela me olhou séria.
– Pelo o que eu estou vendo, você esta viva, o que quer dizer que não, as pessoas de quem suspeitamos não ficam completamente desprotegidas.
– Espera...você esta me dizendo que só estava fingindo ser minha amiga porque achava que eu fosse alguma coisa mágica?
Mirian entrou em pânico e começou a se atropelar nas palavras.
– Não... Taylor eu não estava fingindo ser sua amiga, eu sou sua amiga.
– Mas só porque este era o seu trabalho.
– Não... eu...
– Esquece- eu a cortei. — E Fedra? Quem é ela?
Ela ainda estava em estado de choque, mas mesmo assim me respondeu.
– Ela é a segunda em comando aqui no castelo. A irmã dela, Ariadne, deu inicio aos treinamentos por causa dos heróis, como Hércules e Teseu. que pás-saram a vida lutando contra as criaturas das trevas, mas mesmo assim eles morreram pelos mãos dessas criaturas.
– Quantos guerreiros vivem aqui?
– Mais ou menos 370; o castelo foi enfeitiçado para que se adapte as necessidades dos guerreiros. Se precisarmos de mais aposentos, o castelo magi-camente os produzirá por conta própria.
– Sim, legal, mas por que eu estou aqui?
– Bem Taylor como eu te expliquei, existem pessoas poderosas espalha-das pelo mundo todo e Ariadne suspeita de que você talvez seja uma dessas pessoas, o porquê eu não sei.
– O que? Ela pensa que eu sou uma guerreira?
– Não, uma feiticeira.
Eu fiquei pasma e de boca aberta com a resposta.
– Eu? Uma feiticeira?
Mirian ergueu as mãos para cima em sinal de rendição.
– Eu só obedeço ordens. Agora vamos, Ariadne e Fedra estão esperando.
Nós chegamos ás portas do salão do trono de Ariadne; eram portas duplas feitas de carvalho e entrelaçadas com videiras, e estavam fechadas.
Mirian ergueu as mãos, depois tornou abaixá-las e olhou para mim antes de dizer.
– Eu quero tentar uma coisa. — Ela se posicionou ao meu lado.- Abra você.
Eu a olhei meio confusa, me dirigi até as portas e as empurrei. Nada a-conteceu.
– As portas só abrem com magia.
Eu olhei para ela bem séria.
– Magia? Você vai mesmo insistir nessa história?
Ela deu de ombros.
– É só para ter certeza. Se você não é uma feiticeira então não tem o que temer.
– Mas eu não sei usar magia!
– Já tentou?
Eu fiquei olhando para Mirian por um bom tempo antes de desistir e me virar para a porta. Era mais fácil acabar com tudo isso pois discutir com ela não tinha lógica, eu sempre acabo perdendo; a persistência dela era uma desgraça na minha vida.
Olhando para a porta eu me concentro só para ela não ficar chamando a minha atenção. Levanto a mão e, me sentindo uma idiota por ter que fazer isso, eu falo para a porta:
– Abra!
Nada aconteceu; virei- me com vontade de matar Mirian por me fazer passar tanta vergonha.
– Viu, eu não sou uma...
Ás minhas costas um grande e estrondoso barulho range e eu me viro. As portas estavam completamente abertas, revelando um enorme salão.
– Foi você que fez isso, não foi Mirian?
– Eu nem movi o dedão do pé.
Ela passou a minha frente e entrou no salão, enquanto isso eu fiquei ali parado, confusa e intrigada. Eu não sou uma feiticeira! Fiquei repetindo para mim mesma. Eu não posso ser uma feiticeira. Eu não sou uma feiti...
– Taylor você vem?
Eu a olhei, assenti e também entrei no salão dos tronos das comandantes do Castelo de Luz.
A sala mais parecia o salão do trono de um rei. O chão era feita de mármore branco polido, o teto parecia o céu á noite, cheio de estrelas e constelações, e era sustentado por imensas colunas de marfim dourado.
No centro do salão, havia dois tronos altos, um feito de ouro e outro feito de prata. Em cada um deles, uma garota estava sentada. No trono de prata, Fedra estava com seus cabelos dourados caídos sobre os ombros; ela usava um vestido de seda branca, nos braços muitas pulseiras reluziam, um colar em formato de lua crescente brilhava em seu pescoço e seus olhos castanhos pare-ciam duas avelãs. Ela me olhou e sorriu.
O trono de ouro era ocupado por uma mulher de, aparentemente, 25 anos de idade; seus olhos eram azuis claros e profundos, de modo que parecia que ela tentava olhar a minha alma; os cabelos dela eram longos e vermelhos como sangue e pareciam esvoaçar ao vento. Ela usava um longo vestido azul es-curo.
Olhei para Fedra e depois para a mulher, que eu presumia que fosse sua irmã mais velha, Ariadne. Elas eram completamente diferentes.
Fedra sorriu para mim novamente e perguntou:
– Esta se perguntando como podemos ser irmãs quando somos tão dife-rentes?
Eu fiquei um pouco intimidada com a facilidade com que ela soube o que eu estava pensando.
– Desculpe.
– Não se desculpe- disse Ariadne; sua voz era doce e delicada, mas decidi-da.- No começo eu também fiquei intrigada com isso; pensava que Fedra havia sido gerada por outras pessoas, e não pelos meus pais.
– Eu pensava o contrario- retrucou Fedra.
Ariadne sorriu para a irmã e depois se virou para mim.
– Fedra e eu somos filhas dos mesmos pais, Pasífae e Minos, mas eu puxei mais o lado materno da família, enquanto que ela puxou o paterno.
– Há... então ta legal.
Ariadne me olhou séria enquanto Fedra se levantava e vinha na minha direção; o trono em que ela se sentava se desfez em névoa branca.
– Quem é você?- me perguntou Ariadne.
– Meu nome é Taylor Sulley.
– E os seus antecedentes? Quem são seus pais?
Olhei para Mirian e para Fedra e depois me voltei para Ariadne.
– Por que o nome dos meus pais importa?
– Somente responda a minha pergunta, senhorita Sulley.
Eu a olhei novamente e falei.
– Meu pai era um arqueólogo grego, Ulisses Sulley.
As três esperaram, mas como eu fiquei quieta, Fedra perguntou:
– E sua mãe?
Eu respirei fundo antes de responder com certa amargura:
– Eu não conheci minha mãe; ela fugiu quanto eu tinha 2 anos de idade, desde então eu nunca mais a vi. Para ser sincera eu nem sei seu nome.
– Seu pai nunca falou dela para você?
– Não!
Ariadne me olhava com intensidade ainda maior. Era intimidador o modo como ela me olhava como se tentasse me desvendar apenas pelo olhar. Fedra também tinha um pouco dessa intensidade no olhar mas a dela era mais suave e Fedra não se deixava descobrir, já Ariadne não estava nem ai para o fato de que as pessoas saibam que ela esta tentando descobrir os seus segredos; ela fazia is-so de modo descarado e sem nenhum resquício de vergonha.
– Para com isso!- eu falei.
Ariadne continuou a me olhar. Ao meu lado Fedra falou:
– Parar com o que?
– Não você; ela- eu apontei para Ariadne.
Fedra olhou para a irmã e depois se voltou para mim.
– Mas o que ela está fazendo?
Eu olhei para ela com raiva e depois para Ariadne.
– Está tentado ler a minha mente!
– Como você sabe disso?- perguntou Mirian.
Eu me vire em sua direção e falei:
– Eu apenas sei.
– Mas como?- perguntou Fedra.- Somente uma feiticeira consegue perce-ber quando outra esta usando os seus poderes mágicos. Você não me disse que era feiticeira. Isso faz todo sentido...
– EU NÃO SOU UMA FEITICEIRA!-eu berrei. -Não sei como eu consigo per-ceber os poderes mágicos dela, mas eu não sou uma feiticeira.
– Como você tem tanta certeza disso?- perguntou Ariadne.
Eu já estava quase pulando no pescoço daquela garota metida a besta.
– Se eu não sei que sou uma feiticeira, como é que você pode saber?
Ariadne riu para mim e disse:
– Senhorita Sulley, eu sou filha uma das mais poderosas bruxas da história da Grécia Antiga; sei reconhecer uma filha da magia quando a vejo. Posso sentir um grande poder dentro de você, o poder de uma feiticeira, quase tão poderoso quanto o de minha mãe.
– Mas que droga!- eu berrei. –Eu já disse que não sou uma feiticeira.
– Acalma-se, Taylor- falou Mirian atrás de mim.
– Não vou me acalmar, Mirian; eu não tenho nenhum poder, não sou na-da disso que vocês estão falando.
– Você tem um grande poder- continuou Ariadne- mas a sua negatividade retrai a sua magia.
– E como posso retrair uma magia que nem sei que tenho?
Fedra me olhou séria e respondeu:
– Se uma feiticeira não usar ou não acreditar em suas habilidades mági-cas, ela perde os seus poderes e torna-se uma mortal comum.
– Ótimo, vou continuar a não usar essa porcaria de magia, talvez assim vocês me deixem em paz...
– Nós a deixaremos em paz com ou sem magia, mas os demônios jamais te abandonaram, ainda mais agora que eles sabem do que você é capaz.
– E do que eu sou capaz?
Fedra olhou para Ariadne, para Mirian e depois me respondeu:
– Aquele lobo que nos atacou no café era Hati, um lobo antigo e poderoso nascido de um dos mais poderosos demônios, Fenrir, um ser gigantesco que, as-sim como o filho, possui a aparecia de um lobo.
– Ta e daí?
– E daí que ele é um ser imortal e você consegui matá-lo...
– Não fui eu!
As três feiticeiras me olharam com expressões confusas e Mirian falou:
– Então quem foi?
– O garoto de olhos verdes por quem você passou.
Ela me olhou com a testa franzida.
– Qual garoto?
Eu olhei para as três individualmente.
– O rapaz que estava me curando; quando você chegou e veio para o meu lado ele desapareceu em uma névoa branca.
Mirian continuou com cara de confusa.
– Taylor não tinha nenhum garoto do seu lado quando eu a amparei.
Eu olhei cada uma das feiticeiras novamente.
– Mas eu vi um garoto...- olhei para cada uma delas e desisti.- Olha eu estava muito sonolenta por conta do veneno, então acho que devo ter imagina-do o garoto.
As três se entreolharam com ar de duvida até que Mirian assentiu para mim e disse:
– O veneno de Hati é alucinógeno, ele nos faz ver coisas que não estão re-almente lá; já ouvi muitas pessoas falarem que tiveram alucinações com uma de suas mordidas...
– Quem por exemplo?- perguntou Ariadne.
Mirian encarou a sua comandante, pasma e Fedra olhou para a sua irmã de cara feia.
– Isso não importa Ariadne; Mirian leve Taylor para conhecer o castelo enquanto eu e minha irmã decidimos o que fazer.
– Você acha que eu sou bicho que tem que esperar decidirem o que irão fazer comigo? Eu quero ir embora.
Mirian comprimiu os lábios.
– Taylor, agora não é seguro para você ficar no mundo mortal; talvez você devesse ficar mais um pouco e ao menos passar mais uma noite aqui...
– Eu não quero, Mirian; essa coisa de demônios e lobos gigantes é coisa de vocês; eu não tenho nada a ver com isso.
– Sulley...- ela me chamou pelo sobrenome pois era isso que sempre fa-zia quando eu estava nervosa.- Aquilo que Fedra falou no café era verdade; Jack esta mesmo desaparecido...
– Eu vou a policia; a policia vai resolver isso.
– A policia humana não pode fazer nada pelo Filho da Escuridão- falou Ariadne.
Eu franzi a testa.
– Filho da Escuridão? O que é isso?
– Jack Brandy pertencia a classe de guerreiros denominados Filhos da Es-curidão, que são os semideuses, filhos dos deuses, que se dedicam a livrar o mundo mortal dos demônios e das criaturas malignas que vagueiam pela Terra. As feiticeiras que se dedicam a mesma causa são denominadas Devotas da Ma-gia.
Olhei para Mirian.
– Você é uma Devota da Magia?
– Sim! Ariadne me nomeou a representante das feiticeiras, assim como me indicou para te proteger pois suspeitava de que você fosse uma de nós.
– Mas eu não sou uma de vocês!
Fedra me olhou séria e disse:
– Faremos um trato então. Você irá participar de uma de nossas seções de treinamento, se não passar nós a levaremos para o mundo dos humanos no-vamente e, se você quiser, apagaremos as suas memórias do Castelo de Luz. Vo- cê aceita?
Pensei no que ela falava por um momento antes de responder.
– Vamos lá então, tentem me transformar em uma feiticeira.
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