Filhos do Olimpo
3 1° Aula Prática de Mitologia Grega
Notas iniciais
Não consegui dormir depois do pesadelo, eu ficava repassando ele na minha cabeça, e ficava me perguntando se aquilo poderia ter algum significado real, e se tivesse, o que aquela voz quis dizer com "a sua mãe é a culpada"? Eu sequer conheço a minha mãe! Além disso, meu pai nunca fala sobre ela, sempre que eu pergunto qualquer coisa sobre ela, ele parece entristecer na hora e não diz uma palavra, eu acho que ele sente saudades dela.. Eu queria muito saber quem é ela, porque que ela nos abandonou... Bem, ficar me perguntando sobre isso também não vai ajudar a achar respostas, mas aquela voz, só de lembrar me arrepio de novo, foi tudo tão real que... Chega! Preciso parar de pensar nisso senão vou enlouquecer.
Levantei da cama, peguei um copo d'água e voltei para o meu quarto, lá eu fechei a porta e peguei meu caderno de desenhos embaixo da cama (eu deixo ele embaixo da cama para que meu pai não veja, é que ele é uma coisa mais.. pessoal) e deixei minha mente flutuar entre as minhas memórias, primeiro eu me lembrei de quando eu era criança e eu e meu pai fazíamos maquetes de prédios famosos, era tão divertido, não sei porque nós paramos de fazer isso.. de repente, meus pensamentos flutuam para o menino, Arthour, e antes que eu percebesse, minhas mãos estavam ágeis a desenha-lo, cada pequeno traço gravado no papel. Quando terminei já era dia, olhei para o relógio, estava marcando 6:10, droga, meu pai vai acordar logo, dou uma última olhada na minha obra recém criada e guardo ela no meu esconderijo, então ouço uma batida na porta, do um salto com o susto.
– Já acordei!! To me arrumando!!! — Ouvi os passos se afastarem pelo corredor. Vesti rapidamente a blusa da escola, eu gosto das cores dela, ela é vermelha e o logotipo é dourado, mas não brilhoso, e visto meu jeans surrado, outra coisa que eu adoro nessa escola, só a blusa do uniforme é obrigatória, embaixo você pode ir de calça, short, se depender eles nem ligam se alguém der de ir de calcinha, desde que esteja com a blusa do uniforme. Boto meu all-star preto e faço um coque solto meio mal feito, está ótimo. Olho no relógio, 6:30, me dirijo para cozinha.
– Bom dia filhinha! Aqui está o seu lanche, eu já preparei. Nós temos que chegar mais cedo hoje.
– Porque? Para compensar o atraso de ontem? — Dou um sorriso bobo. Ele me entrega o lanche e abre a porta sem nem olhar pra mim, nossa, ele tá com pressa mesmo.
– Não, é que o diretor me pediu pra cuidar de duas turmas que não são minhas hoje, e eu não sei qual é o assunto que eu vou ter que dar, mas não se preocupe que eu ainda vou dar aula para você hoje. — Yay.
– Não se preocupe, as crianças é que não vão saber se você está ensinando certo ou errado. Fica tranquilo.
Ele me deu um olhar de repreensão que dizia "é, mas eu não posso ensinar errado", e fomos pro carro.
Chegando na escola, eu olhei o horário de aula, primeira aula, geografia, okay. Entrei na sala e passei os olhos pela sala para ver se eu avistava Arthour em algum lugar, quando o vi, ele estava acenando para mim, eu ia acenar de volta quando ele apontou para uma cadeira na frente dele, não pude evitar um sorriso, me dirigi até a cadeira e sentei sem olhar para ele na cadeira de trás.
– Alguém acordou de bom humor hoje — Disse Arthour. Você não faz ideia, pensei eu.
– O que? Porque? — disse ele. Pera ai, eu disse isso em voz alta!?
– Eu disse isso em voz alta?
– Se com isso você quis dizer, "você não faz ideia" — e fez uma imitação bem ruim da minha voz — então sim. — Me afundei um pouco na cadeira.
– Não é nada, só não tive uma boa noite de sono..
– Não pareceu que não foi nada. — Eu estava considerando contar para ele sobre o meu pesadelo quando o professor Heimound chegou. Eu queria ver a expressão do Arthour, só que como ele estava atrás de mim, não tinha nenhuma maneira de eu fazer isso sem que ele percebesse.
As duas primeiras aulas se passaram e nós não trocamos mais nenhuma palavra enquanto isso. Só faltava mais uma aula para o tão desejado intervalo. A professora havia acabado de entrar na sala quando Arthour cutucou meu ombro.
– Que foi?
– Posso te mostrar uma coisa no intervalo antes que você saia correndo pra cantina?
– Eu não saio correndo pra cantina... E pode.
– Será Que Os Dois Pombinhos Podem Prestar Atenção Na Aula!? — Disse a professora.. a professora cujo nome eu esqueci. Sério, pombinhos, sério mesmo?? Ouvi Arthour rir baixo atrás de mim.
Quando acabou a aula dela, em vez de sairmos pra direita, que é onde o refeitório ficava, fomos pra direita, na direção da saída.
– Eu não vou matar aula com você.
– Realmente... Não é isso o que eu vou te mostrar.
– O.k. então.
Saímos da escola e começamos a dar a volta nela. Comecei a ficar com medo que Arthour fosse algum tipo de pervertido. Apalpei o bolso da minha calça onde eu tinha um spray de pimenta, ele ainda estava lá.
– Aonde você tá me levando?
– Espere e verá.
Eu não tinha escolha a não ser continuar andando. Chegamos na parte de trás da escola e ele parou de andar e ficou olhando para mim com um sorriso sinistro.
– Não estou vendo nada. — Tentei parecer indiferente, mas não sei se consegui.
– Não está vendo nada? Nada mesmo? — O sorriso continuava ali.
– Estou vendo a parede da escola, estou vendo mato do outro lado, estou vendo.. você... estou vendo.... — Não consegui pensar em mais nada. Estava me preparando para pegar o spray quando ele apontou para uma escada exatamente do nosso lado, pintada da mesma cor da parede, como eu não reparei nisso antes!?
– Se fosse uma cobra já tinha te pegado. As damas primeiro. — O sorriso continuava ali, mas agora parecia como ele mesmo de novo, fofo e sincero. Relaxei um pouco, mas achei melhor continuar alerta.
– Obrigada. — Sorri pra ele e comecei a subir as escadas.
Quando cheguei ao fim da escada, pude ver com perfeição a cidade que se estendia a nossa frente, nossa escola fica no topo de um dos vários morros da nossa cidade e em cima do terraço eu conseguia ver tudo, inclusive minha casa, olhei para ela desejando que ela fosse mais próxima da escola. A vista era linda, é engraçado como apesar de morar numa cidade assim, nós nunca paramos para admirá-la. Repentinamente, me dei conta de Arthour me observando.
– E então? O que achou? — Era tudo maravilhoso, mas não consegui me esquecer do fato de só tínhamos nós dois ali.
– Sinceramente, é bem clichê, quero dizer, o cara leva a mocinha para o terraço e faz ela perder o fôlego com a vista e fala pra ela como esse lugar é especial para ele porque ele fica sozinho com seus pensamentos.. Como eu disse, é bem clichê.
– Você tem uma imaginação.. Mas você me disse o que você acha da situação, eu quero saber o que você achou da vista. — Ele falou sem ironia.
– A vista.. a vista é.. — tentei pensar em alguma frase inteligente e sarcástica para responder à sua pergunta mas não consegui pensar em nada, acabei optando pela sinceridade — de tirar o fôlego.. é linda.
– Uh, vejam só quem baixou a guarda — ele falou brincando. Então pareceu hesitar, como se quisesse dizer alguma coisa, mas não soubesse como.
– O que foi? — Falei calmamente.
– Eu sei do seu... passado.. nas outras escolas... a professora falou com a turma para "sermos legais" com você porque você tinha sido expulsa de muitas escolas...
– Aquela vaca, acredita que ela disse que ninguém ia saber disso!? — Falei, interrompendo ele.
– Bem, ela não cumpriu a palavra dela... Mas não é isso o que eu quero dizer... Eu quero dizer que.. Eu te entendo... Eu meio que tenho um.. passado parecido com o seu e... — ele ia continuar quando de repente eu ouvi um estrondo ali em cima do terraço, ele devia ter ouvido também, porque parou de falar. Eu não conseguia saber da onde tinha vindo o barulho, mas com certeza não foi de dentro da escola.
– O que foi isso? — Sussurrei para ele, que me respondeu com um aceno negativo da cabeça, querendo dizer que não sabia.
Comecei a olhar em volta sem conseguir ver nada nem ninguém além de Arthour e umas caixas de ventilação, tudo estava silencioso. Então vejo, logo acima da caixa uma criatura horrenda, parecia uma ave azul com asas, mas com rosto e quadril de mulher, me esqueci completamente de Arthour nesse momento, que ao ver a minha cara se virou lentamente para ver o motivo de tal espanto, aparentemente eu não estava louca, porque ele ficou paralisado ao ver.. o que quer que fosse aquilo.
Antes que eu pudesse me dar conta do que estava acontecendo, a criatura sobrevoou por Arthour e me agarrou com suas garras, e voou para longe, tentei pensar rápido em alguma coisa, qualquer coisa, mas era como se minha mente estivesse anestesiada e as informações só chegassem muito depois do normal, só consegui me dar conta de que nos afastávamos da escola, eu precisava pensar em algum jeito de fazer essa coisa voltar pra lá. De repente ela fez meia volta, estava voltando pra lá, mas minha felicidade durou pouco porque meu segundo pensamento foi que ela estava voltando para buscar Arthour.
Eu precisava pensar em alguma coisa pra parar essa coisa, eu estava muito longe do chão, se ela me soltasse, seria o meu fim, então, como que por milagre eu me lembrei do meu sprayzinho de pimenta no bolso da minha calça, que Deus sabe como, continuava nas minhas costas, estava fácil pegar, o problema era a altura, eu teria que esperar ela chegar bem em cima da escola, quando ela estivesse bem em cima de Arthour, eu teria que fazer ela me soltar para depois conseguir espirrar o spray na cara dela. O plano era ridículo, pior que ridículo, era impossível, mas era meu único plano.
No tempo que eu levei arquitetando meu plano, ela já estava quase em cima de Arthour, peguei o spray e com a outra mão finquei minhas unhas em uma das coxas dela e ouvi um som parecido com o guincho de uma águia, esse era o grito dela, com o susto ela me soltou, fui arrastada pelo chão com força a queda, todos os meus membros arderam com a dor, o spray continuava na minha mão.
Ela tinha pousado bem próximo a mim, aproveitei o fato de que ela ainda estava confusa e me levantei, agora com meu foco todo na criatura quase me esqueci da dor, quase. Agitei o spray e espirrei bem nos olhos dela.
P.O.V — Arthour
O que quer que fosse aquela coisa, ela tinha acabado de jogar Athena no chão. Até aquele momento eu estava paralisado, não tinha conseguido mexer um só dedo, eu já tinha visto umas criaturas assim antes, mas nunca tão de perto e eu definitivamente, nunca tinha visto elas atacarem alguém.
Recuperei meus movimentos na mesma hora em que Athena estava se levantando, eu ia gritar pra ela não chegar perto daquela coisa, quando eu vi uma coisinha na mão dela, spray de pimenta, não é possível que ela esteja querendo matar aquela coisa com um spray de pimenta, ela continuou andando (mancando, na verdade) na direção daquela coisa, bem, era isso mesmo que ela estava pensando, mas aquilo não ia ser o suficiente, mesmo que desse tempo pra gente correr, aquela coisa tinha asas enormes, ela ia conseguir alcançar a gente.
Comecei a procurar qualquer coisa em volta que pudesse machucar aquela coisa de qualquer maneira pior que um spray de pimenta, quando eu achei, bem ao lado de uma caixa de ventilação, um pedaço de aço enferrujado e meio retorcido, mas comprido, fino e pontudo. Corri até ele e o peguei, Athena tinha acabado de espirrar o spray bem nos olhos da coisa, que ao soltar um guincho ainda mais alto que o primeiro fez Athena cair, ou talvez fosse a dor dos machucados, não tinha como saber. De qualquer jeito, aquela provavelmente era minha única chance, a criatura continuava guinchando, atordoada, aproveitei a chance e corri e dei a volta por ela e com toda a minha força consegui fincar o aço bem fundo nas costas dela, ela começou a guinchar mais alto, achei que fosse ficar louco, então ela começou a derreter e soltar bolhas, como se estivesse fervendo, e então o grito cessou e foi como se o chão do terraço tivesse absorvido o líquido que restou dela.
Fiquei um tempo olhando para onde a alguns segundos tinha acabado de estar uma criatura enorme e bizarra que tinha tentado matar a mim e a Athena, fiquei olhando aquele lugar onde agora não havia nem vestígios de que uma criatura tinha acabado de ferver e derreter e foi pra Deus sabe onde. Olhei ao longe, sem conseguir entender como ninguém tinha ouvido o guincho ensurdecedor daquela coisa, eu já sabia que ninguém via elas, mas foi tão alto que é quase impossível acreditar que ninguém ouviu aquilo.
Então vi Athena, sem me dar conta de que ela tinha feito muito mais do que ver aquilo, ela estava caída no chão, corri até ela, seus olhos estavam fechados e só agora eu me dei conta de como seus machucados pareciam graves, ajoelhei ao seu lado e segurei sua cabeça com cuidado, com medo de que Athena também pudesse ter machucado ela. Lentamente, ela abriu os olhos, uma onda de alívio atravessou o meu corpo.
– Está bem. Está tudo bem. — Disse quase chorando. Não tinha percebido, mas no fundo, eu achava que ela pudesse ter morrido.
– Harpia. — Disse ela.
– O que?
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