Filhos de Aetheris - A luz e a Sombra
5 Invocação e as Ordens Antigas
A alvorada em Ael’Arkynis tinha som.
Um canto leve, quase imperceptível, ecoava pelos corredores encantados assim que o primeiro raio de sol tocava os vitrais da cúpula principal. Era como se a própria academia respirasse conhecimento. Como se a magia não fosse apenas ensinada — mas sentida, cultivada, despertada.
Naquela manhã, os sinos flutuantes anunciaram uma aula especial: Invocação Essencial e os Vínculos com os Ancestrais. Era rara — restrita a alunos com afinidade elevada com mana puro.
E, por algum motivo, meu nome estava na lista.
Kaelion também.
Claro.
Enquanto subíamos as escadas para a Sala da Lira Eterna — uma antiga câmara com teto de cristal e paredes vivas feitas de pedra-coral — ele caminhava ao meu lado em silêncio. Por mais que sua presença sempre fosse marcada por calor, havia algo contido nele hoje. Como se... estivesse segurando as próprias palavras.
— Você também sonha com a floresta? — ele perguntou, do nada.
Meu corpo parou.
— Que floresta?
— Myrralis. O altar. Desde aquele dia… eu vejo uma mulher. De olhos prateados. Ela diz meu nome como se já me conhecesse. E o seu também.
Fiquei em silêncio.
Eu vi essa mulher também.
Mas a diferença era que… ela me chamava de filha.
— Talvez não seja só um sonho — murmurei. — Talvez seja o chamado.
Ele me olhou com atenção.
Não provocação. Não sarcasmo.
Apenas… verdade.
Entramos na sala em silêncio.
A Sala da Lira Eterna era construída sobre um ponto de intersecção mágica: três linhas de mana cruzavam-se ali, criando uma fonte de poder bruto. Por isso, o espaço pulsava como um coração vivo. Havia círculos rúnicos flutuando no teto, e estátuas antigas de cada um dos seis deuses cercavam o altar central.
No centro, Mestre Aldharyn nos esperava. Ele era diferente de todos os outros professores — parecia mais um espírito preso em corpo físico: olhos como vidro âmbar, cabelos prateados caindo até a cintura, e uma presença que fazia o ar se curvar.
— Hoje, vocês conhecerão os Ecos — ele disse. — Fragmentos de consciências que vivem entre mundos. Ecos ancestrais que respondem ao chamado de invocadores verdadeiros.
O ritual começou.
Fomos divididos em duplas.
Kaelion e eu.
É claro.
O altar acendeu com luz dourada e prateada quando tocamos juntos o cristal central.
— Escolham o símbolo de origem. O elo ancestral que dorme dentro de vocês — disse Aldharyn.
Kaelion ergueu a mão sem hesitar. Da palma, surgiu um glifo: o antigo selo solar — um círculo envolto em chamas vivas. Brilhava com intensidade.
Olhei para minhas mãos e, sem saber como, tracei uma runa no ar.
Não precisei pensar. Ela simplesmente veio.
Uma lua dupla entrelaçada em espiral com estrelas, cercada de neblina.
Uma runa esquecida. Primal.
A sala inteira se calou.
O altar explodiu em luz.
Fomos jogados para trás, mas nossas mãos se tocaram brevemente no ar.
E o mundo... mudou.
Por um segundo, não estávamos mais em Ael’Arkynis.
Estávamos em um lugar entre mundos.
Um campo de estrelas líquidas.
Acima de nós, um céu reverso — escuro, girando como se o tempo não existisse ali.
E no centro, dois tronos vazios. Um de luz. Outro de sombra.
Uma voz feminina preencheu tudo:
“Despertam. O Sol e a Lua reencontram o Fio. Mas o Tear ainda sangra…”Kaelion tentou falar, mas a visão se desfez como fumaça ao vento.
Caímos de joelhos de volta à sala. Ofegantes. Tremendo.
Todos olhavam para nós como se fôssemos aberrações.
— O que… foi isso? — sussurrei, ainda tonta.
Aldharyn se aproximou lentamente, olhando de cima a baixo como se tentasse lembrar de algo esquecido há séculos.
— Não foi uma invocação comum. Foi um Reconhecimento. Um chamado das Ordens Antigas.
Silêncio.
— Muito antes das seis ordens que conhecemos hoje, existiram duas forças primordiais: Luxuris e Umbrae. A Ordem da Criação e a Ordem da Reversão. Elas sustentavam o equilíbrio antes mesmo dos deuses adormecerem. E agora… despertam em vocês.
Kaelion passou a mão pelos cabelos, ainda suado.
— Isso é um peso ou um aviso?
— Ambos — disse Aldharyn. — Vocês foram marcados. E isso, jovens, raramente termina em paz.
Fomos dispensados mais cedo.
Mas antes de sair da sala, vi uma das estátuas antigas — a de Vita — mover discretamente o rosto para me olhar.
Naquela noite, as torres estavam inquietas. O grimório registrava sozinha as runas que surgiram no ritual. E o cajado... sussurrava. Como se soubesse mais do que dizia.
Na lareira, Kaelion mexia nas chamas com uma adaga solar, calado.
Eu me aproximei devagar.
— Estamos mesmo sozinhos nisso?
— Não. Mas somos os únicos que ainda não desistiram de entender.
Me sentei ao seu lado. As chamas dançavam no silêncio entre nós. Pela primeira vez, não parecia desconfortável.
Ele se virou para mim.
— Quando isso tudo estourar… você vai estar do meu lado?
— Se você prometer não tentar me salvar.
— Prometo. Se você prometer não morrer primeiro.
— Fechado.
E então, pela primeira vez…
Ele sorriu. Sincero.
E eu percebi que, mesmo entre os deuses adormecidos e o mundo à beira de despertar, havia algo vivo entre nós dois.
Algo que nenhum ritual poderia prever.
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