Filhos de Aetheris - A luz e a Sombra
1 A Chegada
A carruagem arcana cortava os céus sobre um manto de nuvens alaranjadas, como se o próprio horizonte estivesse queimando em luz. O céu de Aetheris era vasto, eterno, e naquela manhã, parecia me observar.
Sentada sozinha no interior encantado do veículo, eu apertava o tecido escuro que envolvia meu cajado. Sentia seu calor pulsar como um segundo coração, oculto sob a seda negra. Um artefato misterioso, descoberto por acaso — ou talvez destino — durante uma das cerimônias lunares em Lunaris. Desde então, ele se recusava a responder a qualquer outra mão além da minha.
Fechei os olhos.
Respirar era difícil. O ar ali era denso, carregado de mana. E, de alguma forma, eu sabia que ainda não era nada comparado ao que me aguardava.
Ael’Arkynis.
A lendária academia mágica construída no ponto de maior convergência mágica do mundo — onde as linhas de mana dos seis grandes deuses se entrelaçavam. Onde os filhos do impossível treinavam para proteger (ou perturbar) o delicado equilíbrio do mundo.
E eu… era só uma garota da lua.
Ou, pelo menos, era o que todos pensavam.
— Chegando ao Portão Celeste em três... dois... — murmurou o cocheiro, uma criatura idosa de pele azul-acinzentada e chifres dourados que se curvavam como galhos antigos. — Está nervosa, pequena Noctis?
— Só um pouco — respondi, mantendo a voz firme.
— Você carrega algo que não pertence a esse plano. A Torre vai sentir.
Antes que eu pudesse responder, as nuvens se abriram, revelando a Ponte Prismar, uma estrutura translúcida suspensa sobre o vazio. E além dela…
Ael’Arkynis.
Meu coração parou.
Torres flutuantes, conectadas por pontes vivas, giravam lentamente em órbita como satélites encantados. Jardins suspensos se estendiam entre as estruturas, com árvores de pétalas que brilhavam como cristal líquido. As torres maiores — provavelmente as residências das Ordens — dançavam no ar em harmonia com obeliscos encantados e esferas solares.
No centro de tudo, erguia-se o Salão Prismático, cuja cúpula projetava reflexos das linhas de mana como constelações vivas.
— Não se impressione tanto — disse o cocheiro. — Este lugar só parece belo para quem ainda não sentiu o preço da magia.
Desci da carruagem, sentindo os pés tocarem o chão pela primeira vez desde Lunaris. O solo vibrava. Literalmente. A energia mágica que fluía ali era intensa, quase selvagem. Como se o próprio mundo estivesse acordado, ciente de cada passo que eu dava.
Estudantes de diferentes idades caminhavam pelos jardins — alguns levitavam grimórios abertos, outros treinavam invocações com foco absoluto. Uniformes das seis Ordens dançavam ao vento: vermelho flamejante para Ignis, verde profundo para Terrae, azul-escuro para Mareal, dourado para Solari, prateado para Noctis, e branco transparente para Aeris.
Mas ninguém usava o que eu vestia.
Minha capa era de Lunaris. Prateada, forrada com poeira estelar, herança das Sacerdotisas da minha linhagem.
E eu era uma anômala.
Sem Ordem. Sem símbolo. Sem lugar fixo.
Subitamente, uma presença me atingiu como uma onda de calor.
No alto das escadarias de uma torre isolada — mais alta que todas as outras, afastada, e feita de pedra escura e cristal âmbar — estava ele.
Kaelion.
Pele morena-dourada como bronze sob o sol. Cabelos curtos, bagunçados, com mechas que pareciam feitas de luz sólida. Duas espadas cruzadas nas costas. E olhos…
…como um eclipse solar.
Nossos olhares se cruzaram.
Algo no fundo do meu estômago se revirou. Não foi medo. Nem desejo. Foi… reconhecimento. Como se uma parte de mim, que sempre esteve adormecida, tivesse aberto os olhos.
— Então você é a nova aberração — ele disse, descendo um degrau, a voz rouca e firme. — Esperava alguém mais… ameaçadora.
— E eu esperava que o Filho do Sol fosse menos infantil.
Seu olhar estreitou por um momento. E então ele sorriu. Um sorriso torto. Quente. Quase perigoso.
— Perfeito. Vamos nos divertir.
Ele virou-se e entrou na torre. Eu o segui em silêncio, carregando meu cajado e tentando não tropeçar no redemoinho de sensações dentro de mim.
A Torre dos Anômalos era feita de mana bruto. Sentia as paredes respirarem comigo. Luzes se acendiam quando eu passava. O ar era mais denso, como se ali o tempo dobrasse sobre si mesmo.
— Nossos quartos são separados — disse ele, apontando para o corredor oposto. — Mas as áreas comuns são compartilhadas. Inclusive os pesadelos. Boa sorte.
Ele desapareceu atrás de uma porta encantada, deixando-me sozinha no saguão. Por um momento, fiquei ali. Silêncio. Um leve zumbido nas runas do chão.
E então o cajado pulsou na minha mão.
Uma mensagem.
O mesmo som que ouvi quando o encontrei.
Um sussurro ancestral.
Como se a lua me dissesse que esse lugar… era o começo.
De quê, exatamente, eu ainda não sabia.
Mas senti nos ossos:
nada jamais seria igual.
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