Filhos da noite 2 – Sozinha

13 Capítulo 12 - ME CONTE A VERDADE!


Vesti uma calça de moletom preta com detalhes brancos nas pernas, regata com ombros largos preta com detalhes amarelo. Calcei meu tênis Nike e peguei um boné cinza com detalhes branco, preto e amarelo.

Eu começaria a fazer ginástica artística hoje depois da aula. E estava quente.

— Nós vamos para Old Orchard Street. — Nora avisou assim que entrei na cozinha.

— Nós quem?

— Vee e Rixon vão ir. E ela nos convidou para ir.

— Foi ela que ficou ligando a manhã toda?

— Você viu?

— Sim. Tinha uma chamada no meu celular.

— Por que não atendeu?

— Por que eu iria xinga-la por estar ligando as 6 da manhã. Então eu ficaria como a má da história. Ignorei e coloquei o celular no modo silencioso.

— Ok. Você vai não é?

— Não posso. Tenho ginástica artística.

— Vai mesmo fazer isso?

— É claro que sim. É a primeira vez que a escola tem isso. E eu quero participar.

— Não me deixa ir sozinha.

— Me desculpe, mas vai ficar para a próxima. — Falei.

Quando sai da escola encontrei com Ben no estacionamento.

Aquilo já estava virando rotina. Ou estava o Ben. Ou estava o Tyler. Ou o Patch.

— Oi. — Falei.

— Vamos lá para casa?

— Estou cansada. — Respondi.

— Eu sei. Você está fazendo ginástica artística agora. — Ele murmurou. — Vamos lá. Posso passar uma pomada em suas mãos. E nós podemos conversar.

— Eu não tenho nada para conversar, Ben.

— Você tinha aquele dia em que foi no meu apartamento. Pode me contar o que tiver que contar.

— Não tenho nada para conversar. Nos vemos por ai.

— Vamos conversar. — Ele pediu.

Fiz sinal para ele fazer a volta no carro. Eu não dirigi para o apartamento dele, eu dirigi para a pista de skate. Meu skate ainda estava no porta-malas.

Desci do carro e peguei o skate, quando fechei o porta-malas Ben desceu do carro.

— Vamos dar uma volta. — Falei caminhando na direção das pessoas.

— Por que quer ficar aqui no meio das pessoas?

— É mais seguro.

— Seguro?

— Sim. — Ele sorriu e se aproximou de mim.

— Seguro por que não estamos sozinhos?

— Nós nunca estamos realmente sozinhos. — Resmunguei e ele estalou a língua.

Nos sentamos em um banco.

— O que tem para me falar?

— É sobre Lillity. Você como Anjo do Sr. deve saber quem ela é. — Ele ficou me encarando. — Há uma remota chance de eu ser filha dela?

— O termo Filhos de Lillity vem do fato de você ter magia no sangue. Ela é uma bruxa.

— E também uma succubus.

— Você não tirou nada de mim. — Ele sorriu. — Além é claro de...

— Shiii. — Falei o calando.

Eu não queria ouvir. Não precisava ouvir.

— Isso não importa. O que eu quero saber. A minha vida foi uma mentira?

— Eu não tenho como saber Nikki.

— É claro que você tem. Você sabe toda a minha árvore genealógica.

— Na verdade não sei. Você ser uma reencarnação não quer dizer que você nasça na mesma família de sangue da outra.

— Eu sei que sou filha de sangue deles. Alguém da minha família é um Filho de Lillity.

— Sim.

— Você poderia descobrir quem?

— Posso tentar, mas minha relação com os Arcanjos não anda das melhores.

— Eu imaginei. — Arrumei o boné na cabeça. — Eu não tenho a quem recorrer. Na verdade, conversei com Viktor o caseiro da fazenda, foi ele que me contou sobre Lillity. Mas não quis perguntar mais.

— Viktor?

— Ele é o pai do Tyler.

— Interessante essa informação.

— Não começa. Tyler é um bom amigo.

— Claro. Para você. Eu tenho certeza que ele quer ser mais que isso.

— Acho que ainda conta o que eu quero.

— E o que você quer? — Ele se aproximou e eu recuei.

— Vou dar uma volta. Daqui a pouco eu volto.

Levantei e peguei o skate, joguei meu boné para Ben e corri para a rampa. Algumas pessoas me cumprimentaram e eu sorri antes de subir no skate.

Fiz algumas manobras depois desci e fui até Ben que estava observando do seu lugar.

— Está na hora de ir.

— Então é assim. Você me chama para sair só para tirar informações de mim e pedir um favor?

— Sim.

— E eu não ganho nada em troca?

— Uma carona de volta serve?

— Você sabe que eu quero mais que uma carona, Nicolle. — Ele respondeu segurando meu pulso.

Minha mente foi para outro lado. Eu estava correndo. Correndo desesperadamente na floresta. Atrás de mim eu sabia que tinha alguém.

E eu sabia que esse alguém era Ben.

Desta vez não era um sonho. Era uma lembrança de Ben. Era a realidade.

Recuei arregalando os olhos.

— O que você viu? — Ele perguntou se aproximando.

— Você. — Falei. — Você tentou me matar? — Perguntei e vi seus olhos ficarem arregalados. — Você me matou não é?

— Nikki....

— Conte a verdade! — Exigi sentindo a raiva me consumir. — Conte a verdade!

— Se acalme. — Ele pediu colocando a mão em cima da minha mão onde magia verde estava brilhando.

— Não encosta em mim! — Gritei.

— Eu sinto muito. — Ele falou.

— Você mentiu!

— Eu não consegui contar a verdade. Eu te procurei todos esses anos sabendo que um dia você reencarnaria de novo. E eu poderia compensar o mal que eu fiz nas suas duas outras vidas.

— Você me matou nas duas vezes?

— Não. — Ele balançou a cabeça e tentou me tocar, mas eu recuei. — Eu... Na primeira vez foram os arcanjos. Eles te mataram. Na segunda... Eu te procurei. sabia que um dia você reencarnaria. Você tem a marca.

— Que marca? — Perguntei.

— Essa que você tatuou para esconder.

Eu ia perguntar como ele sabia disso, mas ele me conhecia melhor até que eu. Sim eu tinha uma marca de nascença nas costas. E outra mais a abaixo. Foi por isso que tatuei as costas. Para cobri-las.

— A marca da nuca é a Marca dos Reencarnados. Dificilmente alguém nasce assim. Mas você nasceu. Raramente uma pessoa reencarna com o mesmo rosto, mas você sim por que é marcada. A marca mais a abaixo é uma cicatriz. A cicatriz da sua morte. Foi eu. Eu sinto muito. Eu sabia que não poderia ficar com você. Fiquei obcecado. Louco só por saber que um dia você morreria.

— E então me matou?

— Isso foi no passado. Foi mais de 100 anos atrás.

— E acha que isso pode ser apagado do dia para a noite? Quem me garante que você não irá fazer o mesmo?

— Por que eu te amo.

— Antes não amava?

— É diferente agora, Nicolle. Tudo é diferente agora. Eu sou diferente agora.

— Você é um anjo.

— Não. — Ele balançou a cabeça e estalou a língua. — Eu vivi milênios de anos com a sua morte me atormentando dia sim e dia não. Eu queria que você vivesse nesta vida como já viveu em várias outras. Como eu deixei você viver em todas as outras. Mas eu não resisti. Eu não poderia deixa-la morrer desta vez. E também não posso ficar nos bastidores vendo você casar e ter filhos com outro. Não posso. Eu te amo Nicolle. Desta vez eu quero você. Mais que tudo nessa vida. Demorei muito para reencontra-la e agora não quero perde-la. Nunca mais.

— Eu sinto muito, Ben. — Murmurei antes de me afastar.

A minha cabeça parecia estar virando.

Ele havia me matado. Ele dizia me amar, mas no passado me matou.

Eu não poderia aceitar isso. Não poderia ficar com ele deste jeito. Sabendo de tudo isso.

Não conseguia.

Quando estacionei o carro em casa me surpreendi por ver o jipe de Patch ali. Franzi a testa e me concentrei nos pensamentos dentro da casa.

Nora estava sozinha.

Desci do carro e caminhei para a casa. Parecia que eu estava me arrastando. Eu queria chorar. Na verdade eu queria morrer. Mas eu sabia que não poderia me entregar agora. Não podia dar esse gosto aos Arcanjos e até mesmo ao Ben.

Entrei na casa e segui para o quarto de Nora.

— Por que o jipe está lá embaixo?

— O carro da Vee ficou preso. Ela estacionou em uma vaga proibida. Eu roubei o carro do Patch.

— Você o que? O que aconteceu com a Nora certinha que eu conheci? Você pirou?

— Você sabe quem é o Mão Negra?

— Não. Na verdade preciso falar com... — Me calei. — Eu não posso falar com o Ben.

— O que aconteceu?

— Não é nada demais. O que você descobriu sobre o Mão Negra?

— Rixon me disse que Patch é o Mão Negra.

— O que? — Perguntei. — Não. Olha, eu não confio no Rixon.

— Mas confia no Patch.

— Eu acho ele mais verdadeiro que Rixon. Ben tem nojo do Rixon. Já notou que você dificilmente os vê juntos?

— Sim, mas... Acho que pode ser verdade isso. Patch queria me matar. Por que não mataria meu pai?

— Nora... Eu sinto muito. Por que nossa vida é tão ferrada? — Perguntei.

— O que aconteceu afinal?

— Ben e eu saímos hoje só para conversarmos. Mas nossa conversa acabou mal.

— O que aconteceu?

— Descobri que ele me matou no passado. É estranho. Mas você sabe das minhas reencarnações. E... Ele me matou. Eu... Nora eu não sei o que pensar ou o que fazer.

— Eu sinto muito. — Ela me abraçou.

Uma sentia a dor da outra. E sentia a sua própria dor.

Eu não conseguia acreditar no rumo que minha vida tinha tomado. E não conseguia acreditar em tudo que eu havia descoberto.

Era surreal. Eu parecia estar em outra realidade em que nada fazia sentido. Eu devia estar destinada a ter uma vida miserável mesmo.