Filhos da Noite

16 Capitulo 16 - A Casa do Senhor.


[Archie – Igreja de São Tiago]

— Vocês provavelmente não serão os responsáveis por isso, contudo, é importante que saibam e entendam o processo de abençoar uma arma. – Explicou o padre com o grimório dos caçadores em mãos. – Acredito que já estão familiarizados com essa aqui. – Ele abriu a página

onde estava o chicote de Alexander.

— Provavelmente a arma mais velha e mais utilizada da congregação. – Maria falou. – Muitos foram abençoados e consagrados no vaticano, dessa forma teríamos o maior número possível de caçadores trocando a defesa pelo ataque na ofensiva contra o mal.

— Sim, entretanto, essa arma em especial teve muitas, muitas mãos trabalhando nela. – Ele apontou para o chicote da página novamente e depois continuou a folhear. – Sabem o motivo dos caçadores originalmente optarem pelo chicote?

— Maleabilidade, adaptabilidade, alcance, controle da área, o movimento serpenteante, o fator de melhoria continua...

— Nerd. – Maria me interrompeu.

— E não errou. – O padre concluiu. – Exatamente, há uma variedade de fatores no uso do chicote como arma principal para os caçadores, claro que a tradição se perdeu com o tempo e os caçadores foram se adaptando e aprimorando, tanto as armas quanto o processo de eliminar vampiros, seja na Asia onde o uso de lâminas se tornou mais forte, na América onde os caçadores migraram completamente para o uso relativamente inútil de armas de fogo e se separaram completamente da igreja e da parte honrosa da morte. – Ele suspirou. – Por que armas de fogo não são tão eficazes?

— Munição, modo de uso e a impessoalidade. – Comecei. – Munição consagrada de verdade é complicada de fazer, o que levou eles a se adaptarem com outras exageradas formas de usar projéteis, tentando combinar várias fraquezas diferentes de vampiros e demônios em cada capsula e uma arma de fogo seria inútil ao ser consagrada, já que a consagração estaria nela e não nas balas que realmente vão atingir o inimigo. – Falei.

— Fora o fato delas não terem uma conexão real com o usuário, não funcionam como as armas da congregação, feitas para cada caçador, que utiliza não apenas a própria habilidade, mas, magias antigas, que estão no próprio sangue de cada família de caçadores. – Maria encerrou com um sorriso vitorioso.

— Exato. – Ele concluiu feliz. – Foi Adrienne quem lhes mostrou a teoria certo? – Confirmamos. – Minha melhor aluna e orgulho pessoal.

— Agora o senhor está sendo nostálgico. – Maria brincou e passou para a próxima página. – Essa é a maior arma já criada pela congregação. – Era uma ilustração da ceifadora, a arma que matou drácula.

— Indestrutível, sagrada, imbuída com antigos encantamentos para cumprir um único propósito – Disse o Padre enquanto tocava o desenho. – Eliminar Dracula e impedir a sua ressureição. Somos gratos pelos feitos de Edgar Belmont que eliminou o Principe das Trevas.

— Bom, a ceifadora não foi o único fator determinante na batalha. – Pontuei.

— Exatamente, pelo menos nos registros da congregação, foram anos até o plano de ataque ficar pronto. – Continuou Maria. – A completa preparação do local da batalha, todo o terreno convergindo para um combate onde Dracula não pudesse utilizar seus maiores poderes, não fosse capaz de fugir mudando de forma e ficasse incapaz de chamar suas tropas ou auxílio.

— Preparação é essencial como ambos já sabem! – Disse o padre Lucas sorrindo após a conclusão. E Então puxou alguns pergaminhos das prateleiras. – Mesmo um ambiente mundano e distante de uma igreja, pode ser utilizado a favor de um caçador no campo de batalha.

— Mas, depende do vampiro. – Cortei-o. – Não dá pra prender um vampiro numa “caixa”, mesmo que tudo esteja cercado, ele ainda vai conseguir usar seus poderes. O que foi feito para o Dracula foi uma super exceção montada.

— Correto! – Respondeu sem se incomodar. – Eles ainda podem usar os poderes, mas, agora estarão vulneráveis, o mesmo acontece se você cercar o local que os vampiros estiverem com sal, hóstias ou se conseguir preencher mesmo que minimamente o local com água benta... – Ele suspirou. – Os caçadores foram se tornando muito mais criativos através dos séculos e – Ele então puxou um pergaminho, havia o desenho da cruz sagrada e algumas palavras em latim em sua volta. Parecia que a tinta já seca estava pronta para sair do pergaminho e atacar, tinha energia ali. – A igreja também. Esses pergaminhos foram criados especialmente para nos defender das forças das trevas.

— E já foram testados? – Maria questionou.

— Algumas vezes. – Respondeu o ele. – Não é surpresa para vocês que vampiros dificilmente atacam igrejas e nós, padres, não estamos sempre no local onde há um combate direto.

— Por questões logicas... – Apontei o local. – Sua vantagem literalmente está aqui e nos terrenos ao redor.

— Esperto. – Respondeu sorrindo. – Foi bom tocar no assunto, acho que posso mostrar a vocês dois como fortificar e formar alguns símbolos sagrados externos.

Teríamos saído da Igreja se alguém ou melhor, alguma coisa, não tivesse batido a porta, logo em seguida entrado. Aparentemente um homem, aos olhos normais, um homem não muito velho, meio pálido, com algumas veias saltadas no rosto e o cabelo desgrenhado. Para nós três que tínhamos ciência do que era, um vampiro, recém transformado, não mais que uma semana da própria mordida e possivelmente ainda sem se alimentar.

— Olá padre. – Ele sorriu sem medo de mostrar as presas. – Vejo que está com meu prêmio. – Ele apontou para mim.

— Nada que temos aqui lhe pertence. – O padre ficou a nossa frente com ambos os braços estendidos para os lados. – Quem o enviou? Revele e serei rápido em livrá-lo dessa maldição.

— Como se você fosse saber. – O vampiro deu mais três passos antes de ficar estático na nossa frente.

— Não tem poderes para a igreja eliminar e ao mesmo tempo não tem forças para resistir a cruz sagrada. – O padre então pegou seu aspersório e lançou três vezes o liquido contra o a criatura.

— ÁAAHHHHH – A mistura de grito com rugido de um vampiro pequeno incomodava os ouvidos e sua pele, assim como a de um humano queimava, com cada gotícula de água benta tocando sua pele, logo o padre se aproximou correndo dele.

— Eu agora livro-te dessa maldição hedionda! – Declarou o sacerdote antes de tocar a cruz no peito do vampiro. Eu não imaginava que aulas de teoria da caça com um padre chegariam ao momento de ver um vampiro entrar em combustão.

— Padre! – Chamei sua atenção enquanto corria e fechava a porta. – Tem mais lá fora. – Apontei as janelas, Maria já estava fechando algumas.

— O que eles querem aqui. – Ele apenas questionou e foi para trás do altar, retirando um Jarro dali. – Maria por favor. – Ele entregou o jarro para ela. – Isso deve ser salvo e mantido longe de vampiros, vocês vão precisar sair pelo porão. – Falou arrastando o altar, revelando a passagem. – Sigam os tuneis certos, estão marcados. vão até a congregação, informem quem estiver lá que precisam ter rapidez e vir aqui.

— E o senhor? Não vem... – Maria não completou a frase quando uma bola de fogo bateu contra a igreja, havia uma vampira voando, literalmente no ar e com asas lá fora. – Mas, que...

— Eu ficarei aqui e defenderei a casa de Deus. – Respondeu convicto. – Eles não irão entrar tão facilmente e se entrarem, eu estou pronto para enfrenta-los.

— Padre não podemos te deixar sozinho. – Argumentei.

— Podem e vão! As nossas chances de vitória estão na ação de vocês. – Apontou novamente a passagem. – É o momento de agirem. Leve isso para eles Archibald! – ele entregou o grimório para mim. – Por favor, vivam.

Mais bolas de fogo acertavam a igreja, entretanto, ainda não conseguiam atingir as paredes, havia um escudo, obra de magia com certeza, por enquanto ele não havia sido atravessado, mas, não seria eterno enquanto os ataques continuassem.

— Vamos Maria. – Chamei-a para a passagem, deixando que entrasse antes. – Não morra senhor.

— Não planejo meu jovem. – Respondeu ele com um sorriso calmo enquanto fechava a entrada atrás de nós.

— Corre! – Falei e instintivamente e disparamos para garantir o reforço necessário.

[Lilian – Igreja de São Tiago]

Era chegada a hora do primeiro movimento. Os vampiros que Maximilian enviou já estavam preparados e mais um vampiro adicionado às pressas no conjunto, algumas semanas de busca após o encontro com os Belmont e voíla, havia encontrado exatamente o garoto, e ele serviria bem para o início dessa caçada e em breve os outros dois viriam também.
Parte um do ataque, anunciar minuciosamente a nossa presença usando o novo soldado descartável, havia sido um sucesso, eu já sentia que era um local sacro, contudo, era importante ver o quanto. Parte dois, enfraquecer o escudo e assustar quem estivesse lá dentro e então invadir, mas, dou credito a quem criou o escudo, estava aguentando muito bem.

— Lady Lilian. – Um dos vampiros chamou do solo. – Nós prec... – Ele caiu de joelhos, claramente sentindo dor, nenhum projetil foi disparado, eu teria visto e também não havia magia no ar.

— Vapor! – Deduzi quando uma fina e baixa neblina se formava no solo. – Esperto, vapor de água benta.

Voei baixo algumas vezes para o movimento do ar dissipar e também para lançar mais fogo contra a construção. Mais quatro bolas de fogo concentradas foram exatamente o que eu precisava para aquele escudo rachar e começar a soltar seus estilhaços mágicos.
Os vampiros no solo, infelizmente já não tinham mais muito tempo, eu sentia os corpos enfraquecendo com o ambiente e os demais fatores ao nosso redor. Eu desci e me preparei a frente da Igreja, uma última bola de fogo, com metade das forças anteriores foi o suficiente para quebrar de vez o que sobrou do escudo e a porta do local.

— Finalmente veio nos receber Padre! – Ironicamente reverenciei o homem a minha frente. – Já pode entregar o que vim buscar e sua morte será rápida.

— Eu não sei o que vieram buscar. Mas, não há nada nessa igreja para vocês – Ótimo, um padre convicto e honrado.

— Tragam ele pra mim. – Ordenei e o trio avançou contra o senhor.

O primeiro vampiro rapidamente foi tocado no peito pela cruz sagrada, sendo obrigado a saltar para tras e evitar a obliteração. Os outros dois foram impedidos de avançar pelo aspersório do humano.
Mais uma vez eles avançaram, aquele padre não era idiota, ele aproveitou os segundos para confundir a atenção dos três com sal, e então matou o primeiro deles com a estaca de madeira, uma perfuração direta no coração, um voltou para o meu lado, o outro arriscou atacar e conseguiu uma aproximação boa, até tentou morder o velho, resultando na dor excruciante de ter tocado as hóstias que o padre tinha “coladas” ao pescoço, sendo obrigado a recuar.

— Vamos. – Falei ao que me acompanhava, o padre tentou usar o aspersório, as gotas da água sagrada apenas tocaram minhas asas, causando um leve desconforto. Ele então mudou o foco para os vampiros que agora atacam pelas laterais, distração essa que me deu a oportunidade de segurá-lo pelo pescoço. – Deveria ter se rendido. – Soquei-o no estomago, forte o suficiente para que se ajoelha-se e os outros vampiros o imobilizassem. – Vamos conversar.

— Não tenho nada a dizer para você. – Respondeu rápido.

— Tem sim senhor! – Segurei em seu queixo. – Onde estão os Belmonts?

— Belmonts? – Ele me olhou confuso. – Aahh você é francesa imagino... As belas montanhas não estão na Inglaterra senhorita. – Passei minhas garras em seu rosto, sangue já pingava, desconcentrando a dupla de vampiros.

— Não brinque comigo Padre. – Respondi. – Você vai morrer e sua igreja vai queimar. Mas, antes vai me dar o que eu quero!

— A única coisa que posso lhe dar é um fim digno. – Quando ele disse essas palavras os anéis em seus dedos explodiram, água sagrada e sal direto no rosto dos vampiros, em seguida uma estaca para cada um deles.

— Seu... – Ele colocou uma estaca no meu peito, essa de prata. – Velho desgraçado. – Falei tirando-a do meu peito, ele tentou a cruz comigo, sem sucesso também. – Desculpe, não tem efeito sobre mim. – Respondi sorrindo e vendo as queimaduras que haviam se formado nas suas mãos.

— Impossível. – Falou ele voltando à estaca, agora em minha barriga. – O que é você? – Ele estava chocado, era sempre engraçado ver o olhar que faziam para os que não entendem.

— Eu sou muito mais que um simples vampiro Padre! – Agora um corte em sua barriga, no mesmo local que havia me atacado, mas, no caso dele o sangue não iria parar. – Tem mais alguns minutos velho. Que tal me ajudar logo.

— Eu jamais... – Ele tinha dificuldade para falar e respirar com a dor. – Os trairia.

— Velho insolente! – Bati sua cabeça no batente da recém destruída porta. – Eu irei descobrir! – toquei o sangue que saía de seu corpo e provei, o homem sacro sabia esconder as memórias e não era fácil descobrir nada ali além do pouco das últimas semanas. – Que lindo, você se importa com as crianças e especialmente com uma garota Belmont! – Ironizei jogando-o com força no chão. – Farei questão de que saibam que os matei com seu auxílio!

— Voc... – O Ar e as palavras fugiam dele. – Crian... ças.

— O que disse? Que tal falar um pouco mais alto? – Virei-o para cima com os pés. – Isso foi divertido. Declarei pronta para pisar em seu rosto, contudo, o destino não quis assim.

Faziam anos, anos que eu não experimentava a dor, poucas coisas ou seres nesse mundo realmente conseguiriam me ferir ou causar incomodo. E entre essas coisas, estão os malditos chicotes consagrados da congregação, um presente do próprio velho babão do vaticano para trazer sofrimento aos vampiros. Um golpe direto no meu rosto, eu senti minha energia se esforçar pra curar o ferimento rapidamente.

— Por que não ataca alguém realmente pronto para você? – Era ele, o Belmont ousado que deixou um recado pra mim. – Eu esperei você aparecer por dias. – Declarou puxando o próprio chicote enquanto um homem forte levava o padre ferido para dentro. – Vamos dançar?

Eu poderia enfrenta-lo, talvez ele me desse o desafio que eu precisava, fazem séculos desde a minha última luta séria e eu gostaria disso. Mas, ele não veio sozinho, haviam mais, pelo menos uma dúzia de caçadores me cercavam, alguns com chicotes semelhantes ao dele, outros três com lâminas e discos, entre eles Hanzo, o caçador japonês que quase extinguiu os vampiros no seu País de origem, provavelmente um dos maiores nomes nesse clube do bolinha.

— Ache Adamas agora! – Pedi a uma das minhas penas que se soltou da asa, transformando-se rapidamente em um falcão. – Eu esperei esse momento. – Disse a todos eles. – Era hora de combater.

O ataque deles era rápido, primeiro o Belmont com o maldito chicote, ele não me daria folga, transformei completamente as mãos e antebraços antes de segurar a arma, sentindo o quanto queimava, mesmo com a parte coberta pelo exoesqueleto negro. Após defender o golpe direto eu vi os combatentes de corpo a corpo se aproximarem, tive de soltar o chicote e recuar para mudar o foco, esquivando dos ataques, não havia como trocar para a ofensiva de uma maneira tão cercada que estava, bati minhas mãos como uma palma, fazendo com que o ar empurrasse o grupo que me cercava, voei alguns metros, eu precisava de alguma vantagem, mas, os outros caçadores que também estavam armados com chicotes não permitiram que eu utilizasse o voo sem ficar vulnerável após algum tempo, serpenteando suas armas em meu caminho. Duas bolas de fogo foram disparadas para causar um pouco mais de comoção, os de corpo a corpo não estavam nem um pouco propensos a me dar trégua e mais uma vez vinham na minha direção, afastei dois com um ataque das asas e um chute frontal foi forte o suficiente para garantir que o pescoço do caçador central quebrasse na queda, me conferindo um pouco a mais de vantagem. Pude ir para o ar uma segunda vez após quebrar duas espadas e possivelmente algum nariz ao atravessar as armas com meus punhos em chamas e então espinhos foram disparados do meu corpo, direto para o grupo que estava ao redor, eles recuariam para evitar ferimentos que já deveriam considerar venenosos, mesmo sem certeza. Agora eu iria até o Belmont primeiro, eu sentia, o cheiro da ceifadora naquele rapaz, então ele precisava ir primeiro, ele destampou o aspersório do padre e uma quantia mínima de água benta que ainda estava no recipiente veio na minha direção, nada que não fosse simples de esquivar.

— AAAAAaaahhhhhh – Gritei e rugi quando senti um golpe cortar minhas costas, fazendo com que eu fosse ao chão. O Belmont foi uma distração, perfeita para que o samurai realizasse seu ataque surpresa. – Amaldiçoado sejam aqueles que lhe deram a vida! – Falei para Hanzo, tentando ataca-lo e conseguiria se o Belmont não intervisse com o tal chicote.

Quando recuei apenas um passo eu senti, os chicotes deles, prendendo meus membros, meu pescoço e asas, oito caçadores utilizando essas porcarias e se esforçando para me manter presa ao solo e sem poder atacar.

— Atacar com poucos vampiros e logo na igreja errada. – O Belmont estava caçoando de mim ao se aproximar. – Dia errado vampira. – Ele tinha uma estaca na mão e eu sorri.

— Boa sorte garoto, essa coisa não vai me matar. – Debochei.

— Temos muitas armas pra tentar e caso elas não sejam o suficiente. – Ele apontou o céu. – Podemos te segurar até o nascer do sol.

— Ela não é um vampiro! – A voz do padre, ele vinha amparado pelo homem negro que o havia retirado do combate. – Não apena eu acredito.

— Explique padre. – Pediu aquele rapaz asqueroso ajudando o velho.

— Prata, alho, a cruz sagrada... – O velho pegou um novo aspersório. – Nada funcionou além do sagrado e água benta. – Ele jogou aquele liquido maligno em mim.

— AAHhh – Havia tocado meu rosto. Minhas energias estavam dedicadas em curar os ferimentos constantes que se mantinham do toque daqueles chicotes e dessa água. – Eu vou matar você velho! – Eu não estava pronta para desistir daquela luta.

— É ele já ouviu isso antes. – Hanzo respondeu-me se aproximando do garoto. – Podemos remover as asas e prende-la, temos feiticeiros capazes. Ela pode dormir até que tenhamos a ceifadora completada.

— As famosas dissecações humanas! – Falei adquirindo sua atenção. – Não podem ver algo novo, algo belo e já querem cortar, abrir, experimentar e matar! – Cuspi no chão. – Vocês me dão nojo.

— Não somo nós que saímos por aí a noite tirando vidas e secando veias! – Respondeu o Belmont. – Tem certeza que consegue? – Questionou o asiático que assentiu. – Pode arrancar.

— Tire essa lâmina suja de perto de mim! – Falei me debatendo, o padre então jogou mais água benta em mim. Os caçadores se aproximaram e o Belmont os ajudou a me deitar com o rosto no chão, depois o padre depositou uma hóstia na minha nunca, queimando e me impedindo de levantar. – Fique longe delas.

— Para o seu conhecimento, esse ato não me dá prazer algum. – Hanzo respondeu tocando a superfície das asas, eu sentia o gelado da lâmina. – Eu serei rápido.

Uma sombra negra desceu dos céus, a noite que antes estava iluminada pelas estrelas e a lua, foi envolvida num véu maior de escuridão total, sombras, morcegos e neblina se movendo como um só ser no céu escuro antes de cair sobre a todos nós.

— Salvação. – Falei esperançosa quando ele chegou.

[Adam — Igreja de São Tiago]

Essa era uma semana que eu realmente não esperava ser chamado, por nenhuma das minhas mães e sinceramente eu não estava disposto a sair do meu lar e responder pelo envio de um falcão, a última vez que ela me mandou um desses eu nem havia adormecido ainda e a razão do envio era nada mais, nada menos do que ir a um baile... Não, eu não queria interagir com mais ninguém, minha mente já estava muito cheia ultimamente.
Mas, quando a criatura começou a se contorcer, sofrer e sangrar, lentamente se desafazendo e voltando a ser uma asa negra eu entendi, aquilo que sempre acontece, um conflito.
Não havia tempo para decoros, para uma transformação simples, nada chegaria aonde eu deveria na velocidade certa. Todo o meu corpo se transformou, antes massa, agora sombras trevas e magia, viajando em segundos, misturado e camuflado pelo céu noturno, quatro segundos foi todo o tempo que a viagem durou até que eu estivesse no chão, espalhando aqueles humanos com a onda de choque causada.
Era uma igreja, eu sentia o cheiro do enxofre, vampiros haviam morrido ali a pouco, assim como um caçador jogado no chão. Eu queria honrar o pedido de minha irmã, mas, era difícil não matar todos que via ao meu redor.

— Vamos embora daqui. – Falei removendo aquele pão de sua nuca e pegando-a no colo.

— Mate eles. – Ela pediu. Ela mal se aguentava acordada, exposta a essa quantidade de poder santo e o combate... – Faça.

— Você precisa ser removida daqui e cuidada. – Respondi caminhando normalmente. – Ninguém se move. – Falei estalando os dedos, meu intento magico impediria os caçadores de nos atacarem e pouparia suas vidas. ‘’Esse é o máximo que posso fazer por você Nefi.” Pensei enquanto todos caíam em sono profundo.

— Ai o idiota! – Eu parei um frasco de água benta prestes a nos atingir, havia um caçador de pé, corajoso o suficiente pra me atacar... Não foi difícil deduzir seu clã com aquela arma em mãos.

— É claro, um Belmont. – Ironizei encarando-o. – Por que não estou surpreso?

— Se sabe quem eu sou, melhor não me dar as costas. – Ele declarou preparado para a luta.

— Olha, eu só vim aqui para resgatá-la. – Ela grunhiu com a minha resposta. – Não reclame, você estava perdendo. – Voltei a encará-lo. – Faça o seguinte, vá viver sua vida e nos esqueça, isso de evitar caçadores e não tirar suas vidas é bem recente pra mim.

— Eu não negocio com vampiros. – Respondeu.

— Esse combate seria completamente injusto, você precisaria no mínimo de muita sorte e quem sabe. – Olhei em volta. – Doze vezes a quantidade de caçadores somados a feiticeiros.

— Vamos descobrir. – Ele atacou, sempre apressados os humanos.

— Você não me ouviu? – Perguntei segurando a ponta do chicote e percebendo a situação da arma. – Está implementando as peças da ceifadora nele! Jogada astuta. – Reconheci. – Magia de sangue? – Silencio como resposta. – Claro que não quer falar.

Eu soltei a arma dele e coloquei Lilian no chão, demoraria alguns momentos apenas, ele poderia ser bom, ele poderia até ser meio mago, quem sabe, contudo, ele não tinha ceifadora completa, não tinha água benta e certamente não tinha a luz do sol para ajudar. Eu teria de considerar este o meu último dia de matança, não era por Nefertari nesse momento, era apenas pela preservação da nossa família.

— Me diga seu nome, ao menos isso eu vou te dar. – Falei parado a sua frente.

— Alexander Belmont. – Ele era bem sério e consideravelmente jovem. – Você?

— Educado, bom. – Debochei, sempre foi divertido brincar com humanos. Eu abri os braços reverenciando-o – Adam e por favor de o seu melhor. – E então invoquei minha espada, e foi notavelmente a primeira vez que ele viu isso. – Ela se chama Crepúsculo dos Homens e já viu muitos pescoços da sua família.

— E hoje ela cai. – Ele respondeu atacando.

A superfície do chão ao meu lado foi cortada em seu ataque vertical, ele não queria perder, em seguida um golpe horizontal, múltiplos movimentos de serpente, ele era muito bom e para o meu próprio bem, eu não poderia estender esse combate, em breve o local começaria a fazer efeito no meu corpo e minha magia. Percebi que havia perdido um pouco de velocidade quando ele conseguiu atingir meu peito com o chicote.

— Belo golpe. – Respondi enquanto a ferida curava. – É uma pena que a diferença entre os vampiros que você matou antes e eu. – Eu apareci atrás dele. – É oceânica.


Foi a hora de trocar para a ofensiva, uma vez transformado em névoa, os seus ataques não fariam efeito lutando a curto alcance e sem o devido espaço, ele precisou pausar seus pensamentos e se concentrar em esquivar dos movimentos da espada, um ótimo tempo de reação e certamente um excelente treino para contornar a dor, eu estava fazendo pequenos cortes em seu corpo, todos estratégicos, eu precisava enfraquece-lo. Ele percebeu e então usou o sal, o velho truque de mexer com o super foco vampírico... Não seria isso que iria me afetar, no meio da nuvem de sal eu chutei seu peito, o caçador foi direto com as costas na parede da igreja. Sem tempo para recuperação, uma joelhada em sua barriga, juntar as mãos e as descer como um martelo em suas costas e mais um chute para que fosse jogado do outro lado. Eu havia escutado cada som do seu corpo, os ossos que quebraram não iriam sarar tão cedo e os cortes por onde agora ele perdia sangue... um desperdício de sangue.

— Desiste? – Perguntei de longe. Sem obter respostas. – Você é teimos... – Desviei um disco de prata que veio direto pro meu rosto. Haviam mais dois ali, um garoto e uma mulher, o disco ela havia lançado. – Mais Belmonts?! – Ele reagiu, olhando direto para os recém chegados.

— SAÍAM DAQUI! – Ele gritou pra dupla, ótimo, familiares. A dupla correu até ele. – Vão embora, ele não é nem perto de normal.

— Mais um motivo pra ficarmos. – Respondeu a mulher. E então o trio estava a minha frente.

— Tocante e corajoso. – Cravei a espada no chão. – Só que eu não quero mais essa luta. – Alguns movimentos de mão e o chão sob seus pés começou a se transformar, envolvendo seus corpos quase em casulos completos, apenas com meu desafiante imobilizado para uma execução.

— Você não pode usar magia em solo sacro. – O mais novo disse sem medo de me olhar nos olhos.

— Em breve não poderei mesmo. – Respondi e puxei a espada. – Alexander Belmont, lembre desse dia, o dia que eu lhe dei uma chance de fugir e você. – Apontei para ele. – Decidiu combater, você chamou a própria morte diante dos olhos deles. – Preparei a espada para o seu peito. Seria uma morte limpa e se possível a última que eu causaria diretamente a essa família.

— NÃO! – Mais um grito veio, ou seja, mais uma pessoa imune a magia vampirica se juntou.

— Quantos de vocês? – Era Belle, vindo de dentro da igreja, parando entre mim e eles. – Belle?

— Adam... — Ela estava com os braços estendidos – Não posso deixar você fazer isso.

— Ele é o idiota insensível que reclamou? Logo um caçador? – Perguntei permitindo que a espada desaparecesse, ela assentiu. – Você sabe que se fosse o contrário ele estaria pronto para me matar?

— Ele é um idiota. – Ela tinha lagrimas nos olhos e não sairia da frente com apenas um pedido. – Se você tem algum apreço ou consideração por mim...

— Adamas! Mate todos eles. – Lilian gritou de onde eu a havia deixado, ela estava tentando se arrastar e seu rosto finalmente tinha começado a rachar.

— Silencio. – Pedi a ela e voltei para Belle. – Você sabe o risco que corro em permitir que ele viva?

— Eu sei. – Ela admitiu. – E agora eles também sabem o risco que correm perto de você.

— Ótima resposta como sempre. – Eu sorri pra ela antes de caminhar para o lado de Alexander. – Lembre que hoje ela salvou sua vida, não que você mereça. Fiquem fora do meu caminho e não irão se machucar.

Dei as costas a eles, voltando para Lilian que havia se movido alguns metros, não o suficiente para me dar trabalho. Mais uma vez ela estava no meu colo e agora iriamos embora, deixando para trás uma chance tanto de retaliação quanto de esperança. Caso Belle fosse capaz de impedir um bando de caçadores de continuarem suas caçadas. E novamente, desparecemos na noite sem deixar nada para trás além de resquícios das sombras.