Filhos da Noite
14 Capitulo 14 - Paralelos
[Katrien – ...]
Uma biblioteca gigantesca a meu dispor era uma maravilha, ainda mais com a imortalidade me dando a possibilidade de ler sempre mais, descobrir mais, aprender mais...
Quando ainda era humana, felizmente estava em uma cultura decente, eu tinha direitos, o que seria um choque para tantos outros povos que vieram antes ou depois, mas, nosso dialeto era diferente, foi magico ser apresentada a novas formas, de falar, de escrever, de conversar... O mundo era tão vasto e rico que realmente é uma pena a vida humana permitir apenas o início de uma grande aventura.
— E o que está procurando tão alto nessa escada milady? – Ele me perguntou flutuando ao meu lado, estávamos a uns quinze metros do chão e essa altura não representava nada para nós.
— Apenas viajando um pouco pelo mundo. – Respondi ainda escolhendo os livros sem olhar pra ele. – Aqui tem muito mais do que os humanos poderiam ter produzido até hoje.
— Minha coleção é vasta e com certeza há muito conhecimento passado pelos próprios imortais que irá gostar de desfrutar, humanos precisam registrar tudo, ou, seu conhecimento e vivencias seriam esquecidos. – Explicou. – Vampiros registram por prazer, prazer no conhecimento, o prazer de deixar uma marca em um mundo que não os aceita, mas, aceita suas contribuições para que a espécie dominante evolua, intelectual e espiritualmente.
— Você não precisa me dar uma aula sempre que estivermos aqui. – Respondi rápida. – O tempo está do nosso lado meu querido, vai ter melhores momentos para me transmitir sua sabedora.
— Em breve você dividirá seu tempo. – Falou tocando minha barriga. – Na verdade, você ficará muito mais focada em nosso tesouro, eu terei de arrumar novas desculpas para sumir com o conselho. – Brincou. – E ainda assim, não terei exatamente o tempo que considero suficiente com vocês dois.
— Vai ser tempo suficiente, ele não vai crescer tão rápido. – Garanti e pulei em seus braços, lentamente fomos chegando ao piso, uma vez ali, ele me carregou até nosso quarto.
— Ele será o herdeiro de tudo que construí e tudo que ainda construiremos juntos meu amor. – Ele estava abaixado me abraçando com a cabeça em minha barriga.
— Ainda é muito cedo para planejar que ele herde algo querido. – Acariciei seus cabelos, ele se mantinha imóvel.
— Cedo no presente... Eu passei anos, séculos da minha vida em meio as trevas, apenas vivendo entre vampiros, derramando sangue, cercado pela ganancia... Qual o sentido da imortalidade quando não temos mais um propósito? – Perguntou retoricamente. – Me fiz essa pergunta tantas e tantas vezes, perdido em meio a escuridão. E então você apareceu, uma luz no horizonte. – Ele se levantou, nossos lábios quase se tocavam, e nossos olhos se comunicavam em uma linguagem apenas nossa. – Minha luz e esperança, meu amor! – O beijo dele era magico, por falta de descrição melhor, nunca haveria uma outra sensação como essa e duvido que algo no mundo causaria uma reação próxima do que eu sentia quando nossos lábios se tocavam, esqueça as borboletas no estomago, isso é reação biológica, nesses momentos a sensação era de poder, energia pura, paixão... – Alguns minutos se passaram antes que começássemos a nos separar.
— Você é um romântico incorrigível. – Falei puxando-o para o Sofá. – Espero que nosso filho seja tão poético quanto você.
— Eles serão! – Me garantiu.
— O primeiro ainda nem nasceu meu amor, como sabe que teremos outros?
— Eu apenas sei meu amor. – Ele tocou minha barriga novamente. – Nosso pequeno Vlad não pode ficar sozinho nesse castelo gigantesco.
— Espera um momento. Você quer que ele tenha o seu nome? – Não pude conter um pequeno riso nessa hora.
— Era o que eu havia pensado. Tem alguma sugestão melhor?
— Agora percebi que até então nem tínhamos discutido a respeito. – Lembrei.
— Eu não quero um nome comum. Ele é um príncipe!
— Ou uma princesa. – Respondi. – Temos que pensar nos dois!
— Ele é um menino, confie em mim. – Respondeu seguro. – O que acha de Amon?
— O primeiro deus egípcio... – Ponderei. — Não obrigada. Sugerir algo de onde eu venho não vai te ajudar.
— O que sugere? – Questionou.
— Beowulf? – Sugeri lembrando de um dos livros da biblioteca.
— Grande lenda, mas, não gostaria que meu filho fosse associado a essa história.
— Nosso filho! – Provoquei-o. – Tem que ser único, tem que ser algo que lembre de quem ele é ao mesmo tempo não o deixe preso a nós.
— Não é uma tarefa fácil. – Admitiu. – O que Lilith sugeriu na última visita dela?
— AAAhhh então você estava mesmo a par da visita.
— Nada acontece no castelo sem meu conhecimento. – Confirmou. – Não é tão bom quanto parece.
— Adamas! – Respondi. – Em grego...
— Indomável, Invencível! – Ele parecia orgulhoso com a ideia.
— Também era a palavra usada para diamantes. Já que é o nosso tesouro. – Completei seu raciocínio.
— E uma nova para você. Em Lituano é o equivalente para Adão. – Ele terminou a frase sorrindo.
— Adão o primeiro homem? – Ele assentiu. – Parece propício para o nosso primeiro filho. – Admiti. – Se ele for um homem.
— Confie em mim, Adamas será o primeiro de uma família que não deixará de crescer! – Ele se levantou. – Irei atrás da sua refeição meu amor, cuide de si e de nosso diamante enquanto eu estiver fora. – Ele me estendeu o livro que eu havia escolhido. – Vai ser uma ótima companhia.
...
As lembranças eram tão doces, era tão mais fácil encarar o mundo ao meu redor ao seu lado. Nada, eu digo, nada teria acontecido se você estivesse conosco, nossos filhos estariam ambos conosco sempre, ninguém teria as mesmas ousadias, ninguém ousaria tramar contra nós, você os teria guiado, faria suas músicas junto a nossa filha, ensinaria Adamas a ser como você, faria minhas noites sempre completas.
— Eu nunca mais amarei. – Foi o que eu disse quando te perdi e em todos esses anos me mantive fiel a essa promessa. “eu cuidarei deles. Eu te amo.” E essas foram as últimas palavras que eu disse para você...
Havia tanto, tanto mais que eu queria viver com você, tanto a aprender, tanto a conhecer... Se eu pudesse enfrentar os deuses, olhar nos olhos deles e exigir você de volta, eu garanto que por medo eles o trariam para mim...
— Meu amor. – Eu deixei uma rosa sob a sua estátua, não se parece com você, jamais seria semelhante, o mundo esqueceu seu rosto, mas, eu jamais me permitiria lhe esquecer.
[Archie – Igreja de São Tiago]
— Não acredito que fez uma merda desse tamanho Archibald! – Maria estava aproveitando a oportunidade para me provocar, mas, comemorou quando me viu entrar na igreja e contar toda a história, finalmente ela não seria a única pessoa a aprender com o padre. Alexander mudou de ideia quanto a pedir para o padre ir a nossa casa, o isolamento não ajudaria em nada a não ser me deixar mais irritado segundo Adrienne. Talvez ela me ajudasse a fugir desse castigo em breve.
— E eu já escutei bastante em casa – Respondi rápido. – Isso é temporário.
— Vai nessa, caçadores são ultra pacientes e sérios com castigos. E isso mesmo sem uma cagada astronômica como a sua. – Ela riu do próprio comentário.
— O que mais tenho que aprender além do básico aqui? – Ironizei. – Eu já domino a teoria a anos.
— É o que todos os jovens dizem quando chegam. – Padre Lucas apareceu finalmente, ele era relativamente jovem para um padre, uns quarenta e cinco anos, parece pouco para um padre comum, mas, para um que auxilia na caça a vampiros, era muito tempo, a preparação de um padre desses, tem início mais cedo até que o treinamento dos próprios caçadores e muito mais era abdicado. – Principalmente para os que acreditam que estar aqui e aprender, é uma punição.
— Me desculpa padre. – Respondi. – Mas, o senhor sabe que eu já conheço as teorias, como funciona o uso de água benta, o efeito do sagrado contra os vampiros, o que é mito e o que é realidade...
— E ainda sim, você foi derrotado. – Ele me interrompeu. – Falhando em sua missão, falhando com sua família e a mais profunda das feridas, falhando consigo mesmo.
— Foi apenas um descuido. Não vai acontecer nunca mais. – Eu estava de cara fechada. Não vou levar outra lição de moral.
— “O orgulho do homem o humilha, mas o de espirito humilde obtém honra.”— Falou ele sorrindo e nos chamando ao altar.
— Provérbios; 29:23 – Respondi.
— Bom ver que ainda se recorda das palavras do livro. – Falou sorrindo. – Reflita sobre esta passagem em sua casa Archie.
— Não sabia que você lia a bíblia. – Maria falou ao meu lado.
— Era importante entender várias partes da nossa “arte” – Enfatizei.
— Então senhor dedicado. – O padre me interrompeu novamente. – Vamos falar um pouco sobre o que realmente é sagrado e que funciona para te proteger. – Ele sinalizou o espaço ao redor. – Um vampiro pode entrar aqui?
— Definitivamente não. – Respondi rápido. – Essa igreja não é uma das muitas de fachada que estão espalhadas no mundo e sob comando de falsos líderes. Isso é solo sagrado e vampiros não podem entrar.
— Errado. – Respondeu ele. – No que ele errou Maria?
— Na parte de que não podem entrar. – Olhei confuso pra ela. – Esse solo realmente é puro e com certeza eles evitariam a todo custo, mas, não significa que não podem entrar, apenas que ficariam mais fracos e possivelmente teriam de lutar contra nós ou outros caçadores nos nossos termos.
— Excelente. – Ele tocou meu ombro. – Você não estava errado em tudo Archie, só precisa expandir um pouco mais a sua visão da nossa teoria. Quando conseguir absorver isso, eu garanto que Alexander nunca irá dispensá-lo de suas missões.
Talvez não fosse tão ruim aprender um pouco por ali afinal.
[Belle – Residência dos Belmont]
Pela terceira vez eu apertei aquela campainha, eu sabia que ele estava e sabia que poderia simplesmente entrar e fingir que nada aconteceu, que ele não havia sido babaca, mas, eu não iria dar pra ele essa facilidade, por mais que eu quisesse, meu orgulho não iria em circunstancia alguma permitir.
— Eu estava trabalhando. – A primeira frase que escuto ele dizer em dias.
— Boa tarde para você também senhor Belmont. – Respondi seca. – Posso entrar?
— Belle não começa com isso. – Pediu ele dando passagem. – Vamos só conversar direito.
Não respondi, só caminhei até a sala com ele me seguindo, me sentei na poltrona em frente ao sofá e esperei que ele estivesse ali, sentado na minha frente.
— Primeiro você por favor. – Ele disse se sentando.
— Eu não gostei. – Ele sabe do que eu não gostei. – Você não precisava falar daquela forma comigo.
— Foi uma situação fora do normal Belle! Eu... – Levantei o dedo para que ele parasse.
— Ainda não acabei. Eu vou concordar que meu sumiço não foi completamente justo com você também, mas, eu tinha bons motivos. – Expliquei. – Eu estou aliviada que tudo deu certo e Archie não ficou ferido ou pior, de verdade, eu também me preocupei por ele, mas, eu também sabia que se alguém conseguiria resolver tudo, seria você!
— Eu agradeço a preocupação por ele. – Ele suspirou. – Você está certa, eu...
— Pode falar isso de novo pra câmera? – Brinquei. – Continue.
— Eu posso ter me equivocado e reagido mal. – Admitiu. – Só que você tem um celular Belle, você pode pegar ele e mandar uma simples mensagem pra me dizer que está bem. Sabia?
— O senhor também pode fazer o mesmo com o seu quando quiser saber de mim. – Retruquei.
— Está bem. – Ele se rendeu. – Estamos conversados?
— Por hora. – Sentei ao seu lado. – E agora? Vai tirar umas férias das caças noturnas? Eu estou com muitos planos para nós em mente.
— Você sabe que eu não posso. – E ele estragou tudo de novo.
— Não pode deixar Adrienne e Archie de olho nas coisas por alguns dias ou apenas algumas noites? – Questionei. – Quando é que teremos um tempo para nós dois juntos?
— Estamos tendo um tempo agora.
— É diferente Alexander! – Abracei-o. – Eu quero uma pequena viagem, acordar de manhã e poder continuar deitada aproveitando sua companhia. Passar uma noite sem preocupações...
— Não é simples assim. Tem pessoas contando comigo. O Archie não está pronto, Adrienne não pode agir completamente sozinha e...
— Eles nunca farão nada se você não permitir! – Eu me irritei. – Tem que soltar as rédeas. Você também merece uma vida Alexander, ter momentos para você! Para nós, momentos nossos.
— Belle eu não quero que eles se arrisquem assim. Eles são tudo que me resta de família!
— E vocês três também são tudo que eu tenho. – Eu me separei dele. – Acha justo comigo caso você seja ferido? No caso de eu te perder? Você considera ao menos como eu me sentiria?
— É claro que eu penso nisso. – Respondeu tentando permanecer calmo. – Eu sempre penso, em todos vocês, caso eu seja derrotado ou...
— Não estou falando de todos agora. Estou falando de mim, de nós dois! – Eu estava de costas pra ele agora. – Você quer um futuro? Você planeja um futuro comigo?
— É claro que eu quero um futuro com você!
— Então por que você não luta por mim? – Lagrimas caíam dos meus olhos enquanto reclamava sobre como as coisas funcionavam conosco. – Vai ser tão horrível assim se por um momento você pensar em nós antes? Antes dos deveres de um Belmont, antes do mundo, antes da caçada...
— Belle. Nós dois sabemos que não é algo simples. – Ele havia se levantado, não estava a minha frente, mas, estava perto e segurando minha mão. – Como eu posso dar a você algo tranquilo? Como nós poderíamos ignorar o universo que sabemos que existe a nossa volta? – Ele me virou pra ele, tocando suavemente meu rosto enquanto meu choro diminuía. – Se por um tempo eu parar, já imaginou quantas vidas podem se perder?
— Alexander! NÃO DÁ PRA SALVAR O MUNDO INTEIRO! VOCÊ É APENAS UM! E NÓS SOMOS HUMANOS COM TEMPO DE VIDA FINITO! – Minha tristeza havia virado fúria por um momento. – Nem quando meu relógio tinha um prazo você quis me dar o tempo que você sabe que eu merecia! Eu sempre te apoiei, nunca abandonei, nem você, nem a Adrienne e nem o Archie...
— “Quando tinha um prazo...” – Ele interrompeu. – O que quer dizer com quando?
— Você não vai mudar o foco da nossa conversa Alexander. – Insisti.
— Não estou mudando. Isso faz parte! O que aconteceu durante o seu “sumiço”? – Questionou.
— Eu fiz o que eu devia fazer! O que eu merecia. – Respondi convicta.
— Belle o que você fez? – Ele levantou o tom. – Não é fácil remover uma maldição, seu clã, meu clã, a congregação dos caçadores inteira... Todos eles, por gerações, tentaram extinguir a maldição dos Meyer, enquanto a sua família tinha adotado um M.O. para poder driblar a maldição por um tempo.
— Eu sei como a maldição funcionava Alexander! Só esquece isso, não importa mais! – Respondi.
— Importa sim! – Ele não iria desistir. – Seja sincera comigo. Você removeu a maldição?
— Isso não vai mudar nada Alexander. – Mais uma vez tentei me desviar.
— Você removeu a maldição? – Ainda na pergunta. – É uma resposta simples Belle!
— Sim, não existe mais maldição! – Eu suspirei depois de responder. – Não vai ter mais sofrimento, nem pra mim e nem para os meus filhos, netos e quem mais vier! – Voltei para ele. – Não temos mais que ter medo, que correr com a vida, podemos aproveitar as coisas agora! Liberdade em fim!
— Era uma maldição vampírica. – Ele me segurou nos braços e me afastou. – Você compactuou com um vampiro pra conseguir isso.
— O que isso importa? Eu precisava disso. – Me justifiquei. – Nós teremos mais tempo juntos.
— O que aconteceu com esse vampiro?
— Eu já disse que ele não importa Alexander!
— Um vampiro com poder pra remover uma maldição secular... – Ele me soltou e foi rumo a sua garagem, uma vez ali, começou a procurar nos livros disponíveis. – Não tem muitos desses por aí e se estava vivo é porque eu não tenho nenhum registro ou pista!
— Você não vai transformar isso em uma caçada!
— Não é caça, é eliminação. Me diga onde ele está e eu vou ir até lá e eliminar ele! – Respondeu tranquilo pegando seu equipamento.
— Eu retiro minha maldição, venho até você, conversamos, eu tento te explicar e mostrar o quanto eu quero que estejamos juntos e você resolve focar a sua energia e pensamentos no vampiro que me ajudou! – Eu não deveria ter vindo. – Todos a nossa volta falharam e ele não! Ele conseguiu, ele resolveu tudo!
— Ele é um vampiro Belle. Eu sei que ele não fez isso só por ser bonzinho. – Ele não estava errado. – O que ele pediu em troca? O que você fez?
— Essa é a última vez que vou repetir. – Minha paciência finalmente estava esgotada. – Isso não importa! O que está feito está feito e nós podemos focar no nosso futuro, você só precisa esquecer ele.
— Vou esquecer quando ele estiver morto. Agora me conte onde ele está.
— Eu não vou te contar nada.
— Isso não é um jogo Isabelle! – Ele estava pronto. — Onde?
— Eu não estou brincando querido. – Minha face estava impassível. – Eu não vou prejudicar ele.
— PORRA BELLE! – Ele me assustou com esse grito. – Ele é um vampiro. Você sabe exatamente o que espécie dele faz e o motivo de eu fazer o que faço e o motivo de você e tantos outros também ajudarem.
— Chega. Eu vou embora! – Respondi caminhando a saída e ouvindo passos atrás de mim.
— Eu preciso saber aonde ele est... – Ele bateu de frente com uma parede invisível. – Truque novo?
— Parede de cristal. – Respondi na porta. – Estou experimentando coisas novas.
— Tira isso da minha frente logo e vamos atrás do vampiro! – Ele tentou me convencer de que estava calmo, mas, felizmente ele é um péssimo mentiroso.
— Primeiro; eu não vou baixar a parede. Segundo; eu não vou te levar até ele. Terceiro; agora é vamos?! Conveniente me incluir nos planos agora que estou para sair. – Uma última lagrima insistente fugiu dos meu olho. – Não tem plano nenhum e eu estou indo embora.
— Tira essa magia da minha frente! – Ele começou a socar o espaço invisível e sólido entre nós, ele não enxergava, mas, eu podia ver as rachaduras se formarem no próprio ar.
— Não me procure Alexander. – Foram minhas últimas palavras antes de tentar meu primeiro teletransporte e felizmente foi um sucesso.
Sem estar na frente dele eu poderia desabar, chorar e gritar. Eu não queria isso, eu não queria sofrer, o amor não é pra isso e definitivamente eu não preciso competir com um oficio interminável e obsessivo.
[Adamas – Sarpsborg, Noruega]
Eu conhecia essa cidade, antes desse progresso moderno chegar, foi depois da morte dele, após os primeiros ataques que lancei contra o mundo. Humanos frágeis, depositando sua fé num deus que os abandonou a tempos devido a sua selvageria. Eles tentaram se estabelecer, criar algo, o inicio do grupo de resistência e ataque contra os vampiros, não ficaram muito tempo vivos, mas, pelo menos morreram como desejavam, no campo de batalha contra um inimigo formidável.
Séculos lutando... Lutando não era bem a palavra certa. Matando, caçando, destruindo cada pedaço possível da humanidade, dando a eles a mesma dor que um dia eu senti, a dor que não parava, a dor que jamais me deixaria, ou, pelo menos era o que eu pensava.
Eu Adamas o filho do maior e mais poderoso vampiro da história, obliterador de exércitos, o Príncipe Dragão, o pesadelo de tantas crianças por séculos... Agora hesitante e com medo de tocar em uma simples porta de madeira sem nada de especial. Nunca em minha existência eu tive a sensação de algo seria tão difícil como a decisão do meu próximo passo, segundos, minutos, uma hora... Quanto mais eu poderia esperar? Não muito, porque o tempo, o tempo que se passou, nenhum de nós vai recuperar.
Duas batidas e mais um pouco de espera, contudo, eu escutava, eu sentia as vibrações do caminhar, a energia e o poder que um dia sumiram das minhas mãos.
— Já senti um vampiro na minha porta a um tempo, não achei que fosse bater. – Ela disse isso ainda por trás da porta. – E então quem é... – E assim como eu ela estava completamente imóvel, e em choque. Para humanos, segundos se passaram, para nós, foi um tempo completamente isolado e diferente.
Minha única reação, um abraço, e eu não soltaria, eu não podia, não com o risco de soltar e não ser real da forma que eu estava sentindo. Ela demorou, mas, me correspondeu, apertando tão forte quanto eu.
Era como ter dezesseis anos novamente e reviver o último momento que senti seu toque. Lagrimas e soluços de ambos os lados, sons que provavelmente ambos imaginávamos jamais repetir.
— Adamas?! – Disse ela entre o choro.
— Eu te achei – Respondi sem nos separar. – Minha Nefi!
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