Filhos da Magia
5 Capítulo 4 - Bipolaridade desconhecida
Notas iniciais

— Você não me assusta, Laurent. — meus olhos estreitaram-se para o lobisomem em minha frente.
Ele exalava raiva, tanto que me surpreendi por não sair fumaça de seus ouvidos. Ele abria e fechava a mão, tentando se controlar, manteve seus olhos âmbares em mim, como uma fera. Mas eu não era sua presa. Não, era sua rival. Nós realmente não nos damos bem, eu sentia isso. Meu corpo eriçava em sua presença e meus instintos me mandava atacá-lo, como animais lutando por domínio. Era satisfatório atacá-lo com palavras, pois não poderíamos resolver nos socos.
— Deveríamos ir para o hotel agora. Você fede, deve tomar um banho o mais rápido possível. — comentei, sorrindo torto.
Caminhei pra fora do prédio, mas não pude deixar de notar os corpos no chão. Suspirei alto, virando-me para o lobo.
— Elas fizeram isso — apontei para as elfas — Não irei limpar nada.
— Ninguém tá pedindo, sua anta. — atacou com aquela voz grosseiramente estranha, quase grotesca.
Bufei, dando um riso fraco.
— Vamos discutir quando não tiver a voz do Shrek com dor de garganta. Estarei lá fora. Troque-se e vamos embora. — avisei, saindo finalmente do prédio.
Quando pisei do lado de fora, encostei meu corpo num poste da calçada, coloquei minha bandana no rosto pra tentar disfarçar minha cara de surpresa. A loja que pegou fogo, o sangue esparramado e misturado na neve, a destruição em geral que a batalha causou, tudo tinha sumido, como se nada tivesse acontecido há meia hora atrás.
Meus olhos se arregalaram, olhei mais atentamente a rua em que estava, e não havia sequer uma alma além de mim. Quem será que fez isso?
— Foi a magia, idiota — como se lesse meus pensamentos, Tyler apareceu ao meu lado, já apropriadamente vestido — mesmo não agasalhado o suficiente, ao meu ver — Qualquer dano mágico causado no mundo dos humanos é reparado em segundos.
— Oh… — fingi surpresa — Já era de se esperar. Agora, vamos embora.
Dei passos firmes, voltando para a trilha que seguíamos antes.
O vento frio me atingiu em cheio, minhas mãos tremiam. Tive de parar de seguir a trilha e procurar minhas roupas que antes tinha jogado no chão. Vesti-me novamente com mais um suéter e um casaco preto, abri minha mochila e peguei luvas pretas pra me aquecer melhor. Na tentativa boba de me esquentar, coloquei minhas mãos no rosto e inspirava e respirava de boca aberta. Não ajudava tanto assim.
Recolhi minhas coisas e olhei pra Tyler, que permanecia parado na frente do prédio. Olhei-o semicerrado, incrédula com suas ações.
— Ô cachorrão! — brinquei,conseguindo sua atenção — Caso não tenha entendido, inimigos nos atacaram talvez mais deles venham nos pegar. Temos que ir embora.
Ele me ignorou totalmente, sorrindo descaradamente forçado.
— Está ferida, precisa de cuidados médicos. — ele se abaixou, pegou sua mochila e vasculhou procurando por algo, provavelmente gaze e atadura.
Respirei fundo, tentando controlar minha irritação.
— Isso é tão irritante... — tirei novamente meu casaco e termino de rasgar o buraco na blusa de frio, que a elfa tinha feito em meu braço — Viu? — fiz o mesmo com o rasgo na calça — Curado, como mágica. Agora podemos ir? — bufei irritada ao olhar minhas roupas — Pareço uma mendiga ensanguentada. Vamos embora pra essa merda de hotel.
Sua expressão não mudou nada, nem surpreso ou assustado, apenas observando-me, novamente para o meu horror.
Mas, mesmo estando em uma certa distância, conseguia ver traços de seu olhar de lobo, sua íris mudava de cor de preto intenso à amendoado.
— Prometi a sua irmã que a protegeria de nossos inimigos, assim como prometi ao meu clã — ele se aproximou, e consegui observar a mudança completa de seus olhos para um âmbar intenso, como olhos de lobo selvagem — Mas isso não me impede de querer cortar sua cabeça agora.
— Faça e morra quebrando a honra de sua família, Laurent. Eu sei de tudo que deveria saber, e sei que não pode me machucar. E você sabe que temos que ir a Swamoris, não procrastine isso.
Dei as costas e continuei a andar, sem olhar para trás. Se me seguir ou não, isso não era um problema.
Conhecia a cidade de Rillidan como a palma de minha mão. O hotel em que pretendíamos ficava muito longe. Nada que uma caminhada longa não bastasse. Demoraria no mínimo quarenta minutos até chegar lá.
— Garota! — chamou Tyler novamente.
Olhei para trás, mas ele não estava lá, nem seus passos.
— Aqui — sua sussurrou em meu ouvido atrás de mim — Espero que o inimigo não te mate, mas se morrer pelo próprio ego, seria a maior proeza que sua raça já fez — ele jogou minha mochila em minha barriga com uma força exagerada. Tive que me afastar para não cair — Sairia sem seus pertences, mantimentos e curativos? O que faria sem eles?
— Roubaria nas primeiras casas que eu encontrar. — forcei um sorriso.
— E que faria sem mim? — ele ergueu uma sobrancelha.
Não controlei, tive que soltar um riso de escárnio.
— Eu atravessei aquela nevasca no meio da noite sozinha, cheguei lá sozinha. Acabei de matar uma elfa sem a sua ajuda. Você sabe que posso me virar. — não medi o veneno em minha fala. Já guardava muita raiva e desconforto demais para poupar Tyler desses comentários, mas foi merecido, pois foi ele quem atiçou minha raiva.
— Acha que isso é grande coisa? Você não aguentaria lutar comigo. Eu cuidei de você desde o dia em que sua irmã veio falar comigo. Quando você enfrentou a nevasca, não estava sozinha, eu estava lá. Eu te ajudei a matar aquelas elfas. Não seja ingrata.
— Eu nunca pedia sua ajuda! — exclamei, empurrando seu corpo pra longe de mim.
— Mas sua irmã pediu, e ela tem dezesseis anos. Até ela sabe o que é melhor pra você. — ele respirava fundo tentando controlar sua raiva e eu fazia mesmo. Certamente, ele soltou várias coisas que estava presa na garganta.
— Agora que disse o que queria, vamos embora. Você ainda fede, lobo. — voltei a andar, sabendo que Tyler estava trás de mim, mas não ligando.
— Pare de ser orgulhosa, Nakamura. — reclamou Tyler num murmuro.
— Pare de reclamar, Laurent. — retruquei baixo, mas sabia que tinha ouvido.
Continuamos nossa caminhada em silêncio. Após quarenta minutos, nós chegamos e, como eu esperava, o hotel estava cheio. O estacionamento estava lotado, mesmo sendo enorme, pessoas brigando com recepcionista, crianças chorando e malas por todo canto. Meus olhos estreitaram-se para Tyler, o mesmo revirou as órbitas para mim.
— Ótimo hotel! — seus olhos se estreitaram pra mim — Você resolve isso. Não estou com vontade de gritar com aquela mulher. — gesticulei para a recepcionista, que parecia estar com medo dos clientes.
— Por que ... — o intervi.
— Você sabe que eu vou gritar. Resolva logo. — disse por fim, entrando no hotel e jogando-me em uma das poltronas bege macias.
Estava muito formidável com os aquecedores ligados e uma lareira do outro lado da sala, além do calor humano.
Pude ouvi Tyler praguejar, o observei entrar no estabelecimento, ignorar a fila de pessoa que gritavam com a recepcionista. Os clientes reclamaram, igual a antes na cafeteria, mas, num estalar de dedos da mulher que atendia Tyler, a gritaria parou. Na verdade, tudo parou. As pessoas pararam de se mexer, respirar e falar, como estátuas.
— Magia… — murmurei maravilhada.
Levantei-me da poltrona dando uma olhada melhor na sala, até os carros do lado de fora pararam. Direcionei-me até Tyler, ficando ao seu lado.
— Te respeito, senhora. Por favor, me ensine isso.
— Isso não é nada fácil, sabia? — disse com muita sinceridade. Pude ver o suor descendo de seu cabelo castanho e as olheiras em seus olhos pretos — Se seu amigo colaborasse, eu não dispensaria tanta magia assim, mas já que não ajuda… — ele se virou para um claviculário e pegou uma chave — Hoje está cheio, tanto com humanos quanto sobrenaturais. Então, o único quarto que sobrou é esse — colocou a chave com o número 146 em cima da mesa — Fica no terceiro andar, e só tem uma cama de casal e um banheiro, okay?
Tyler grunhiu de raiva, ele estava pronto para reclamar, quando eu peguei a chave rapidamente. Sorri agradecida para a recepcionista.
— Obrigada… — olhei pra o seu crachá — Sarah. — me virei para Tyler que me olhava incrédulo — Vamos.
Dirigimos-nos para o elevador, porém estava fechado, quando nós viramos pra olhá-la, ao mesmo tempo, a recepcionista estalou os dedos e tudo voltou ao normal.
Ela sorriu, devolvi com um sorriso torto, e ela voltou a aturar aqueles humanos gritando em seu rosto.
— Magia é satisfatória! — aplaudi, vendo as portas do elevador se fecharem, cliquei no botão três e encostei meu corpo no metal frio — É como se tudo pudesse se resolver com ela, é imparável e poderosa.
— Resolver ou piorar — argumentou Tyler — Há muitos magos e feiticeiros ruins, não confiem em todos, okay?
Eu assenti.
As portas do elevador se abriram e nós nos direcionamos para o nosso quarto. Como Sarah tinha dito, o quarto havia somente uma cama de casal com lençóis bege e marrom, uma televisão na parede, duas cômodas e uma janela com vista para a cidade gelada e no canto uma porta para o banheiro.
— É o suficiente para dois dias. — anunciou Tyler, se jogando na cama.
— Tome um banho primeiro antes de jogar o seu cheiro nos lençóis — reclamei, colocando meus sapatos na entrada da porta e minha mochila ao lado — Tire os sapatos! Você não tem higiene?
— Oh, sinto muito, princesa — zombou, e eu sabia que não conseguiria nada insistindo mais — Mas acontece que o meu cheiro é dominador de nascença então…
Meu nariz se contorceu de puro repúdio.
— Você não vai mijar na cama, Laurent — ordenei, mas ele apenas riu alto — Além de você não ser mais uma criancinha, isso é nojento, repugnante.
— Calma, Nakamura, não disse nesse sentido — se defendeu, balançando as mão como se se rendesse — Quis dizer, que o feromônio de lobisomens tem um cheiro forte. — explicou sorridente.
Feromônios... ah não!
— Isso é inaceitável! Eu não quero uma sobrenatural ou humana batendo na minha porta porque você está no cio! — gritei, tentando conter o riso, não pude aguentar minhas próprias palavras.
— Bem, Akemi, você sentiu o cheiro… — comentou, como se não quisesse nada.
— Eu… — tentei me defender, mas nem eu entendia a situação em que estava. Tudo que sabia era que eu suava horrores e que meu rosto fervia de raiva e vergonha. Respirei fundo, liguei o ventilador pelo interruptor da parede e com muita dificuldade disse:
— Sai logo da minha cama, seu lobo nojento.
— Sua cama?
Não pude deixar de segurar o grunhido raivoso de meus lábios. Toda essa provocação me irritava até a ponta dos pés. Me fazia querer pular na cara de Tyler e arranhá-la na unhada.
Ele oscilou ao ver minha expressão, se levantou da cama, foi até sua mochila, pegou umas roupas e foi em direção ao banheiro.
— Tô indo, princesa.
Suspirei aliviada, me jogando finalmente na cama do lado oposto ao suor de Tyler. Era estranho como uma hora eu estou paciente com ele e na outra queremos matar um ao outro. Minha cabeça latejava, mas acalmou quando ouvi som de água caindo.
Boa notícia! Ele estava tomando banho.
Má notícia… teria que aturar um lobo em plena época de acasalamento.
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