Filhos da Magia
4 Capítulo 3 -Entorpecida pela adrenalina

Meu pequeno plano era simples: um ataque surpresa. Entrar por trás do prédio, por uma porta — logicamente — ou usando magia, matar ou fazer refém a elfa que me espera na estrada. Então, atacar a outra. Tenho que tentar tirar o máximo de informações delas, pois esse ataque foi programado. Só precisava saber quem ordenou.
Estava de frente a frente com o prédio, a elfa não estava sob meu campo de visão. Me escondia atrás de um carro preto, esperando o momento certo para sair do esconderijo e começar o plano, mas era muito arriscado. Teria que usar magia novamente, dessa vez, o mais sorrateiro possível.
A neve ainda caia levemente, as ruas continuavam desertas — usei esses elementos ao meu favor. Um dos feitiços que aprendi foi como controlar os 4 elementos. Gelo era um patamar que eu ainda não estava, restava-me o vento. Para cada elemento precisava de um "ritual". Precisava de calor ou estar em um lugar quente para obter fogo, para água precisa estar molhada ou em um lugar com água, e assim vai. Então, pra continuar com o ritual, desfiz-me de minhas roupas, ficando apenas com meu suéter.
Não deu pra controlar um arrepio com vento frio e forte acertando-me em cheio. Ergui minhas mãos em direção ao prédio e disse:
— Ventus esse in mea potestate.
Os pequenos flocos de neve se aglomeraram em frente ao prédio, girando cada vez mais rápido até se formar um pequeno redemoinho. Forte o suficiente para tampar grande parte do prédio e pra distrair a elfa escondida. Como o feitiço não duraria muito, dei a volta no prédio correndo. Sim, meus passos estavam marcados, mas o pequeno redemoinho que fiz os preencheu com neve novamente.
Respirei aliviada, controlando meus batimentos cardíacos que estavam acelerados. Para minha surpresa, não tinha uma porta dos fundos. Minha última opção era usar magia, novamente. Já estava me sentindo no limite e nem tinha lutado. Talvez seja o nervosismo por ser minha primeira batalha e já não está indo muito bem, ou porque estou usando magia mais do que o normal. Cada feitiço leva minha força e energia, os que usei me deixaram com quase nada. Porém, não podia parar. Com Tyler lutando e eu quase desistindo de lutar, acabaríamos perdendo. Mas não hoje.
Fiz outro rabisco de círculo e estrela na neve, e conjurando assim um feitiço que drenava boa parte da minha energia, era difícil. Quase um minuto de preparação até um portal aparecer mostrando a sala de dentro pra mim, totalmente acessível. Dei um passo dentro do portal, certificando-me de que era seguro, e então entrei por inteiro.
No local, tinha um balcão da atendente, várias poltronas e uma televisão ligada e escrito na tela “Merilan". Era uma empresa de cosmético muito famosa na cidade e no mundo. Então, eu saquei, estávamos estava dentro de um dos prédios da empresa. Mas isso não explicava o porquê da sala aparecer um quarto de hospício, tudo tão branco e silenciosamente entediante.
Agarrei minha katana como se fosse meu único meio de proteção — e meio que era mesmo. Cada passo que dava era milimetricamente contado e revisado para que não fizesse muito barulho. Eu mal respirava, pois estava muito ofegante e eu precisava ouvir o inimigo. Mas agora aonde ela estava?
— Por Ela’nor! — uma voz feminina gritou atrás de mim.
Quando olhei pra o lado, já era tarde, ela tinha me atacado, cortando do ombro até o cotovelo. Eu gritei numa mistura de dor e surpresa, cai no chão e minha katana se afastou de mim no processo. Meu sangue começou a escorrer rapidamente nos primeiros segundos da abertura da ferida, molhando o chão em que estava deitada. Meu braço latejava de dor, tentei controlar o sangramento apertando o braço, mas só piorava.
Não me sentia normal, muito menos bem.
A elfa sorriu de cabeça erguida, olhando para mim com um olhar superior. Ela ergue sua espada em minha direção e deu passos calmos até mim. Consequentemente, eu me afastei, deixando rastro de sangue pela sala. Eu precisava da minha katana de volta. Enquanto ela se aproximava, eu me afastava e movia em direção da minha arma.
— A profecia não tem de se cumprir — ela disse com frieza enquanto continuava a se aproximar — Cortaremos o mal pela raiz, por Ela’nor!
Quem diabos era Ela’nor? E o que era essa tal profecia? Eu estava confusa, mas em perigo também. Era muito estúpido apenas olhá-la e se afastar, ela poderia me atacar a qualquer momento.
— Não sabia que os outros sobrenaturais eram tão… injustos. — provoquei, chamando a atenção da elfa.
Quanto menos ela perceber que eu quero minha katana, mais chances de sobrevivência eu tinha.
— Porque diz isso, feiticeira? — ela ergueu a sobrancelha.
Na hora exata tinha chegado perto da katana, tateei o cabo e o peguei firmemente enquanto encarava a guerreira em minha frente, mantendo seus olhos em mim.
— Pelo que eu sei, batalhamos um contra o outro justamente. Arma contra arma! — gritei, com toda minha raiva na voz.
Com toda a força que sobrou de mim, peguei minha katana, mirei na mão da elfa e acertando em cheio.
Seus gritos eram tudo que ouvia, fiquei extasiada com o sangue da elfa em um rosto. Sua expressão agoniada era curiosa de se ver. Controlada pela dor, ela nem se importou em lutar de volta. Os dedos de sua mão arrancada se mexiam sozinhos ao lado de sua espada, já caída no chão.
— Você ainda pode lutar, elfa guerreira. — debochei, levantando-me do chão, passando a mão no rosto tentando limpar o sangue, mas só piorando.
Cada passo que dava em sua direção, ela se afastava, igual a mim há momentos atrás. O medo em seus olhos apenas envergonhava-a mais ainda, pois era a única a me olhar confiante há pouco tempo.
— Não, por favor, não faça isso! — lamentou várias vezes. Seu rosto demonstrava cansaço e palidez pela perda de sangue.
— Não adianta pedir, elfa. Se no começo já lutasse com você, arma contra arma, você pereceria de qualquer jeito — aproximei perto o suficiente de seu corpo semimorto e retirei uma faca, apontando para o seu coração ainda pulsante — Acaba aqui.
— Narilah! — uma voz feminina estridente gritou — Espere, feiticeira! Não faça isso.
Olhei pra trás, aborrecida. Em minha frente, era a mesma elfa que me atacou antes enquanto estava com Tyler.
A preocupação em seu rosto era um aperitivo para minha vitoria.
— Coloque o arco no chão — e assim ela fez — Longe. — ordenei.
Ela chutou o arco para o outro lado da sala, olhou pra mim com olhos marejados, tão indefesa.
— Como se tornou uma guerreira? — zombei, e ela ignorou.
— Não mate ela, por favor.
Encarando mortalmente a elfa loira em minha frente, usei meu sentido auditivo para ouvir respiração e batimento da elfa ao meu lado. Era fraco, ela estava quase morta, mas ainda útil. Coloquei a faca no pescoço da elfa quase morta, olhando ameaçadoramente para sua amiga. A arqueira tentou dar um passo em minha direção, mas, ao olhar pra mim, recuou.
— Um passo e a garganta dela jorrará sangue — continuei — Diga-me, elfa, qual foi o seu propósito em atacar a mim e meu amigo?
Seu olhar vacilou e encarou o chão, parecia ter uma briga interna, decidir me contar ou não.O problema era quem estava ao meu lado. Se o coração da guerreira quase morta parar, a arqueira iria notar. Pressionei a lâmina da faca mais forte até escapar um pouco de sangue.
— Conte agora! — gritei.
— Fomos enviados por nosso líder! — confessou, respirando pesado — Não mate-a, por favor! — começou a chorar, curvando-se em minha frente.
— Seu líder? Quem é?
— Não! Me recuso a contar — ela fechou os olhos e balançou a cabeça repetidamente.
— Ela’nor? — atirei sem esperar sua resposta, sua expressão surpresa e arrependida já entregava — Estúpida.
O coração da garota parou de bater e, no mesmo, instante cortei sua garganta, porém não saiu tanto sangue. A amputação de sua mão já havia colocado tudo pra fora. A elfa arqueira gritou e avançou, mas foi levantado do ar por uma mão enorme peluda com garras afiadas.
— Bem a tempo, Tyler — saudei-o enquanto limpavam o sangue em minhas mãos na roupa — Mas conseguiria matá-la sozinha, você sabe.
O corpo da arqueira foi jogado na parede no momento em que pisquei os olhos, causando uma rachadura enorme e o sangue escorrer em toda a sala.
— Vejo que decorou o local. — comentou irônico com a voz muito mais grossa, quase incompreensível.
Realmente, estava bem melhor. Pegadas de sangue pelo chão, as paredes e quadro pintados de vermelho. Escapava um pouco da aura tediosa que tinha, agora era vermelho e somente isso.
— Ainda parece um hospício ou coisa do tipo — murmurei para Tyler que continuava em sua versão lobisomem — Apenas mais... colorido.
— Seu corpo ''ajudou'' a pintar também — apontou pra meu braço que sangrava — Não sente a dor, Akemi?
— Oh… — olhei para meu braço e perna. O sangue pingava e formava uma pequena poça, mas não doía — Não, estou meio entorpecida. Não sinto nada. — disse por fim.
O olhar predador de Tyler pousou sobre mim, sentia-me sendo avaliada, estudada, aquilo me incomodava.
— Está me julgando? — olhei-o semicerrada.
— Não.
— Melhor não estar. Seu corpo está manchado de sangue também, mas não é o seu — virei-me para o lobisomem fedorento de dois metros em minha frente. Ele tentava, mas sua cara feia não me intimidava, de modo algum — Não se atreva em me julgar, lobisomem, não faço isso quando o animal dentro de você se solta.
— Você nunca me viu dessa forma.
— Te vi batalhando, e vi suas mãos no pescoço dele, apertando firmemente da mesma forma que fiz com a elfa, só que eu usei uma faca — aproximei-me dele apenas pra olhar em seus olhos enormes amarelos — Fazemos a mesma coisa de modos diferente. Se condenar a mim, condene a si próprio.
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