Filhos da Magia
22 Capítulo 21 - Destrua aquilo que te destroe

Incessantes socos foram a causa da deformação na grade de minha cela, acordando-me de supetão de meu breve sono. Vejo dois guardas impacientes gritando para que eu desperte, quando fiz isso, um deles abriu o portão e caminhou em minha direção. Nem tive tempo de reagir. Seu bruto corpo colossal arrastou-me pelos braços sem se quer dar explicação alguma. Mal conseguia ficar de pé pois estava desnorteada, o parceiro dele ria de minha confusão que fazia minha raiva fluir.
O som de pedregulhos caindo me chamou a atenção. Entramos no escuro esconderijo de Francis, onde o mesmo me esperava nas mesmas posições que antes, entediado, porém raivoso.
Sou forçada a me manter em pé, apoiada na parede rochosa. Olho o mago em minha frente enojada por sua aura grotesca e a refeição de antes. Porém, atrás do homem, eu vejo a cerejeira, mais chamativa do que nunca, a cor que Idas pediu. O caldeirão já estava lá, prontinho para ser usado. Faltava-me magia e algo que vinha da Terra.
— Por que demoraram tanto? — resmungou Francis, dando atenção a algo que começou a preparar no caldeirão.
— Ela demorou para acordar e enrolou para levantar, senhor. Tivemos de arrastá-la até aqui. — disse um dos homens.
— Pois bem — Francis se virou — Saiam e selem a saída.
Eles passaram por mim sem me olhar e obedeceram às ordens de seu mestre. Minha atenção é voltada para o que o mago fazia. A ansiedade e a ânsia de vômito iam e voltavam. Tive de apoiar as costas na parede, com a mão no estômago, para não cair.
— Inútil até para chegar a tempo. — resmungou o mago.
— Tão inútil que teve que retirar minha magia para usar. Admita. Eu sou muito preciosa para você. — retruquei.
— Não se ache tanto assim. Você não tem a magia para dizer que é sua. E não fique nervosinha. Infelizmente, sua dor vai acabar cedo. — virou-se para mim com uma injeção, onde havia um fluído verde.
Ligeiramente, olhei surpresa para a seringa. Tenho que arranjar mais tempo para enrolá-lo até que a sopa estragada faça eu vomitar minhas tripas.
— Tenho motivos para ficar nervosa. Mandou seu pessoal para Swamoris e pensou que sairia impune disso. Você já sabe o destino dos que nos atacaram, certo? O inferno. E logo, logo, esse será o lugar que você chamará de casa.
Ele disparou rindo, mais debochado ainda da minha cara.
— Do que está falando, garota? Eu não mandei meus capangas para te atacar.
— Não seja um cínico! — zombei. — Deve estar feliz com a destruição da cidade, mas adivinha? Swamoris já se reergueu e os aliados de Nicholas irão arrancar sua cabeça quando te acharem.
— Blasfêmia é tudo o que diz! Duvido muito que cheguem à três metros de distância de mim e, principalmente — aproximou-se de meu rosto, com um sorriso convencido. — Qualquer ataque meu seria certeiro. Sem sobreviventes, sem testemunhas. E, garotinha, eu assumo cada ataque meu. Feliz seria eu se conseguisse entrar em Swamoris após tanto tempo. Tente novamente.
Eu franzi o cenho, confusa. Isso não fazia sentido. Porque ele mentiria sobre o ataque sendo que ele foi bem-sucedido? Francis foi quem nos atacou, é claro, só pode ter sido ele. Então, para que negar a essa altura?
Um sabor de desgosto azedou minha boca, meu estômago revirava e roncava alto, sentia uma extrema ânsia de vômito.
— Que cara é essa? — ele me encarou e recuou. — Oh, não. De novo não. — lamentou, erguendo as mãos, em defesa.
Involuntariamente, vomitei em cima de sua blusa um líquido verde pegajoso. Uma ardência permaneceu em minha garganta. Sacudi-me na cadeira tentando chamar atenção de Francis — o mesmo gritava de pavor ao ver sua blusa tingida de verde.
— Solte-me ou eu vomito em você de novo…
— Eca! — Ele balançou suas mãos conjurando um feitiço, fez as algemas em minhas mãos sumirem. Tonta, me levante e apressei para sair de perto de Francis.
Olhei para trás, me certificando que Francis estava ocupado limpando sua camisa. Como um ladino, ergui as mãos, alcançando o máximo de flores os possíveis, jogando-as dentro da minha blusa, sutiã e calça. Espiei, novamente, atrás de mim novamente e me assustei. Ele estava prestes a se virar, mas eu apertei o passo e sai da sala.
A parede de pedras se auto-destruiu e eu sair daquele lugar o mais rápido a caminho de minha cela.
“Isso foi por pouco” Pensei, com uma mão no coração, e a outra segurando a barra da blusa para que tudo não caia no chão.
Um dos guardas me esperava na frente da cela, obviamente para abri-la para mim. Porém, quando botei o pé para dentro, Ele me impediu rudemente esticando a mão em minha frente.
— O que está fazendo aqui? — Disse rispidamente, inclinado ligeiramente para mim.
— Oh, eu vomitei no seu mestre. — Confessei, e assisti seu rosto se contorcer de nojo. Tristemente, meu estômago se contorceu também. — E acho que vou vomitar em você também.
No mesmo instante, ele retirou o braço e me empurrou para cela, quase caí no processo, mas me equilibrei e rastejei até minha cama. Olhei sobre os ombros o guarda, mas ele tinha sumido. Aproveitei a chance para guardar todas as flores em baixo do lençol, após isso me joguei na cama dura. Eu estava esgotada, mas a calmaria da flor tranquilizou meus nervos.
Vou para as grades de minha cela. Espero Cortez aparecer, mas nada vem. Então, pego uma das pétalas e mostro sob as luzes das velas. Uma sinistra risada ecoa, era Cortez, com certeza. Isso significada que fiz o certo.
— O que eu faço agora? — questiono inutilmente baixo.
— Espere o sinal. — disse rápido.
Assenti, pensativa.
O que Idas me disse da última vez que nos vimos me perturbava. No que em pensar poderá mudar todo o feitiço. Então, se eu pensar em Arisu, eu descobrirei aonde ela está. No entanto, o foco principal é pedir ajuda. Mas, seria certo perder essa oportunidade de encontrá-la? Não, não seria. Mesmo tentando me convencer, minha mente estava decidida a mudar o rumo de tudo e, ao invés de pedir ajuda, pedir a localização de Arisu. Mas isso não estava certo! Parte de mim rejeitava rigorosamente essa ideia e tinham bons argumentos.
Primeiramente, pedindo ajuda temos chance de sair daqui, nossa única chance. Cortez e Idas decidiram isso, eu disse que quero tirar Idas dessa situação, fazer o que eles disseram é a única forma. Mas tem seus contras, logicamente. Não há nenhuma garantia de que eles irão encontrar nossa localização ou que o caldeirão vai funcionar sem magia. Sinceramente, eles nos encontrariam nos rastreando pelo o que? Magia? Bem, toda ela já foi retirada. Cheiro? Provavelmente não, se eu fosse Francis prenderia seus inimigos em outro mundo e usaria magia para esconder o que restar de seu cheiro.
Por outro lado, se eu pedisse a localização de Arisu, eu poderia dizer que tentei ao máximo salvá-la. O contra seria, o que eu faria com essa informação? Enviar telepaticamente para Nicholas?
Novamente, eu estava incondicionalmente e irrevogavelmente fodida.
Eu fiquei esperando por um tempo indeterminado uma voz, um sinal. Era desesperador, como se a ansiedade me consumisse por dentro. Cheguei a suspeitar que eles desconfiavam de mim e, de alguma forma, suspeitam que eu pensei em mudar de plano. Mas não tinha tempo para isso. Com ou sem a permissão de Cortez, eu vou preparar esse feitiço.
Há poucos minutos atrás um dos guardas me trouxe uma pílula e água, ele não disse para o que era, apenas me entregou. Eu engoli a pílula e instantaneamente senti-me forte com a energia renovada. Eu peguei algumas flores e as guardei na boca, calça e blusa. Indo até as grades encolhendo a barriga para não ficar emperrada nela e, após quase ter a cabeça entalada, suspirei aliviada quando sai da minha cela.
O laboratório de Francis estava aberto, o que me levantava muitas suspeitas. Passei pelas celas de Idas e Cortez sorrateiramente — este contive-me para não olhar na cela. Hesitante, caminhei até o laboratório averiguando cada canto do local. Depois andei até o caldeirão, que continha o estranho líquido vermelho, minhas mãos apertaram sua borda.
É hora da decisão: procurar por Arisu ou pedir ajuda?
Fechei meus olhos, inspirei e respirei fundo. Eu sabia a decisão certa, mesmo ainda contrariando: pedir ajuda.
Peguei cada ingrediente que precisava e joguei de qualquer jeito. A cor seriam as flores e acrescentariam mais poder ao feitiço; não tinha pegado nada que vinha da terra, então uso minha própria blusa como oferenda, já que ela sim foi feita na terra; faltava-me magia, e isso eu não tinha. Agarrei-me a sorte e peguei uma colher de pau presa no caldeirão. Remexi o conteúdo estranho, que começou a soltar uma fumaça verde, provavelmente tóxica. Eu tossi um pouco e continuei mexendo.
— Eu quero, não, preciso me comunicar com Nicholas da cidade dos magos, Swamoris. — Repeti essa frase várias vezes num tom baixo. Espiei meu progresso e não me surpreendi quando nada mudou.
Um sentimento estranho atingiu meu estômago igual à ansiedade ou pior, aquele sentimento de ser observada. De repente, alguém começou a aplaudir. Eu parei imediatamente de me mover. Prendi a respiração, senti um suor frio descer pela minha testa. Os aplausos ficaram mais perto e tão alto que doía meus ouvidos. Eu lentamente olhei por cima do meu ombro e, como esperado, Francis era quem aplaudia.
Não era tempo para ficar com medo, tenho que parecer durona e tentar não morrer.
Ele segurava no rosto um sorriso convencido, divertido. Passou o peso do corpo para a outra perna e cruzou os braços, despreocupado. Sua aura, além de irritada, estava zombeira, como se risse de mim por dentro — e por fora.
Claramente, eu demonstrei inquietude, não fugi de medo, apenas dei a volta no caldeirão mantendo distância do homem. Eu conseguia sentir o meu próprio cheiro de medo e hesitação. Fraquejado incrivelmente na minha atuação de durona.
— Como pensei, você estava agindo por baixo do meu nariz como um rato. — apontou, ele riu presunçoso.
— Bem, você me tratou como um rato. — retruquei.
— E, como pensei — continuou — você não vai escapar tão fácil, criança — ele se aproximou de mim lentamente, olhando nos meus olhos e dando passos cuidadosos igual a um leão pronto para pular em sua presa. Em reflexo, me distanciei a cada centímetro aproximado. — Como pensou que fugiria? Quer dizer, você acha que sou um idiota?
Puta que me pariu. Eu vou morrer e por burrice, e só percebo isso agora! Deveria ter ouvido Cortez e não ter bancado a heroína, sendo que, eu era claramente a vítima que será salva. Mas agora não tem salvação do nada, não tem Deus ex Machina. Sou somente eu, Francis e a morte entre nós.
— Não consegue me olhar nos olhos, Akemi? É tão fraca assim? — eu não percebi que olhava para o chão em meio aos meus pensamentos. Ao invés de olhar em seus olhos, eu procurei na sala algum objeto, arma, qualquer coisa, mas tinha nada para me defender.
— Não sou fraca. E só não entendo…
— Você parece ser lerda demais para uma asiática. A onde estão suas habilidades de Karatê? — Ele gargalhou segurando a barriga de tanto rir.
Eu revirei os olhos.
— Que piadinha previsível. Claramente, não sabe que grande parte de minhas habilidades vem da …. — eu parei na hora. Minhas mãos começaram a suar, e um sorriso bobo apareceu em meu rosto.
É claro, minha Kitsune, minha raposa. Tudo vinha dela, inclusive o fato de eu ser uma bomba. Não, não irei implorar por sua ajuda. Tenho um plano melhor.
— Quer saber? — eu sorri de orelha a orelha. — Você duvida de mim ou dela? — disse sugestiva e sorrindo mais ainda com a cara de confusão do mago.
— “Dela” ? você quer dizer sua Kitsune?
— Tem outro ser aqui nessa sala, lerdo? — provoquei, e Francis rosnou baixo.
— Kitsunes são um lixo de raça. Não são nem consideradas desafios a mim e a qualquer ser do mundo mágico. Servas de um deus inútil.
— Você foi um dos magos que exterminaram Kitsunes, não é mesmo? — conclui.
— Sim, e com muito prazer posso fazer isso de novo. — E com um sorriso demoníaco ele conjurou rapidamente um feitiço de fogo. Uma chama vermelha veio em minha direção e eu não pude me defender ou esquivar.
— Eu não entendo sua lógica, mago. — comentei, sentindo a chama me queimar de forma deliciosa, era um formigamento prazeroso e energizador por todo meu corpo. — Você quer atacar fogo com fogo.
Irradiando do meu corpo uma luz laranja já conhecida por mim, era densa e cegava minha própria visão. Todo aquele poder da luz perfurou meu corpo de forma renovadora e divina.
— Eu não entendo... — Balbuciou o mago.
Eu ri, mas não somente eu, ela riu também.
— Entenda que a Morte clama pela sua alma mais uma vez, Francis Ela'nor. — Comentamos numa única voz. Era assustadora, uma mais alta e mais distorcida que a outra, dando um tom sombrio.
Ele recuou, chamas coloridas apareceram em suas mãos e foram jogadas em nossa direção.
Por mais que fosse o meu corpo, não era minha batalha. Essa raiva, acrescentada com a minha, era resultado de morte de séculos que cercava Ichiro. Sua família, seu assassino, sua luta. E por mais que eu a culpe de ser o centro dos meus problemas, eu a admiro, kitsune, por lutar por vingança.
— Você disse que Kitsunes são servas de um deus — Ichiro se pronunciou — Eu sou esse deus.
Fechei os olhos tendo plena consciência, pela primeira vez, de que seria possuída pela Kitsune. Era por um bem maior, mas foi diferente dessa vez. Não estava numa floresta, ou em um lugar totalmente branco.
Voltei a observar a batalha. Parte dos móveis tinham sido queimados e poções derramadas, uma grande bagunça. O mago, ainda atordoado, se desviava desesperado das investidas animalescas da raposa. Ela, por outro lado, também aparentava certa dificuldade, quando se tratava de jatos de água em seu rosto, porém a raiva que sentia fez evaporar cada partícula de água que ousasse entrar em sua frente. Sua ira me contagiou. De modo que nem eu mesma me reconhecia.
A Kitsune era rápida, mas Francis usou teletransporte para contra-atacar.
“Pirralha, ele está imprevisível. Assim iremos perder! Use sua visão para me alertar de sua presença! “Ela gritou em meus pensamentos.
No mesmo momento, O mago tinha sumido, olhei para cada canto do laboratório. A raposa virou a procura. Um portal quase transparente abriu bem o nosso lado,uma mão surgiu e, juntamente uma corrente de formada de ossos saindo do centro de sua palma.
“Se afaste! Está do nosso lado! “gritei.
Tarde demais. A corrente óssea prendeu em nosso pescoço fortemente, arrastando para o portal. Sentindo-me sufocada, olhei para o que tinha no portal e me assustei com o que vi: Era um buraco cheio de corpos decompostos, eles gritavam grunhiam, olhavam para nós como se fossemos comida. Seus dentes, os que restaram, rangiam contra a carne exposta da boca. Uma coisa em comum que me chamou atenção, além do pavor que exalava daquele portal, todos eles tinham dentes caninos afiados. Seria isso uma cova de kitsune?
Não precisava saber, necessitava quebrar aquela corrente.
“Crie garras! Corte bem nos espaços entre os ossos. “ gritei em minha mente.
E assim ela fez. Rompendo a corrente e em consequência caímos no chão.
“Aonde ele está?” perguntamos simultaneamente.
Sem resposta. Ele tinha sumido.
— Não se esconda, Ela’nor! — esperneou a kitsune. Ela soltou uma gargalhada maldosa que ecoou pela caverna. Proferiu alguns palavrões em japonês com as mãos em punho socando o ar. — Venha até mim, seu verme!
Como pedido ele veio, armado com K’onar.
Ah não! Meu K’onar não!
"Temos que pensar em como vencê-lo, Akemi! " sua voz já não era tão raivosa, estava controlada. Ela se posicionou em ataque e continuou a falar em minha mente " Use o cérebro, Akemi, que eu usarei a força."
Então, percebi que foi a primeira vez que me chamou pelo nome. Me senti estranhamente emocionada com isso. Éramos uma dupla agora.
Então, observei meu adversário. Ele tinha a vantagem óbvia, magia — e todo o tipo dela. Pelo o que percebi, ele não sabe lutar corpo a corpo, sempre precisa se desviar e se afastar para lançar algum feitiço. Ele se esquivava muito lentamente. Nossos chutes o acertavam várias vezes. Mas não o subestimo. Ele tem mil e uma formas de nos derrotar, nós só temos que persistir até o final.
Eu compartilhei minhas observações com ela.
“Eu me pergunto até onde o poder roubado dele irá.” disse Ichiro.
Rapidamente, ela correu até Francis — que oscilou por um instante — e o atingiu com um soco no rosto com muito mais intensidade, pois adicionou fogo no punho. K’onar foi lançado para longe do mago. Quando o soco o atingiu, ele voou e bateu contra a parede, se virou para nós tossindo e ergueu as mãos.
Com as mãos juntas uma na outra ele conjurou uma enorme quantidade de água maior que o próprio laboratório. A água se formou em um dragão, que rugiu antes de avançar em nós. Não tinha escapatória. Ichiro cobriu nosso rosto com os braços e liberou labaredas em volta de nós.
Abro meus olhos. Estávamos debaixo d’água, e o mago tinha sumido, novamente. Ouvi o barulho de pedras caindo. Olho para a entrada do laboratório e vejo que foi aberto, e a água se alastrava mais ainda pelo local.
“Droga! Vão afogar e Idas e Cortez também! Precisamos ajudá-los “
“Não, não precisamos. Temos que vencer Ela'nor, e só.”
O mesmo tinha sumido.
Era a batalha decisiva, e estávamos em desvantagem. Encurraladas pela água, sem magia ou calor para usufruirmos do nosso fogo e, provavelmente, essa água poderia estar afogando meus amigos.
A falta de ar começava a me afetar, deixando-me roxa. A Kitsune, ainda sobre o controle do meu corpo, nadou até superfície antes que seja tarde demais.
Francis usou muito de sua magia nessa batalha. Imagino que esteja sumido até agora pois está cansado, mas provavelmente usou um feitiço de adaptação. Está cansado, mas não frágil. Temos que acabar com todas as vantagens dele.
“Eu sei como! “ disse a raposa em minha mente “Você tem que me irritar de todas as formas possíveis, mas só não me faça matar você." comentou divertida.
“O que ganharíamos com isso?”
“Para que eu use mais do meu poder. A raiva me alimenta.”
Então percebi que o fogo que nos protegia estava se apagando aos poucos. Se era isso que ela queria, era isso que eu iria fazer.
A kitsune escondeu o braço nas costas com a mão aberta e com o outro levou até o rosto com apenas o dedo indicador e médio levantado. Fechou os olhos e respirou fundo, entendi isso como uma chance de atiçá-la.
“Ichiro, eu me declarei sua discípula pois o que, mais preciso agora é saber como salvar minha família. Porém, percebi que confiar isso em você não foi a melhor escolha. Você está sozinha“ ela respirou, como se estivesse pronta para me estrangular “ Todas as kitsunes morreram, mas você continua aqui. Saber disso é como o inferno para você? ou seria o fato que você vai se deixar morrer pelo o mesmo homem que assassinou suas irmãs ? “ri um pouco triste “Esse sentimento de solidão tem me acompanhado por muito tempo. Sinto como se minha família estivesse morta. Uma vez eu li no grimório de meu avô que esse é o único modo de trazer honra a sua família. Assassinando seu assassino, mas, como isso não é possível para elas, pegue a sua chance. Traga honra, traga o sangue dele “ minhas palavras eram claras e precisas, com a medida certa de veneno para atiçar negativamente a kitsune. E pareceu ter o efeito que queria.
Cada vez que ela me possui, minha vontade de destruir queimar e matar aumenta. Tudo que que vejo é sangue. E toda essa agressividade, ódio, vem dela.
Ela rosnou, gritou e berrou, palavras estranhas — um feitiço — e então, a coisa começou a ficar louca.
A transformação da aparência foi em segundos, nem parecia eu. O cabelo negro passou para tão vermelho quanto sangue, os olhos amendoados ficaram âmbares com fendas de gato na pupila. Minha pele esquentava, e esquentava, até que começou a borbulhar, sem parar, como água fervendo, e então, aconteceu.
Boom!
A onda de calor magnífica irradiou do meu corpo: Era como um feixe de luz vermelho e laranja que foi se expandindo por todo local. A água foi evaporando rapidamente e, no mesmo instante, procurei pela sala Francis que até então estava desaparecido. E lá estava ele, flutuando sob a água em posição de meditação.
Era hora de acabar com sua paz.
Majestosamente, ela pousou no chão molhado, descalça. Firmou as mãos em um punho, em posição de ataque, pronta pra qualquer movimento do mago. Este, abriu os olhos no exato momento em que meus dedos do pé tocaram no chão. Ele sorriu mesmo parecendo irritado, parou de flutuar e caminhou para mais perto de nós.
— Wow! Eu não esperava que escapasse tão rápido. Não importa de qualquer forma, essa batalha acaba agora. Já me causou danos o suficiente. — gesticulou para o laboratório.
“Agora é com você, pirralha. “
“Hã? O que quer dizer?”
“Acha que vou fazer isso tudo sozinha? Eu te darei força, em troca, você tem que vencer.“
“Tenho a impressão de que fazemos muitos acordos”
“E também, eu simpatizo com a sua vontade de lutar e proteger sua família. Agora, LUTE! “no momento em que pisquei os olhos, eu estava de volta ao comando do meu corpo. Me senti um pouco tonta, mas mantive a postura de ataque.
“Vamos lá, Akemi. E sua chance de não ser a heroína que sempre é salva” disse para mim mesma, criando coragem. Eu rosnei de raiva. Precisava de uma arma, precisava de K’onar. Olhei pela sala e o encontrei jogado perto da árvore de cerejeira. Quando voltei para Francis, ele tinha sumido.
Merda!
Senti uma pontada de dor nas minhas costas. Fui arremessada até a parede, batendo em um armário que abriu e derrubou várias penas brancas. Acabei ralando minha cara no processo. Firmei os pés no chão e me apoiando no armário, tentando me levantar. Mas, quando fiz isso, uma mão agarrou em meu cabelo e puxou para trás e a outra mão se prendeu em meu pescoço.
— Akemi Wada Nakamura. — disse divertido — Seu avô, se te visse nessa situação de fraqueza, tiraria seu sobrenome na hora — ele riu e apertou meu pescoço mais forte, suas unhas cravaram minha carne — Ele não vai ficar feliz se eu te matar. Se você me deixasse te transformar em uma quimera, ao menos, você ficaria viva, mas seria um ser irracional controlado por mim. O único lado bom da sua vida — enquanto falava, se distraiu, e usei isso ao meu favor. Dei uma cotovelada em sua barriga, ele urrou de dor e aproveitei pra fugir de seu aperto.
— Arthuro? Então ele está realmente vivo? — perguntei num fio de voz. Meu pescoço ainda doía, tampei os ferimentos com a mão. Lentamente, aproximei de K’onar. Meu corpo gritava por descanso e meu coro cabeludo latejava de dor, mas ignorei e continuei enrolando — E você entra em contato com ele, huh? Ele pediu pra me transformar em uma quimera?
Ele riu debochado.
— Você não sabe nem a metade, não é mesmo? Tão estúpida. Como pode ser neta de Arthuro.
Eu avancei, mirando K’onar em sua perna. Francis ficou surpreso com o ataque repentino e se defendeu muito mal. Ele tropeçou no chão, sangrando, e se teletransportou para longe de mim. Conjurou um feitiço, uma espada de ossos apareceu em sua mão. Com isso, ele sorriu e avançou sobre mim.
— Finalmente, uma atitude de homem — brinquei, defendendo-me de cada ataque — Que tal uma conversa pacífica? Poderíamos resolver tudo na base da conversa. — Ri, atacando-o novamente.
Dei um corte profundo em seu maxilar. Francis revidou invocando duas adagas e as tacando em minha perna que, Infelizmente, ele acertou. Eu me escorei na parede, jogando todo meu peso nela e forçando pra não gritar de dor. Meu corpo inteiro latejava, mas não podia parar. Porém, Francis foi rápido demais. Raízes surgiram da parede e me prenderam na mesma, com os braços e pernas abertas. Eram cheias de espinhos e perfuraram minha carne. Eu gritei de dor e tentei me livrar das raízes, mas não adiantava, somente piorava.
— Pensei que lutaríamos sem magia. — resmunguei.
— Você usou sua raposa e eu minha mágica. Justo. — concluiu. Ele brincou com sua espada enquanto caminhava lentamente até mim. Eu ia morrer. Conseguia sentir isso. Procurei algo na sala que me ajudasse, mas quando me mexia as raízes apertava mais ainda.
Eu preciso de fogo. Preciso queimá-lo por inteiro.
“ Kitsune… “ pedi mentalmente.
“Eu sei, pirralha...“
— Quais são suas últimas palavras? — Ele ergueu a espada em meu peito, sorrindo maldoso. Estava tão perto de mim que conseguia ver o prazer de me matar em seus olhos.
O sentimento de formigamento me encheu, era energizante e familiar. Era o fogo, passando pelos vasos sanguíneos e parando em minha garganta. Só precisava de um alvo e apertar o gatilho.
— Queime no inferno. — Ao terminar a frase, um jato de fogo o lançou para o outro lado do laboratório, meio inconsciente. Ao mesmo tempo em que ele era jogado para longe, eu queimei as raízes usando bolas de fogo, me queimando no processo, mas essa dor não incomodava. Corri, ainda dolorida e com a roupa pingando de sangue, até K’onar.
Como se tudo estivesse em câmera lenta, usei a rapidez da raposa e apareci segundos por trás dele, antes de seu corpo se chocasse com a parede. Apliquei o golpe final em seu coração, profundamente até ultrapassar o cabo de K’onar. O peso de seu corpo derrubou minha katana e a lâmina perfurou o chão. Ele tentou respirar, se mexer e diz se suas últimas palavras, mas não conseguiu. Francis paralisou por um momento, a dor em seu rosto se desfez e se tornou vazio, pacífico. Mas, felizmente para todos, seu destino final não é pacífico.
Eu respirei fundo, encostei a testa no cabo da katana sentindo um tremendo mal-estar. Meu estômago embrulhou e um gosto azedo apareceu em minha boca. Afastei-me do corpo do mago e perto do caldeirão eu vomitei, para o meu alívio. Não era o meu sangue ou o do mago que me fez passar mal, ou a realização de que eu acabei de matar o pai de Nicholas. Era somente aquela porcaria de sopa de lama. Até porque, eu me sentia extremamente aliviada por matar Francis.
Finalmente tinha chegado a hora.
Eu ergui o caldeirão que acabou sendo derrubado em meio a batalha, mas parte dos ingredientes tinham sido alagados. Eu bufei de irritação. Passei a mão pelo cabelo e avaliei o que tinha de bom pra reutilizar. Peguei algumas flores murchas, a tão linda árvore tinha perdido a cor, peguei cuidadosamente os pergaminhos de feitiçaria de Francis, recolhi minha blusa, que era oferenda da terra, coloquei tudo um de cada vez no caldeirão.
— Poderia acender o fogo, mestre. — peço, e assim ela fez.
“Criança, como sabe disso tudo? “perguntou K’onar. Eu sorri ao reconhecer sua voz.
— Bem, eu li e reli, o livro de meu avô. Tinha algumas explicações de como preparar poções, criar feitiços e outras coisas — expliquei enquanto mexia o líquido viscoso e marrom dentro do caldeirão. — Eu só tenho que manter em mente o que quero. E K’onar… eu tenho estado confusa, mas agora eu sei.
“O que quer dizer com isso, jovem?”
— Quero dizer, que não tenho somente uma chance. Eu posso muito bem saber aonde Arisu está e pedir ajuda com Nathaniel, mesmo não tendo certeza de que ele vai nos achar. De qualquer forma — fecho os olhos — Família vem primeiro.
Minhas memórias com Arisu preencheram minha mente. Nossa infância junta, seu rosto, sorriso e a última vez que a vi sua imagem na fogueira. Toda a agonia que eu senti desde o dia que sumiu, a saudade e a esperança que ainda tenho de encontrá-la. Tudo isso se encontrou para pedir somente uma coisa.
— Eu quero saber onde está Arisu Wada Nakamura. — pedi com a voz firme, ciente do que estava fazendo.
— Akemi?
Ouvi alguém me chamando. Quando me virei pra entrada, avistei Idas com um olhar atordoado no rosto. Ele olhava horrorizado para o corpo ensanguentado de Francis. E, quando seu olhar pairou em mim, correu até mim. Colocou suas mãos em meu rosto, averiguando meus ferimentos. Mas quando tentei tocá-las, ele desviou, deu um passo para trás. Lembro-me de que usei minha blusa como oferenda, então estava apenas de sutiã na presença do anjo. Engoli seco.
— O que aconteceu? Cortez não me avisou que já era a hora… — ele estava confuso, olhando somente para baixo.
Eu queria recuar, mas sabia que poderia confiar em Idas.
— Ele não te avisou porque não era hora.
— O que quer dizer? — seus olhos disparam para mim.
— Eu decidi que era a hora. Derrotei Francis sem a permissão de Cortez. — ele olhou zangado. Um súbito desconforto me apareceu ao ser recebida assim — Eu sei, não foi certo fazer isso, mas eu não podia continuar parada! Por favor, me entenda. — quando eu tentei encosta-lo, ele se afastou, sem ao menos me olhar nos olhos.
— Não — disse friamente. — Você pode confiar em mim, sabia? Afinal, entramos juntos nessa armadilha — ele lentamente se afastou, com um ar decepcionado, me deixando plantada no chão com cara de palhaça. — Vou ajudar Cortez a sair da cela. — Avisou.
— Não, espera — eu apressei para chegar perto dele. Idas apenas me sob os ombros — Tenho algo a mais para te contar.
— O quê? — ele olhou para o teto, respirando fundo.
— Eu descobrir onde Arisu está... usando os pergaminhos de Francis e alguns ingredientes que achei por aqui… — confessei, sem olhar em seus olhos.
Confessava meus pecados à um anjo, e pude sentir o olhar desapontado dele.
Idas não disse nada. Apenas se virou em direção às celas. Eu fiquei sem graça com sua reação. Mas acho que ele precisa de um tempo para compreender o que fiz e, talvez, me perdoar.
“A melhor forma de fazê-lo te perdoar é saindo daqui ” cantarolou K’onar
“ Apenas me ajude a falar com Nicholas “ resmunguei.
Respiro fundo, passando a mão no pescoço.
Agora precisava focar no feitiço.
— Eu me pergunto se isso é seu. — uma voz conhecida me chamou a atenção. Vinha de um homem que tinha nas mãos o meu colar, balançado para os lados e olhando o mesmo — É realmente maneiro, pena que não é mais útil para mim — lamentou o jovem, que era bem bonitinho na verdade. Mal conseguia olhar em seus olhos pois seu cabelo negro bagunçado os tampava, ele estava tão sujo quanto eu, usando apenas uma bermuda bege larga e um blusa azul escuro mais sujo ainda, estava descalço e molhado por causa de minha última batalha — É um prazer te conhecer, finalmente, pessoalmente, Akemi? Mas, porque está vestida assim… — comentou olhando para meus seios, corando.
Eu arregalei os olhos, cobrindo-me desajeitadamente.
— Cortez? — Murmurei, sorrindo de leve. Um sentimento bom preencheu meu coração. Porém, esse sentimento foi embora quando vi a reação do moreno a minha frente. Foi de felicidade para terror, em segundos. — O que aconteceu?
E então, eu senti várias facas me acertado pelas costas. Eu olhei por cima do ombro, pensando que era Francis novamente, mas me surpreendi com o que vi: eram milhares de vultos pretos saindo do corpo de Francis e me atingindo em cheio. Perfuraram-me da mesma forma que K’onar fez no mago, profundo até tocar no chão. A dor era insuportável, tanto que caio no chão, mas a visão era perturbadora.
Eu vi várias coisas confusas, pessoas desconhecidas, lugares desconhecidos, como memórias, mas não minhas. Eu via tudo aos olhos de Francis.
Numa cela escura, havia um menino negro que aparentava ter nove anos de idade, se escorria na parede a fim de se afastar o máximo possível daquele que se aproximava lentamente. O mago ergueu a mão e acariciou rudemente a cabeça do menino.
“Se desprenda da esperança, garoto. Você só está aqui para morrer.” disse o mago.
Então, ele deixa a cela, põe a mão sobre a fechadura e sussurra:
“Praenteris.” uma luz azul selou a entrada, e toda luz que existia sucumbiu.
A outra visão era de dois bebê em uma casa, seus pais mortos no chão, Francis pegou uma das crianças, enquanto a outra acorda no momento em que o irmão foi retirado e começa a chorar. Gritos incessantes que tremeram a casa. Francis simplesmente, pula a janela com a criança roubada no colo e foge.
Em seguida, vejo o laboratório em perfeito estado. Na grande mesa em que Francis estava perto, um ar de asas branquíssimas se encontrava, ensanguentadas e com as penas arrancadas. O dono dessas asas estava deitado do outro lado da sala, inconsciente.
Essas foram umas das memórias que consegui entender antes que minha cabeça explodisse. Estava ofegante após ser bombardeada por tantas coisas. Deixei minha mão cair no chão, peguei algumas penas e as apertei.
— O que aconteceu? — Consegui perguntar.
— Não sei. Mas, confesso, foi sinistro — disse apavoradamente radiante.
— Meu corpo dói… minha cabeça… é como se fosse explodir… que isso não seja verdade.
— Pegue, Akemi — a voz de Idas interviu. Ele se aproximou de nós sem a simples camisa, também molhada, mostrando seu corpo perfeito — Pegue e se cubra. — ele esticou a mão, me entregando a camisa. Eu a agarrei na hora e me vesti.
Eu tento esquecer esse meu momento de loucura, mas então vejo as penas encharcadas no chão. Não foi um momento de delírio. Encosto nelas, seguro entre meus dedos, sinto a textura macia — elas eram reais.
“Idas…” Foi a primeira coisa que veio em minha mente.
Eu e Idas trocamos olhares horrorizados. Seu corpo tremia, sua boca tentava emitir algum som, mas nada dizia. Até que ele respirou fundo, fechou os olhos e disse:
— Akemi, diga ara mim que minha marca ainda está aqui. — nem soou como uma ordem, e sim, como um apelo. Eu concordei na hora, controlando minhas lágrimas preparando mentalmente pelo o que estava por vir.
Ele se virou, tão pouco preparado quanto eu para a resposta. Suas costas estavam machucadas, com cicatrizes pequenas por todos os lados não afastava o fato de serem lindas.
Eu tentei não piorar a situação, não provocar uma agonia desnecessária. Mas um nó na garganta me impediu de falar. Tentei me pôr no lugar dele. Enrolar ou mentir, iria prolongar a dor e piorar. Precisava encontrar uma forma de contá-lo. Grunhidos eram o máximo que emitia, acho que nenhuma frase completa ou palavra específica expressaria o quão mal me sentia agora.
— Idas… Você não tem mais asas.
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