Filhos da Lua e a Ascensão dos Corajosos.
51 Primeiro teste.
Notas iniciais
O homem velho deu passagem para Jess e os soldados que guiaram Kan para dentro da sala. O novo lugar era como um salão comprido, mas cheio de coisas amontoadas. Na frente de uma das paredes havia uma fileira de grandes e largos cilindros de vidro de mais de dois metros de altura que chegavam até o fundo da sala e todos totalmente cheios de líquidos translúcidos que a variavam levemente de cor. E no centro do salão havia varias mesas ou balcões espalhados, com muitos potes de diferentes tamanhos contendo coisas nada agradáveis de ver em conserva.
Enquanto Kan observava o lugar seguia inconscientemente o velho a sua frente. Ele já estava tenso antes, mas vendo o que ele via ficou quase desesperado com o que podiam fazer com ele ali. Então parou próximo de um dos cilindros e neste tempo tentou definir o que havia dentro da agua turva e amarela com curiosidade. Uma luz melhor posicionada no interior se acendeu e mostrou um humano submerso. Dukan deu um passo para trás quando entendeu o que era e logo ouviu o guincho da risada do velho, que o encarava e sorria com grandes dentes brancos não muito longe. Kan não com seguiu deixar de voltar á observar aquela pessoa, aquela cobaia adormecida em meio ao liquido com algum aparelho na face que o permitia continuar respirando. Sobre a pele clara daquele estranho, cristais cresciam apontados em varias direções, de cor dourada opaca que variava até os sem cor alguma, estavam acumulados nas partes mais ossudas do corpo humano, como ombros, joelhos e mãos, mas também em outras partes começavam a ocupar o espaço sobre a pele.
O traje forçou Kan a se mover e o velho o esperava próximo de uma maca de metal. O loiro não gostou daquilo, macas e cadeiras estavam se tornando um mau sinal, mas seguiu e deitou-se sobre ela obedecendo à vontade do traje, que com o mesmo comando da primeira cadeira em que esteve se fixou no metal como velcro. Jess surgiu de repente do outro lado e acrescentou alguns cintos os afivelando como se fosse algo da rotina dele. O velho foi acender um foco de luz sobre Dukan que falhou, mas com uma soco de Jess acendeu. O soldado-comandante olhou o velho dizendo:
–Sabe qual é o seu trabalho com ele? — o velho concordou sem realmente dar atenção, observava obcecadamente Kan ao por um óculos de proteção que o deixou com os olhos castanhos maiores do que os normais. — Faça os testes necessários para descobrir sobre essa mutação que ele desenvolveu. Este pode ser muito útil, se soubermos como ele consegue se curar tão rápido. Esta me ouvindo Matiel? –Jess continuava encarando o velho que parecia ansioso e concordou novamente sem dar muita atenção.
Jess se afastou, mas continuou ali em alguma parte que Kan não conseguia ver. Com certa dificuldade o velho puxou uma mascara de ar de algum lugar sobre a cabeça de Kan e tentou colocar nele, o loiro se contrapôs desviando a cabeça até Jess o segurar e o forçar a colocar a mascara de oxigênio.
Matiel esfregou as mãos as aquecendo e se virou para uma bancada que Dukan não podia ver, depois voltou com um aparelho com uma longa ponta fina. Com os dedos apontou e tocou fortemente uma parte no abdômen de Kan, depois olhou rapidamente Jess que não perdeu tempo em abrir um espaço na malha com a caneta de laser. Dukan descobriu quando Matiel apontou o parelho metálico para sua pele, que a máscara não era apenas para lhe dar oxigênio, ela impedia que sua voz se formasse e chegasse ao ambiente. Então ele se debateu tentando se soltar pela dor que atravessava a pele.
Os dois na sala pararam com aquela reação. Então o velho olhou algo e sumiu da vista de Kan, voltou a seguir dizendo para Jess que tinha se esquecido de liberar o gás. Logo depois Kan notou a dor sumir e todo o seu corpo desaparecer com um formigamento breve junto com seus pensamentos ficaram mais lentos, mas continuou consciente sem conseguir ver o que eles estavam fazendo. Matiel começou a usar seu aparelho com concentração e recebia alguns respingos de sangue nos óculos, Jess continuava sumido e afastado apenas observando.
Horas mais tarde Dukan acordou sem a máscara e quase fora do efeito do gás. Observou que ainda estava preso sobre a maca e na mesma sala, mas nenhum dos dois homens estava lá. Sentiu uma parte quente e dolorida no abdômen e a dor neste ponto aumentou aos poucos. Ele ficou curioso de saber o que fizeram e arcou o pescoço o máximo que pode, mas não viu muita coisa e a dor o fez voltar a deitar-se tendo que suporta-la. Notou que a sala tinha algumas coisas que refletiam e procurou se algum o mostrava, em um cilindro perto, com todas as luzes internas apagadas, Kan se viu distorcido, deitado sobre a maca e havia manchas e respingo de sangue sobre ele, a malha cinza cortada e na sua pele um retângulo se destacava em um tom mais escuro e profundo de vermelho. Ele desviou o olhar sem querer pensar nas possibilidades de estar sem alguma parte de si.
Longas horas se passaram e Dukan ficou apenas com tormento de estar com o ferimento exposto, que volta e meia se mostrava bem presente e ele não conseguia se desconcentrar daquilo. O salão se acendeu junto com os cilindros, revelando que o humano dos cristais não era o único ali, e o velho surgiu dando uma olhada em cada um deles em longas pausas de analise. Até que chegou próximo de Kan e deu a ele um leve sorriso, ironicamente como se o cumprimentasse. Então Matiel olhou espantado o que tinha feito em Kan e abandonou a prancheta que estava preenchendo para pegar seus óculos de proteção e olha-lo de perto. A seguir o velho pegou um tecido qualquer e esfregou o ferimento fazendo Kan quase conseguir se soltar da mesa com a onda de dor.
Matiel, o especialista na estrutura física humana e em tudo que o compõe, havia retirado uma tira de tecido muscular para seu teste com Kan. Mesmo o prontuário dele como cobaia indicando que começasse com algo mais simples como um corte. Porém o velho não tinha a paciência e optou por algo mais direto que acabaria com os mesmo resultados. O teste mostrava-se tendo um bom avanço, pois a parte retirada já estava quase que totalmente regenerada e o corte da pele também caminhava para se encontrar e fechar o ferimento. Enquanto o velho observava, Kan teve que se concentrar em se acalmar para superar o incomodo de dor que ainda ecoa da limpeza nada gentil do ferimento feita por Matiel, e sua concentração para isso admirou o velho, pois ela ajudava a apressar o processo de cura. Não demorou para que o senhor saísse apressado, deixando Dukan novamente sozinho e durante horas.
Jess apareceu pisando firme sendo seguido de Matiel, que falava coisas sem parar e argumentava com muita dedicação para convencer o outro de algo.
O comandante se aproximou de Kan com os dois costumeiros soldados de capacete e roupa iguais, e passaram a desatar as fivelas apressadamente. De repente Jess se cansou do velho desesperado que falava em diferentes formas e frases para deixarem Dukan com ele, sério e irritado o soldado puxou do cinto uma pistola e apontou para a cabeça de Kan, que ficou bem surpreso com a ação, e encarava Matiel friamente.
–Acha que ele pode regenerar o cérebro? -disse Jess com a voz firme. -Se não, pare com isso agora. A decisão da Guia é A decisão.
Depois de dito Jess guardou a arma, pegou a caneta-laser e apontou uma sequencia de pontos no traje de Dukan fechando a abertura no abdômen e o fazendo se levantar da maca. O loiro ficou feliz em sair dali, mas logo depois que começou a andar em movimentos involuntários, viu que não era boa ideia, pois seu ferimento começava a liberar sangue sob o traje e o incomodava junto com a dor interminável. No meio do caminho Kan se sentiu mal, talvez pela quantidade de sangue perdido ou a energia que gastava para se regenerar, e como o traje o entendia permitiu que ele se apoiasse nas paredes do corredor, mas os pés se arrastavam para ele continuar. Jess apenas o observou e fez um suspirou impaciente. Dukan foi largado em sua cela. Assim que ficou livre se deitou sobre a cama, sem muito controle sobre si mesmo, se esticou ignorando que estava sujando as coisas com o pouco sangue que consegui a passar pela malha e tentou usar o seu poder, pensando e se concentrando exatamente em curar de uma vez a ferida aberta.
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