Filhos da Lua e a Ascensão dos Corajosos.
98 O quinto guia.
Notas iniciais
Os cinco adultos, três homens e duas mulheres, olhavam para Flecher, Taz, Cadius, Diana e Charlie com expressões calmas e indiferentes. Logo, pelas coisas que sabiam e pela situação, os combatentes perceberam que aqueles eram os cinco Guias de toda a sociedade da nave Estado.
Flecher apontava a pistola para um homem careca sentado na cadeira mais próxima, e exigiu que eles o obedecessem e seguissem suas ordens, mantendo oculto que seus ferimentos doíam enquanto ficava de pé. Eles não reagiram diante da fala ameaçadora dele, mas o careca ergueu as mãos devagar em rendição tranquila e sem muita crença lançando um olhar para os outros, que Flecher seguiu, mas o moreno estranhou algo e piscou fortemente os olhos ao encara-los, sua visão estava deixando-o confuso, pois via-os borrados/desfocados, e ele desejou que não estivesse prestes a perder a consciência naquele momento.
Cadius, que estava do outro lado da posição de Flecher e na frente de Diana, se esforçava para saber mais dos cinco adultos, mas não conseguia nada deles. Logo supôs que a única razão para isso era que algo anulava seu poder naquele lugar. Então se aproximou da mesa e mirou melhor a segunda mulher do grupo, de cabelos loiros ondulados. Flecher observou a breve caminhada dele e estranhou muito mais seu estado, acabou estreitando os olhos e lançando um olhar confuso para Cadius, que não entendeu o porquê. Para Flecher Cadius estava perfeitamente definido, presente e normal, porém os adultos continuavam embaçados e suspeitos. Flecher olhou para Taz, ao lado dele, depois para Diana e Charlie, logo atrás deles, confirmando a diferença. Todos os seus companheiros estavam bem definidos, como sempre, então se questionou o que estava acontecendo ali.
Taz estranhou a expressão confusa de Flecher e começou a achar que ele tinha tomado analgésico demais, mas antes de perguntar qualquer coisa se distraiu com o som de vários passos vindo do corredor largo de onde vieram. Flecher a chamou indicando o homem que estava na sua mira, e ela entendeu que era para assumir o lugar dele em ameaçar o homem. Depois ele caminhou manco até ao lado de Charlie e tocou um painel próximo da porta, seu poder se espalhou como um flash rápido e a seguir pesada porta deslizou se fechando com um baque forte e o som de alguns trincos, deixando a sala em completo silencio. Porém, Flecher foi atingido por uma tortura gerada por seus ferimentos e o gasto de energia nessa ação. Suspirou e tentou manter-se forte.
–Eles têm o controle de tudo daqui... – informou ele para Diana e Charlie que estavam próximo da porta. -Conseguimos uma boa posição.
Então, do outro lado da sala, um riso forte ecoou levemente abafado. Flecher se virou para encarar o homem sentado na cadeira mais longe em postura relaxada, mas logo sua percepção apontou o sumiço dos outros quatro da sala.
–Onde eles foram?! Taz! –A menina, o olhou completamente confusa, ainda estava apontando para o careca, que estava completamente normal na visão dela. -Cadius! –e igualmente o rapaz não entendeu Flecher, que ficou irritado com eles.
–Eles quem, Flecher?- Diana perguntou com um par de facas em mãos prontas para serem usadas.
–Os outros quatro!- respondeu.
E o moreno olhou para Diana por um momento, e depois reconheceu em todos os combatentes a expressão que mostrava que estavam pensando que ele estava enlouquecendo. Mas era muito real para ele e completamente confuso o que estava acontecendo.
Um riso baixo chamou novamente sua atenção para o mesmo homem na cadeira afasta. E Flecher percebeu aquele Guia estava definido, como Taz ou Cadius, e o encarava fixamente e audacioso o tempo todo, sem se importar com os outros combatentes na sala. O senhor devia ter mais de quarenta anos, uma fina barba á ser feita, pele clara, olhos azuis escuros, cabelos penteados para trás negros com algumas mechas prateadas, e um sorriso divertido e fino.
–O que esta acontecendo? Quem é você?- Flecher questionou sem paciência, sustentando o olhar e se aproxima caminhando pela lateral da mesa. O senhor desviou o olhar para mesa quando ele chegou ao seu lado, mas manteve um sorriso gozador que irritava o moreno. -Me responda!
O guia levantou o olhar para ele e balançou a cabeça lentamente, negando. Flecher apertou a arma em sua mão com raiva, não podia atirar no único inimigo que estava vendo de verdade naquela sala, era o único que podia dar uma explicação.
–Taz! Onde tem outro dos Guias?- ele perguntou ainda sustentando o olhar do homem.
Confusa, como todos estavam naquele momento, Taz apontou para uma cadeira — a próxima depois daquela que estava sob a mira de Cadius. Flecher observou a indicação e depois olhou o lugar completamente vazio e, sendo assistido pelo Guia e os outros, levantou a arma e atirou sem hesitar. Diana se assustou, levando uma mão na boca para ocultar um grito de susto, vendo o terceiro guia ferido.
–Por que fez isso! Ele não estava ameaçando ninguém! -Charlie disse pasmo.
–Não tem ninguém ali. — O moreno respondeu voltando a olhar o homem, que estava contra o encosto da cadeira com uma breve imagem, tipo interferência na tevê, de uma face assustada e indignada oscilando para a verdadeira face séria e sem medo. Mas pelo menos o sorriso tinha sumido. -Agora responda! O que está acontecendo?!
–Não faça isso de novo. -a voz de tom forte do homem soou calma e levemente irritada. Ele se endireitou na cadeira. –Eu sou Alies, o quinto dos cinco atuais Guias dessa nave.
Flecher continuou o encarando fixamente. Mais do que o jeito daquele homem, algo o incomodava intensamente e o deixava tenso de descobrir o que era. E ao mesmo tempo Alies analisou Flecher dos pés à cabeça e comentou:
–Parece que enfrentou algumas batalhas para chegar aqui, Flecher. – o sorriso fino passou no rosto do homem. E Flecher estranhou ele usar seu nome, mas Alies continuou: — Ah, antes que pergunte, sim, eu sei quem é você. Um pouco pelas coisas que andaram fazendo e pelas informações que chegaram.
O mais velho ficou de pé, diante de Flecher que deixou a pistola pronta e apontada para o abdômen do outro. Alies vestia-se com um suéter de gola alta sob o blazer escuro, e deixou que o mais novo percebesse que tinham a mesma altura. Taz, Charlie, Diana e Cadius não entendiam o que estavam acontecendo, apenas assistiam intrigados sem sair de suas posições.
–Esta notando, não é?- Alies disse assistindo a expressão do mais novo mudar para uma com leve espanto. Aproximou o rosto ousadamente do de Flecher e lhe falou quase como um segredo: — Somos extremamente semelhantes, não acha? E quer sabe o porquê? Eu conhecia o seu pai, e conhecia-o muito bem.
Espantado, Flecher se afastou do homem, quase não percebendo seus ferimentos reclamando, apontou a arma diretamente para o coração de Alies e perguntou:
–O que você sabe dele?
Alies sorriu e olhou os outros. Os quatro combatentes os observava com estranheza e ainda apontavam armas para os outros Guias, que não estavam ali apenas para Flecher.
–Sei umas coisas. – Alies respondeu calmo e voltou-se para o moreno diante dele. –Seu pai era eu, mas não exatamente.
–Como assim?! -Taz se expressou indignada com o que ouviu. -Desde quando isso virou um filme do século passado?!
O homem riu olhando Flecher, que não tinha mudado sua expressão, e se voltou para todos na sala:
–Vocês sabem o que essa nave faz, é por isso que estão aqui, não é? – os combatentes concordaram. -Clonagem, é a resposta. Sou o segundo do verdadeiro homem com essa aparência, fui criado aqui, e hoje coordeno essa coisa no lugar do meu anterior. E seu pai, Flecher, era outro que viveu na terra para uma experiência e foi esquecido. Mas de uma mãe diferente, entende Flecher?... Pela sua cara vai demorar um pouco, mas é isso.
Alies voltou a se sentar na cadeira de forma relaxada e continuou falando:
–Também vou admitir que fiquei impressionado com sua aparência, Flecher. Tão igual a mim, mesmo sendo um não esperado filho de um clone! Todos dizem que não posso ter descendentes... Esses pesquisadores e cientistas mal sabem o que estão falando quando um projeto “plano B” consegue. Não é legal saber que meu sangue não correrá em nenhum outro ser. — Alies diminuiu o tom da voz e encarou a mesa, pensativo. -Um sangue tão bom e com dons interessantes quando tratados da forma certa...
Flecher recuou mais do homem sentado, claramente chocado com o que ouvia e deixando a mira de sua arma decair. Ele pensava rápido buscando a logica ou provas que aderisse veracidade aos fatos que Alies disse, e se perturbava cada vez mais, pois para ele sua vida era normal, mais um humano comum, e se aquele homem estava dizendo a verdade, o tempo todo ele estava envolvido com a nave, a família dele estava, querendo ou não, e a parte que o magoava era que ele, naquela teoria nova, não tinha qualquer laço sanguíneo com seu avô, e único de sua família vivo.
–Flecher! Você não pode acreditar nesse mentiroso!- Taz gritou tentando traze-lo se volta á missão.
–Esta me chamando de mentiroso?- Alies soltou um riso forçado e apoiou as mãos na mesa encarando Taz, irritado. -Não tenho medo de você para me esconder atrás de uma mentira! Além do que, vocês não vão fazer nada mesmo. São só um bando de revoltados querendo atrapalhar a vida das pessoas que estão em paz...
–Pouco me importo com sua opinião! E é melhor ficar quieto antes que eu te faça ficar quieto! -Taz ameaçou muito mais séria e encarando o homem com a mesma intensidade. Alies levantou uma sobrancelha escura para a pequena, que se virou para Diana e pedindo uma faca, que logo foi dada.
–Você é muito irritante. -Alies disse desdenhoso e desistindo de dar atenção à miniatura de gente.
E a seguir, subitamente, uma porta dupla se abriu atrás da cadeira de Alies, que conseguia manter a expressão calma como se soubesse que aquilo ia acontecer. Os combatentes não tiveram muito tempo de ficarem espantados com o grande grupo de soldados que chegaram. Flecher, que estava muito próximo dos inimigos, foi golpeado com um soco no braço ferido, perdendo a arma, e dominado. De sua posição assistiu Taz se ser atingida por um dardo antes que pudesse se esconder atrás da cadeira do careca e Charlie, Diana e Cadius também foram rapidamente nocauteados por um dos disparos, antes que pudessem revidar.
Quando tudo ficou mais calmo, Alies se levantou e ajeitando o blazer notou a faca que Taz segurava a poucos segundos cravada sobre na beirada da mesa negra, a centímetros de não acertar sua abdômen ou mais abaixo.
–Estão todos bem, Sr. Alies?–Nia, com a expressão seria e olhar sempre fixo, saiu do meio dos soldados, chagando ao lado do Guia.
Alies a olhou dando um sorriso fino e assentiu.
–A maioria esta. Mas o senhor Juan talvez tenha alguma chance se os senhores puderem acudi-lo.
Um grupo de soldados foi até a cadeira em que Flecher atirou. E por alguns momentos o moreno, ainda fortemente segurado por um par de soldados, vislumbrou a imagem borrada de um senhor ferido. Depois ele encarou Alies assustado, que o olhava com um sorriso vitorioso. O Guia orientou que levassem os capturados para juntos dos outros e que acompanhassem os outros Guias para os aposentos deles. Flecher foi algemado e ia ser levado, mas Alies sussurrou uma ordem á um dos soldados, e eles o seguiram pelo labirinto de corredores da nave.
Minutos depois Alies abriu a porta de uma sala e entrou antes de Flecher e os soldados. O cômodo tinha uma decoração bem terrena e clássica, as paredes tinham textura e eram em tom de vinho ou vermelho, e o onde eles estavam parecia uma sala de estar aconchegante, com dois sofás beges separados por uma mesa de centro de madeira, estantes de livro em uma parede e uma lareira bem no meio da outra com grandes telas do lado que mostravam a paisagem de um por do sol do alto de uma montanha. Os soldados e Flecher ficaram perto da porta, enquanto Alies caminhava até um aparador com uma bandeja de bebidas, mas ele parou subitamente para encarar com um curiosidade a garota que estava sentada no sofá e também com algemas nos pulsos.
–Porque você esta aqui?- perguntou Flecher se afastando dos soldados, que com um gesto de Alies não o seguiram e numa breve conversa paralela mandou-os embora.
A ruiva ficou de pé ao vê-lo ali também confusa.
–Eu não sei! Só me trouxeram para cá. Você está bem Flecher? Esta sangrando bastante e com um cara horrível.
–Ele esta bem. -Alies chamou a atenção dela, se aproximando com um sorriso torto e olhando a analisando. -Então você é a ruiva que esta no grupo deles? É mais bonita pessoalmente.
Savannah encarou o homem, que apesar de ser mais velho conservava uma beleza, depois olhou para Flecher confusa, enquanto Alies prosseguia para pegar uma bebida pra si, e o tempo todo preferia olhar a garota em vez do rapaz.

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