Filhos da Lua e a Ascensão dos Corajosos.
19 O rugido.
Notas iniciais
No térreo da Escola Leões S. o salão de entrada estava cheio de feridos desacordado e mortos. Yan recebia a ajuda de Philipe e orientava outros quatro alunos que se juntaram a ele dispostos a fazer alguma coisa pelos colegas. Mas seus poucos medicamentos e ataduras que carregava na bolsa de couro lateral não foram o suficientes e teve que passar a improvisar. E mesmo que alguém tenha alertado a emergência do hospital de Runa o serviço não era rápido, e até o momento não tinham chegado, nem dado um sinal de que estavam vindos. Nem mesmo a polícia era rápida para registrar o ataque e ajudar. E eles estavam sozinhos.
Clark não parecia incomodado com as pessoas estranhas, ou com a agitação e o cheiro de queimado e sangue que tinha o lugar. Ele havia se posicionado aos pés da escada de guarda e atento aos andares superiores, sempre procurando saber onde Yan estava com um olhar rápido.
Os murmúrios dos feridos preenchiam o lugar, junto com algumas falas de Philipe sobre algo estranho que ele pensava, ou alguma historia de sua vida que ele contava para aquele que estava cuidando. As maiorias dos sons dos andares superiores sumiram com o passar dos minutos. E as pessoas capazes de andar que estavam no prédio já estavam fora e longe de tudo aquilo.
De repente Clark começou a latir sem parar. O grosso latido alentando e ecoando pelo lugar fez com que todos parassem. Os ajudantes voluntários de Yan olharam tensos para o animal, e o menino pode ver nos olhos deles que o medo das criaturas voltava acrescer. O cão tomou uma postura de ataque para o topo da escada, com os pelos do pescoço eriçados e os caninos á mostra ele rosnava entre seus latidos. Um gorgolejar veio do alto da escada e de alguma parte oculta, mas nada apareceu nos longos segundos seguintes. Depois desse som os desconhecidos auxiliares fugiram para a saída abandonando tudo.
–Philipe você sabe lutar e se defender sozinho?-quis saber Yan para tentar diminuir sua preocupação como o que vinha a seguir.
–Eu sei. — afirmou o menino que não estava muito longe, distraído em terminar um laço na atadura do braço de um garoto. -Uma vez, lá no internato de garotos antes de vir para cá, venci um bicho invisível que invadiu meu dormitório, lutamos e o matei.
– O quê?-Yan não entendeu. -Isso é serio?
–Claro.
–Mas se era invisível como você o via?
O menino parou passando os dedos nos fios escuros de cabelo e ficou pensando. Philipe estava de costas para Clark, ajoelhado próximo da vitima que ajudava, quando um estrondo veio de trás e ele se virou com o breve susto para ver o que era.
E encarando o Difusor imóvel no topo da escada, um leão feito de uma rocha escura, como o da fachada da escola, de dois metros de altura e equivalente com a criatura que descia para o salão. Um rugido ecoou saindo da garganta do Clark-Leão e incomodou o ouvido de Yan e Philipe. O Difusor respondeu com o seu som estranho de gorgolejar e avançou pelos degraus. Clark olhou de canto de olho para achar Yan, que andava lentamente até Philipe encarando o tempo todo o enorme leão em que seu cão tinha se transformado. Clark pareceu satisfeito com a distância e se voltou para seu oponente.
O Difusor parou no meio da escada e de lá saltou pra cima do leão de pedra, que tinha total mobilidade de seu corpo. Clark foi jogado no chão e tentava agarrar o pescoço da criatura que já tinha cravado seus dentes na juba de gomos de pedra. Sem sucesso, ele usou suas garras e arranhava corpo da criatura que era protegida com a armadura, até conseguir arrancar uma das partes do tórax. A armadura era realmente fixada com parafusos longos no corpo do Difusor e ao arrancá-la Clark fez a criatura o soltar e se afastar. Então foi a vez do Leão grudar no pescoço da criatura com uma mordida certeira na garganta. Clark conseguiu se levantar agarrado na criatura que se esforçava para atingi-lo com as garras dianteiras e os tentáculos com cravas de espinho, o arranhando em algumas partes. As poderosas mandíbulas com os dentes afiados do leão de pedra conseguiram rasgar a malha com um chacoalho brusco, e ao pressionar durante um tempo sufocou o Difusor que parou de emitir um ruído de socorro e de reagir.
O leão soltou a criatura imóvel e a encarou por alguns segundos. Depois olhou para Yan e Philipe que tinham assistindo a luta no hall dos elevadores. Yan estava começando a entender que o seu cão tinha uma habilidade nova para ele mesmo e que tinha que aprender em que poderia se transformar.
Um dos elevadores se abriu ao lado de onde estavam. Yan tinha uma adaga para se defender e logo se preparou encostando-se à parede junto com Philipe. De onde estavam quem estava dentro do elevador não os via, e nem eles podiam saber quem eram. Então nada, nem ninguém, se moveu.
–É Flecher. — disse Philipe querendo se mover, mas o outro o segurava encostado na parede.
–Como você pode saber? -sussurrou em resposta.
–Eu sei. E sei que ele só não sai por causa do Leão-Clark os encarando, está com um pouco de medo da nova criatura. — Yan o olhou nos olhos duvidando muito das palavras do garoto que sorria. — Agora ele se lembrou de você...
E o moreno saiu do elevador arrastando o pé e com a arma apontada para o leão.
–Não! É o Clark. -Yan o reconheceu rapidamente e o impediu de atirar por precaução.
Flecher ficou feliz em vê-lo, após pensar que as criaturas tinham destruído tudo. Depois ficou surpreso e muito confuso de como aquele leão poderia ser o cachorro de Yan.
Cadius com a ajuda de Kate levantavam Fineu semi acordado e bastante ferido dos fundos do elevador.
–Quem diria que eu teria tanta diversão fora daquele orfanato no fim do mundo. — E um fino sorriso lateral surgiu no rosto de Taz por alguns segundos enquanto olhava a criatura de pedra. Depois ela olhou em volta e notou: — Porque vocês são tão altos?!
E então o grupo ao lado dela se entre o olharam, e até Fineu apoiado era consideravelmente mais alto que ela.
–Você que é pequena Taz. -disse Flecher descontraído.
–Um ou dois anos não pode fazer tanta diferença. Qual o problema de vocês?!- e ela se afastou.
O leão começou a se aproximar de Flecher e do grupo. E quando estava próximo o suficiente se tornou o cão e terminou de chegar com a cauda balançando. Flecher acariciou sem jeito o pelo escuro de Clark agradecendo por ele ter protegido Yan, que já estava do seu lado. Cadius estava tentando sem sucesso limpar o sangue de Fineu de suas roupas próximo de um bebedouro. Kate havia se sentado sobre o balcão de recepção para descansar e observava o cão de longe. Taz continuava afastada mexendo as suas flechas restantes pensando sobre sua altura.
Philipe percebeu logo que Fineu, seu primo e um pouco mais que isso, estava ferido e foi auxiliá-lo. No entanto não tinha muito que fazer além de tentar estancar o sangramento que manchava o chão onde ele foi deitado. Philipe estava tomado pelo desespero de o ver o garoto que o amava secretamente ferido e naquele estado. Um menino que aparentava coragem e força, mas que na verdade era mais frágil e medroso. Sem pensar muito bem naquele momento ele o beijou rapidamente, recebendo a seguir um empurrão fraco e um olhar de Fineu, que dizia que o ato era totalmente inconveniente, mesmo que ninguém estivesse por perto.
Um gorgolejar fraco ecoou e o Difusor estava de pé novamente. Ferido e tonto, mas pronto para fazer seu trabalho. Clark correu um pouco a frente de Flecher que já preparava sua arma, e se tornou o leão, porém quando foi atacar a criatura sua transformação se desfez e ele recebeu uma cabeçada. O cão voou um trecho e caiu no chão fora de combate. Flecher atirou para desviar a atenção do Difusor sobre Clark, e a criatura avançou para ele meio desorientada por uma ferida na cabeça. Taz atirou uma flecha em um dos furos do parafuso da armadura, e a Flecha penetrou até quase sumir fazendo a criatura se perturbar e mostrar o pescoço com a malha cortada para Cadius que atirou com sua pistola pouco antes de Flecher. Os dois tiros foram certeiros e abriu um buraco na garganta do animal que finalmente morreu caindo ao chão.
Um novo silêncio tomou o lugar. A maior parte da luta tinha acabado e a grande parte do grupo estava bem.
Subitamente todos notaram um rapaz de cabelos loiro escuro, jaqueta e bota surgindo correndo pelo corredor de entrada. Todos o olharam e receberam de volta um olhar curioso dos olhos verdes do menino.
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