Notas iniciais

Espero que gostem e não deixem de comentar suas opiniões.
Quinta Legião- Dezoito anos depois Capitulo Um: A porcaria da minha vida começa a dar errado

Agora você abre esse livro e fica olhando para mim, esperando que eu me explique, que me apresente, que diga por que estou aqui. Olha, eu não sei por que isso aconteceu comigo, quer dizer, era para mim ser NORMAL! Eu não sou um deles... Eu não posso ser.

Mas vou contar como tudo isso começou, talvez você consiga me entender. Só peço que não me julgue, ser um filho da guerra não é bom.

Quando as dores de cabeça começaram, a poucos meses, minha mãe jurou que não era nada. Talvez fosse apenas o estresse por estar concorrendo a uma vaga na universidade da Terceira Legião, ela sempre dizia que era isso e eu acreditava. Bom, uma parte de mim. Acho que eu sempre soube o que era só não queria admitir aquilo.

Eu não queria ser um mostro! Nem ser levada pelo governo.

Nos poucos momentos que eu era deixada sozinha os pensamentos de dois oficiais batendo a porta e me levando embora me assombravam de tal forma que eu me via tremendo em baixo das cobertas no meu quarto escuro. Eu tinha medo de abrir as cortinas, tinha medo que alguém ouvisse meus gritos, que algum vizinho desconfiasse e chamasse a polícia.

Quando as dores de cabeça diminuíram eu tentei voltar à vida normal. Voltei para o meu emprego de meio expediente na lanchonete a dois quarteirões da minha casa, um lugar que tinha permanentemente o cheiro de café fresco e fritura. Eu nem sabia o quanto gostava daquele cheiro ate ser obrigada a ficar longe dali.

Parei na frente da porta de entrada da lanchonete, ainda era muito cedo e quase não havia movimento nas ruas. A cidade ainda apresentava alguns resquícios da guerra como um lembrete constante de tudo que cada um ali teve que enfrentar para chegar a aquele lugar seguro e reconstruir sua vida.

Meu pai, por exemplo, sobreviveu a um bombardeio na pequena cidade onde nascera e crescera no interior da Itália, passou quase uma semana embaixo de entulho antes de ser encontrado e resgatado. Foi o único da família a sobreviver.

Afastei aqueles pensamentos, não gostava de lembrar-me do tempo da guerra, eu ficava imaginando como seria minha vida se ela nunca tivesse acontecido. Eu teria uma família grande, uma casa aconchegante e seria... normal.

Entrei na lanchonete fazendo o sininho acima da porta fazer barulho, coloquei o casaco no cabideiro perto da porta e segui para a cozinha espalhando neve pelo piso.

Bob, o meu chefe, estava parado em frente à grelha com um avental escrito ‘’beije o cozinheiro’’ e abriu um sorriso a me ver. Bob era um homem de meia idade quase careca e com uma barriga tão grande que fica difícil imaginar quando ele viu as próprias pernas pela ultima vez, eu gostava de imaginar que se tivesse um avô ele seria como Bob, gentil e engraçado mesmo sem se dar conta.

-Senti sua falta, garota! –Ele disse alargando ainda mais seu sorriso.

-Estive um pouco doente, nada de mais. –Dei as costas a Bob antes de responder, eu não queria que ele notasse algo de diferente, por que eu me sentia diferente naquela manhã.

Coloquei meu avental com o logotipo da lanchonete e fui para o balcão quando ouvi o barulho do sino da porta.

Um homem vestindo um sobre tudo preto entrou sem olhar na minha direção e sentou-se na mesa junto a janela. Dei a volta no balcão e fui ate a mesa pisando duro, que mal educado!

-Em que posso ajudar?- Perguntei batendo a caneta no bloquinho para anotar o pedido. Ele não merecia meu bom dia.

-Um café preto. – O homem levantou o rosto rapidamente e eu pude notar que ele não era muito mais velho que eu. Tinha cabelos castanhos avermelhados e olhos quase da mesma cor.

-Mais alguma coisa?

-Não... -Ele estreitou os olhos para ler o nome no meu crachá. — Liz.

Dei as costas para mesa quando ele falou de novo: ‘’Belas pernas...’’

-O que você disse? –Perguntei virando-me para ele.

-Eu não disse nada. –Ele deu um meio sorriso que fez meu sangue subir ate a cabeça. É claro que disse! Eu ouvi!

-Disse sim! –Seu sorriso aumentou.

-Você tá na minha cabeça, Liz?- Olhei assustada para ele e ele continuava a sorri. –Uma filha da guerra!

-Eu não... Eu não sou... – Respirei fundo tentando formar a frase corretamente dessa vez. Minhas mãos tremiam tanto que o bloco de anotações e a caneta rolaram pelo chão. –Eu não sou uma dessas coisas!

-Você é sim. Eu sei e você também. Você estava na minha cabeça, Liz. –Olhei nos olhos daquele homem com meu coração batendo dolorosamente contra a caixa torácica. Agora seus olhos tinham quase o tom totalmente vermelho.

-Vai chamar a polícia? –Perguntei tremendo ainda mais.

-Por que eu faria isso? Eu sou como você, Liz. –Ele estendeu a mão que eu não peguei, após alguns segundos ele sorriu e colocou a mão no bolço do sobre tudo. –Esperta, normalmente eu não aconselho a pegarem na minha mão. Sou Colin.

Notas finais
Obrigado.