Notas iniciais
Esse texto não demonstra minha opinião, não troco uma cidade por fazenda nenhuma.

Ezequiel acordou às 05:30, extasiado! Fora sua primeira noite na capital, após duas semanas na fazenda da família, pois seu irmão Licurgo estivera doente. Torceu o nariz ao se lembrar daquela abominação de lugar — onde tudo parecia colorido além da conta —, do qual já teria se livrado, caso o irmão não ocupasse. Não sabia como aquilo ainda estava na família, mas sempre havia um louco Silva para chamá-la de lar. Após o banho — Ah, como Ezequiel adorava aquele gosto forte de cloro —, saiu apressado para o trabalho. Decidiu ir à pé e aproveitar a amada cidade da qual sentira tanta falta. Inspirou fundo e sentiu-se revigorado. Não dava para respirar direito na fazenda, o ar era puro demais… Só mesmo um louco para amar àquele lugar.

Como morava perto do mar, seu caminho era pela orla. Admirava a bela paisagem azul, interrompida por um sinuoso caminho verde-lodo, como uma ponte que ligava o mar aos dutos de esgoto. A Ezequiel realmente parecia uma ponte, dizendo: “Venham para a civilização, para o progresso e o futuro.” Como haveria alguém que não achasse aquilo belo? E tinha ali todo o contato com a natureza que precisava, ele pensou, ao ver trinta e cinco urubus sobrevoando montanhas de lixo bem ao lado dos banhistas. Era uma bela visão, aquele turbilhão negro no céu. E bem menos inconvenientes do que aquelas irritantes coisas verdes, qual era mesmo o nome? Aquelas que ficam grudadas no chão? Ah, tanto faz, desde que ficassem bem longe da cidade!

Ezequiel torceu o nariz, ao passar pela única parte da cidade que o desagradava — o rio Docinho! Mas agora que prestava atenção, até ele tinha o agradável cheiro da civilização.

Chegou no prédio em que trabalhava e sorriu. Aquilo, sim, era um trabalho de verdade. Trancado entre quatro paredes e reclamando do calor, à beira do rio Docinho e ouvindo a harmoniosa sinfonia da cidade. Mais alguns anos e conseguiria um caso grave de estresse, como qualquer cidadão que se preze, e talvez até hepatite, se fosse à praia no dia seguinte, como planejava.

Como era tolo o seu irmão Licurgo, o louco Silva que trocara a civilização por aquela abominação de fazenda...

Notas finais
O rio Docinho faz referência a um rio aqui de Maceió, o Salgadinho. O único rio sólido que já vi, procure por "rio salgadinho maceió" no Google Imagens e verá porque ele é importante na crítica.
Comentários são sempre bem vindos.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!