Filhos De Marttino Laços De Amor(Degustação)
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Giulia
Ele deixa a sala em direção ao trabalho, finjo ler uma folha qualquer em minhas mãos. Toda uma vida apaixonada por ele. Sonhando com o sabor do seu beijo, idealizando momentos com ele. Uma boba romântica que devia ter ouvido os conselhos das meninas.
Um beijo lindo, num momento especial, como sonhei, o beijo dele, quando estávamos falando sobre os girassóis e como se nada mais pudesse impedi-lo, pareceu por um momento que só eu existia, que ele não via mais nada até me tomar em seus braços.
Meu coração acelera só de lembrar, foi como sonhei, o beijo, o modo como me envolveu, o jeito que senti seus braços em torno de mim, me protegendo, desejando, as mãos, o perfume, o mesmo perfume que me lembrava de sentir quando ele passava perto de mim e me arrepiava.
Porque ele tinha que terminar daquele jeito? Não sou a garota mais experiente em assuntos sentimentais, mas eu sei que ele gostou, que queria aquilo tanto quanto eu. Fui corajosa pela primeira vez em anos. Queria fugir dele de tanto medo de ser rejeitada como sempre achei que seria, mas fiquei, fiquei e deixei acontecer, ele não. Bruno cortou o beijo, os sonhos, as esperanças num pedido de desculpas de envergonhar até o mais idiota De Marttino. Por que nossos meninos até fazem bobagens as vezes, mas acho que nenhum deles foi capaz de algo tão triste.
Não sei como não desabei em lágrimas diante dele. Não sei como ainda estou aqui e não trancada no quarto me envergonhando de existir.
Olho pelas janelas largas de venezianas de madeira marrom. Ele caminha pela terra fofa, pega amostras, distraído em seu trabalho, isso me fez ficar e erguer a cabeça, meu trabalho, meu sonho, se não posso sonhar com Bruno, ainda posso sonhar com minha terra, meu campo de girassóis que vai me encher de orgulho e também a minha família.
Sei muito bem que isso é importante de muitos modos, meu tio abriu mão de muito dinheiro em vinho quando me deu esse pedaço gigante de terra. Por mais que ele acredite que está apenas me entregando o que me pertence como herança, ainda posso sentir gratidão.
É isso, hora de deixar de sonhar com o amor. Não vai acontecer e eu devia saber disso, devia saber disso desde os quinze anos. Bruno nunca perdeu muito tempo olhando para mim.
Queria minhas primas, elas estariam rindo de mim agora, depois de detonarem a reputação do Bruno, jogarem todo tipo de culpa sobre ele me faria rir e corar, abririam meus olhos para qualquer coisa que não percebi e então eu me sentiria melhor, mas elas não estão e não posso me deixar abater.
Meu celular toca, olho para tela, minha mãe, sorrio pensando em como ela sempre sabe a hora certa de dar as caras, como um sexto sentido de mãe.
Tão linda e elegante, tão corajosa e dona de suas escolhas, tão bem colocada na vida, tão diferente de mim.
— Bom dia, mamãe.
— Estava esperando que me telefonasse, como não fez isso... me conte. Como estão as coisas, e o Bruno, estão se entendendo? Eu sei que é cedo, mas já deu para saber um pouco, não?
— Pretendia telefonar à noite, mas fico feliz que ligou, está tudo bem, Bruno é muito... muito profissional. – Digo sem achar palavra mais impessoal para descreve-lo. – Estamos começando apenas hoje, tem muito que se tratar ainda, mas estou feliz.
— Maravilhoso, estou aqui, sabe disso, para o que precisar, papai está muito animado com a campanha que vai criar para seus girassóis, ele e o Luigi estão cuidando pessoalmente, o Fabrizio me ligou tem pouco tempo, estou aqui cuidando da documentação com ele.
— Vocês são muito especiais, mamãe, sem vocês nem saberia por onde começar.
— Cuidamos de tudo, vou enviar a documentação, impostos, arquivos, tudo que precisa administrar, Bruno vai te ajudar nisso também?
— Não sei, estamos decidindo uma metodologia, quem cuida do que. Aviso quando...
— Giu, você não precisa fazer isso. – Ela ri. – É seu trabalho, suas decisões.
— Tem razão. Sempre me esqueço. Como está o papai?
— Bem, com saudade, nos vemos no fim de semana. Dessa vez vamos ficar na Vila, mas quando se organizar e tiver os dias mais tranquilos vamos ficar na sua casa.
— Minha casa... ainda não vejo assim.
— Mude alguma coisa, a decoração quem sabe, faça o que precisa fazer para ficar com cara de lar.
— É uma mansão e não esperava começar a vida num palácio.
— Começo a achar que é um tipo de implicância do seu tio Vittorio, ele parece ter mania de nos presentear com elefantes brancos. – Nós duas rimos, ela começou a vida em uma mansão que no fim, se tornou um aconchegante lar onde eu e Matteo crescemos.
— Provavelmente é algum plano dele contra nós. – Mamãe ri. Sabe que meu tio Vittorio é sempre o mais preocupado com o bem-estar da família. — Mãe, como está a Laura? Fico com saudades dela. Pensando muito que não vou mais ser sua tia preferida, ela longe agora.
— Que bobagem, seu irmão não fala em outra coisa, o tempo todo orgulhoso da irmãzinha, ele sempre foi louco por você e já prometeu pegar o helicóptero e ir te ver pelo menos uma vez na semana, para Laura não sentir saudades e não se afastarem.
— Obrigada, mamãe, vou ligar para ele no fim do dia, te amo.
—Também, agora vamos trabalhar.
Desligamos, Bruno não está mais na minha linha de visão e realmente decido não ficar pensando sobre ele agora, meu coração pesa demais e ficar remoendo o momento ruim não melhora em nada.
Abro a gaveta lateral, a madeira da mesa é tão antiga que a gaveta até pesa. Acho que gosto do ar rústico, mas posso colocar algo que lembre minha juventude, mesmo Bruno deve querer um ambiente menos formal.
Deixar Florença foi algo que pensei muito, não é fácil estar aqui, longe deles, sempre amei essa terra, minha avó, meus tios, não é como estar sozinha em outro pais como Manoela, mas ainda assim, é um passo grande, sentir saudades é difícil.
Conheço a saudade, anos sentindo saudade de vê-lo, que tolice, idealizei demais e não foi por falta de aviso.
— Giulia. – Bruno me interrompe, dou um leve pulo da cadeira e sorrimos, ele é lindo, todos os argumentos sempre vão por terra quando olho em seus olhos, o sentimento está em mim. Não tem jeito.
— Já ia te encontrar.
—Tudo bem, eu estive pensando, podemos organizar de um modo que deixe espaço para uma estufa. O que acha? Não entendo tanto assim de botânica, mas você sim e tem flores muito delicadas e raras que poderia ser cultivada e...
— Bruno, eu não sei se teria mercado para flores raras.
— Não estava pensando nisso, eu pensei que como é botânica, talvez gostasse de ter uma estufa para suas flores mais especiais e quem sabe... só... realização pessoal, deixar o dinheiro por conta dos campos de girassóis.
— Eu... estou contendo gastos. Bruno estamos só tentando, pode dar tudo errado, a verdade é que não temos compradores.
— Eu construo, com material que tem no deposito, posso conseguir mais algumas coisas na Vila De Marttino, sei que tem um deposito muito bom por lá.
Por que não pode ser o presente de um homem apaixonado? Eu ficaria tão emocionada se fosse, estou mesmo sem ser. Tento sorrir e não parecer uma boba sensível. Não surte muito efeito, meus olhos se enchem de lágrimas e quando pisco uma escorre, isso é tão bonito.
— Obrigada, vou gostar.
—Tudo bem, eu... eu começo depois de cuidarmos da plantação, sabemos que depois de plantar o trabalho de cultiva-las fica bem leve e vai me ocupar construir a estufa, mas...
—Mas?
— Vai ter que planejar, é seu talento, então...
— Uma planta? Eu tenho uma ótima, mas parece um trabalho complicado, marcenaria praticamente.
— Sou um cara do campo que nasceu na cidade. – Ele diz num sorrido de me fazer esquecer o pedido de desculpas. – Posso ver?
Dou a volta na mesa, passo por ele e lá está o perfume da minha adolescência, nunca fui de usar o mesmo perfume muito tempo, mas ele tem o mesmo cheiro de sempre. Isso é tão... não importa.
Balanço a cabeça para não pensar enquanto abro as portas do armário de madeira onde guardei minhas plantas e trabalhos de faculdade.
Leva uns minutos até achar meu melhor trabalho, nota dez, exposição e reconhecimento, umas das coisas que mais me orgulhei no último ano.
— Aqui. – Abro sobre a mesa, ele é agrônomo, totalmente capaz de ler uma planta como essa, desconfio inclusive que entende muito mais do que está querendo mostrar, meu olhar encontra o dele, percebo o olhar analítico, de quem sabe o que está vendo, sim, ele sabe tudo sobre isso, apenas quer me deixar direcionar as coisas e fico levemente tocada.
Antes eu sentia um amor platônico e sem fundamento, agora tenho medo de tudo se confirmar com a admiração que começo a sentir por ele.
Bruno fica por meia hora analisando e fazendo perguntas até que por fim, num sorriso tranquilo que me arrebata, ele me estende a mão.
—Vai ter sua estufa, patroa, pode começar a sonhar com flores raras. – Aperto sua mão, um choque elétrico atravessa meu corpo, a mão em torno da minha gera calor, aconchega, um segundo que toma todo meu coração e odeio que mesmo depois do pedido de desculpas ainda me sinto do mesmo modo.
— Obrigada, Bruno. Não sei bem quanto posso pagar pelo trabalho, o Fabrizio vai me por a par das finanças, para nós dois cuidarmos disso, mas...
— Não quero dinheiro, era só... já tomei demais seu tempo, vou até a cozinha preparar algo para comer e retomar meu trabalho.
—Não. Eu estou indo para cozinha agora. – Ele parece levar um choque.
— Então depois eu vou.
— Sou péssima, eu sei. – Sinto uma angustia. Sou uma mulher, eu não quero sentir tanto medo que me atropelo e machuco, magoo ou diminuo ele. Levo os cabelos soltos do rabo de cavalo para trás da orelha, dá vontade de chorar de tanta raiva que as vezes sinto de mim. – Bruno, tem que entender, eu já disse, atropelo, fico tensa, não sei morar aqui sozinha, não sei ser chefe, não sei nada sobre convivência com alguém que não seja da família e entre eles sou tranquila, não gaguejo, não encaixo mal as palavras, com você... disse que ou quis dizer, que está mais ocupado que eu, preparou a comida ontem e eu vou preparar uma refeição agora, só isso. Para nós dois.
— Não gaguejou agora, pelo contrário. – Ele sorri, ergue a mão para me tocar e para no meio do caminho. – tem horas que desta a falar e outras que gagueja, mas sempre atrapalhada e nunca sei direito qual é o jeito que eu mais... estou lá fora, me chama?
Balanço a cabeça e assisto ele sair, gosta? Ele ia dizer isso? Até sinto vontade de sorrir com a hipótese, mas prefiro não dar asas a imaginação, vivi uma vida disso.
Depois de prepara uma refeição cuidadosa saio em busca de Bruno, ele está guardando material para analise numa caixa especial.
— Vou de caro enviar pelo correio, chega amanhã em Florença, o laboratório prometeu prioridade, quero uma analise mais detalhada da terra antes das sementes serem plantadas, temos uma semana ainda.
—Bom plano. Quer almoçar? Está pronto. Eu pensei que podíamos comer enquanto planejamos nosso ritmo de trabalho.
Ele balança a cabeça, passamos duas horas trabalhando, mesmo depois da refeição, permanecemos á mesa conversando e fazendo anotações. Ele lava a louça enquanto anoto coisas, faço um suco enquanto ele anota, verificamos pesquisas no computador sentados lado a lado, com o perfume masculino dele a me desviar os pensamentos e o beijo dele queimar meus lábios o tempo todo.
— Vou até o vilarejo, quer alguma coisa? – Nego. Ele fica de pé, pega a caixa e acena, na cozinha é muito melhor de trabalhar do que naquele mausoléu que chamam de escritório.
Não o vejo pelo resto do dia, escuto o carro chegar no meio da tarde, mas continuo ao telefone resolvendo o atraso na entrega dos matérias e principalmente das sementes.
Essa parte parece meio chata, mas necessária. Depois, quando o dia vai embora eu vou até a cozinha, aqueço um pouco das sobras do almoço, decido não chama-lo, dar espaço a ele parece boa ideia.
Como sentada sozinha, lembrando de nós dois mais uma vez. Nem sei como contar as meninas, vai ser complicado, já posso ver a empolgação delas e os conselhos péssimos.
Depois do banho e com medo de ligar para as meninas, vou me encolher no sofá da sala de televisão no andar de baixo e assistir ao noticiário.
Fico olhando para televisão sem ouvir uma palavra, Bruno parece ter a mesma ideia, ele entra trazendo um sanduiche e um copo com suco.
— Oi. Se importa? – Aponta o sofá, nego e ele se acomoda. – Não costumo comer nada pesado de noite, só um sanduiche. – Claro, por isso o corpo malhado, sou membro do lado da família que pratica o sedentarismo.
— Faz bem, eu jantei as sobras, mas sobrou, não as minhas sobras, tipo sobras das sobras, sobras do almoço. Eu quero dizer.
— Giulia, normalmente eu entendo o que quer dizer sem precisar... explicar tanto.
— Eu sei, parece que penso que é um idiota que não entende o que falo e saio explicando, mas diz mais sobre mim do que sobre você, acredite.
—Acredito. – Ele morde o sanduiche. Olha para a tela da televisão. – Noticiario?
— Costume. Manoela sempre gostou, minha prima jornalista, papai também, publicitário, saber sobre o mundo é importante no trabalho dele, eu só... não sei direito se estou prestando atenção. Quer mudar?
— Não, está ótimo. – Ele deixa o prato sobre o móvel, toma o resto do suco de uva e o coloca junto, depois se acomoda no sofá. – Vocês estavam sempre juntas, eu me lembro. – Bruno me conta. – Nunca te encontrava sozinha, uma vez, acho que só uma vez realmente demos de cara e estava sozinha. Ainda me lembro, foi depois daquele esbarrão que dei em vocês.
Nem consigo articular uma frase depois de saber que ele se lembra desses detalhes, das vezes em que estivemos mais próximos, não reunidos com o grupo na varanda quando ele passava todo tempo conversando com os meninos ou Manoela e eu só olhava muda, as vezes em que estivemos realmente, frente a frente e me lembro com desgosto do dia em que menti sobre namorar.
— Não sei nada sobre você. – Decido mudar o rumo da conversa. – Seus pais, onde moram? Tem irmãos?
— Meu pai faleceu, ele era um cara bem legal, mamãe mora com meu irmão, meu único irmão, Marco, um pouco mais velho, meio tentando se encontrar.
— Sinto muito pelo seu pai. – Sinto mesmo, nem consigo imaginar algo assim.
— Ele era um bom homem, trabalhador simples, bom pai, mamãe e ele eram bem felizes, ela ficou... ainda está se recuperando.
— Posso imaginar.
—Ela começou a faculdade de agronomia quando era jovem, mas conheceu meu pai e teve meu irmão, desistiu, ama flores como você.
—Quem sabe ela vem conhecer Bellomonte, ou quem sabe já conhece.
— Nunca esteve aqui, talvez, quando os campos estiverem floridos, na colheita, ela consiga.
— A casa é sua, para receber seu irmão e sua mãe quando quiser.
— Obrigado. – Ele sorri, estamos longe um do outro, a sala é gigante e mesmo assim eu consigo sentir a tensão entre nós, os dois ignorando o beijo por completo. Como se nunca tivesse acontecido isso me machuca tanto. É quase pior que o pedido de desculpas.
— Morava com eles?
— É complicado. – Ele se ajeita, me observa, não quero força-lo a falar sobre nada, mas acho que ele quer contar e meu silêncio é um incentivo. – Minha família é simples, consegui uma universidade aos dezessete, era ruim para ficar indo e vindo para casa, por que meus pais não tinham dinheiro sobrando, então... só os via nas férias, aproveitava feriados e fins de semana para arranjar algum trabalho e completar meu orçamento de estudante.
— Tão jovem, deve ter sido complicado.
— Sou o tipo bom rapaz. – Ele brinca. – Com vinte anos, no meio do curso, meu professor me conseguiu um estágio aqui em Bellomonte, era para ser três meses.
— Foi muito mais que isso, um ano praticamente. – Ele concorda, eu não devia demonstrar que sabia disso, que monitorava sua vida.
— Um ano, o administrador daqui era ótimo, com um mês já me deixava a frente de tudo, me ensinou muito sobre terra e uvas, foi quando o demitiram, acabei substituindo ele, não sei bem como, só aconteceu, os Bellomonte eram bem estranhos, excêntricos.
—Excêntricos não eram não, eles não merecem esse elogio. – Ele ri. Acho que conhece bem Bella para saber do que estou falando.
— Péssimos, mas eu não conseguia simplesmente abandonar os trabalhadores e a terra, fui ficando até que sua família comprou e continuei mais um tempo, ajudando o Fabrizio na transição, depois ele me incentivou a voltar aos estudos, eu confesso que estive muito inclinado a largar tudo e ficar, mas... acabei voltando e depois eles me conseguiram uma bolsa e fui estudar na França, vinhos, Flores, trabalhei com tudo por lá. Estava lá quando meu pai morreu e foi quando decidi voltar.
— Então morava longe de casa desde os dezessete.
— Sim. Voltei decidido a me estabelecer mais perto, não queria deixar minha mãe tão sozinha.
— Fez bem.
— Aí o Fabrizio me ligou e não podia perder a chance, não sabia que era com você que trabalharia quando aceitei o emprego.
— Preferia os vinhedos?
— Não, jamais seria bom como Kevin, Vittorio e mesmo Bella. Eu gostei de começar um projeto novo, gostei que é com você, não sabia sobre seu amor por flores.
— Muito. – É bom saber um pouco dele, de seu passado, um rapaz esforçado, capaz de sonhar e ir a luta, eu o admiro e não queria, não queria sentir nada por ele. Queria matar esse sentimento que me consome.
— Até amanhã, Giulia, o laboratório vai ligar avisando que recebeu o material e enviar o laudo técnico para seu email.
—Obrigada. Boa noite. – Ficamos os dois de pé e nos despedimos com um aceno constrangido.
—Tranco a casa, descanse. – Isso é tão macho alfa, já posso ouvir os resmungos de Beatrice e Manoela.
Subo e vou direto para cama, sim, estou fugindo de contar a elas, quando me deito vestindo um pijama de flores lilás de quando eu tinha quinze ou dezesseis anos e mesmo anos depois ainda é meu preferido e o mais confortável que existe, penso nos conselhos de andar por aí de camisola sexy, elas ficariam chocadas se me vissem, definitivamente, não tenho o mesmo estilo do tio Vittorio.
Sem conseguir dormir, com a mente no beijo e nas contradições dele, deixo a cama, a casa está escura e silenciosa, passa da uma da manhã, vou descer e tomar um copo de leite morno para quem sabe sentir sono.
Uso apenas meias com rostinho de pandas, eles são fofos, não acendo luzes, só desço as escadas em silêncio e com cuidado por que esqueci os óculos. Tirei as lentes e os óculos ficaram no escritório.
O esbarrão quase me leva ao chão, o corpo dele vem de encontro ao meu quando viro o corredor entre a sala de jantar e a cozinha. Seu braço forte me envolve a cintura e me leva de encontro a ele evitando uma queda ridícula e perigosa.
Levo um momento me concentrando para por fim, divisar seu rosto na escuridão, as luzes do jardim entrando pelas frestas da janela do corredor é a única iluminação e só me lembro do beijo, engulo em seco.
— Sinto muito, estava subindo, não vi você, te machuquei? – Ele pergunta sem me soltar e sinto seus músculos de encontro ao meu corpo e esse maldito perfume que sempre me consome. É uma da manhã, porque ele continua cheirando tão bem como se tivesse acabado de sair do banho? – Giulia? Está se sentindo bem? Machuquei você? Assustei? Quer água?
Sim, eu estou muda, se tem um lado bom nisso é que não estou gaguejando, queria muito dizer algo, até me esforço, mas apenas balanço a cabeça negando, negando tudo, menos meus sentimentos, esses apenas um cego não enxergaria e ele parece ter boa visão.
— Eu vou...
Bruno parece finalmente se dar conta que ainda me prende junto a ele e me solta, sem aviso e de súbito, ser libertada quase me derruba mais uma vez e de novo ele me apoia, mas agora sem tanto empenho, eu me recupero ajeitando o pijama e olhando para as meias ridículas, seu olhar segue o meu e quando nos olhamos ele está rindo.
— Eles são fofos. – Me defendo.
— Combinam com você. – Tento passar por ele, mas Bruno não se move.
— Me desculpei por que senti que não devia ter feito aquilo, mesmo querendo tanto fazer, não me arrependi de ter feito de qualquer modo. Só... achei que era o que tinha que fazer. Precisava dizer isso, está me esmagando a alma o dia todo. Boa noite, Giulia.
Do nada, como um fantasma, ele desaparece na penumbra do corredor e nem mesmo espera por uma resposta, fico ali, imóvel, calada, a boca aberta. Sem saber o que dizer, o que fazer, como agir amanhã, quando encontra-lo para o café, feliz e ansiosa, perplexa, do jeito certo e flutuando e não acho que pessoas normais sentem coisas tão distintas de uma só vez por um só motivo.
Fale com o autor