Filhos Da Supernova

12 Informações delicadas


Para início de conversa, eu sei muito bem que uma corrente elétrica gera magnetismo – suponho que foi isso o que aconteceu, pelo menos. O que eu não sabia era que eu, ou qualquer outro Supernova, podia fazer isso. Mas realmente, com poderes esquisitos e nada convenientes e surgindo do nada, eu já tenho experiência. O que me preocupa é que esse evento todo teve uma testemunha.

Na verdade, já tinha passado tanto tempo em que a única pessoa no mundo que sabia o que eu era tinha sido apenas Rob, eu acabei me acostumando. Acho que inconscientemente eu achava que ele seria o único, e passei a me preocupar menos com essa possibilidade, e não me preparei para a situação. É por isso exatamente que eu não tenho ideia do que fazer agora.

E o fato de Tom não falar, ao invés de ser um alívio, é mais uma complicação.

Quer dizer, sabe aquelas histórias bizarras de gêmeos que linguagens secretas e coisa do tipo. Bom, eu acho que esse é o caso, pois, apesar de eu nunca ter ouvido ele falar uma palavra, Aggi sempre parecia saber o que o irmão estava sentindo. Parecia ser um negócio telepático, e bem assustador.

De fato, os dois desafiavam por completo todo o conceito que eu tinha de crianças. Para mim, aquelas criaturinhas ranhentas eram apenas umas máquinas de fazer barulho, que ficavam ligadas o tempo inteiro, programadas para te dar nos nervos. Mas Aggi e Tom eram tão fora do comum que eu cheguei a me perguntar se eram humanos, de fato.

Não só pelo fato de Tom não falar e parecer que está em um mundo à parte do nosso, mas Aggi também. Se não fosse o tamanho, eu nunca diria que ela tem a idade que tem. Ela é madura demais para sua idade, e cuida do irmão como se fosse muito mais velha do que ele. E, apesar de ser uma tagarela certificada, não é de fazer barulho e correria, como era de se esperar. Ela apenas se senta e conversa, como se fosse adulta. Eles são tão comportados que receberam, vejam só, elogios da Sra. Modine quando eu fui buscá-los mais cedo. E ela não é muito famosa por sua paciência, então acho que o elogio é uma grande coisa.

Mas, voltando ao assunto, há essa possibilidade de Tom de alguma forma contar o que viu à irmã, e essa por sua vez acabar dando com a língua nos dentes – e considerando o histórico dela com segredos, isso é praticamente um fato consumado. Eu podeia tentar desconversá-lo, dizer que aquilo que ele viu foi só uma brincadeira ou algo do tipo. Mas aí entra a barreira da comunicação: como eu vou saber se a minha explicação não está mais atrapalhando do que ajudando se eu não posso ter uma resposta dele?

No fim, decido ir pela via do “não pergunte, não conte”, e esperar pelo melhor.

Com a cabeça ainda meio tonta pelo que acabou de acontecer, me levanto do chão molhado. Eu sinto o ar frio nas minhas pernas pelas calças encharcadas, mas não me preocupo com isso. Tão calmamente quanto posso, vou até o vão da porta onde Tom está parado, e me abaixo até ficar na altura dos seus olhos.

– Ei cara! – eu digo, tentando sorrir e agir naturalmente – O que você está fazendo em pé? – eu calculadamente aumento meu sorriso para esconder minha preocupação, e bagunço o cabelo dele – Se você não voltar pra cama, não vai poder ganhar a surpresa que eu arranjei pra vocês!

Qualquer outra criança no mundo iria explodir em curiosidade, ou ao menos sorriria com o prospecto de ganhar alguma coisa. Mas Tom não faz nada disso. Ele apenas me olha no fundo dos olhos, um olhar sério, um olhar tão intenso que me faz sentir que a minha alma está sendo desintegrada e arrancada do meu corpo. De alguma forma, é ainda pior que a dor que eu senti apenas alguns momentos atrás, mesmo que fisicamente eu não esteja sentindo nada.

Depois de um momento que pode ter levado um segundo ou uma hora, ele apenas dá meia volta e sobe na cama, se deitando ao lado de Aggi, que nesse meio tempo nem chegou a se mover. E eu fico ali, pregada no chão, pensando o que realmente tudo isso significou. Depois de um bom tempo, eu ainda não tinha nem um fragmento da resposta.

**

Dois dias depois, eu estou fazendo meu costumeiro caminho até o mercado para o trabalho. Uma semana atrás, eu estaria prestando atenção a tudo, seja para passar longe de Agentes do Arco que por acaso estejam no meio da multidão, ou para apenas ouvir algum fragmento de fofoca ao acaso. Mas agora não consigo evitar de me perder em meus próprios pensamentos.

É por isso que eu só percebo que há alguém chamando meu nome um segundo antes de uma mão segurar o meu braço.

Minhas pernas imediatamente se preparam para fugir, e meus braços se preparam para lutar. Alguma dessas duas opções eu teria realizado se não tivesse, logo em seguida, deixado de ver um uniforme cinza. Meu coração desacelera, mas só um pouquinho.

De qualquer jeito, puxo o meu braço de volta com força. Não sei você, mas eu não sou o tipo de garota que curte ser agarrada por completos estranhos em lugares públicos. Em tempo, nos privados também não.

Só que então eu noto quem é o “estranho”. Bom, quer dizer, eu não o conheço. Mas há algo nas suas feições e nos seus olhos verdes que me é vagamente familiar. Ele é bem, digamos, “apresentável”. Okay, me deixe explicar melhor. É lindo — pacote completo: alto, moreno, proporcional, etc.-, mas daquele tipo de beleza da qual eu sempre desconfio: só pode ser fruto de uma vida entre a elite, que nunca teve que comer aquela gororoba que nos é servida diariamente, nem precisou ralar nas fábricas, como o pessoal do Setor 4. Sem falar que essa gente pode se dar ao luxo de ter uma genética impecável.

Uma checada no resto dele já me dá a resposta; a pulseira despontando da manga da camisa o entrega como um residente do Setor 2. Mas tem mais: ele usa um uniforme branco, com um símbolo do caduceu de metal na lapela da camisa. Médico; não, quer dizer, ele não é muito mais velho que eu, então deve ser no máximo um residente. Claro, o símbolo dele é só uma versão simplificada, os médicos já formados usam uma versão mais sofisticada.

A pergunta é a seguinte: o que um médico residente almofadinha do Setor 2 quer comigo? E como ele sabe o meu nome?

– O seu nome é Ellie, não é? – ele pergunta, parecendo um pouco ofendido por eu estar na defensiva. Eu não me importo.

– Depende de quem quer saber – eu respondo, rispidamente. Eu o encaro.

Ele parece ter entendido a deixa, pois no momento seguinte parece todo desconfortável; acho que até vi um pouco de rubor em seu rosto.

– Ai, onde foram para meus modos – ele diz, quase se atrapalhando nas palavras – Hal Johnson – ele estende a mão, mas eu não retribuo o cumprimento. Dos modos dele eu não sei, mas os meus eu dispensei logo no inicio dessa conversa.

Hal pigarreia, contudo, continua a falar:

– Eu acredito que você trabalhe com o meu tio, Rob.

Aí é que cai a ficha. O sobrenome não tinha soado muito familiar, mas agora eu me recordo... Rob nunca fala sobre a sua família; a única coisa que eu sabia sobre eles era que eram do Setor 2, e que eles tinham sido horríveis com Rob quando ele era mais jovem. Por isso ele teve de sair de sua casa com todos os confortos para ter uma oficina suspeita no Mercado.

E o fato de ser parente de Rob me faz desconfiar ainda mais de Hal.

– Seu tio? – eu apenas ecoo. Quero passar o mínimo de informação antes de saber o que raios ele quer comigo.

– Sim, sabe, meu pai e ele são irmãos e...

– Eu SEI o que a palavra significa – minha paciência já está começando a acabar – O que eu quero dizer é que ele nunca me falou de você.

Hal pareceu confuso por um momento.

– Bom, não é nenhuma surpresa. Meu pai e ele não se dão muito bem.

– Ah, não me diga – a ironia pinga de minhas palavras. Quer dizer, é bem conveniente, mesmo que eu saiba que é verdade que eles não se dão bem. Mesmo assim é meio difícil de acreditar que o tal “Hal” jamais teria sido citado se existisse, se é que esse é o nome dele. Se bem que eu tenho que dar o braço a torcer: até alguns dias atrás, eu não sabia que tinha primos. – Infelizmente, — eu continuo – eu realmente não tenho tempo para ouvir a trágica história da sua família, mas quem sabe esse negócio dá uma boa novela. Você podia tentar vender a história.

Eu me viro, tentando seguir o meu caminho, mas ele me segura pelo braço novamente. Isso já está começando a me irritar. Sério, ele nunca ouviu falar do conceito de “espaço pessoal”?

– Desculpa, mas é importante. – ele parece genuinamente preocupado, mas ele já conseguiu me irritar tanto que eu nem ligo mais. – Ellie, eu preciso que você me faça um favor.

– Ah, claro. Me perdoe, é que eu esqueci que tenho o costume de ficar fazendo favores a desconhecidos que me abordam no meio do mercado. Eu trago café também, se a sua majestade quiser, mas não posso garantir a qualidade.

O sarcasmo que eu carrego em cada palavra faz Hal recuar, mas não é o suficiente para fazê-lo desistir.

– Não, mas não é nada demais. Eu só preciso que você leve uma mensagem a Rob.

Eu exalo dramaticamente o ar dos meus pulmões. Já estou vendo que não vou sair daqui tão cedo se eu não disser sim.

– Certo, desembucha então.

– É... é o seguinte – ele olha para os próprio pés. Acho que ele não achou que eu fosse concordar. – Quer dizer... então – ele suspira profundamente – não podemos conversar em um local com menos... gente? É uma informação meio que delicada, não gostaria que qualquer um pudesse ouvir.

– Não.

– Não? – Hal ecoa.

– Não. Ou fala aqui ou retiro a minha oferta. – eu digo com firmeza.

– Mas você tem que entender que...

– Tarde demais, oferta retirada. – E eu também estou louca para me retirar dessa situação. Se bem que o meu senso de curiosidade também está louco para saber o que é a tal “informação delicada”.

Hal tenta protestar, mas eu não permito que ele comece.

– Afinal, porque você mesmo não vai até a loja e fala com ele pessoalmente? Tenho certeza que a caminhada até lá não vai acabar com as suas preciosas pernas do Setor 2.

–Bom, eu não sei se ele vai aceitar falar comigo.

– Achei que ele tinha problema com seu pai, não com você.

– É um problema bem grande.

– Imagino. – minha mente trabalha, mas logo consigo bolar um meio termo. – Escuta, Hal, eu não vou ser sua mensageira, não de graça pelo menos. Mas eu posso ir com você até a loja, e então tentar falar com ele. E se, tipo, o Rob tentar cortar sua garganta ou coisa parecida, eu prometo que vou tentar impedi-lo. – dou ênfase no “tentar”. Ao menos, desse modo, posso tentar depois ouvir pela porta (não seria a primeira vez), mas sem me meter diretamente no que quer que seja a confusão que Rob tenha entrado. Além do mais, se Hal recusar a oferta, vou ter certeza que ele não é bem quem diz que é.

Por um momento, Hal parece ponderar, mas logo ele me dá uma resposta.

– Certo, então.

Bom, se eu tivesse apostado na falsa identidade – e eu teria – teria perdido uma grana. Aponto a direção das escadas com um aceno de cabeça.

– Vamos lá, então.

Eu começo a abrir caminho entre a multidão habitual do mercado, sem me certificar se Hal está de fato me seguindo. Mas não demora muito para notar que ele não está muito atrás, pois ele não tem tanta habilidade como eu para atravessar um lugar cheio de gente. Posso ouvir uns quantos esbarrões seguidos de um “perdão” e um “Ai!” bem alto quando alguém pisa no pé dele. Não posso evitar de sorrir com isso.

Como é quase impossível pegar os elevadores do Mercado, eu sempre subo as escadas, e com Hal no meu encalço vou aos poucos circundando enquanto subo pelo átrio que atravessa todos os andares desse setor. Depois de algumas viradas de corredores que eu já fiz tantas vezes que conheceria de olhos fechados, estou no corredor onde fica a loja de Rob, que fica rodeada por outros negócios, como bares e lojas de antiguidades, todos não lá muito confiáveis. Esta com certeza não é a área mais respeitável do Mercado.

Mas há algo diferente hoje. Eu quase sinto meu sangue gelar, e eu praticamente fico pregada, uma estátua enfeitando o início do corredor. Eu paro tão abruptamente que Hal esbarra atrás de mim, e eu teria ouvido ele se desculpar se não estivesse não absorta no meu pavor.

Isso porque há uma aglomeração na frente da loja. Uma aglomeração, mas não qualquer uma, pois o detalhe é que todas as pessoas lá estão vestindo cinza. O Arco está fazendo uma revista na loja.