Filhos Da Supernova

9 Conversas Particulares


Notas iniciais
Hey! Em primeiro lugar, mil desculpas pela demora. mas é que eu estou até o pescoço de coisas para estudar. Além do fato de ter entrado no maldito ciclo frenesi - bloqueio - frenesi literário. Bem, essa é a "Sgt. Honig's Bipolar Writers Club Band", hehehe.

No Velho Mundo, havia muitas maneiras de conseguir dinheiro e poder. Descubra o que as pessoas querem e venda isso para elas; seja um político; ganhe na loteria; ganhe uma bolada de herança daquela sua tia solteirona. Ah, e também havia o crime, que apesar do ditado, costumava compensar sim, ao menos, financeiramente.

Bom, sinto informar que apesar de sermos apenas os frangalhos da sociedade, as coisas ainda funcionam mais ou menos assim. Principalmente na parte sobre os políticos. E os criminosos. Aparentemente, estar à beira da extinção não mudou quase nada no ser humano.

Então de uma lado nós temos os Administradores, velhos engravatados um pouco mais redondos do que tinham o direito de ser se levarmos em consideração que a maior parte da população do Complexo se mata de trabalhar para poder comprar uma ração de proteína insossa. Ele ficam lá, no longínquo Setor 1, sentados como lendas que só conhecemos pelas telas de televisão.

Por outro lado, se você se aventurar pelo Setor 4, o lar do proletariado, e encontrar a pessoa certa e o lugar certo, pode encontrar os Traficantes. Basicamente eles funcionam exatamente como funcionava o tráfico de drogas do velho mundo. Temos os produtores, distribuidores, grandes chefões com cara de mau, caras estranhos em esquinas escuras que fazem negócios com um bater de mãos. Apenas o que mudou foi o seu objeto de tráfico.

Energia elétrica.

Há quase setenta anos, alguns anos depois de o exército conseguir reunir alguns dos sobreviventes do Cataclismo e trazê-los todos para a segurança do Complexo, havia apenas o caos. Não só lá fora, mas dentro da mente das pessoas, que tinham perdido tudo que tinham e todos que amavam, e esse caos se refletia em como as pessoas lidavam umas com as outras.

Um homem matava o outro por um pedaço de comida. Mulheres desapareciam em corredores escuros para que depois se encontrassem seus corpos mutilados em algum poço de ventilação. Havia revoltas, agressões e saques aos suprimentos, o que forçava ao governo fazer racionamentos radicais e determinava toques de recolher, o que apenas servia para deixar os ânimos ainda mais tensos. E também havia o que fazer com os Filhos da Supernova.

Não demorou muito para que essas pessoas estranhas, que nada comiam, mas que viviam de segurar em fios desencapados, começassem a parecer suspeitas, e logo cada coisa que dava errado no Complexo começou a ser culpa dos Supernovas. Com a pressão popular, a energia elétrica, que na época ainda era obtida por geradores alimentados por uma reserva limitada de diesel – bem antes da ativação do Reator 1- , fosse considerado um bem precioso, e assim aos poucos foi se reforçando as instalações elétricas para evitar os roubos, e a instalação de sofisticados sistemas de segurança.

Bom, aí foi vez dos Filhos da Supernova se revoltarem por serem privados de seu alimento. Logo o Complexo havia se dividido em dois; de um lado os humanos “normais” e do outro os Filhos da Supernova, todos ainda apenas adolescentes, órfãos da estrela que condenou o planeta. Não se sabia qual lado odiava mais o outro. O Complexo estava à beira de colapsar em uma guerra civil.

Foi aí que foi emitido o Ato Kriston, em homenagem ao Administrador que o emitiu, o mesmo que criou o teste, pouco tempo depois, que pode identificar um Supernova. Nele, a simples existência de um Filho da Supernova foi considerado um crime. Em outras palavras, tornou a nossa existência ilegal. O Arco foi criado como uma força-tarefa para poder identificar, prender e eliminar todos os Supernovas que estivessem dentro do Complexo. Foi uma verdadeira caça às bruxas. Os ânimos se acalmaram por muito tempo, a humanidade aparentemente livre da ameaça, até que os Supernovas começaram a nascer espontaneamente, de pais que eram totalmente normais. As proibições nunca haviam sido revogadas, então a caça recomeçou, e nunca mais parou de lá para cá.

Bom, o que eu quero dizer com isso é que, imagine se você, um dia do nada, descobrisse que comer não era mais o suficiente, mas que precisa de eletricidade para sobreviver. Mas você não pode obtê-la, nem mesmo contar isso para ninguém, pois qualquer um poderia entregá-lo à policia em um estalar de dedos. Você não daria tudo o que tem para conseguir energia, nem que fosse apenas um pouquinho?

É nessa hora que os Traficantes estão lá,estendendo uma mão amiga, enquanto a outra esconde um punhal.

Mas porque eu estou contando tudo isso? Bom, obviamente além de eu ser uma Filha da Supernova, eu também faço parte desse submundo criminoso. Mas me coloque mais nas parte do Produtor mais do que na do Usuário. E entre eles, é claro, há o Distribuidor, que compra a energia que eu roubo para Rob e a repassa aos pequenos traficantes que a vendem em forma de pequenas pilhas improvisadas.

E o Chefão com cara de mau que compra a energia de Rob especificamente se chama Faraday. Ao menos esse é o codinome dele, que eu ouvi por acaso, sussurrado entre uma e outra negociação no quarto dos fundos da loja de Rob.

Porém, essa explicação apenas cobre parte do meu espanto ao ouvir aquele nome saído da boca de Aggi. Na verdade, eu nem sequer teria dado tanta atenção ao fato se não fosse algo que aconteceu há pouco mais de um ano atrás.

Eu havia terminado o meu trabalho, como sempre, e Rob tinha ficado para fechar a loja. Eu já estava a meio caminho no Mercado quando me lembrei que tinha esquecido as chaves do meu compartimento, então eu voltei para buscá-lo. Quando cheguei lá, a loja estava completamente escura, e a porta da frente trancada. Felizmente, eu tinha a chave da loja, e logo entrei. Mas logo notei que havia uma réstia de luz escapando por baixo da porta da sala dos fundos da oficina. E os sons abafados de duas pessoas discutindo fugia pelas fendas, baixo e entrecortado.

Eu não pude resistir, e logo tinha esquecido das chaves. Sem, fazer um som, eu me aproximei da porta e colei o ouvido à porta, e apenas escutei o que se passava lá dentro.

- ... eu não sei o que mais você pode querer de mim – eu ouvi a voz de Rob dizer, bem mais dura do que a voz gentil que eu estava acostumada à ouvir. – Eu faço meu trabalho, fico calado. Eu nunca reclamo do preço que você me paga pela “mercadoria”, que é bem menos do que os outros pagam.

- Ao contrário, Rob – respondeu outra voz, essa mais grave e potente, que me fez ter vontade de sair correndo e me esconder do outro lado do Complexo. Não o fiz. – Acho que você sabe muito bem o que eu quero.

- Não – Rob disse, e eu pude ouvir um pouco de medo em sua voz – Faraday, isso não.

- Você não achou que ia ficar com a garota para sempre, não é? Você sempre soube que esse dia iria chegar.

Garota? Naquele momento eu senti o meu estômago se revirar ao suspeitar que o assunto poderia ser eu mesma. No entanto, eu me mantive firme para escutar o que mais pudesse daquela conversa.

- Não. – Rob disse novamente, mas dessa vez bem mais baixo e sem convicção.

- Ela é poderosa, e você sabe que nós vamos precisar dela.

- Ela ainda não está pronta

- Como assim não está pronta?

- E-eu ensinei todas as habilidades que ela precisa, mas – Rob suspirou, medindo suas próximas palavras. – mas ela fica mias forte a cada dia. Se você esperar mais um pouco...

- Mas não podemos esperar! – Faraday respondeu, secamente, batendo com força em algo que provavelmente era a mesa que ficava no canto da sala. Eu prendi a minha respiração – Se não entrarmos em ação agora...

- Mas talvez essa não seja a hora. Talvez se você esperasse, talvez até a próxima eleição para a Administração, talvez tivesse a distração necessária...

- O que deixaria aquela brutalidade sem a devida retaliação.

- A vingança o está cegando, Faraday. Se você atacar agora, pode não ter os recursos que precisa. Vai acabar apenas se matando, e todos os seus homens vão acabar capturados. Ter Ellie não vai ajudar em nada se você puser tudo a perder.

Faraday não disse nada, mas dava para ouvir pela sua respiração alta que ele estava contrariado. Mas Rob continuou a falar mesmo assim.

- Há quanto tempo eu o conheço? Vinte anos? Em todo esse tempo nunca o vi tomar uma decisão assim, no calor do momento. Ainda mais quando há tanto em jogo. Se você quer o meu conselho, eu digo que é melhor que você espere. Você já esperou até aqui, não foi?

- Eu não posso, Rob. Eles tem que saber que os seus atos tem consequências. – Faraday respondeu, a voz agora bem mais calma, mais baixa.

- Eles vão saber. Além disso, eu fiquei sabendo que você conseguiu colocar Tesla em uma... posição bem vantajosa, não é?

- Como você ficou sabendo disso? – Faraday indagou, a raiva escalando de volta em sua voz.

- Eu o vi – Rob disse, tentando parecer mais despreocupado do que estava – Podia não vê-lo há mais de uma década, mas ele é inconfundível. Se você agir sem pensar, vai comprometê-lo também, além do fato de que ele pode ser um recurso importante, assim que se firmar em sua posição.

Uma pausa, que pareceu uma eternidade, e então a voz grave de Faraday voltou a soar:

- Eu vou levar o que você me disse em consideração, Rob. Mas, no caso de eu decidir agir, eu quero que a garota esteja pronta. Esse, afinal, era o seu trabalho. Você vai fazer o seguinte...

Ele continuou a falar, mas agora as suas palavras eram apenas borrões de som batendo em meus ouvidos. Eu não tinha percebido, mas meus olhos estavam ardendo, e eu senti que ia soluçar, e não queria que eles soubessem o que eu tinha ouvido. Então usando todo o autocontrole que eu ainda tinha sobrando e saí com o mesmo silêncio com que entrei. Tive que dobrar mais duas esquinas de corredores da área do Mercado onde fica a loja até encontrar uma alcova que dava o mínimo de privacidade, e lá deixei as lágrimas fluírem.

Tive que repassar a conversa várias vezes em minha mente até ter certeza de que tinha entendido tudo corretamente. Mas era verdade, eu não tinha como negar. Rob estava me vendendo aos Traficantes. Ele tinha sido a única pessoa que eu tinha confiado na vida, e ele estava me traindo. Eu fiquei lá, naquele canto, por um bom tempo, tentando achar o chão sob meus pés novamente.

No dia seguinte, eu fui trabalhar como se nada tivesse acontecido. No seguinte também. E no outro. A cada dia, eu temia que a qualquer momento um bando de capangas mal-encarados viesse me buscar, enquanto Rob recebia um saco de dinheiro por me vender. Em minha imaginação o saco tinha até um cifrão, como se ele tivesse virado um vilão de desenho animado. Eu não conseguia mais olhar para Rob e não pensar em sua traição, mas eu nunca disse uma palavra sobre o assunto. E então, semanas e meses se passaram, e ninguém veio me buscar. Fiquei por muito tempo imaginando se Rob teria dito um grande não à Faraday, apesar de eu nunca ter acreditado realmente nisso.Mesmo assim, eu sabia que nada mais seria o mesmo entre nós.

E esse assunto tinha ficado totalmente enterrado. Até agora.

Descobrir que o homem para quem ele iria me vender, para o que provavelmente era uma guerra de gangues, tinha uma relação tão próxima com a minha versão bizarra de “família”... isso é, no mínimo, desconcertante. Se eu já achava a aparição repentina de Arianna na minha porta algo fora do comum, isso já virou quase uma conspiração.

O que eu preciso é de uma maneira de tirar informações de Rob sem que ele descubra o que eu sei. Aos poucos, um plano se forma na minha mente, e uma por uma, as perguntas se amontoam em cima de mim. Eu preciso desesperadamente de respostas, assim preciso de eletricidade para viver.

Notas finais
Hope you really enjoy the show!