Filho do Destino
6 Capítulo 6
Spider estava se acostumando a ter o próprio quarto agora, e ter uma nova casa, por consequência. Abrindo os olhos, ele acordou e se sentou, reunindo as energias para mais um dia.
Ele estranhou não encontrar o pai na cabana, novamente, só Varang e ele ali, o que o deixou um tanto acanhado de repente.
—Bom dia, meu menino — ela desejou — venha, se junte a mim.
—Bom dia — ele disse depois de um bocejo, sentando-se ao lado dela.
Um pouco mais relaxado, Spider pegou um pedaço das frutas que estavam ali, se alimentando novamente, com certa dificuldade por passar o alimento por debaixo de sua máscara.
—Você não pode retirar a estrutura do seu rosto, não é mesmo? — Varang questionou, sentindo um pouco de pena dele.
—Ah isso aqui? — ele chegou a bater um dedo indicador no vidro da máscara — é, são as vantagens de ser um humano em Pandora, eu não consigo respirar o ar daqui, é mortal pra mim.
—Eu entendo — ela assentiu — lembro de ver pessoas do céu usando algo assim.
—Eu achei que era o primeiro humano que vocês viam — ele cruzou os braços, intrigado.
—Pessoalmente, sim — ela confirmou — eu tive visões pela mente de seu pai, por tsaheylu.
—Entendi — Spider se segurou para não fazer outra careta, pensando na intimidade deles — bom, você deve ter visto tudo que ele fez.
—Vi, e foram justamente essas visões que me fizeram enxergar o motivo da dor e do arrependimento dele — ela explicou com paciência — e conhecendo você agora, é o que me faz entender sua revolta.
—Eu acho que não estou mais revoltado assim — Spider resolveu ser um pouco mais sincero e expor seus sentimentos — mas é difícil de esquecer.
—Lembrar é importante, para não cometer os mesmos erros outra vez — Varang aconselhou.
—Vou me lembrar disso — ele sorriu para ela — e você? Está bem? Digo, você e a minha... irmã?
—Estamos bem, obrigada por perguntar — Varang acariciou o próprio ventre, sorrindo.
—Se precisar de ajuda com alguma coisa, pode me pedir — ele ofereceu, gentilmente.
—Muito obrigada, Spider — ela agradeceu — na verdade, eu gostaria de te pedir uma coisa, mas não tem a ver com minhas condições físicas.
—O que é? — ele ficou curioso.
—Convoquei toda a tribo para uma celebração hoje, em sua homenagem — ela avisou.
—Tipo uma festa enorme? Obrigado, mas não precisava — o menino ficou um tanto constrangido.
—Imagino que esteja pensando em outro tipo de festa — Varang chegou a rir — mas essa serve para apresentá-lo ao clã, como um aliado, como membro da família da olo'eyktan.
—Entendi, ainda assim é bastante importante — ele sentiu empolgação surgir dentro dele, estaria no centro de uma cerimônia na'vi, o que era algo de que ele sempre quis participar — quer dizer que eu tenho que fazer alguma coisa especial nessa festa?
—Bom, vamos coroá-lo com fogo — ela disse diretamente, sem explicar muito as palavras, o que fez com que Spider se espantasse.
—Eu posso morrer queimado, não sou a prova de fogo, sabe? — ele disse com cuidado, para não ofendê-la.
—Há muito para você aprender sobre nós, com certeza — ela sorriu com paciência, contendo-se para não rir outra vez — vou contar exatamente o que vai acontecer. Eu acenderei uma tocha sobre a sua cabeça, você deverá fazer um juramento com sua mão sobre o fogo, mas eu garanto que não será queimado. Depois disso, você poderá aproveitar a festa e tudo mais, haverá dança e música, e até mesmo malabarismo.
—Parece agitado — ele comentou — e que bom que eu não vou ser queimado.
—Claro que não, eu jamais feriria o filho do meu marido — Varang garantiu outra vez — além disso, mesmo antes da cerimônia, eu já o considero parte da família.
—Obrigado — Spider agradeceu.
Mais tarde, os dois se ocuparam com os preparativos da cerimônia. Miles encontrou Spider nervoso e preocupado.
—Deixa eu adivinhar, ela te falou da festa? — ele perguntou, cruzando os braços.
—Não é uma festa, é uma cerimônia — Spider o corrigiu, convencido — e por que você sabe antes de mim disso tudo?
—Ser o consorte da olo'eyktan tem suas vantagens — disse seu pai, orgulhoso — mas não se preocupa garoto, eu tiro suas dúvidas até lá, já vi uma meia dúzia dessas cerimônias desde que cheguei aqui.
—Sério? Então me diz o que eu tenho que fazer, o que é esperado de mim? — ele perguntou, voltando ao pequeno pânico.
—Varang já disse o que será feito? — seu pai quis ter certeza.
—Sim, mas imagino que eu ainda tenha que me arrumar pra isso, da maneira correta — ele apontou, fazendo suas próprias comparações, com o que conhecia dos Omatikaya.
—Verdade, você precisa de trajes novos, mas antes dele, um bom banho — o pai sugeriu.
—Eu não vou mergulhar naquelas fontes — Spider decidiu categoricamente.
—Temos uma banheira bem aqui, você pode usá-la — ele indicou — Varang preparou acessórios pra você, depois de colocar, eu posso ajudá-la com as pinturas em você.
—Tá bom — Spider suspirou.
Estava um pouco menos nervoso agora, deixando aquela empolgação de antes tomar conta dele. Miles deu privacidade ao menino, que se banhou e foi para o seu quarto, encontrando os tais acessórios que seu pai tinha falado antes.
Havia um bracelete comprido para seu punho, com desenhos parecidos com o do arco que tinha visto antes, para o seu braço esquerdo, um bracelete mais fino cheio de pedras roxas, com certeza colhidas dos vulcões. O que chamou mais sua atenção, foram as bandagens roxas, iguais as que Miles costumava usar em torno do peito.
Colocar tudo aquilo o fez se sentir parte do clã das cinzas, como se finalmente sua busca por um lugar no mundo estivesse terminando.
—Bom, aí está você, quase pronto — Varang surgiu, o despertando dos próprios pensamentos.
—As pinturas, claro — Spider compreendeu.
Ele se sentou com calma e deixou que a madrasta o marcasse com a tinta vermelha e amarela mais viva que tinha visto em toda sua vida. Quando ele se levantou, estava pronto para seguir seus líderes, finalmente entrando para o clã das cinzas oficialmente.
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