O caminho de Spider e Miles se tornou silencioso quando se aproximaram da aldeia, apenas os murmúrios de cumprimento dos outros na'vi e o som dos animais, tanto os de perto quanto os de longe, enchiam o ar. Ao se aproximarem ainda mais de casa, os dois reconheceram algo claro e audível, o choro alto e orgulhoso de um bebê. Pai e filho se entreolharam rapidamente, tendo o mesmo pensamento, Varang tinha acabado de dar à luz.

Miles entrou na cabana rapidamente, com Spider em seu encalço, olhando a cena na sua frente atrás dele, mais timidamente, a tsahik ainda estava ali, murmurando orações a Eywa, Varang parecia cansada, a tinta em seu corpo estava desmanchando pelo suor, mas seu rosto estava extremamente feliz, de um jeito diferente do que Spider estava acostumado a ver dela.

Sem sarcasmo, ou esperteza, apenas pura alegria e felicidade, os olhos iluminados e intensos direcionados para o pequeno embrulho em seu colo, o irmão dele.

O garoto ouviu eles decidindo o nome do bebê, uma menina chamada Mawey, era justamente o que o nome da mãe dele significava. Talvez fosse um sinal, um encerramento de um ciclo, de que Spider sempre teria a calma e a paz ao lado dele, representado por alguém de sua família. Uma irmã significava o crescimento de sua família, uma da qual ele realmente fazia parte.

O casal teve um breve momento com sua filha, até notar que deveriam incluir Spider ao momento.

—Spider — Varang o chamou com uma voz doce, que mostrava seu cansaço e sua alegria — venha, se aproxime, por favor.

Ainda assim, ele se sentiu envergonhado, como se por um momento, tudo aquilo fosse só um sonho, ou que ele não fosse digno de estar com a herdeira do fogo e das cinzas. Seu coração emotivo o impulsionou para frente, com passos pequenos, mas certeiros. Seus pais notaram o quão maravilhado ele estava e foram compreensivos.

—Eu vejo você, Ma'Mawey — ele saudou a irmã, o instinto de irmandade brotando imediatamente — seja bem vinda a Pandora, que Eywa esteja com você.

—Estou contente que possamos estar todos juntos aqui, nesse momento — Varang disse à família — obrigada, Grande Mãe, por meu marido, por meus filhos.

Ela olhou diretamente para Spider, para que ficasse claro que ela o estava chamando de filho. Em resposta, ele deu um sorriso emotivo e a abraçou, com cuidado para não atingir Mawey no colo dela. Varang apreciou o gesto de carinho silenciosamente.

—Entendo sua comemoração, todo amor e alegria são bem vindos, certamente — Meylit disse a eles, de forma sutil — porém, é importante que a mãe e o bebê descansem, ma'Miles, deverá cuidar de sua família agora, enquanto a olo'eyktan descansa.

—Farei isso, obrigado por seus serviços, Meylit — ele agradeceu e a mulher os deixou — bom, vocês ouviram a ordem, descanso para as duas.

—Não, ainda não, não a tire de mim ainda — Varang pediu, mesmo sentindo-se fraca — ela pode sentir fome, quero estar perto para amamentá-la.

—Como quiser, olo'eyktan — Miles beijou a testa da esposa afetuosamente — apenas descanse, por favor.

—Eu irei — ela prometeu, já fechando os olhos, com Mawey seguindo o exemplo dela, e dormindo também rapidamente.

Spider e o pai se retiraram para o outro aposento da cabana, ainda absorvendo o que tinha acabado de acontecer.

—Então é assim que se sente quando se ganha um irmão? — o menino disse em voz alta, emocionado.

—Como exatamente? — apesar de estar lidando com os próprios sentimentos, Miles queria muito ouvir o filho.

—Meu peito parece que vai explodir — ele deixou escapar uma risada — é como se... eu tivesse a garantia de que... eu finalmente tenho alguém no mundo, alguém do meu sangue...

—É como eu me sinto também — o pai dele suspirou — não estamos sozinhos, e a Mawey é a minha terceira chance, de fazer as coisas certas, de ser um bom pai, ser grato a Eywa por ter reservado isso a mim.

—É tão... estranho, mas reconfortante ouvir você falar de Eywa — Spider trouxe o comentário à conversa.

—Sim, eu sei que eu já a ofendi nas minhas vidas passadas, mas eu a vi, Spider, eu a conheci de perto — ele contou com entusiasmo — ela remendou meus pedaços, sou um novo homem agora.

—Eu acredito, pai — Spider confessou — eu tenho visto você de perto todo esse tempo, dá pra ver que você mudou.

Em vez de dizer qualquer coisa, Miles deixou lágrimas de alegria escorrerem de seus olhos.

—E você disse que você não é fofo — comentou o garoto, mas sorrindo e chorando também.

—Estamos tendo um momento excelente aqui, por favor não o estrague — recomendou o pai, limpando o nariz com o braço — ah vem aqui, garoto.

O pai envolveu o filho num abraço, há muito esperado, há muito necessário. Mawey realmente fazia jus a seu nome, tinha acabado de nascer e já estava trazendo um momento como aquele para sua família.

Eles se soltaram, mantendo-se quietos, respeitando o momento de descanso de Varang. Eventualmente, as duas acordaram. Varang amamentou a filha pela primeira vez, sentindo a sensação estranha, porém reconfortante de sentir a substância vital para a filha sair dela, alimentando alguém que tinha sido gerado por ela. Era um ciclo perfeito da vida.

Quando a garotinha pareceu satisfeita, Varang se abaixou com cuidado em frente ao marido, entregando-a em silêncio a Miles.

—Olha só pra você, minha filha — ele disse, ainda mais admirado de vê-la de tão perto — você é tão pequena, eu tenho até...

—Medo de derrubá-la ou machucá-la? — Varang riu baixinho — de maneira nenhuma, ma'Miles, pode ser um guerreiro voraz, mas também é muito habilidoso com suas mãos, garanto que não irá machucar Mawey.

—Está bem — ele concordou, fazendo seu melhor para confirmar o que a esposa tinha acabado de dizer sobre ele.

—Eu irei me banhar, prometo não demorar — avisou ela.

Ela saiu para o aposento onde estava, retirando sua tinta cerimonial.

Spider se aproximou do pai, observando a irmã, como ele estava fazendo. Mawey olhava de volta, com seus olhos num tom de laranja mais claro. A pequena mão dela, com cinco dedos, tocou o peito do irmão, o que o fez sorrir.

—Quer pegar ela um pouco? — Miles ofereceu.

—Quem sabe outra hora — ele admitiu que tinha o mesmo medo do pai.

Miles apenas sorriu, compreendendo exatamente como ele se sentia. Varang então se juntou a eles outra vez, apenas absortos pela alegria que Mawey tinha trazido.