Filho da guerra

3 Jade, a briguenta.


Notas iniciais
Jade u.u

Eu fui tomar um banho, o chuveiro do meu chalé tem um sistema de neon com fosco, que cria a ilusão de estar tomando banho com sangue ao invés de agua, é tão real que, junto dos desenhos retalhados no mármore do banheiro, causa a sensação de estar diante de uma batalha com direito a "chuva de sangue" e tudo mais.

Me troquei, coloquei minha camiseta do acampamento meio-sangue, uma bermuda jeans e meus chinelos, e fui tomar café da manhã.

Alguns irmãos meus estavam lá na mesa do nosso chalé, menos Jay.

–Cadê o Jay, novata? -Perguntei para a Gisele.

–Aqui é que não tá né. -Eu ri.

Comi algumas panquecas, bebi um refrigerante e sai em disparada até a arena. Antes de chegar lá, encontrei ele junto com uma garota que eu nunca vira aqui no acampamento, na certa ela tinha acabado de chegar. Ela era alta e um tanto forte, seus cabelos era castanhos claros e seus olhos pretos; Sua roupa estava meio suja e rasgada.

–Ei, atrapalho? -Ele estava bufando, nervoso.

–Essa aqui é Jade, uma meio-sangue que acabara de chegar aqui no acampamento. -Ele a observava.

–Eu não sou nada disso, seus loucos, esse negocio de semideus não existe. -Eu a encarava.

–Situação? -Voltei-me para Jay.

–Essa garota apareceu adormecida dentro dos limites do acampamento, coisa que os mortais não podem fazer, só que ela não quer conversar com ninguém, não quer explicar nem como chegou aqui, só disse até agora que se chama Jade. -Ele parecia querer estrangulá-la.

–Cara vocês estão de brincadeira comigo? Primeiro aquele velho de cadeira de rodas com aquele papinho de que "está tudo bem" , depois aquele menino falando que era semideus e pior, que eu também era. Aí quando estou indo embora, esse aqui me aparece dizendo que tem monstros cercando o acampamento e que eu deveria ficar para não morrer. -Ela estava à beira de avançar em cima de alguém, quando eu dei um basta.

–Escuta aqui garota, você tem sorte de ter vindo parar aqui porque pelo que eu vejo, você me parece ter uns 12 anos e não sobreviveria mais tempo que isso sem que os monstros conseguissem te encontrar. Eu posso até suportar o fato de você ter chamado o nosso diretor de atividades de "velho" sua insolente, mas agora querer se achar superior em cima de mim, ah por favor, faça um favor para mim, olhe nos meus olhos. -Ela olhou e eu usei um dos meus poderes de filho de Ares que eu descobrira no último verão, funciona parecido com o olhar dos filhos de Zeus, só que o meu faz quem olhar sentir a guerra, os ferimentos de batalhas e dependendo da situação, drenar o ódio e transformar em medo.

–Estou olhando, porque? -Como assim? já era para ela estar suspirando, caída, assustada, mas, nada aconteceu, será que não funciona mais? eu treinei o último verão todo para que o meu olhar da guerra funcionasse, os monstros que não fossem tão fortes iriam se abater ou fugir que nem bebês, mas ela nem se tremeu.

–Parem com isso, Luan, eu não estou entendendo, a menina acaba de chegar, está confusa, e você tenta desequilibrá-la? -sr. D tinha protegido a garota contra o meu olhar.

–Desculpe sr.D, eu estava fora de mim, ela estava bancando a marrenta e eu não gosto disso. -Eu já me recuperava.

–Mas não deveria gastar tal poder à toa. Eu me encolhi, todos olhavam para Jade que saiu andando durante isso.

–Eu vou atrás dela. -Falei percebendo que ela fora em direção ao anfiteatro e não em direção a floresta por onde veio, sinto que ela já começava a acreditar,mas estava assustada.

Quando cheguei no anfiteatro ela estava sentada num banco da primeira fila, de cabeça abaixada. Fui até ela e sentei ao seu lado.

–Não chore, não estamos lhe pregando uma peça, quase todos aqui gostaríamos que fosse mentira. -Ela não respondeu nem se moveu. -Olhe, eu sei que já ti contaram que você é uma semideusa metade mortal e metade deus(a) grego(a), já ti contaram que os monstros podem estar atrás de você, mas não ti contaram que você precisa se sentir especial por isso, é difícil pensar que é bom ser perseguido por monstros e que é bom ter dislexia, hiperatividade e TDAH, mas é fácil pensar que é bom ser "o herói" de vez em quando, aprender a lutar e controlar seus poderes, a honrar seu pai/mãe imortal e deixa o mesmo orgulhoso.

–Você não sabe de nada, garoto. -Ela me olhava com seus olhos inchados.

–O que eu não sei? Que você vive sendo expulsa dos colégios porque tudo que você toca parece explodir ou pega fogo, que você não é nada popular porque sua dislexia faz você parecer boba, que você tenta ser uma pessoa comum, mas sempre acontece algo inexplicável e catastrófico perto de você e todos acham que a culpa foi sua. Isso acontece com todos nós, no começo vem o desespero e a negação, depois vem a aceitação e interação, ainda será reclamada nesse espaço de tempo. -Eu estava a consolando, pelo menos tentando.

–Nossa, você passou a mesma coisa que eu e ainda parece estar bem. -Eu senti que enquanto falava ela aceitava o fato, administrava o que se passou até agora.

–Preciso lhe contar que ser meio-sangue é assim, vida meio-normal, adquirimos uma meia-família, os meios-conflitos...

–Vocês são meio-felizes? -Eu neguei com a cabeça para ela se sentir melhor, só que na verdade eu não sabia responder sua pergunta.

–Está tudo bem? Porque sinto que você precisa fazer um passeio pelo acampamento. -Ela sorriu pela primeira vez.

–Está sim, eu só precisava de respostas para as minhas perguntas, é assim com todos, né? -Ela queria saber se estava sendo uma "semideusa comum".

–Sim, até que você foi bem, aceitou com menos dificuldades, eu só precisei lhe mostrar que todos passam pelas mesmas coisas e você por sí só já havia entendido que o inexplicável era sua falta de conhecimento sobre sua outra metade. Ela sorriu, me abraçou pela cintura e juntos fomos até a saída do anfiteatro.

–Aqui como você pode ter visto, é o anfiteatro. -Ela riu como se eu falasse algo óbvio.

–Aquele casarão, o que é?

–A casa grande, onde ficam o diretor de atividades, o diretor do acampamento, o motorista...

–Os donos e funcionários. -Ela me interrompeu.

–Isso mesmo.

–Ali é a colina meio-sangue, aquele grande pinheiro ali, protege a todos criando uma barreira mágica em torno do acampamento. -Ela observava maravilhada. -Seguindo aqui temos a arena, onde treinam arco e flecha, esgrima, ocorrem as corridas de bigas.

–E aquelas casas? -Ela apontava para os chalés.

–Chalés. — Corrigi.

–São nossos dormitórios, cada um de um respectivo deus.

–Qual o chalé que você fica? -Vamos até lá, eu te mostro. -Apostamos corrida até os chalés.

–Esse aqui, o chalé de Ares. -Apontei.

–Nossa, todos são lindos, mas esse é um tanto amedrontador. -Ela observava o javali, "recepcionista".

–Costuma causar isso nos novatos, olha isso que irado, arame farpado no telhado.

–Encantador.

–Agora, você quer fazer o quê? Digo, continuar o passeio até os estábulos e os campos de morangos? -Eu me atropelava nas palavras.

–Quero descobrir quem é meu pai/mãe deus(a) grego(a) e descobrir quais são meus poderes, para treiná-los. -Ela estava decidida.

–Calma, você nunca tem certeza qual seu pai ou mãe deus, só quando ele o reclamar. Quando isso acontecer, você ainda irá descobrir seus poderes, porque nem todos herdam os mesmos poderes, aí sim irá aprimorá-los. -Eu a pausei.

–Como assim não herdam os mesmos poderes? -Ela bagunçava o cabelo erguendo as mãos.

–Sabe no mundo dos mortais, quando os pais falam que os filhos puxaram isso ou aquilo deles, as características deles; Então, nós herdamos algumas características dos deuses também. Os poderes funcionam assim também, ninguém herda todos os poderes dos pais e os que herdam nem sempre é igual a de outro filho do deus, muitas vezes, filhos dos deuses herdam poderes de acordo com as características que herdaram dos mesmos, e por isso não herdam os mesmos poderes dos outros irmãos. -Eu me empenhava em explicar de forma simples.

–Que interessante, algum de seus irmãos também têm o "olhar da guerra"? -Não tenho certeza, a gente nunca sabe todos os poderes que têm, eu descobri que tinha esse olhar durante uma batalha contra umas mulheres-cobras. O Jay consegue emitir uma aura de raiva, que faz os outros quererem brigar e arrumar confusão.

–Uau, você consegue fazer isso? -Eu neguei.

Caminhamos até a Casa grande sem perceber, o que me fez lembrar de arrumar minhas coisas para ir em busca de Clarisse.

–Vou ir arrumar minhas coisas para uma missão, procure Quíron, agora que está melhor. -Ela entrou na Casa grande e eu fui correndo em direção ao meu chalé.

Notas finais
Amem a Jade, por favor u.u