Filho da Noite

2 Capítulo 2 - Treinamento


Capítulo 2 – Treinamento

“Muito bem mocinhas, eu acho que vocês já receberam o aviso de que vão passar por um treinamento especial agora que nós chegamos a Canterlot. Meu colega Meteor foi encarregado de passar o treino para a Guarda Solar e eu fui designada para trabalhar com vocês, mas é bom que saibam logo: não é por ser uma égua que eu vou pegar leve e nem vocês devem me subestimar, quem estava de guarda na escadaria semana passada viu bem o que aconteceu.”

Desert Thunder falava para toda uma multidão como se já fosse acostumada a treinar soldados e quem não a conhecesse acreditaria que ela consegue usar a Voz Real por causa da naturalidade com que ela conseguia falar num volume tão alto.

“Eu vou começar analisando vocês um a um e ver o que precisa ser melhorado, alguns de vocês eu já vi em ação mas todos vocês receberão o mesmo empenho da minha parte então eu quero que retribuam da mesma forma. Agora eu quero que... Aster? O que está fazendo aqui?”

A surpresa dos soldados foi a mesma da treinadora ao ver o potro no fim das fileiras portando uma espada quase do tamanho dele.

“Eu vim aqui pro treinamento, eu vou me tornar um soldado da Guarda Lunar!” O potro disse como se fosse a coisa mais natural do mundo.

“Como é que é? Você não acha que é meio novo pra isso não?” Ela retrucou.

“Eu também fiz o juramento, eu também sou um Nightkeeper, eu não posso fazer menos que qualquer outro!” Ele respondeu convicto, dava para perceber nos olhos dele a determinação de um potro com o flanco branco querendo achar seu lugar no mundo.

“Se você diz... Mas se não agüentar o tranco, não se esforce a ponto de se machucar.” E então o treinamento da guarda seguiu e do alto de uma torre de vigia um pégaso marrom olhava toda a cena.

Ao fim da noite Aster mal se agüentava sobre os cascos. Ufa! Esse treino cansa mesmo, mas pelo menos eu não tive que trocar a noite pelo dia. Ele pensou enquanto se preparava para dormir. A sua tenda que estava armada em uma posição bem favorável atrás do castelo: era uma área coberta, o que a protegia do Sol e da chuva e haviam paredes de dois lados o que a impedia de sair voando com o vento.

Algumas horas depois, Aster se acordou e saiu de sua tenda. O Sol ainda brilhava e uma sombra alada se aproximava de onde o potro estava até poder ser vista com clareza. Era um pégaso marrom com um semblante de guerreiro e aparentava estar na casa dos quarenta.

“Então você quer se tornar um soldado, não é?” Ele perguntou num tom sério mas nada ameaçador.

“Sim, eu quero.” Aster respondeu curioso com o visitante.

“Então que tal treinar comigo?”

“E... quem é você?” A confusão do pequeno só aumentava.

“Bem, permita que eu me apresente. Eu sou Hurricane Sword, general do Exército Real e eu estou lhe oferecendo a oportunidade de passar por um treinamento da mais alta qualidade comigo. Agora, se puder me dizer seu nome...”

“Meu nome é Aster, do clã Nightkeeper. E você disse general, isso é...”

“Uma patente muito mais alta que a de capitão, com certeza.”

“E por que eu dentre todo mundo?”

“Sabe Aster, você me lembra outro potro que eu conheci há muitos anos que tinha mais ou menos a sua idade, ele também era cheio de disposição para se tornar membro da guarda mas faltava alguém que botasse fé nele e, ao contrário de você, ele teve que se virar sozinho. Agora eu vejo você aqui e quero que tenha uma oportunidade melhor do que a que ele teve.”

“Acho que entendi. E quem era esse potro?”

“Eu.”

Aqueles olhões brancos e esbugalhados fizeram o velho general franzir a cara.

“Quando a gente começa?” A empolgação era evidente.

“Já está anoitecendo, então vá dormir que pela manhã começaremos o treino.”

“Mas eu sou noturno! Além do mais eu acabei de acordar!”

“Eu sei. E treinar numa situação com a qual nós não estamos acostumados aumenta o rendimento, então acostumar-se com o turno do dia já é parte do treino. Daqui a umas horas eu volto. Mas teve uma coisa que me intrigou: por que um unicórnio foi pro treinamento de campo? Não seria melhor ter ido pra escola de magia ao invés disso?”

Aster olhou para o próprio chifre em meio à crina azul e depois para as asas, o pêlo e as penas eram tão escuros que mal dava para notá-las. Com um pouco de esforço ele começou a batê-las e voou na altura dos olhos do general parando alguns segundos depois e encarando-o como um bebê dragão que teve sua capacidade questionada. Hurricane Sword mostrou-se bastante surpreso ao perceber que seu mais novo aprendiz não era um unicórnio.

Alicórnio? Mas todos os alicórnios conhecidos são... É melhor deixar pra lá, se fosse mesmo já teriam feito alguma coisa. Ele pensou.


“Muito bem então, nos vemos pela manhã.” E com isso ele saiu voando deixando Aster para que voltasse a dormir.



No outro dia eles estavam prontos para começar o treino. Aster carregando sua espada.



“Bom dia Aster, hoje eu vou lhe passar sua primeira lição de luta armada, mas antes você deve ter isto em mente: sua arma, seja ela espada, lança, machado ou o que for não é só um instrumento, é uma extensão do seu corpo e como tal deve ser sentida. Não apenas use a arma, sinta-a se movendo próxima a você, isso é importante para não acabar cortando a si próprio.”


“Entendi! Sinta a arma... sinta a arma...” ele olhava pra espada de uma forma estranha, como se estivesse tentando falar com ela.

“Ceeeeeerto... me mostra o que sabe fazer.”

Aster começou a balançar a espada de um lado para o outro com uma coordenação muito boa para a idade, mas o peso da arma atrapalhava bastante seus movimentos.

“Pára um pouco, espera aqui, eu já volto.” Hurricane Sword voou até um quartel e voltou com uma espada curta. “Vamos tentar com algo mais proporcional, tá bem?” Aster pegou a nova espada colocando a outra de lado. E a destreza mostrada foi impressionante, como se tivesse passado a vida inteira lutando.

“Tem certeza que nunca fez isso antes?”

“Só quando eu brincava com as outras crianças do clã, mas eu nunca entrei numa luta de verdade, por quê?”

“Nada não, agora vamos ver... eu quero que você...”

E o treinamento seguiu. Passaram-se dias, meses, anos, e Aster e Hurricane continuaram treinando. A habilidade de Aster aumentava cada vez mais e isso podia ser percebido sempre que ele lutava com outro soldado do treinamento regular das guardas, eles nunca tinham chance. A dedicação de Aster também não deixava por menos, ele sempre estava disposto a fazer tudo para se tornar um guerreiro melhor. E com o passar dos anos o treino ganhou plateia, pois duas jovens éguas, uma branca e outra azul às vezes assistiam por uma janela do castelo.

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Aster estava adulto, o treinamento rendeu seus frutos e ele havia se tornado um corcel imponente e extremamente hábil no manejo da espada. Hurricane não podia estar mais orgulhoso de seu aprendiz. Curiosamente, contudo, o chifre dele havia sumido.



“Bom dia Hurricane, e aí o que vai ser hoje? Luta? Sair pra caçar timberwolves? Ou quem sabe uma técnica nova?”



“Ha, ha, segura as rédeas aí jovem. Hoje antes do treino eu tenho uma coisa pra te dizer.”


“O quê?”

“Aster, você tem idéia de que dia é hoje?”

“Hmmm... Sábado?”

“É... também... mas o ponto é que hoje você completa dez anos de treinamento.”

“Dez anos?! Já passou isso tudo?”

“Mas se não é a distração em pessoa na minha frente, eu ainda me admiro como você consegue perder a noção do tempo tão facilmente. Mas enfim, hoje seu treino completa dez anos e chegou a hora de uma coisa importante: seu teste. Se você passar então sua vaga na Guarda Lunar está garantida, se não, mais três meses de treinamento.”

“Eu tive um professor excelente esses anos todos, tenho certeza de que consigo. O que eu tenho de fazer?”

Nesse momento Hurricane sacou sua espada.

“Lute comigo.”

“Como?”

“Lute comigo. Você não precisa ganhar, só precisa me mostrar que tem toda a capacidade de ser um membro da Guarda.”

“Se é desse jeito,” Aster também sacou sua espada e pôs-se em guarda. “vamos. Háááá.”

A luta começou. Aster era veloz tanto para atacar quanto para se desviar da outra espada, mas o velho general não ficava para trás preferindo bloquear os ataques do aprendiz a sair da frente.

“Sua arma é parte de você, Aster, sinta os movimentos dela.”

“É nisso que eu venho trabalhando esses anos todos.”

A batalha seguia intensa e do alto de uma torre do castelo, por uma janela, duas expectadoras vibravam com o que acontecia.

Com um movimento imprevisível vindo de baixo, Hurricane fez com que Aster soltasse a espada acertando um coice em sua barriga logo depois. Aster caiu sentado no chão e sua espada bem ao lado dele, mas, antes que ele pudesse pegá-la, Hurricane já estava pulando em sua direção para mais um ataque. A coisa mais sensata a se fazer seria rolar para se esquivar, mas ao invés disso...

“Mas hein? E seus olhos...”

E espada de Hurricane colidiu com o nada ricocheteando e voltando para trás. No momento, ninguém entendeu o que aconteceu até que uma bolha azul clara e translúcida se formou ao redor de Aster que estava com uma aura azul clara saindo de seus olhos e de uma silhueta onde seu chifre deveria estar.

Sem pensar duas vezes, Hurricane partiu pra cima novamente, mas ao invés da lâmina simplesmente ricochetear, na hora que ela colidiu com o escudo uma pequena explosão o jogou para trás. Aster aproveitou o momento, pegou sua espada e quando Hurricane abriu os olhos a ponta da lâmina estava a poucos centímetros dele.

“Eu pensei que fora o disfarce do chifre que você desenvolveu baseado naqueles livros, você não soubesse nada de magia.” Hurricane falou enquanto soltava a espada.

“E eu não sei. E também não sei como aquele escudo apareceu assim mas até que ele veio a calhar.” Aster respondeu oferecendo o casco para o professor. “Mas e aí, eu passei?”

“Pode comemorar, garoto, pois de hoje em diante você é o mais novo membro da Guarda Lunar.”

“Yeeeaaaaaahhhhhhhh!!!!!” Ao mesmo tempo que gritou, Aster ergueu os braços e as asas e saiu do chão um pouco. Provavelmente, até a rainha se acordou com o barulho.

“Calma aí, rapaz, também não precisa de estardalhaço. Agora vamos para o meu alojamento que eu tenho uma coisa pra você.”

“Tá certo, vamos.”

E quando eles começavam a sair, aplausos distantes se aproximando puderam ser ouvidos.

“Impressionante, para fazer um escudo assim eu precisei desenvolver a técnica por semanas e você o fez com tamanha naturalidade.”

Os dois olharam para quem se aproximava deles: Um unicórnio de pêlo cinzento, crina branca e uma barba longa também branca. Ele usava um chapéu pontudo e uma capa azuis com luas e estrelas e vários guizos pela roupa. A capa escondia sua cauda e marca especial.

Hurricane Sword e ele encararam-se mutuamente com uma cara séria.

“Starswirl”

“Hurricane Sword”

Hurricane se aproximou dele devagar e do nada eles se abraçaram.

“Quanto tempo faz que eu não te vejo, meu irmãozinho favorito?” Hurricane disse.

“Hah, não vem com essa de favorito pra cima de mim, eu sou seu único irmão. Além do mais você só é três anos mais velho e eu ainda pareço ser mais velho que você.”

Aster olhava para a cena entendo aos poucos o que se passava ali.

“Então esse é o aprendiz do qual você se vangloria tanto? Evidentemente ele é um pégaso e isso definitivamente não explica como ele conseguiu invocar aquele escudo.” Starswirl examinava Aster com um olhar clínico. Aster então pegou umas mechas da crina, as esticou para que elas ficassem com o formato de um chifre e quando ele as soltou seu chifre estava lá e maior que o de um unicórnio normal.

Isso deixou Starswirl boquiaberto e o fez imediatamente cochichar com Hurricane.

“Você não disse que ele era alicórnio.”

“Ele mesmo desenvolveu o feitiço pra ocultar o chifre e é a única magia que ele sabe fazer. Ele sabe muito bem como iria chamar atenção saindo como alicórnio por aí então, se ele mesmo queria esconder isso, quem seria eu pra contar?”

“Você tem idéia da repercussão que isso pode gerar?”

“Claro que sim mas nem de Canterlot ele é. Eu achei que seria melhor deixar quieto.”

“Falando assim, é, você tem razão.”

“O-oi, eu ainda tô aqui.” Aster disse intrigado com a conversa.

“Ah, claro. Jovem Aster, eu sou Starswirl, irmão mais novo do general aqui e Alto Mago da Ordem da Harmonia.”

“Peraí, O Starswirl? Que tem uma seção da biblioteca real nomeada em sua homenagem?”

“O próprio.”

“Nossa, é uma grande honra conhecê-lo, ainda mais sabendo que é irmão do general Hurricane.”

“A honra é minha em conhecer o aprendiz de meu irmão. Mas eu soube que você não consegue usar magia mesmo tendo um chifre perfeitamente funcional, por quê?”

“Bom, eu nunca tive muita aptidão pra coisa e também nunca pratiquei. Fora o disfarce do chifre e isso que aconteceu agora, eu nunca usei magia.”

“Falta de aptidão é tudo o que esse escudo NÃO indica e você desenvolveu um feitiço bem interessante: disfarçar o chifre impedindo que ele seja visto, mas sem precisar remover o disfarce para usar magia. Eu mesmo nunca pensei em fazer algo do tipo.”

“Bom, eu me sinto lisonjeado com o elogio, mas...”

“Nananananão, sem mas. Vamos, eu quero ver esse escudo de novo, faça-o.”

“Mas eu não sei como eu fiz aquilo.”

“Pense no que você sentia quando o invocou, concentre-se nessa sensação, canalize-a no seu chifre e deixe fluir naturalmente para fora na forma de magia, vamos.”

Aster fechou os olhos, e logo seu chifre começou a brilhar.

“Isso, concentre-se e solte o feitiço.”

De repente o feitiço saiu, mas não como um escudo e sim como uma rajada de energia em direção a Starswirl que a segurou com os cascos envoltos em uma aura.

“Feitiço errado, garoto, pode parar.”

Aster não disse nada, ao invés disso seus olhos ficaram envoltos naquela mesma aura azul e a força do raio aumentou.

“Hurricane, uma ajudinha aqui.” Starswirl pediu ao irmão.

“Qual o problema? O jovem aprendiz é muito forte pra você?”

E a força do raio continuava aumentando.

“Aaahhhh!!! Faça alguma coisa, e faça rápido.”

Hurricane percebeu que não era brincadeira. Com um movimento rápido de sua espada ele acertou Aster na nuca com a empunhadura nocauteando-o. Starswirl jogou a energia que estava acumulada em suas mãos para cima causando uma explosão vários metros acima do castelo. Os soldados se alarmaram de início mas quando os perceberam que não havia ameaça por perto concluíram que deveria ter vindo da escola de magos.

Starswirl chegou perto do jovem desmaiado no chão conversando com seu irmão.

“Star, o que exatamente foi aquilo? Ele não deveria ser capaz de tamanha...”

“Tanto potencial, tanto poder, proporcionalmente, o único pônei que eu já vi fazer algo dessa magnitude além de mim mesmo foi o próprio rei, e tudo isso num corpo tão jovem e sem nenhum controle! Ele precisa de orientação.”

“E é você quem vai fazer isso?”

“Conhece alguém melhor?”

Capítulo 2 — Fim