Filho da Névoa
3 Capítulo 2 - Sonho ou Realidade?
Notas iniciais
Os olhos de Marcoh abriam e fechavam lentamente, a visão estava turva e tudo estava, tremendamente, branco. Escutava conversas ali perto, sons de cliques e apitos, sua cabeça parecia que iria explodir e então tudo escureceu novamente.
***
Aos poucos os olhos do rapaz foram se acostumando a claridade, precisou piscar mais algumas vezes até que finalmente conseguisse abrir os olhos totalmente. Estava em um branco quarto de hospital, as luzes brancas do local irritavam suas vistas, sentia o corpo todo pesado e a dor na cabeça insistia em atormenta-lo, sentia a garganta seca e quando tentou chamar alguém, nenhum som saiu.
Procurou ao lado da cama o mecanismo para alertar algum enfermeiro, e encontrou o botão, ligado a um cabo que ia até a parede atrás de sua cama. Apertou uma vez, duas, três e uma quarta vez, até que uma enfermeira loira e alta, com uma expressão azeda apareceu.
– Acordou, hein? — Disse ela, uma pergunta retórica e idiota que ele não conseguiria responder nem se quisesse.
Conseguindo mover o braço, mesmo com a terrível dor que se espalhou pelo corpo, tendo como origem o ombro direito, tocou os lábios e depois a garganta, indicando que estava com sede. A enfermeira foi até uma mesa em frente a cama dele e pegou uma jarra de vidro com água cristalina dentro, encheu um copo com água e levou até o garoto, lhe entregando. Ele deu pequenos goles inicialmente e depois tomou tudo de uma vez, pedindo por mais, a enfermeira repetiu o processo por mais três vezes antes que o garoto se sentisse saciado.
– O-o que houve? — Questionou com uma voz ainda rouca, mesmo após os copos d'água ingeridos.
– É o que todos queremos saber, querido. — Respondeu a mulher.
Marcoh havia percebido um tom de voz calmo e sereno, apesar da expressão azeda. Pensava que, mesmo descontente e cansada do serviço, deveria sempre ter um tom que agradasse e acalmasse os pacientes. Antes que pudesse falar qualquer coisa, a enfermeira Jenn, pelo que conseguiu ler no crachá, saiu novamente do quarto.
Ouviu a voz da loira de longe, falava com alguém que estava fora do quarto, porém Marcoh não sabia com quem, apenas ouviu uma voz masculina, levemente grave, responde-la. Um instante de silêncio depois um rapaz, que deveria ter, mais ou menos, a mesma idade de Marcoh, entrou no quarto. Era um pouco mais baixo que o moreno deitado na cama do hospital, porém não deixava de ser alto tendo, aproximadamente, 1,80m. Sorria gentilmente, seus olhos eram de um verde cristalino e esmeralda, seu corpo era, assim como de Marcoh, de um porte atlético e bem definido, com curvas torneadas. Os cabelos do rapaz, eram levemente compridos, chegando até o queixo e negros como uma noite se estrelas. Não só o corte de cabelo, como a feição e a forma do rosto e das maçãs da face do rapaz a frente de Marcoh, lembravam e muito Johnny Depp, porém as roupas que vestia, totalmente negras, lhe lembravam um estilo mais emo-gótico. As calças negras e grudadas ao corpo, tinha alguns cortes e rasgos, a camiseta não tinha nenhuma estampa, totalmente lisa e preta, por cima de tudo uma jaqueta de couro.
O coração de Marcoh disparou. Ele não conhecia aquele garoto, nunca o tinha visto em toda sua vida, então o que ele fazia ali? Marcoh apoiou as mãos no colchão e, com um tremendo esforço, ergue o corpo sentando-se e encostando as costas na "cabeceira" da cama de hospital e fitando o garoto.
– Vejo que já esta melhor, certo? — Perguntou. A voz, agora mais alta, era grave e suave, um tom mais grave do que a de Marcoh e, de alguma forma, combinava com o sorriso que não saía do rosto do rapaz. — Como se sente?
– Quem é você? — A voz de Marcoh, apesar de levemente tremida, agora saia de seus lábios normalmente, sem a rouquidão da garganta seca.
– Oh, perdoe a minha falta de educação. — Ele se aproximou e acenou com a cabeça. — Me chamo Gustavo. — Respondeu por fim.
– O que você faz aqui? O que aconteceu? O que er... — Marcoh, em meio a torrente de perguntas que saiam de seus lábios, conseguiu conter a última. Ele não poderia falar sobre o que aconteceu, nem como foi atacado, sabia que ninguém acreditaria, então decidiu guardar para si. — Meus pais sabem que estou aqui? — Mudou a última pergunta.
– Sim. Eles passaram as duas últimas noites aqui. — Gustavo disse em um tom casual. — Seu pai precisou ir trabalhar e sua mãe foi para casa tomar um banho. Ela disse que...
– C-como? Não. Espera. — Marcoh interrompeu o garoto. — As duas últimas noites? Como assim? Você está dizendo que passei dois dias desacordado?
Gustavo suspirou lentamente e foi até a poltrona que ficava ao lado da cama, sentando-se, apoiou os cotovelos nos joelhos e cruzou os dedos das mãos, suspirando novamente, olhou para marco por cima dos punhos unidos.
– É complicado te explicar o que realmente aconteceu, sem que você me ache louco. — Começou o rapaz, o sorriso havia sumido de seus lábios e sua expressão era séria. — Então vou começar pelos mais óbvio e simples possível. Sim, você ficou desmaiado por dois dias. Claro que isso tem uma explicação que, obviamente, os médicos não sabem. Eles acham que você ficou assim devido a queda e concussão na cabeça, o que não passa de uma besteira.
– Como você sabe que eu não bati a cabeça? — Marcoh realmente tinha caído no vestiário, porém não havia batido a cabeça e sim as costas, o que deixou ele sem ar.
– Porque eu quem te ajudei e te trouxe para cá. — Gustavo esperou uma reação de Marcoh, que apenas o olhou incrédulo. — Você e eu sabemos que isso não foi um acidente. — Continuou ele. — Você foi atacado por um pikoni e se eu não tivesse te observando e seguindo a dias, você teria morrido. — Gustavo se ajeitou na poltrona e novamente sorriu. — Na hora em que ouvi o barulho, entrei correndo no vestiário e o vi desmaiado, o pikoni se distraiu comigo e me deu a oportunidade de ataca-lo. Consegui curar os queimados lá, mas tinha que lhe trazer pra cá, devido ao veneno inalado, que eu também consegui retirar boa parte dele dos teus pulmões.
A vontade de Marcoh naquele momento era de dar uma boa gargalhada, porém após o que aconteceu, ele não poderia negar e nem dizer que o garoto estava mentindo. Era muita informação para ele, que ainda se sentia fraco, então simplesmente movimentou o corpo, voltando a se deitar.
– Minha cabeça está explodindo, apenas... Me dê um tempo pra processar tudo. — Ele estava em estado de choque, então nem tinha uma reação. Acreditava que aquilo era um sonho e ele acordaria a qualquer momento.
– Bem, já presenciei reações piores. — Respondeu Gustavo com o humor. — A minha própria, inclusive. Até que está aceitando bem as coisas.
– Aceitando bem?! — A voz de Marcoh saiu levemente estridente e ele finalmente deu uma risada. — Cara, eu tô torcendo pra isso não passar de um sonho.
E fechou os olhos, tudo escureceu.
***
Uma semana desde o incidente havia passado. Os médicos e seus pais disseram que ele havia escorregado e caído no chão do vestiário do colégio, ganhando uma bela concussão. Sua cabeça, no dia em que havia sido liberado, realmente estava dolorida e com um calombo na parte de trás, que doía quando ele tocava. Quando questionou a respeito de Gustavo, ninguém soube responder, como se o garoto nunca houvesse existido. Nem mesmo a enfermeira loira sabia dele.
Marcoh começou a acreditar que, realmente, tudo aquilo havido sido um sonho ou um delírio devido a concussão. Após acordar, como em todos os dias da primeira semana em casa depois o acidente, ele parou em frente ao espelho que tinha no quarto e, sem camisa, observou o corpo, procurando por alguma marca de queimadura. A pele branca estava intacta, os músculos do ombro continuavam da mesma forma, seu corpo definido em nada havia mudado.
Foi até o banheiro e tomou banho, secando-se parou de frente ao espelho que havia em cima da pia e limpou o mesmo do vapor do banho, passando a mão. Fitou o rosto por alguns momentos, sua barba por fazer o deixava com uma expressão mais madura e séria, os cabelos escarlates haviam crescido e estavam na altura dos olhos azuis.
– O que é isso? — Perguntou surpreso, olhando mais fixamente para a imagem refletida.
Ou ele era muito cego e desligado, ou algo havia mudado naquela semana. Os olhos, que normalmente era totalmente azuis, estavam com respingos de uma cor dourada próximo a pupila, mas não era um dourado normal, ele brilhava levemente. Marcoh piscou algumas vezes, porém nada mudou, a coloração permanecia ali, quase imperceptível. Então apenas sacudiu a cabeça e foi se preparar para o colégio.
***
– Bom dia, mamãe. — Disse ao entrar na cozinha. Foi até a mãe que, como sempre, estava preparando o café e lhe deu um beijo na bochecha.
– Bom dia, querido. — Respondeu a mulher. — Como se sente?
– Bem. — Respondeu simplesmente.
O pai do garoto entrou na cozinha, estava com seu terno impecável, o cabelo negro e de corte em estilo militar estava bem penteado, os lados já começavam a branquejar devido a idade. Os olhos profundos e azuis fitaram Marcoh. Seu pai tinha um corpo grande e musculoso, apesar da idade, a pele clara e a presença imponente de quem já havia servido ao exercito.
– Como se sente, garoto? — Perguntou em um tom bruto e levemente preocupado.
– Ótimo, pai. — Marcoh sorriu. — Pronto pra voltar aos treinos!
– É assim que se fala! Esse é o meu garoto. — O pai sorriu para Marcoh, orgulhoso do filho e da recuperação, sentando-se na ponta da mesa.
A mãe se aproximou, colocando o que faltava na mesa e se sentou ao lado do marido, em frente ao filho.
– A sua irmã está voltando. Chega esse final de semana. — Informou ela. A mãe de Marcoh tinha os cabelos compridos e encaracolados, vermelhos com os do filho. Os olhos tinham um tom cinza e a pele era clara, quase pálida, movimentos delicados e que contrastavam o pai.
– Alicia? Mesmo? — Perguntou o rapaz animado. Ele e sua irmã sempre se deram bem, grudados desde pequenos. A mudança da garota para Londres o havia deixado triste, mas ela havia passado em uma faculdade lá e, mesmo contra a vontade dos pais, decidiu se mudar para Inglaterra.
– Sim. — Respondeu a mãe sorrindo. — Então quero que esteja aqui, sem falta, no sábado a tarde. Venha direto do treino, sem passar na casa de ninguém.
– Pode deixar, mamãe! — O garoto estava feliz com o retorno da irmã, mal se falavam devido a ambos terem a agenda cheia e estava morrendo de saudades da irmã. Pegou um torrada e começou a comer.
***
Após o fim das aulas, encontrou Luz no corredor da escola e foi até a namorada, beijando-lhe e passando os braços pela cintura da garota.
– Arrumem um quarto! — Bruno, o melhor amigo de Marcoh e também jogador no time do colégio, apareceu, dando um tapa na cabeça do rapaz.
– Ei! Idiota! — Disse rindo e soltando a namorada, empurrou o amigo e ambos se abraçaram.
– Bem vindo de volta, Devine! — Disse o amigo após solta-lo.
– Divida ele um pouco comigo, Bruno. — Luz puxou Marcoh de volta para os braços. — E ai, gigante, como se sente?
Bruno sorriu e se encostou no armário ao lado do casal.
– Bem melhor agora. — Disse ele beijando a namorada novamente.
Bruno balançou a cabeça e puxou Marcoh.
– Odeio estragar o momento de acasalamento, mas precisamos ir. Temos treino, "gigante". — Ironizou ele, zoando com o apelido do amigo.
Os três foram em direção ao vestiário, onde Marcoh se separou de Luz. Os garotos entraram no local, onde o barulho de conversa era alto e foram para os armários, abrindo começaram a se despir.
– E então, cara, o que aconteceu? Ninguém nos explicou bem. Apenas disseram que você havia caído e se machucado. — Bruno olhava para frente, enquanto tirava a camiseta que vestia e colocava os equipamentos.
Marcoh se lembrou do dia e foi envolto pela lembrança do monstro que o atacara, recordando de como era pesado e seu corpo queimava em contato com a pele gosmenta do bicho, logo após se lembrou do hospital e do Gustavo, lhe contando que aquilo era um pikoni ou algo do tipo.
– Marcoh? — Chamou Bruno. — Terra chamando Marcoh. — O garoto agitou as mãos em frente ao amigo.
– Hã? É... Foi isso mesmo. — Disse, mal prestando atenção no amigo.
– Isso o que, cara?
– Ah, eu escorreguei e cai, batendo a cabeça. — Respondeu por fim. — Nada demais. Só que a pancada foi bem forte.
– Cara, coloca forte nisso. Tu ficou afastado por duas semanas. — Bruno deu uma risada fraca. — Bem, é tê-lo de volta.
– É bom estar de volta.
Os rapazes pegaram os capacetes e foram para o campo, onde o resto do time se reunia, em volta do treinador.
– Bem vindo de volta, Davine.
– Obrigado, treinador Hayes.
Treinador Hayes era um cara grande, literalmente, e largo. A cabeça era lisa, a pele queimada pelo sol e os olhos escuros. O treinador começou a explicar as técnicas do treino e as estrategias para o jogo, no final do mês. Marcoh prestava atenção, sem perder o foco, porque era o capitão e havia perdido duas semanas de treino. Ao final, tomaram suas posições e o treinador apitou, começando o treino.
Uma hora depois, no intervalo, enquanto Marcoh ia descansar e beber água, olhou para a arquibancada, onde as lideres de torcida treinavam, próximo aos bancos. Viu luz e sorriu, acenando para a namorada, que logo o viu e acenou de volta. Seus olhos captaram um ponto preto nos bancos e, ao focar a visão, ele o viu.
Não havia como esquecer ou confundir aquela pessoa, com certeza era Gustavo.
Fale com o autor