Filho da Fênix
2 Capítulo 1 - O despertar do fogo
Notas iniciais
PARTE 1 — PERSEGUIÇÃO
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais, braços dados ou não
Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição
– Charlie Brown
13 de Novembro — 14:22 — 20 minutos antes
"Odeio o professor de Espanhol" Resmungou Victor. Gabriela riu. Ambos estavam saindo apenas àquele horário do colégio pois, depois de receber um dois na prova específica dada pelo professor de Espanhol para ferrar alunos que não haviam feito o trabalho deste, Victor xingara-o de corno, e tivera sua nota diminuída para Um, além de ter tido de escrever cem vezes em uma folha de papel "Não devo desrespeitar meus professores em sala de aula" e tido de fazer uma redação a respeito do sistema educacional brasileiro e como o respeito de alunos para com professores poderia melhorá-lo. Enquanto todos os outros alunos haviam apenas olhado-o perplexamente, sua melhor amiga, Gabriela, rira. Por consequência, ela também tivera de fazer a redação, e esperara ele acabá-la.
"Ninguém mandou chamar o professor de corno, Ruivo." Disse ela, utilizando a palavra 'Ruivo' como o apelido que Victor, por ter cabelos ruivos lisos, da cor de ferrugem ou de sangue, já estava acostumado a escutar.
"Chegamos ao ponto" Desconversou Victor, se levantou e puxou a corda de sinalização do ônibus, que parou. Ele desceu do ônibus apressadamente, seguido pela garota de pele cor de chocolate. À frente deles, havia o portão de uma vila. Fixado a este, uma placa: 'Vila Abre-te', que Victor sempre imaginara ser uma paródia para com outra vila tijucana, a Vila Sésamo. O ruivo de olhos cinzentos meteu as mãos nos bolsos à procura da chave, ao que Gabriela foi um pouco mais rapida e pegou as suas, abrindo o portão de ferro.
"Ah. Que seja" Disse Victor, e entrou logo depois dela. "Sério, esse professor é muito chato, cara. Depois ele vem falar que só passa quem quer, arranjando mil motivos pra tirar ponto de 'geral' na matéria dele. Agora vou ter de fazer V.S.F. Droga." Prosseguiu. Gabriela apenas deu um meio sorriso.
"Que seja, graças a você eu também estou, lembra? E, enquanto você conseguiu milagrosamente se safar em todo o resto menos espanhol e português de uma forma que eu nem entendi, eu fiquei em quatro matérias de Verificação Suplementar Final." Disse Gabriela, indo para a própria casa, Victor ao lado.
"Meu primo é da E.P.C.A.R., lembra, aquele colégio da aeronáutica em que os alunos são melhores que os professores das matérias?" Disse ele, exagerando bastante "Daí ele me ajudou."
"Ou foi a nerdice, mesmo." Disse Gabriela. Victor deu de ombros e olhou para a casa dele, uns cinco números de distância. Teve uma ligeira impressão de que ela tinha um brilho laranja. Estranho.
"Que seja. Nos vemos nas férias, então." Disse ele, e fez um High Five com ela. Olhou para a própria casa. Não era impressão; ela tinha um brilho laranja, pois estava pegando fogo.
"A minha casa tá..." Começou Victor. Gabriela olhou na direção.
"Tá o quê, garoto? Não tem nada demais lá." Victor balançou a cabeça negativamente.
"Tá pegando fogo! Como é que ninguém está vendo?" Exclamou ele, Gabriela olhou, cerrou os olhos.
"Não tem Nad... QUE PORCARIA É ESSA?" Gritou ela, sua voz subindo diversas oitavas. Victor chegou a dar um pulo. "A sua casa está pegando fogo!" Gritou a garota, e eles saíram correndo na direção da casa, uma janela quebrada, fogo e fumaça claramente visíveis, a porta de vidro deformando o brilho coral das chamas.
"Essa merda... O que tá havendo aqui!?" Exclamou ele. Deu um chute contra a porta, o que obviamente não surtiu efeito, então ele puxou a chave do bolso de trás e rapidamente encontrou a certa. Abriu a porta e sofreu com uma lufada de ar quente e fumaça no rosto. Deu dois passos para trás e engasgou com a fumaça, então entrou correndo.
"Victor, não! Sai daí, isso é um incêndio, você vai morrer!" Mas Victor ignorou a voz dela e saiu correndo as escadas. Conforme subia, escutou uma conversa, o que lhe soou impossível. Quem estaria na casa dele? E, aliás, quem entraria numa casa em chamas?
"Você enlouqueceu, Felipe, vai mesmo subir lá pra porra do sótão arriscando morrer? Eu estou te falando, tem um Filho da Fênix lá em cima! Você vai arriscar morrer só pra salvar a pele de uma maldita Renegada?" Ele ouviu uma voz feminina dizer. Subiu os últimos degraus.
"O que vocês estão fazendo na minha casa, caralho!?" Berrou. Ao subir e virar para o lado, viu um garoto e uma garota loiros. O garoto era alto e parecia ter uns dezenove anos, e tinha olhos azuis. A garota não tinha os olhos azuis. Ou, melhor dizendo, não tinha ambos os olhos azuis. O direito era azul celeste como o do irmão; o esquerdo, castanho claro, da cor de mel. Ambos estacaram. A garota virou para ele, e disse, metade perplexidade, metade desprezo.
"Chegou o filhinho da Renegada." Disse a garota. Victor ouviu um silvar e um estrondo, então olhou para o lado e viu, na escada em caracol que levava ao Sótão, uma gota de metal derretido escorrer pelo corrimão. Metal derretido. Ele não sabia que incêndios geravam uma temperatura tão intensa que era capaz de derreter o aço daquelas escadas. Escadas que levavam ao Sótão, que sua mãe, desde os quatro anos, lhe dizia que ele nunca podia entrar, e , mesmo quando ele se revoltara, aos treze anos, por não poder ir a um simples cômodo da casa, ela só fizera brigar com ele, e não lhe dera a chave. Mesmo agora, aos quinze anos, não a tinha e não entendia o que de tão importante poderia haver ali, mas subiu correndo.
"Espera! Você vai morrer, seu renegado idiota!" Berrou a garota de olhos Heterocrômicos, mas Victor a ignorou. Enquanto subia, ouviu bem baixo os passos de Gabriela, que subia as escadas.
"Victor! Victor, sai dessa merda!" Então ela viu a garota loira.
"Quem... é você?"
"Ah, merda..." Disse a garota.
***
Victor subiu correndo a escada em espiral, até parar frente ao sótão cuja chave nunca tivera. Mas a porta estava agora destruída, e seus estilhaços no chão, em brasas. Adentrou-o e teve dificuldade em dar o passo seguinte, pois parte da borracha da sola de seu tênis derretera e grudara no piso de aço carbono, que estava em brasas. Lá dentro havia um arsenal, facas, adagas, lanças e espadas nas paredes. Como sua mãe escondera tudo aquilo? "Olá, Victor.", ouviu uma voz dizer. Se virou rapidamente na direção desta. Lá não estava sua mãe, havia apenas um retângulo de 3 metros de altura e um e meio de largura feito de um material transparente e refratário, como diamante, com sua área interna preenchida por uma membrana púrpura que brilhava. E, à frente do portal, um homem de cabelos em chamas que não o consumiam, e olhos laranjas. Não o laranja dos olhos dos Lobos, mas olhos de um laranja que brilhava e oscilava como fogo. "Imaginei que viria" disse o homem.
Victor olhou para ele fixamente, apavorado. O que via ali à frente só podia ser o que ouvira a loura dizer, um 'Filho da Fênix', mas mais parecia, à exceção dos pés, na posição normal de um ser humano, o Curupira do folclore brasileiro.
"O que... O que é você? O que você fez com a minha mãe!?" Berrou o garoto, lágrimas escorreram-lhe pelos olhos e então evaporaram devido ao calor do local. Seu rosto estava enrubescido pelo calor, e um brilho que, embora ele próprio não visse, o homem podia ver, começou a tomar o centro de sua íris, então cresceu em espiral até tomá-la toda, mudando as cores de seus olhos para um laranja que oscilava como chamas que ardessem por trás de suas pupilas.
"O que você fez com a minha mãe!?" Gritou ele mais uma vez. O homem deu um sorriso. Não um sorriso malicioso, não o sorriso que se esperaria de um psicótico, não um sorriso de Júbilo.
Um sorriso de terna alegria.
Um sorriso de amor.
"Lhe verei novamente, Victor." Disse ele, e ergueu uma mão para Victor, que se tornou envolta em chamas.
"Pyrosvestikí̱" Sussurrou o homem, e uma esfera de chamas se condensou à frente da mão espalmada dele, e voou contra Victor, que foi atingido no peito, os ouvidos se enchendo com a explosão, embora os olhos não fossem ofuscados por esta. Enquanto caía ao chão que queimava, sua visão escurecia e os olhos voltavam à cor cinzenta que lhes era normal. O garoto e a garota loiros chegaram correndo junto de Catarina à porta, apenas para ver Victor estatelar-se contra o chão, os olhos perdendo o brilho e se fechando. O homem deu um passo para trás, fazendo a membrana do portal se esticar até se romper, então ele a atravessou e esta se dissipou no ar. Victor desmaiou.
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