Filho De Troll

1 Pote de vagalumes


Notas iniciais
Primeiro capítulo. *frio na barriga*

Terminei de colocar meu sapato e corri para a janela.

A fumaça negra se espalhava rapidamente pelo céu, fazendo com que tudo escurecesse. Como se fosse noite novamente.

Eram apenas seis horas da manhã. Todas as bruxas do bairro colocavam suas crianças em carroças, que partiam em alta velocidade para o interior de Frogar. Algumas delas iam com seus irmãos mais velhos em vassouras, e outras ainda se arriscavam a montar em hipogrifos.

Eu não queria subir na carroça, realmente não queria. Levaria horas, talvez dias para que eu chegasse até Trinn, uma das praias da Ilha Branca. Depois de lá, ainda teria de pegar algum barco que estivesse indo para Frogar.

Fiquei olhando para minha mãe, que arrumava algumas coisas dentro da minha mala, com a esperança de que ela sentisse pena de mim e me deixasse ir de vassoura.

Ela percebeu que eu a estava encarando e suspirou.


– Você sabe que seu pai não te deixa dirigir a vassoura até Frogar.


– E vocês dois sabem que eu posso fazer isso.


Ela largou as roupas que estavam em sua mão, todas encardidas e cheias de mofo, e se sentou ao meu lado, na minha cama de feno.


– Escute, se fosse por mim...


– Eu sei. Mas ele tem que aprender que eu vou morar longe de vocês. Vou ter que me virar sozinha. Tenho que começar a tentar agora, não acha?


Ela sorriu.


– Você tem os mesmos traços, a mesma beleza e a mesma coragem que sua avó.


– Eu vou conhecê-la? – perguntei, animada.


– Sim. Ela mora na Villa Del Punta, do outro lado de Frogar, na fronteira com a Vila dos Trolls. – ela apontou para a janela, na direção Norte.


– Vila dos Trolls? – eu estremeci.


– Sim. – ela riu – Mas não se preocupe... – ela se levantou e voltou a arrumar minha mala – Eles não saem da floresta. Por isso, não entre lá.


Eu assenti e continuei olhando pela janela. Agora, eram poucas as crianças que deixavam a ilha.


– Aqui, terminei. – ela colocou a mala sobre a cama – Venha, vamos preparar sua mochila.


Voltei minha atenção para ela e a segui até a cozinha.

Ela abriu a porta de um dos armários, que rangeu ao seu toque, tirou um saco de pano e voltou a fechá-lo.

Começou a enchê-lo com alguns potes de insetos, bolos, frutas e larvas.


– Coloque aquele...


– Pote de vagalumes? – ela sorriu.


– Sim. – sorri em resposta.


Ela pegou o maior pote de vagalumes da prateleira e colocou-o cuidadosamente dentro do saco.

Era minha comida preferida. Quando eles chegavam ao seu estômago, faziam cócegas e deixavam sua barriga brilhando por quarenta e cinco minutos. Eram doces e macios.


– ONDE ESTÁ A BRUXA DA CASA?! – gritou meu pai, entrado em casa.


– Estou aqui! – gritou minha mãe, em um tom mais baixo.


Ele se aproximou dela, que tirou um de seus colares de flores do pescoço e o colocou em Ottum. Esse era o nome do meu pai.


– E você, querida? – perguntou ele, se referindo a mim.


Ignorei-o.


– O que aconteceu com ela? – ele perguntou a Friga, minha mãe.


– Você não a deixou ir de vassoura para Frogar. Ela está brava... – ela passou creme de avelã na ponta do nariz dele e lambeu o resto de seu dedo – E com razão.


Mamãe subiu as escadas em direção ao meu quarto, com a minha “mochila” em uma das mãos.

Não olhei nos olhos de Ottum, ou ele poderia jogar algum feitiço de compreensão em mim. Ele colocou uma de suas mãos no meu ombro.


– Querida...


– Eu não quero ouvir.


– Mas eu queria dizer que...


– Você não entende que eu estou deixando nossa casa, vou ter que me virar sozinha, e você deveria me dar uma chance pra tentar começar a...


– Meredith, eu vou te deixar ir sozinha!


Olhei para ele, chocada.


– Voc... Você o que?!


– Eu... Eu fui conversar com Átaro, ele me mostrou nas cartas... “Devo deixar a flor do campo amadurecer”.


Eu sorri, mudando rapidamente meu campo de visão em direção á minha vassoura, escorada atrás da porta.



– Oh... Oh, Grande-Mãe, minha filhinha está me deixando!


Eu ri.


– Mãe, pare com isso, eu estarei bem.


Ela se aproximou, com lágrimas nos olhos, e me entregou uma carta.


– Guarde-a bem... – ela apertou a minha mão, a que segurava a carta – Só a abra quando chegar em Frogar.


Eu assenti, e ela me deu um beijo na testa. Ottum se aproximou da vassoura.


– Cuidado com tudo o que voa. – ele olhou pro céu, depois voltou a me fitar e sorriu – Adeus, querida Meredith.


Eu sorri.


– Até logo, Ottum.


Ele deu um passo para trás e segurou a mão de Friga.


– Você estará na casa de sua avó ates do pôr-do-sol, querida! – exclamou minha mãe, secando algumas lágrimas.


– Coloque seu medalhão para fora do vestido!


Enfiei a mão dentro da gola do meu vestido, tirando o medalhão de Frogar para fora, deixando-o bem á mostra.

Cada terra tinha o seu medalhão, era uma forma de identificação. Como a Ilha Branca pertencia á Frogar, usávamos o mesmo medalhão. Digamos que a nossa ilha era o subúrbio de Frogar, porém, durante uma guerra, era uma das partes mais afetadas.

Subi a vassoura, até que fiquei a uns dez centímetros acima do topo dos pinheiros. Olhei para baixo e acenei para Friga e Ottum, que acenaram de volta. Olhei para a frente novamente, mantendo a coluna reta. Tentei manter o sol como meu ponto de orientação. Fui em frente, onde deveria ser Frogar.



Oito longas horas se passaram. Minhas costas doíam, assim como meus braços, que carregavam minha mala e minha mochila.

Eu já havia passado por várias cidades e vilas de Frogar, uma hora fui quase decapitada por uma pipa.

Vi, finalmente, o balão com um lampião amarrado num chalé entre alguns pinheiros. Olhei de perto o balão, e o lampião estava amarrado um pedaço de papel escrito “Greemshaw”. Era o sobrenome da minha família.

Pousei em solo firme, finalmente, depois de oito horas e meia em cima daquela vassoura desconfortável. Mas ainda era melhor que três dias de carroça, um dia de barco e mais cinco dias á cavalo.

Antes de bater na pequena porta de madeira da casa de minha avó, tirei um bolo de barro da mochila e devorei-o em questão de segundos. Não se engane com o nome. O bolo não era feito de terra, e sim de cacau puro.

Cambaleei até a porta e bati três vezes. Vi alguém olhar pelo olho mágico, depois girar o trinco.


– QUEM É VOCÊ?! – gritou uma pequena garota loira de olhos azuis e pele suja, com a varinha na minha cara.


– Eu sou... Sou... – vi tudo escurecer, e a última coisa que me lembro ter ouvido foi uma voz grossa de mulher gritando “MEREDITH!”.


Notas finais
Não ficou tão bom nem tão grande quanto eu queria... Deixem reviews se quiserem. x
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.