Filhas da Noite
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu estava vendo as faíscas saírem da ponta dos meus dedos quando escutei os gritos estridentes das meninas no andar de baixo da casa.
A histeria tomou conta da mansão em poucos segundos, todas começaram a correr em direção ao salão principal, mas eu não estava me importando com o que estava acontecendo, meus pensamentos me faziam estar em uma bolha na qual o único barulho que eu escutava vinha da minha mente.
Infelizmente, essa bolha estourou quando Cordelia, uma menina que estava em seu primeiro ano, entrou no meu quarto com lágrimas em seus olhos.
-Acho que você vai querer ver o que aconteceu. – E saiu com a mesma velocidade que entrou.
Percebi que se não fosse até lá, começaria a receber visitas de outras meninas e então me levantei e fui andando sem pressa até onde todas haviam se reunido. As paredes de mármore branco que cobrem toda a casa junto com o chão de madeira barulhento criam um ambiente frio, mas também não se espera algo muito festivo e aconchegante para as herdeiras das bruxas que não foram queimadas.
No final da escada já era possível escutar os soluços e gritos, essas meninas não conseguiam ser menos exageradas; aposto que não passava de um bicho morto ou o corte de cabelo de alguma menina que deu errado.
Somos um grupo de aproximadamente 200 meninas, um dos maiores grupos que já existiu, e é óbvio que eu não estava vendo nada do que tinha acontecido, mas então a nossa coordenadora Charlotte aumentou a sua voz.
-Todas voltem já para os quartos, esperem até o jantar para algo oficial.
A maioria das meninas começou a andar até a escada, mas eu queria entender o que tinha acontecido.
Depois de uns minutos finalmente consegui ver o motivo do alvoroço.
Zoe, uma menina de 13 anos, estava pendurada no candelabro que ficava no centro do salão com uma corda ao redor do pescoço.
A morte é um privilégio, simplesmente gozar de não ter que se preocupar com mais nada e apenas dormir me parece algo tão bom, mas as pessoas não querem que você pense assim, claro que não, o que seria da economia se todos finalmente percebessem que a morte é algo prazeroso?
Zoe entendeu isso muito rápido, espero que ela esteja se sentindo realizada.
Volto para o quarto e encontro Scarlett sentada na cama dela, obviamente chorando e precisando de alguém.
Pena que esse alguém não seria eu.
-Por que você está chorando? Não é como se Zoe fosse a sua melhor amiga. – Falei sentando na minha cama e tirando os sapatos.
-Melanie, ela era uma de nós, uma irmã. – Ela falou sem me olhar.
-Você acredita nessa história idiota de todas sermos irmãs?
-Claro. – Ela levantou a cabeça. – Nós somos uma família, precisamos umas das outras.
-Só porque somos mais fortes juntas, isso não quer dizer que devemos nos amar e criar laços. Só precisamos existir juntas. É isso.
-Você é muito fria. – Ela levantou e foi fechar as cortinas da varanda. – Sabe o que Zoe significa em grego?
-Acho que faltei nessa aula.
-Vida. – Ela parou de falar e eu vi que as lágrimas estavam voltando ao rosto dela. – Ela tinha tanto pela frente...
-Você não sabe disso, você não conhecia a menina e o significado do nome dela não a faz uma pessoa melhor, é só uma coincidência infeliz, você sabe disso, não é?
-MELANIE, SAÍ DO QUARTO AGORA. – Ela explodiu em raiva, as pontas do cabelo vermelho começaram a se transformar em fogo e os dedos dela já eram chamas.
Abro a porta do quarto e quando estou do lado de fora sinto alguém me observando, era Charlotte no final do corredor.
Em questão de poucos segundos ela já estava do meu lado.
-O que eu falei sobre ficar no quarto? – Ela me olhou com o seu típico sorriso de ironia, pronta para me punir.
-Scarlett está tendo um ataque de fúria e eu saí para procurar ajuda.
-Então agora você resolveu se importar com sua companheira de quarto?
-Adoraria discutir sobre as minhas mudanças de personalidade, mas tem como focar no fato de que ela está literalmente em chamas ali dentro?
Charlotte sempre deixou claro que não gostava de mim, ou melhor, da minha família.
Descobri no primeiro ano que minha mãe tinha sido a garota que fez da adolescência da minha coordenadora um inferno e que meu pai foi o menino que nunca a notou.
Ela abriu a porta do quarto e encontrou uma Scarlett desmaiada no chão, detalhe para o carpete de lã queimado embaixo dela.
-Eu te disse. – Falei encostando na porta enquanto Charlotte corria para colocar minha colega nos ombros e leva-la até a enfermaria.
-Agora você fica no seu quarto, se eu te encontrar para fora antes do jantar...
-Entendi a mensagem. – Fechei a porta atrás dela e finalmente estava sozinha.
Depois de algumas horas o alarme do jantar tocou; Scarlett ainda não tinha voltado.
Olhei a minha imagem no espelho mais uma vez; o uniforme era deprimente de feio, apenas um vestido preto sem forma que ia até os joelhos, mas meu rosto estava impecável.
A minha pele era branca como uma folha de papel, mas meu cabelo longo e liso era mais escuro que petróleo e meus olhos eram grandes e também tão escuros quanto meu cabelo.
Eu pareço uma escultura de tão perfeita.
Ando para a sala de jantar e vejo que as outras meninas ainda têm os rostos inchados e vermelhos de choro, como elas têm coragem de sair em público assim?
Ao passar pelo salão principal muitas delas ainda procuravam o corpo de Zoe, como se fossem deixar a menina ser uma espécie de decoração, o que seria uma péssima ideia considerando que ela iria apodrecer e ficar cheia de vermes em poucos dias.
A decoração da sala de jantar estava repleta de imagens dos três anos que Zoe tinha passado aqui, pelo pouco tempo tenho que admitir que as decoradoras tinham feito um bom trabalho.
Sentei perto de Morgan, uma das únicas meninas com quem eu tinha uma amizade na vida.
-Quando vão deixar a garota em paz? – Eu perguntei.
-Até semana que vem isso tudo já vai ter acabado, eles só querem ter a consciência limpa de ter "honrado a morte dela" mesmo que ninguém efetivamente soubesse quem ela era.
-Concordo. – Morgan era uma das únicas pessoas nesse lugar que tinha a cabeça no lugar.
Charlotte aparece e todas as meninas se levantam, era o momento mais constrangedor do jantar: colocar a mão direita no coração e pronunciar "Somos as filhas das bruxas que não conseguiram matar, somos fortes, somos as netas das bruxas que não souberam perseguir, somos fortes, somos as bruxas que não vão ser subordinadas".
-Muito bem, todas continuem de pé. – Charlotte pediu. – Como vocês sabem, hoje perdemos uma de nossas irmãs, Zoe era muito nova, tinha apenas 13 anos; ela não conhecia a sua família, mas se tornou uma das alunas com maior potencial, é uma pena que tenha escolhido terminar sua jornada tão cedo.
-É uma pena que ela tenho se livrado de tanta merda tão cedo. – Sussurrei para Morgan, que deu um risinho.
-Gostaria de pedir que todas ativassem a luz em seus dedos e mandem para os céus, em homenagem a Zoe. – Pediu a coordenadora.
Um fato estranho sobre a morte para nós é que somos obrigadas a mandar pequenos pontos luminosos brancos para o céu na esperança de que a bruxa morta possa ter paz.
O teto do salão se abriu e nos próximos 4 minutos foram repletos de choro, luz e gritos de tristeza.
Ainda bem que um minuto depois já estávamos todas sentadas comendo a nossa torta de frango e falando sobre o início do ano letivo que seria na próxima segunda.
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