Filha do Fogo
1 Segredos
Notas iniciais
Não há muito o que dizer, apenas que eu espero muito que gostem eee...
Beijinhoos da tia Sah' ;*
— Arabella, pare de fazer manha. – Ela estava emburrada, de braços cruzados como uma típica criança de uns seis anos. Só havia um problema: Arabella tinha dezesseis.
— Eu disse que queria parar no lago antes de continuar andando. Estou com sede!
— Acontece, meu bem, que daqui a pouco anoitece. Não podemos ficar fora de casa a noite. Você sabe muito bem disso!
— Ia levar só um minutinho!
Mikhail se calou. Ele sabia muito bem que NÃO ia levar um minuto. Mas discutir com Arabella numa hora dessas não ia ajudar em nada. Sua cabeça estava cheia, sua irmã não entendia os problemas. Voltar para Delagoy talvez não fosse uma boa opção, mas ficar fora estava se tornando impossível. Ele não conseguia mais os sustentar, caçar estava ficando perigoso demais, não tinham uma casa de verdade e logo passariam a não ter mais comida. Precisavam voltar urgentemente. Mas depois desses longos três anos longe... Não sabiam o que esperar.
— Mik, olhe! – Os olhos de Arabella brilharam. Como Delagoy tinha evoluído em tão pouco tempo, estava lindo!
— Finalmente, irmã.
Os dois caminharam em direção ao grande muro do reino. Aquele muro tinha uma história: Foram construídos alguns anos antes do fim da Grande Guerra. Uma tentativa desesperada de conter os furiosos ataques dos reinos inimigos. Nos tempos em que Delagoy era governada por Pleteu, um dos maiores reis já existentes na história. Mas Pleteu tinha inimigos, muitos inimigos. Os reinos vizinhos, Cartamon e Bullegard, os maiores reinos da época governavam inúmeras frentes de ataques, influenciavam outros reinos na grande luta contra Delagoy. O motivo? Uma longa história.
O que importa agora é que aqueles muros tinham salvado Delagoy de uma grande destruição um pouco mais a frente. A Segunda Grande Guerra, ou, como ficou conhecida, a Guerra do Fogo e do Gelo. Época em que Delagoy era governada por Zemón. Foi nessa guerra que tudo começou. Alexander, o menino que cresceu em meio à destruição e sofrimento, assumiu o trono a partir da morte do rei ao se casar com sua única filha, Azula. Mas aquela guerra traria muito mais do que novos reis; traria um poder jamais conhecido em todo o mundo. Ninguém poderia ao menos imaginar o que estava por vir.
— Acha que nos aceitam de volta? – Perguntou Arabella, olhando no fundo dos olhos do irmão.
— Aceitam sim, Arabella. – Ele não tinha muita certeza daquilo.
— Por que você está tão nervoso?
— Não estou nervoso.
— Está sim, você está estalando os dedos freneticamente, como sempre faz quando está nervoso.
— Ta bem, você me pegou, maninha. Estou nervoso porque...
— Por quê?
— Porque eu quero fazer xixi. Vamos logo.
Arabella reviraria os olhos numa situação como essa, mas estava confusa demais para pensar em qualquer reação; então somente seguiu o irmão. Chegaram ao grande muro do reino. Cansados, fracos, com fome, Mikhail e Arabella caminharam até o portão onde os guardas estavam e, como sempre, com uma linda expressão facial de boas vindas que dizia algo como “não queremos vocês aqui. Morram”.
— Abram! Somos moradores de Delagoy! – Gritou Arabela.
— Cale a boca, Bella! – Reclamou Mikhail, nervoso.
— Mas somos!
— Ah! Deixe que EU dialogue com eles, sim?
— Eu já sei falar, Mik...
— Ei, vocês! – Chamou um dos guardas – O que querem aqui? Fazer confusão na portaria? Podem ir andando!
— Não, senhor! – Mikhail estava nervoso. – Queremos... Queremos entrar. Isso.
— Entrar? Em Delagoy? – O guarda deu uma risada sarcástica. – Ninguém entra ou sai de Delagoy sem a explícita autorização da rainha.
— Sim, mas o negócio é que... Espera. A rainha? Não é o rei que manda aqui?
— Ah... – Os guardas se entreolharam – Digamos que ele não tem um “pulso firme” de comando.
— Entendi... Mas e quanto às decisões importantes? Quer dizer, imagino que devam ser tomadas por um homem, sim?
— Mikhail! – Disse Arabella abismada.
— Desculpe-me, irmã.
— Esperem aí seus dois pilantras, não devia ter dito isso a vocês! Vão embora daqui antes que eu arranque seus ouvidos com minha espada – O guarda parecia muito orgulhoso daquela espada. Era engraçado o jeito que ele falava isso, mas ambos os irmãos se seguraram para não rir.
— Não! Espera! – Gritou Arabella.
— Meu senhor, somos moradores de Delagoy, saímos da cidade há uns três anos, não havia regras quanto à saída nesse tempo.
— Não caio nessa. O que me garante que não são mentirosos espiões bullegardianos querendo se infiltrar?
— Eu o garanto. – Uma bela, porém firme voz feminina ecoou pelos portões.
— Senhorita Panchen? – Disse o guarda.
— Ora se não são os irmãos Kurtinstave! – Disse a mulher, caminhando em direção aos irmãos. A aparência dela era um tanto assustadora. Bela, porém assustadora. A senhorita Panchen vestia um longo vestido negro, o cabelo castanho estava preso num coque chique de estilo bem formal. De longe dava para ver que ela era muito bem vestida, provavelmente rica. Além disso, pequenos óculos ovais presos em seu nariz um pouco abaixo dos olhos davam a ela um ar de uma mulher de respeito. Ela deveria trabalhar em uma área muito importante.
— Isso! –Disse Mikhail
— Como você nos conhece? – Perguntou Arabella.
— Cale-se, Arabella! – Disse Mikhail com medo de que a irmã estragasse a única chance que eles tinham de entrar na cidade.
— Muitas pessoas conhecem a história de vocês, meus amores... Por favor, acompanhem-me. – Respondeu a senhorita com um sorriso estranho no rosto.
— Mas, senhora! A senhora sabe que não é permitida a entrada de ninguém sem a estrita permissão da rainha! – Retrucou o guarda.
— Estivemos esperando-os por três longos anos... Vamos, Jeremy, garanto-lhe que a rainha irá adorar saber que os Kurtinstave estão de volta – Disse ela, mais uma vez com aquele assustador sorriso.
— Está bem, senhora, mas comunicarei isso à rainha imediatamente.
— Você me fará um favor! – E sorriu novamente.
Assim, a senhorita Panchen convidou os irmãos para entrar e os guiou até uma pequena casa no lado leste de Delagoy. Durante o caminho, os irmãos foram notando as inúmeras mudanças ocorridas no reino durante apenas três anos. As ruas pareciam mais bonitas, arrumadas; em contraste com os habitantes. O povo parecia mais triste, andavam cabisbaixos apesar da aparente fartura que brilhava na cidade. Incrível como o reino se recuperava rapidamente da guerra que quase o destruiu uns cinco anos atrás. As meninas andavam cobrindo parte do rosto, com capuz, mascara, com o próprio cabelo ou simplesmente de cabeça baixa. E, ao reparar bem em algumas, se notavam cicatrizes terríveis. Os irmãos não entendiam aquilo, mas, ao notarem, olharam para a senhorita Panchen que também apresentava uma cicatriz. Era pequena, porém notável. Preferiram não questionar sobre o assunto naquele momento. Havia muitas outras questões importantes: Quem era aquela mulher? O que aconteceu no reino? Por que ela havia os ajudado? Como os conhecia? Como tantas pessoas poderiam conhecê-los? Por que aquela lei de ninguém entrar ou sair sem autorização havia sido implantada?
Chegando a casa, a senhorita Panchen entregou aos irmãos a chave, eles agradeceram e entraram sem fazer perguntas. Ela os acompanhou e eles se sentaram no sofá da sala.
— Querem água? Suco? Comida? Precisam comprar algo?
— Queremos respostas. – Disse Mikhail.
— Ah. Eu sabia que iriam perguntar em alguma hora. Já estava achando que vocês eram loucos. – Respondeu a mulher.
— Pra começar, quem é a senhora?
— É senhorita, querido. Chamo-me Manna Panchen. Faço parte do órgão de justiça de Delagoy e gerencio o Instituto Delagoy.
— Instituto Delagoy? – Perguntou Arabella.
— Sim. Mas não irei explicar mais nada sobre ele até que chegue a hora.
— Mas o que uma mulher do órgão de justiça quer com a gente? Vai nos prender? Somos fugitivos. – Disse Mikhail.
— Prender? Oh, não. Bem, talvez. Mas esse não é o caso que me foi destinado a resolver. Foi parecido. O que eu realmente quero saber é: O que levou vocês a fugirem de Delagoy?
Panchen havia feito uma questão chave. A história dos irmãos era obscura e eles odiavam falar sobre isso. Mas tinha uma mulher da lei bem na frente deles. Não tinham como esconder nada.
— A senhorita disse que conhecia nossa história. Então não preciso explicar muito. O que devo dizer é: Não queria que tirassem a minha irmã de mim.
— Entendo... E como você era menor de idade, não tinha possibilidade de criar Arabella sozinho. Por isso resolveu fugir? Diga-me, Kurtinstave, realmente achou que essa era a melhor opção? Fugir?
— Eu não pensei direito. Apenas não podia deixar que me separassem da Arabella. – Mikhail começou a ficar nervoso. Ele sabia que isso iria acontecer. O que ele tinha feito era contra a lei e uma hora outra eles seriam pegos se voltassem para a cidade. Só não esperava que fosse tão cedo.
— Certo. Isso só mostra a sua incapacidade de criar a menina.
— Mikhail foi muito capaz de me criar! Estou viva até hoje! Vamos, Mikhail, não deveríamos ter voltado! – Disse Arabella.
— Espere, irmãzinha... Não podemos fazer isso. – Respondeu Mikhail com lagrimas nos olhos.
— Não podem mesmo. O que vocês fizeram foi totalmente contrario a lei. E não serão permitidos de sair. – Completou Manna.
— Cale-se! Iremos fugir! Você está querendo nos separar de novo! Achei que tivesse nos ajudando, mas você só queria nos atrair para uma armadilha! – Os olhos de Arabella começaram a encher-se de lágrimas – Vamos, Mik! Por favor, vamos!
— Silencio, menina! – A voz firme de Manna ecoou pela sala. – Bem... Deixe-me terminar. Vocês não devem sair da cidade de jeito nenhum, pelo próprio bem de vocês. Mas, o que eu queria dizer é... Agora, Mikhail já é maior de idade e pode ficar com a guarda da irmã. Porem será uma questão complicada. Justamente por causa desse crime de fugir.
— Temos alguma chance? – Perguntou Mikhail.
— Vocês têm sim. Porém... – Ela fez uma breve pausa. – Será algo difícil.
Conversaram sobre o assunto durante algumas horas. Panchen explicou que Mikhail poderia ser preso, porém o caso dos irmãos estava sendo analisado pela justiça. Tudo dependia do que os oficiais decidissem e que ela, Panchen, estava ali para agir em defesa deles. Ela vinha os observando por um tempo e sabia que naquele dia estariam voltando. Havia preparado tudo para a chegada dos irmãos.
— Mas afinal, por que a senhorita está nos ajudando? – Perguntou Arabella desconfiada.
— Ah. – Panchen pensou um pouco antes de responder. – Vocês podem confiar em mim. Mas talvez não devam confiar.
— Como assim?
— Como eu disse, tenho observado vocês há um tempo. Sou muito egocêntrica e faço o que acho melhor para mim. E para mim, agora, proteger vocês parece o melhor. Mas talvez isso mude.
— E por que é o melhor para você? – Disse Mikhail.
— Porque tenho interesse em suas histórias, apenas. E porque sou uma pessoa gentil também e ajudá-los me faz sentir bem.
— Então por que isso mudaria? – Disse o irmão desconfiado.
— Por algum motivo forte... Um segredo, talvez.
— De que segredo a senhora está falando? – Disse Arabella.
Manna Panchen não respondeu. Algum tempo depois, ela saiu avisando-os que a casa estava arrumada para eles. Havia comida, água, camas e banheiro. Os irmãos comeram até fartarem-se, depois tomaram banho e foram descansar. Arabella não conseguia dormir. Imagens do seu terrível passado assombravam sua mente essa noite. Ouvia os gritos, via o sorriso maligno do homem que a machucara, quase podia sentir a dor novamente... E então veio o pesadelo.
Havia uma enorme sombra próxima às rochas. Balbuciando palavras de uma língua estranha. “Provavelmente muito antiga”, pensou. Via-se fogo ao entorno do lugar. E que lugar era esse? Uma enorme extensão de terra e uma estranha formação rochosa no final. Não havia horizonte, havia fogo. Apenas fogo. Arabella caminhava em direção a sombra, sem ter outro lugar para ir e, portanto, sem opção de fuga. Quanto mais se aproximava, maior era o calor; e também maior era o som que vinha em forma de língua antiga. Aos poucos, Arabella reconheceu o lugar: Delagoy.
— Quem é você? – Gritou num impulso.
Mais palavras escorriam pelo cenário em ruínas; quanto mais ela reconhecia seu reino, mais assombrosamente destruído ele parecia estar. E então a sombra se mexeu. Tornou-se um enorme contorno de réptil. Arabella tentou correr, mas não se mexia. E a sombra, em meio à fumaça, se aproximava como um predador. Então, olhos vermelhos brilharam na sombra. Enquanto o fogo surgia entre os dentes que se abriam em uma enorme boca. O fogo estava vindo, e nele refletia-se o que de pior se pode refletir: O passado.
O ser se aproximava e ameaçava Arabella. O fogo vinha entre as palavras. Arabella começava a misteriosamente entender o que elas diziam. Era uma maldição. Não podia exatamente traduzir tudo aquilo, mas ela sabia. De algum jeito, ela sabia. Arabella fechou os olhos pra não ter mais que olhar a criatura horrenda. Mas ao sentir o fogo se aproximar, teve de abrir. E eles brilharam vermelho sangue. Sangue que cobria o reino. Sangue que Arabella sentiu, de algum jeito, que tinha sido derramado por sua culpa. A ideia a assustou. Mas não havia mais tempo para temer, o fogo a tocou.
Arabella acordou num salto. Assustada, olhou em volta e viu o quarto. Sua cama estava ali, a cama do seu irmão também, mas ele não estava. Ela pegou a vela que iluminava o quarto e caminhou até o corredor. Desceu as escadas tentando encontrar Mikhail. Ao chegar à sala, viu o irmão lendo. Aproximou-se tentando descobrir o que era sem que o rapaz a notasse.
— Acordada, irmã? – Disse Mikhail sem olhar para trás.
— Ah! – Arabella se assustou – Eu... Tive um pesadelo.
— Você não está muito grandinha pra vir correndo atrás de mim quando tem um pesadelo?
— Eu olhei pra sua cama e você não estava.
— Entendo.
— O que está lendo?
— Ah... Nada importante. – Mikhail parecia nervoso.
— Deixe-me ver! – Arabella tomou o livro do irmão. – “A maldição do dragão”?
— É, sua intrometida. Fala sobre uma misteriosa maldição que envolvia crianças da Segunda Grande Guerra. Dizem que o dragão do fogo, que prefiro não arriscar pronunciar o nome, amaldiçoou crianças que mais tarde adquiririam poderes de dragão. Um poder capaz de destruir tudo em volta.
O pesadelo voltou à mente de Arabella. Num milésimo de segundos ela se lembrou das palavras do enorme monstro no sonho, dos olhos vermelhos, do fogo e toda a destruição em Delagoy. Lembrou-se da sensação terrível que teve quando seus olhos se tornaram vermelhos e ela sentiu como se todo o reino tivesse sido destruído por sua culpa. Arabella largou o livro no chão
— O que foi, Arabella?! – Perguntou Mikhail assustado.
— MIKHAIL! – E então a menina recobrou a consciência. – O que aconteceu com essas crianças?
— Foram todas mortas, Bella... –
Arabella engoliu em seco. – Mortas?
— Bella? Você está bem?
— Eu preciso voltar a dormir. Estou dormindo em pé.
— Está certo... Boa noite? – Disse o irmão confuso.
— Boa.
Arabella caminhou até sua cama novamente e tentou adormecer. Mas lembrava-se do sonho. Sua mente estava confusa demais. Ela não queria acreditar nas coisas que estava pensando naquele momento, parecia loucura demais. Em meio a tanta confusão, Arabella tinha três certezas: O monstro no sonho era um dragão. O dragão que atacou Delagoy na Segunda Grande Guerra. E aquelas crianças NÃO foram todas mortas.
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