Filha de Gelo e Fogo

19 PARTE II: Prólogo


Notas iniciais
Essa é a última postagem do dia, prometo. Agora, voltamos apenas na próxima semana. Boa leitura. A música do capítulo é King, de Lauren Aquilina. Sobre a parte II: Na minha opinião, a Fúria dos Reis é um dos livros mais difíceis para os fans de Robb, porque ele mal aparece, uma vez que se separa do POV de Catelyn. É justamente essa lacuna que vou tentar preencher nesta parte da fic. Boa leitura a todos!

"You've got it all
You lost your mind in the sound
There's so much more, you can reclaim your crown
You're in control
Rid of the monsters inside your head
Put all your faults to bed
You can be king again"

A antiga coroa dos Reis do inverno tinha sido perdida há três séculos, entregue a Aegon, o Conquistador, quando Torrhen Stark se ajoelhou em submissão. Ninguém saberia dizer o que Aegon fizera dela. O ferreiro de Lorde Hoster Tully fizera bem seu trabalho, e a coroa de Robb parecia-se muito com a descrição da outra nas histórias que eram contadas sobre os reis Stark de antigamente; um anel aberto de bronze martelado, gravado com as runas dos Primeiros Homens, coroado por espigões negros de ferro, forjados em forma de espadas longas. De ouro, prata e pedras preciosas, nada tinha; o bronze e o ferro eram os metais do inverno, escuros e fortes para lutar contra o frio.

Havia ainda uma coroa menor. Esta era feita de um metal quase branco, e suas pontas eram arredondadas como a curva do quadril de Cordyra, e pareciam pedras irregulares de gelo.

Quando a coroa foi colocada sobre a cabeça de Robb, pareceu que pesava cem quilos sobre seus cabelos. Mas o senhor marido fez uma cara dura, e aguentou. Não era para o rosto dele que ela olhava, porém; eram as mãos. As pontas de seus dedos estavam vermelhas de frio, e ela queira coloca-las entre as suas, como haviam feito milhões de vezes, num Bosque Sagrado como aquele, em casa.

A coroação, claro, fora no Bosque Sagrado, com sua relva, flores silvestres e bosques densos de olmos e paus-brasis. Uma grande quantidade de folhas sussurrantes ainda se pendurava nos galhos das árvores, completamente alheias à notícia que o corvo branco tinha trazido a Correrrio uma quinzena atrás. O Conclave declarara que o Outono tinha chegado, mas os deuses ainda não tinham achado bom informar isso aos ventos e aos bosques. O Outono era sempre uma época temível, com o espectro do inverno pairando no futuro. Mesmo os homens mais sábios nunca sabiam se a colheita seguinte seria a última –mas cada colheita os dava frutos frescos, e grãos, que separavam entre consumir e guardar.

Se estivessem ainda em Winterfell, estariam se preparado para a Festa da Colheita –quando os grãos colhidos no Outono eram armazenados, e todos os Lordes se reuniam em Winterfell para uma festa, e os plebeus se juntavam na Vila de Inverno para assistir e comemorar.

Não houve festa enquanto estavam nos Bosque Sagrado, mas, assim que voltaram para os cômodos de paredes de pedra da grande Correrrio, os homens tiraram cornos e canecas rústicas de onde só os deuses sabiam, as encheram com vinho rico da Árvore que Edmure tirara da adega, e um vinho mais escuro e cheio de sabores de Dorne, além de vinho branco de Lys. Havia cerveja para os soldados rasos, que comemoravam do lado de fora, e Cordyra não viu quem a entregou um corno, mas já estava com ele na mão, e tanto Jon-Umber quanto Quent se afastavam dela.

Na noite anterior, ela havia sonhado com uma coroação bem diferente daquela. Uma coroação que acontecia sob uma tenda selvagem, onde ardia um caldeirão sobre o fogo. Um alto homem selvagem tirava o caldeirão do fogo, e Cordyra via que estava cheio de ouro derretido por dentro, queimando em vermelho de tão quente. Segurado por outros homens, um rapaz dourado, que não podia ter muito mais que vinte anos, mas tinha uma aparência derrotada, tinha o ouro derramado sobre sua cabeça, e este se fendia aos seus belos cabelos prateados, sob o olhar de uma jovem mulher com os mesmos cabelos. Grossos glóbulos de ouro fundido pingaram sobre seu peito, pondo a seda escarlate em brasa..., mas nenhuma gota de sangue foi derramada.

Ela sabia que aqueles dois tinham de ser Viserys e Daenerys Targaryen, seus meios-irmãos. Mas não sabia se a cena se passava no passado ou no futuro.

Ela tentou falar com Robb, mas o barulho de conversas e a batedeira de copos era muito alta. Além disso, todo o tempo alguém se aproximava deles para dobrar o joelho, ou elogiar a perícia de Robb em batalha.

Além de tudo, usava um vestido nortenho, com mangas de sino feitas de pele, que era um pouco quente demais para o outono nas Terras Fluviais. Era belo, em azul-gelo com arabescos prateados, mas ela procurou Jocelyn com os olhos; se a encontrasse, Jocelyn a levaria ao quarto, onde colocaria um vestido mais leve, de seda ou linho ou ainda algodão.

Robb devia ter visto seus olhos se movendo sobre a multidão, porque se inclinou, a boca bem perto do seu ouvido para ser escutado por ela.

—Já pensou em damas para sua companhia, minha senhora? –A sensação dos lábios dele no lóbulo de sua orelha derreteu as articulações de seus joelhos, e Cordyra ficou feliz por já estar sentada.

Catelyn, sua tia, parecia pensar que era mais adequado a uma rainha ter um pequeno grupo de mulheres de confiança. Cordyra chegara a explicar que tinha Jocelyn, mas a tia balançara a cabeça, e dissera que tanto a recém-coroada Rainha Margaery quanto a rainha Cersei tinham acompanhantes da nobreza, e logo ela também precisaria disso. “O reinado não é apenas sobre guerras e corvos. Algumas aparências precisam ser mantidas se quiser ser rainha”.

Não quero ser rainha, Cordyra pensara. Quero Winterfell. Mas Winterfell só servia com Robb ao seu lado, e Robb era rei.

Tivera alguma amizade com Beth Cassel quando era mais jovem, mas a maioria das mulheres nortenhas ficara em Casa ao invés de descerem à guerra e, portanto, Cordyra estava presa com as senhoras fluviais. Até então, tinha uma garota chamada Elyria Mallister, de Guardamar, que era dois anos mais nova que Cordyra, e estava encantada em ver tantos cavaleiros como nunca antes.

Ela estreitou os olhos com astúcia ao responder à pergunta de Robb.

—Pensei que talvez uma das garotas Frey pudessem me servir. –Disse a ele, mostrando os dentes ao sorrir. –Afinal, lorde Frey parecia tão ansioso por se livrar delas, e precisaremos oferecer algo quando nos desfizemos do acordo sobre o dragão.

Cordyra viu um osso da mandíbula de Robb se mover duramente.

—Uma garota Frey seria adequada. –Ele se limitou a responder.

Nunca antes eles haviam discordado sobre uma questão tão séria. Para Robb, era uma questão de honra; se voltasse atrás com seu prometido aos Frey, estaria desonrado a Casa Frey, e a sua própria no processo. Além disso, do que servia uma rainha que não tinha bens a oferecer? Mas Cordyra pensava diferente; os dragões nunca tinham sido de Robb para começo de conversa, e não podiam pertencer a outra pessoa que não ela.

Cordyra o lembrara que na guerra civil conhecida como Dança dos Dragões teria havido menos sangue se apenas um dos lados dispusesse dos animais.

Os homens foram e vieram pelo que pareceram ser muitas quando, finalmente, lorde Bolton chegou. Trazia à sua frente a Irmã Negra, numa bainha nova, de couro e metal. Todos fizeram silêncio quando a espada passou. Cordyra levantou-se de seu lugar no estrado e encontrou com Bolton, que pôs a espada em suas mãos com um sussurrante “Vossa Graça”.

Quando Cordyra virou-se para Robb, pensou que havia hesitação em seus olhos, mas foi apenas por um segundo. Ela voltou a subir o estrado, cuidadosamente, uma vez que segurava a espada com ambas as mãos e não tinha como segurar a barra do vestido. Brevemente, imaginou-se tropeçando e caindo, o aço valiriano cortando-a inteira quando caísse sobre ele. Não foi uma imagem agradável.

Robb se levantou de seu cadeirão e abriu as mãos. Cordyra tirou a Irmã Negra da bainha, e o aço valiriano brilhou escuro e perigoso na luz baixa dos archotes; contava uma centena de histórias de sangue.

—Eu, Cordyra Stark, das Casas Stark e Targaryen, rainha consorte no Norte, ofereço a você, Robb Stark, Rei no Norte e Rei do Tridente, primeiro de seu nome, das Casas Stark e Tully, a espada Irmã Negra, da Casa Targaryen, para que a use em meu nome, e abata os meus inimigos, que são também os seus. Aceita?

Robb deixou que ela pudesse a espada em suas mãos, então a levantou com um braço só.

—Aceito.