*Isaac*

A placa velha de madeira com um coelho desbotado pintado nela estava pendurada precariamente sobre a porta do bar.

As palavras “White Rabbit” foram malfeitas sobre a madeira embolorada, que balançava com o vento frio. A luz atravessava as janelas embaçadas e iluminava a rua.

Baixei o capuz da jaqueta e abri a porta, o vento entrando comigo. O bar tinha as paredes brancas, com algumas manchas de brigas passadas que ocorreram ali. Perto das janelas, folhetos de casas noturnas e tipos de bebidas estavam presos por ramos e cipós finos, que se enroscavam saindo de vasos pendurados no alto das paredes.

Passei pelas mesas ignorando as pessoas – semideuses e divindades menores – que cochichavam entre si como se eu não pudesse ouvi-los. Em uma mesa mais ao canto, um bando de ninfas trocava risinhos e suspiros.

Olhei para o balconista, um homem careca e magro. Ele revirou os olhos e resmungou alguma coisa assim que me viu. Sorri de lado e me apoiei no balcão.

–O Senhor Encrenca chegou – murmurou ele enquanto secava um copo.

–Aposto que sentiu minha falta, Darius – olhei a minha volta pelo bar. As ninfas no canto riram envergonhadas e fingiram que não estavam olhando.

–O que você quer, Isaac? – Darius pousou o copo e arqueou as sobrancelhas cinzas. Ele tinha olhos brancos acinzentados, como um cego, mas eu sabia que ele via muito mais além dos olhos.

–Ouzo seria bom – murmurei observando as ninfas.

–Não é disso que estou falando – ele disse, mas mesmo assim colocou um copo da bebida de aparência leitosa sobre o balcão – Vamos, me responda.

–Passar o tempo – falei nada convincente depois de tomar um gole. Olhei novamente para as ninfas e elas pareciam estar disputando para saber quem iria até o balcão.

–Deixa eu adivinhar – Darius sorriu de lado, os braços cruzados sobre a madeira escura – Dor de cotovelo?

–Muito engraçadinho – franzi o cenho e virei na minha mão o copo vazio – Quantas vezes eu já disse para você não fazer isso?

–Ler seus pensamentos? É meu único poder e não posso usá-lo?

–Use contra qualquer um, menos contra mim – estendi o copo para ele – Enche?

–Você não acha que é demais? – ele perguntou enchendo o copo – Nem eu bebo tanto.

–Você é um bêbado maldito, Darius. Aposto que bebe uma garrafa disso antes de ir dormir.

Ele pareceu ponderar.

–Nem tanto. Agora me diga: quem é a pobre coitada?

–Eu já disse que não é dor de cotovelo.

–Você não viria ao bar se afogar em álcool se não fosse por isso. E aliás, porque estaria cantando aquelas ninfas?

–Mas eu não...

–Você pensou em ir lá e cortejar uma delas. A de vestido azul, talvez.

Abri a boca, porém não sabia o que dizer. Não queria admitir que meu problema era Dayannya. Eu sentia como se uma bolha crescesse dentro do meu peito e, quando estourasse, tudo o que eu sentia ia vazar. E quanto as ninfas, eu queria me distrair um pouco.

–É complicado – murmurei com amargura.

–Hm... – Darius me examinava com os olhos semicerrados – Não acha que isso seria menos complicado se dissesse tudo para ela?

Torci o nariz observando meu copo enquanto eu o empurrava por um curto pedaço do balcão, de um lado para o outro.

–Não tenho nada para dizer a ela.

–Não? – Darius sorriu e balançou a cabeça lentamente – Você detesta mandar nela, mas ao mesmo tempo sabe que isso vai fazer os dois ficarem juntos por mais tempo e você quer isso. Ficar ao lado dela te traz uma alegria imensa, porém isso dói porque por um lado você quer acreditar em tudo o que Netuno te ensinou e, por outro, você quer ela e também quer saber se o que ela sente por você é um sentimento mútuo.

Encarei ele com incredulidade, meu coração acelerado.

–E você odeia quando eu faço isso – completou Darius – É, sua vida é bem complicada. Como você consegue ficar tão tranquilo com tanta coisa embaralhada nessa cabecinha loura?

–Às vezes eu também me questiono.

–Belcourt? – chamou alguém atrás de mim. A voz, masculina, fez os pelos da minha nuca se arrepiarem. Uma velha cicatriz latejou na lateral do meu corpo – Isaac Belcourt?

Me virei e dei de cara com a pessoa que eu menos queria ver no mundo. Lembrei-me do sorriso maligno, o cabelo preto bagunçado e os olhos castanhos maliciosos, um deles o qual parecia que nunca mais ficaria aberto novamente.

–Pensei que não te veria de novo – ele estalou a língua, sorrindo de lado – Não depois daquele... imprevisto.

–Imprevisto? – estiquei as costas, ficando alguns centímetros maior que ele – Você tentou me matar, Vince, ou é tão idiota que não consegue nem ao menos se lembrar disso? – murmurei em tom sarcástico. Ele parecia ter ficado ligeiramente mais pálido.

–Eu me lembro perfeitamente.

–Não quero encrenca aqui, Vince – Darius fuzilou o garoto com os olhos brancos e foi atender um homem do outro lado do balcão.

–Pode deixar – murmurou Vince para si mesmo e se sentou na cadeira ao meu lado. Como eu estava de pé, ele ficava da minha altura na cadeira alta – Você mudou bastante.

–Posso dizer o mesmo – ergui uma sobrancelha e sorri de lado – Qual é a do olho? A água te atingiu com força demais?

Vince trincou os dentes e seu olho danificado pareceu ter um tique nervoso

–Inexplicavelmente, não sinto remorso nenhum por ter enfiado aquela faca nas suas costelas.

–Sorte nossa você ser um vesgo.

Ele cerrou os punhos, o rosto ficando vermelho.

–Você não perde uma para fazer uma piadinha, não é mesmo?

–Ainda nem comecei.

Vince riu baixo, o cabelo preto fazia sombras longas em seu rosto magro.

–Olha, é realmente ótimo te ver de novo – ele disse com sarcasmo, uma alegria quase convincente apesar de seus olhos faiscarem com ódio – Mas você não devia ter guardado rancor.

–Não fui eu que tentei te matar por causa de um jogo.

–Não? – ele bateu levemente no rosto sob o olho danificado e sorriu maldoso – Eu discordo. Mas enfim, não é por isso que estou aqui.

–O que você quer? – estreitei os olhos e tentei imaginar porque daquilo. Não estava gostando nem um pouco de encontra-lo de novo — Uma revanche?

–Eu quero a garota – ele disse sem rodeios e se levantou, pegando um canivete do bolso da calça – E você devia ter adivinhado, já que ela é bem concorrida.

–É melhor você manter esses dedinhos sujos bem longe dela – murmurei com raiva, o rosto quente. Só de pensar naquele idiota perto de Dayannya, o sangue me subiu à cabeça – E pode passar a mensagem para Elijah.

–Eu não trabalho para Elijah. Na verdade, você deve conhecer minha companheira melhor do que conhece ele.

Havia poucas possibilidades. Até agora, eu só conseguia me lembrar de uma garota que queria matar Dayannya. Ou melhor, que queria matar todos os meus amigos.

–Peggy te mandou? – perguntei arqueando as sobrancelhas. Ela não era exatamente uma ameaça, já que não lutava muito bem, mas tinha poder quanto a milícia romana.

–E me falou tudo sobre a garota – Vince disse, me observando com cuidado enquanto eu pegava a faca de caça que escondi na cintura da calça – Pelo que eu entendi, ela deve ser bem quente.

A bolha dentro do meu peito estourou, mas a única coisa que vazou dela foi ódio.

Ataquei com a faca em um movimento em arco e ele bloqueou com o canivete. Levei minha mão livre ao seu pescoço e o empurrei contra o balcão, pressionando a faca com toda a força que eu conseguia. O canivete era a única coisa que me impedia de cortar sua garganta.

–Eu não vou hesitar em matar você agora – murmurei. O rosto de Vince estava vermelho enquanto ele tentava me afastar. O som das pessoas gritando e arrastando cadeiras era um eco distante.

–Como não hesitou em destruir o acampamento? – ele sorriu vacilante, ainda se esforçando muito para não ser degolado – Você é um covarde, Van Garden.

O nome acendeu uma lâmpada em minha cabeça. Eu só o tinha ouvido uma vez e além de mim Dayannya era a única pessoa que conhecia aquele nome, um que eu esperava não ouvir nunca mais.

–Você trabalha, sim, com Elijah – resmunguei trincando os dentes. Afrouxei o aperto por um momento e Vince o aproveitou.

–Por meio período – ele me empurrou e chutou meu joelho, fazendo minha perna ceder. Vince apertou meu pescoço e me jogou contra o balcão, me enforcando enquanto cravava as unhas em minha nuca – Você não achou que ia vencer, né? Eu conheço seus pontos fracos, Isaac, eu...

Acertei o joelho entre suas pernas. Não ia continuar ouvindo aquilo.

Vince cambaleou apoiando as costas em uma mesa enquanto suas faces ficavam roxas e os olhos lacrimejavam.

–Eu soube... – ele começou com a voz falha – Que você foi procurar por Kathleen. O que achou dela, hein?

Minhas mãos tremeram ligeiramente. Como ele sabia daquilo?

–Que ela não é minha mãe – resmunguei indiferente, embora eu sentisse um frio no estômago. Uma semana depois de eu ter voltado para o Reformatório, procurei – com uma ajuda de Christopher — por Kathleen Van Garden nos registros de Texas e Nova Iorque, e acabamos descobrindo que ela morava em um centro de recuperação nos Yonkers.

–É nisso que você quer acreditar – Vince deu um sorriso rasgado enquanto se esforçava para ficar de pé sozinho – E sabe o que mais? Ela tem uma família. Uma família sem você.

As coisas em minha cabeça estavam tão confusas, que mal percebi quando Darius saiu detrás do balcão, trazendo uma espada de ouro imperial.

–É melhor dar o fora, Vincent – ele disse apertando o punho da espada.

Vince estreitou os olhos e saiu do bar, deixando a porta aberta. Fechei o zíper da jaqueta bloqueando o vento frio.

–Já liguei para as garotas – disse Darius prendendo a espada de volta ao seu lugar, embaixo do balcão – Elas disseram que estão quase chegando – Darius me pegou pelo braço e me colocou sentado em uma cadeira, então foi fechar a porta. Quando voltou, ele se apoiou na mesa ao meu lado e me examinou rapidamente – Você não devia ouvir aqueles caras.

–No começo eu pensei que Elijah estivesse apenas inventando, mas ela é real. E se... – eu engasguei, como se meu corpo e mente rejeitassem aquela ideia e não quisessem completar a frase.

–Tente não se preocupar com isso – Darius pegou um copo d’água e estendeu para mim. Senti a tatuagem em meu antebraço queimar ao eu ver a água se revolvendo dentro do copo. Peguei o copo gelado e coloquei-o na mesa.

Por enquanto, eu não queria nada que me lembrasse de Netuno.

E de minha mãe.