Virei-me na cama, com a sensação de ser empurrada.

A pele do meu rosto estava ressacada e parecia grudada. Passei a mão nos olhos e me ergui sobre os cotovelos.

—Qual o problema? — perguntei, limpando meu rosto manchado o máximo possível. Foi só então que notei Sirena ao lado da minha cama, chorando.

—Ele sumiu.

—Sumiu? — perguntei sonolenta, ainda esfregando os olhos — Como assim, quem sumiu?

—Isaac! — ao dizer isso, despertei completamente — Não está no quarto, na sala de piano, não está treinando... Daya, eu não sei mais onde ele pode estar! Já liguei para o Darius, o Erik...

Não escutei o resto. Meus pensamentos voaram por Elijah, lobos e Nova Orleans.

—Eu sei onde ele está.

Desembarquei do trem antes dos outros e corri pelo espaço aberto, empurrando as pessoas e nem me dando o trabalho de pedir desculpas. Sai da estação, dei uma volta completa, encontrando uma placa grande com uma seta para a direita, indicando Bourbon Street.

—Daya, espera! — gritou Callum atrás de mim. Ele, Dakota, Sirena e Gael vieram comigo, enquanto Chris e Eli ficaram no Reformatório com Sarah.

Voltei a correr, desviando dos pedestres e, antes que fosse atropelada, pulei o capô de um carro que freiou repentinamente. Virei mais algumas ruas, entrando em desespero, até que parei em uma esquina e, na rua da frente, três meninas riam entre si e olhavam de esguelha para a calçada fora da minha vista. Suspirei de alívio e dobrei a esquina, vendo ele sentado em um banco, o cabelo dourado brilhando bagunçado. Ele virava um frasco nos dedos longos.

Sem esperar que ele me visse, me atirei em seu pescoço.

—Você está me sufocando.

—Nunca mais faça isso — segurei o rosto dele entre as mãos. Os olhos azuis de Isaac brilhavam sob as luzes coloridas das lojas, seu semblante era de total orgulho e satisfação. Nunca ele me pareceu mais bonito — Você quase me matou do coração, seu idiota, o que estava pensando? E porque está sentado aqui, ao invés...

—Estava te esperando — ele disse simplesmente, sorrindo de um jeito adorável — Eu sabia que você viria atrás de mim.

Soltei a respiração e me afastei um passo. Mordi o lábio inferior e ergui a mão, pronta para mete-la na cara dele, mas desisti. Ao invés disso, abracei-o novamente.

—Eu fiquei tão preocupada.

—Me desculpa?

Assenti, sentindo o perfume dele. Quando me afastei passei a mão rapidamente pelos olhos, para que ele não visse a lágrima que acabara de brotar. Isaac se levantou quando Sirena surgiu na esquina e veio correndo em nossa direção, se atirando nos braços dele.

—Me desculpe, eu não queria que aquilo acontecesse! Você sabe que é meu irmãozinho, eu jamais faria algo para te machucar!

—Está tudo bem, Ryna — Isaac olhou por cima do ombro dela, ainda abraçados, e franziu a testa; Dakota vinha ao lado de Callum, que parecia aliviado. Porém, Dakota tinha uma expressão estranha no rosto, que eu não entendi.

Gael correu em disparada e ficou rondando Isaac, pulando de um jeito engraçado.

—E o que a gente faz agora? — perguntei me esticando para olhar ao longo da rua — Não tem chalé nenhum, aqui.

—Isso é erva do lobo? — exclamou Sirena — Onde você conseguiu isso?

—Erik me deu — Isaac virou o frasco para eu ver. Era o mesmo que ele usou para encontrar Lieng — O chalé está encoberto por névoa, é forte demais. A erva vai nos levar até Elijah.

—E como você espera passar pela névoa? — perguntou Dakota com aspereza. Agora eu via a raiva faiscando em seus olhos.

Isaac não disse nada. Virou o frasco, deixando a erva cair no chão. Imediatamente ela se agrupou e seguiu pela rua apinhada de gente. Então um pequeno espaço entre duas lojas de lembrancinhas se abriu, se expandindo, e revelou um chalé mal acabado, as ripas de madeira sobrepostas de um jeito estranho. O teto parecia prestes a desmoronar.

—Na minha lua de mel vou querer ficar hospedada aí — disse Sirena quando começamos a andar. Notei o olhar de aborrecimento que Isaac lançou para Dakota e me interpus entre eles, querendo evitar uma possível briga. Callum andava atrás de mim e Gael do meu lado, entre mim e Isaac.

—O que está havendo? — perguntei baixinho para Callum. Ele ficara mais tempo com Dakota, devia saber alguma coisa.

—Ele está bravo por vocês não terem entendido a brincadeira.

—Sirena ficou de boa.

—É, mas Isaac não ofendeu ela.

—O que? — me virei para ele, baixando ainda mais o tom de voz — Como assim?

—Eles brigaram ontem a noite. Acho que você não ouviu porque estava na sala.

Olhei de relance para Dakota. Só então notei que seu olho direito estava escuro, como se tivesse levado um soco.

Entramos no chalé sem dizer mais nada. O lugar fedia a urina, suor e sangue. No centro do cômodo quadrado havia uma única mesa, velha e embolorada. No teto pendia uma lanterna a óleo, a chama que devia brilhar em seu interior, extinguida. A um canto havia um alçapão de metal enferrujado. Ou talvez fosse sangue. Eu não queria descobrir.

O montinho de erva passou por um buraco no alçapão e sumiu nas sombras.

—Ótimo — murmurei. Sirena subiu na mesa, sob pretestamentos e pegou o lampião.

—Você acha que consegue acender isso? — ela me perguntou, mas balancei a cabeça negativamente. Eu não sentia nem um indício de que fosse pegar fogo.

—Toma — Dakota jogou um isqueiro para Sirena, que acendeu o lampião. Ela soltou uma exclamação de alegria e abriu o alçapão com o pé. A luz da pequenina chama só deixava visível três degraus abaixo, o resto era um negrume só.

—Fica por perto, a gente não sabe o que tem lá embaixo — murmurou Isaac quando foi minha vez de descer. Callum ia a minha frente e, atrás de mim, vinham Isaac e Gael.

—Está tudo bem? — perguntei diminuindo o passo. Eu e Isaac ficamos para trás do grupo. A luz do lampião iluminava brevemente o rosto dele e fazia seu cabelo parecer mais escuro.

—Está — ele não olhou para mim, continuava como os olhos atentos ao caminho estreito e úmido que passava por baixo da Bourbon Street, sem que ninguém soubesse.

—Isaac, ele é seu melhor amigo! Vocês deviam...

—Cuidado! — ele segurou meu braço, impedindo que eu escorregasse em uma poça. Isaac mantinha a voz baixa, em um sussurro — Dá pra olhar por onde anda?

Cruzei os braços e baixei a cabeça. Ele suspirou atrás de mim.

—Ele é um idiota.

Olhei por cima do ombro e então para a frente. Dakota conversava com Sirena, e Callum estava solitário no meio da trilha. Agarrei a manga de sua camisa e o puxei, até que estivesse do meu lado.

—Porque? — perguntei inocentemente.

Isaac franziu a testa e ele e Callum trocaram um olhar de desgosto, mas nada que indicasse que eles iriam agarrar o pescoço um do outro.

—Ele disse que era tudo culpa sua.

—Que?!

Isaac sorriu de um jeito amargo.

—Disse que, se não fosse por você, nada disso teria acontecido. Você está ferrando as nossas vidas. E então, vai continuar a defender ele?

Soltei abruptamente o braço de Callum, que colocou a mão nas minhas costas. Isaac apertou meu ombro, tranquilizador. Era bom ter os dois ali, do meu lado. Pelo menos nisso eles concordavam.

Fiquei remoendo na minha cabeça o que Isaac disse. Como Dakota pudera dizer aquilo de mim? Sim, era minha culpa, mas não fui eu que larguei ele sozinho naquela maldita boate...

—Gente! — a voz de Sirena me despertou. Ela havia apagado a chama do lampião. Havíamos chegado em um espaço circular aberto, dividido em três caminhos. Uma única lâmpada fluorescente brilhava no centro do teto e, ao longo dos demais corredores, archotes antiquados iluminavam os caminho — E agora?

“Se separem” sussurrou a mini Daya em minha cabeça. Porém havia algo estranho ali. Não parecia meus próprios pensamentos.

—A gente devia se separar.

—Você tem certeza? – murmurou ela. Mas, assim que disse isso, seu olhar desfocou. Franzi a testa quando ela assentiu – Se bem... Que isso não é ruim. Dake, vem comigo?

Dakota, que até então não olhara para mim, assentiu.

—Boa idéia — ele pegou o braço de Sirena, que me lançou um olhar solidário, e seguiu pelo corredor da esquerda.

O espaço ficou silencioso, exceto por Gael que arfava animado. Mas até mesmo ele parecia tenso, parecia precentir algo errado, como se sua excitação não fosse por conta própria.

—Vocês dois vão juntos — falei apontando para Isaac e Callum. A idéia surgiu repentinamente em minha cabeça — Eu vou com Gael.

—O que? Porque? — exclamou Callum, decepcionado.

—Bem — comecei, totalmente convencida de que eu estava certa -, Gael pode me proteger e Isaac faz o mesmo por você.

—Mas...

—Você quer que eu vá sozinha com ele?

—Vamos logo, magricela — bufou Isaac, parando a entrada do corredor central. Ele me olhava com receio, como se não apoiasse a decisão, mas não tivesse nada para fazer a respeito. Notei que os olhos claros dele pareciam estranhamente desfocados toda vez que ele abria a boca para contra argumentar — Você vai ficar bem?

—Vou — sorri com a preocupação dele e voltei-me para Callum — Se comportem.

—Tome cuidado — ele me abraçou rapidamente e então olhou aborrecido para Isaac — Não me chame de magricela.

O outro riu e então os dois desapareceram no corredor. Gael ganiu e esfregou o focinho em minha perna. Ajoelhei-me do seu lado e cocei atrás de sua orelha. O lobo bateu a perna no chão, satisfeito.

—Vamos acabar logo com isso, garoto.

Respirei fundo e entramos no terceiro e último corredor, sem saber o que esperar...

***

*Callum*

O cara era um idiota. Simples. Um perfeito idiota que me dava ânsias.

Talvez fosse porque a Daya ficava caidinha sempre que ele estava por perto, ou porque ele era a imagem que servia de imã para todas as garotas.

Mas essa imagem desapareceu assim que nos distanciamos de Dayannya. Ele pareceu murchar sob a luz fraca dos archotes, a testa constantemente franzida obscurecendo os olhos azuis. Se eu não estive com raiva dele, teria sentido pena.

—Ah... Cara? Você tá legal?

Isaac me olhou de lado, as mãos nos bolsos da jaqueta. Me encolhi quando o seu olhar de desprezo me atingiu como uma pedrada.

—O que isso te importa?

Arqueei as sobrancelhas, impressionado por seu tom de voz amargo. Normalmente ele estava sempre sorrindo e fazendo piadinhas, mesmo que a dor em seus olhos fosse visível. Agora, esse sentimento parecia exalar dele como ondas de calor, me afetando.

—Puxa, só estava tentando ser legal. Tipo, a Daya mandou eu fazer isso.

Um sorriso de escárnio estava estampado no rosto dele, com um pouco de repulsa.

—Você tem sorte.

—Porque?

—A Daya – o sorriso dele sumiu. Ele chutou uma pedra que voou alguns metros no corredor – Ela é uma garota incrível.

—É – suspirei com pesar. Dayannya era minha melhor amiga, mas sempre fui apaixonado por ela. E, quando ela me aceitou em namoro, eu fiquei simplesmente radiante, até perceber que aquilo não parecia certo. Era como se eu prendesse uma ave em uma gaiola. Por mais que ela parecesse estar bem, eu sabia que estava destruída por dentro – Eu acho... Eu acho que não dá mais, entende?

Isaac olhou diretamente para mim e encolhi novamente. Ele era quase uma cabeça mais alto do que. E muito, muito mais intimidante.

—Porque?

—Acho eu vou terminar com ela.

Ele ergueu uma sobrancelha parecendo realmente surpreso. Então riu baixo, em deboche.

—Você está falando sério?

—Estou – franzi a testa, olhando para o chão – É que ela não parece... Bem. Parece que toda vez que você...

“Mate-o”.

Parei de andar imediatamente. Isaac fez o mesmo, alguns metros à frente, mas não olhou para trás.

“Mate-o enquanto há tempo. Ele quer a menina, você não percebe? “ a voz era fria, cortante. Ela falava com tanta convicção que me senti tentado a puxar um dos archotes na parede “Ele vai aproveitar a chance, vai toma-la para si! Mate-o. Mate-o! ”.

Isaac cerrou os punhos, ainda olhando para a frente. Minha mão voou para a faca que eu levava no cós da calça, mas ele foi mais rápido. Virou-se e agarrou minha mão, me prendendo contra a parede. A faca voou da minha mão para longe. Minha visão estava turva, vermelha de raiva enquanto ele me encarava com incredulidade.

—Qual é o seu problema? – rosnou apertando mais os meus pulsos, respirando com força – É Elijah, seu imbecil, não escute ele!

Aos poucos, minha respiração normalizou, mas ele ainda parecia agitado. Quando me soltou, desferiu um soco em meu nariz, porém fraco o bastante para que ficasse dolorido, apenas.

—Ai, que droga! – berrei segurando o rosto, quando as lágrimas vieram – Porque você fez isso?

—Pra ver se você acorda, seu trouxa – ele apontou um dedo para mim – Se tentar me matar de novo, eu quebro a sua cara.

Xinguei ele de um monte coisas e voltamos a andar. Minha cabeça doía e meu nariz latejava, como se um martelo houvesse caído em cima dele.

—Você é um idiota – murmurei, ainda apertando a ponte do nariz para evitar um possível sangramento – Não acredito que estava pensando em ser seu amigo.

—Ah, tá, como se eu fosse concordar.

—Há há, não prexisa maix xe preocupar com ixo...

—Cala a boca...

—Não! Excuta aqui, eu tenho o direito...

—Você tem o direito de calar essa boca – ele ergueu a mão, olhando impaciente para trás – Eu estou falando sério.

Funguei e segui-o até que o corredor se bifurcou. Palavras estranhas, em uma língua antiga, vinham da esquerda. Enquanto eu não fazia ideia do que era dito, Isaac parecia entender cada palavra. Ele arregalou os olhos e prendeu a respiração.

—O que foi? – sussurrei me aproximando – O que extá acontexendo?

—Dayannya – ele murmurou dando um passo para trás – Temos que encontrar a Daya, rápido...!

Não ouvi o resto.

Senti uma pancada forte atrás da minha cabeça e algo chicoteou em minhas costas.

O corredor ficou escuro enquanto eu caia no chão.