Não gostei dela de cara.

Primeiro, ela era bem mais alta que eu.

Segundo, ela era bonita, com olhos verdes e cabelo loiro comprido. As unhas excessivamente grandes me lembravam de Annie Genkies, a garota popular da minha escola.

E eu a odiava.

–O ratinho finalmente saiu da toca – a garota sorriu, revelando dentes brancos demais.

Senti Sierra segurar meu braço, mas eu ainda encarava a outra. Ela era estranha. Sem dúvida não era uma mortal comum.

–Daya, isso não é bom – Sierra me puxou e plantei os pés no chão.

–O que você quer? – resmunguei trincando os dentes.

–Você sabe o que eu quero – ela parou de sorrir e estalou os dedos. As duas meninas atrás da mesa vieram em nossa direção espalhando cheiro de shampoo de cavalo, o som metálico retumbando nos meus ouvidos sempre que elas davam um passo. Foi a primeira vez que prestei atenção nelas de verdade. As duas morenas e altas, muito pálidas. Elas usavam um uniforme de colégio com saia rodada azul escura e meia-calça bege, assim como a loira – E acho que não deveria recusar.

O sangue subiu para o meu rosto e me afastei um passo. Captei num vislumbre o brilho de bronze, vindo de um rasgo na meia-calça de uma das meninas. As pessoas caminhavam calmamente por ali, como se nada estivesse acontecendo.

–Mesmo que eu não recusasse, você jamais conseguiria tirar isso de mim.

Ela sorriu asquerosa, seu rosto ficando cada vez mais pálido.

–Elijah conseguiria.

Foi como se alguma coisa que eu tivesse engolido voltasse e então ficasse presa na minha garganta, me desesperando e me dando a ideia de que eu poderia sufocar e morrer. Elijah estava vivo e continuava atrás do fogo.

–Ele não pode estar vivo – disse Sirena. Ela tinha pegado uma faca e agora a estendia em frente ao corpo – Gael o matou.

–Gael o incapacitou – a garota enrolou o cabelo loiro no dedo e sorriu brincalhona, enquanto as outras duas pareciam se preparar para uma luta – E agora, Elijah está dando uma bela recompensa por você. – ela definitivamente estava muito branca, e seus olhos pareciam estar mais vermelhos.

–Não acredito que ao invés de fazer o trabalho ele próprio, ele mandou um bando de vadias estúpidas que fazem tudo por dinheiro – cuspi – Seria mais fácil se virassem prostitutas.

A loira rosnou. Ela estava tão branca quanto papel e seus olhos, antes verdes, brilhavam vermelhos feito sangue. As unhas se alongaram ainda mais e ficaram afiadas, se tornando garras ameaçadoras. Através da meia-calça pude ver as pernas irregulares, uma de bronze e outra de burro.

A primeira garota avançou, me derrubando. Chutei-a na barriga e a empurrei para trás de mim, me levantando rapidamente. As pessoas começaram a gritar e a chamar os seguranças, que não encontravam nenhum jeito de interferir.

Procurei desesperadamente minha adaga, porém a loira já se levantava, se preparando para atacar novamente. Ela estendeu as garras e me desviei, me desequilibrando e caindo sentada. A garota partiu para cima e chutei a cabeça dela. Ergui-me de novo e me esquivei de uma das outras empousai, que até então estivera lutando com Sirena.

Finalmente encontrei a adaga e cortei o braço do demônio, que berrou com fúria enquanto voltava para Sirena. Virei-me e não tive tempo de usar a adaga, porque ela voou de minha mão. Senti um impacto fortíssimo em meu peito e abdome. Meu corpo dolorido foi jogado para longe e minhas costas atingiram um pilar duro.

Pontos negros e vermelhos dançaram em frente aos meus olhos, minha cabeça parecia prestes a explodir. Algo quente molhou a frente da minha camiseta e senti o odor ocre de sangue.

Mãos seguraram meus ombros e me pressionaram contra o pilar. Pude ver pelos pontos a empousai loira. Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, mas algo a atingiu na lateral e ela foi jogada para longe. Pisquei várias vezes até minha visão ficar o mais normal possível.

As outras garotas haviam parado de lutar, as empousai segurando minhas amigas pelo pescoço. Inclinei a cabeça para onde a loira foi jogada, e a vi se levantando tentando se manter o mais afastada que pudesse de um enorme lobo negro.

Só consegui pensar: “Ah não”.

–Eu disse que você era um imã para problemas – disse Isaac enfurecido enquanto se aproximava, mas ele não olhava para mim. Examinava a loira.

Esta já estava de pé e sorriu charmosa para Isaac.

–Ela não é a única. Você sempre foi o problema em pessoa.

Então eu realmente fiquei com raiva. Com raiva do jeito que ela falava com ele.

–Isaac – cerrei os punhos assim que ele arqueou as sobrancelhas para mim, o olhar arrogante – Não me diga que já teve caso com isso.

–Eu tenho um sério problema – ele murmurou. O olhar dele dizia que íamos conversar mais tarde, e que eu não ia gostar nada.

–Não diga – eu não ligava mais para meu corpo dolorido e para as possíveis lesões. Já que ele ia me dar uma bronca eu também lhe daria uma – Que outro tipo de monstro falta para você?

Ele deu de ombros, pensativo.

–Uma stripper russa.

–Ei – a loira chamou e apontou para ela mesma – Ainda estou aqui.

–Pode dar licença? Estamos ocupados – quase gritei ao pronunciar essas palavras – porque o Senhor Polígamo...

–Polígamo? – ele pareceu indignado – Escuta aqui, eu nunca fiquei com mais de uma...

–Chega! – gritou alguém. Fiquei espantada ao perceber que Dakota estava ali, e que ele já havia matado as outras duas empousai – Querem discutir, discutam no Reformatório.

Isaac me encarou por um segundo e se virou para a empousa que sobrara.

–Olha Gwen, por mais que eu não goste nem um pouco de você, não estou a fim de lutar hoje.

–Não precisa – Gwen colocou as mãos na cintura e sorriu. Ela estava normal de novo – Você sabe que ainda sente o mesmo por mim.

–E você sabe que eu nunca senti aquilo – Isaac abriu o zíper da blusa e pegou a faca de caça que ele levava para todo lugar. Gwen engoliu em seco – Por favor, você nunca conseguiria conquistar alguém se não tivesse poder para isso.

Ela ficou sem palavras. Olhou a sua volta em busca das comparsas, mas elas não estavam mais ali. Gwen me lançou um último olhar maldoso.

–Essa não foi a última vez, filha de Apolo – então ela se virou e sumiu.

Lembrei-me do sangue na minha camisa e dobrei as pernas junto ao corpo para tentar esconder. Gael se levantou e correu em minha direção, parando para lamber meu rosto. Empurrei o peito dele com a mão tentando conter um sorriso.

Olhei para Isaac e ele simplesmente devolveu o olhar, porém com desgosto. Senti um bolo na garganta quando ele deu as costas e foi embora, desaparecendo entre a multidão.

Fiquei olhando atônita para as pessoas correndo de um lado para o outro, com seus celulares nas mãos ou puxando seus filhos para longe dali. Respirei fundo enquanto Gael mantinha os olhos preocupados em mim, até que uma mão apareceu na minha frente. Ergui a cabeça e vi Dakota se oferecendo para me ajudar.

Peguei a mão dele e me ergui, cruzando os braços em frente ao corpo para esconder o sangue e o corte profundo abaixo do meu peito.

Sierra e Sirena me abraçaram, perguntando se estava tudo bem, mas eu não respondi.

O olhar duro de reprovação e ódio que vi em Isaac parecia permanentemente marcado em minhas lembranças.