Filha de Apolo - Lights
16 Possuída
Parecia que eu tinha levado um tiro entre os olhos.
Se alguém me batesse na cabeça com um frigobar doeria menos. E eu... Havia comido grama?–Ela acordou – eu conhecia ligeiramente aquela voz. Eu estava deitada em uma cama dura e desconfortável com cobertores grossos em cima de mim. Havia peso no colchão perto dos meus pés.–Que gosto é esse? – perguntei com a voz áspera e fraca. Ergui-me sobre os cotovelos e abri os olhos, ficando com tontura – Parece que eu tomei suco de minhoca.Isaac sorriu. Ele estava sentado na beirada da cama pequena e de aparência frágil. Elias, que falara primeiro, se inclinava na cadeira ao lado da porta. Estávamos em um quarto pequeno, com apenas a cama, uma cômoda e uma mesinha de três pernas. As paredes tinham a tinta azul celeste descascada e manchas de sujeira no rodapé.–Ela voltou – Isaac me estendeu uma lata de Coca-Cola e meus músculos relaxarem só de pensar em me livrar daquele gosto horroroso.–É um remédio que meu pai ensinou a fazer – explicou Eli enquanto eu colocava um canudinho dobrado na lata – Acho que você não vai querer saber o que vai nele.–Não quero mesmo – tomei um longo gole de refrigerante e chutei os cobertores para longe – O que aconteceu?–Elijah possuiu você – disse Isaac com cuidado – Ele está fraco demais, por isso que o máximo que conseguiu foi te deixar incapacitada. Caso contrário, poderia ter te controlado para ir até o covil dele.O refrigerante não parecia mais tão bom. Fiquei olhando para os meus dedos em volta da lata vermelha, sem saber o que dizer. –Daya? — Isaac segurou meu pulso. Os olhos azuis dele encaravam os meus, como se tentasse saber o que eu estava pensando — Aquele negócio que Eli te deu, e devo dizer que era bem nojento...–E você nem sentiu o gosto...–...Retardou Elijah. Se ele tentar alguma coisa de novo, nós já teremos muita informação sobre ele — Isaac olhou pra Eli de soslaio — E o garoto aqui já ajudou muito.Eli ficou com as bochechas vermelhas sem saber se olhava pra mim ou para Isaac.–Eu só falei o que sabia.–Mas ajudou.–Espera — pedi. Minha cabeça estava latejando e fiquei com medo de que do nada Elijah começasse a falar em minha mente de novo — O que, exatamente, você sabe?–Eu ouvi a conversa de vocês sobre o Vince — o rosto dele ficou ainda mais vermelho depois dessa afirmação — Ele foi falar comigo há alguns dias. Disse que era uma causa importante e pediu que eu me aliasse a ele. Eu disse não.–Você sabe de mais alguém com quem ele falou? — perguntei temendo a resposta.–Alguns lobisomens por aí. Principalmente os do bando de Licáon.Aquilo foi um soco no estômago. Coloquei o refrigerante em cima da mesinha de três pernas e segurei a barriga. Sentia que ia vomitar.–Se acalma — disse Isaac. A mão dele estava apoiada em meu joelho e resisti ao impulso de pega-la.–Como? — minha voz estava embargada, mas eu não sabia se era de medo ou porque eu começaria a chorar. Minhas pernas tremiam excessivamente — Ele está criando um exército!Isaac mordeu o lábio e olhou para Eli, indicando a porta com a cabeça. O sátiro hesitou um pouco antes de levantar e sair, fechando a porta atrás dele.–Ele quer guerra — murmurei quando ficamos sozinhos — Não quer?Isaac assentiu com relutância.–Se eu me entregasse... — comecei, uma idéia totalmente estúpida em minha cabeça.–Ei, aquele panaca ainda está aí? — Isaac apertou meu joelho, assumindo uma expressão de pavor — Você não vai se entregar. E além do mais, só pioraria tudo.Engoli em seco. Estendi a mão e segurei a dele. Ele não me afastou.–Estamos juntos nisso, lembra? — ele apertou minha mão. Senti as cicatrizes finas e sutis, como teias de aranha se enroscando pela palma áspera da mão dele — Não precisamos chegar ao ponto de uma guerra.Eu funguei, o que não foi muito discreto.–Você podia ser motivador sempre — murmurei recolhendo minha mão — Eu gosto disso.Ele sorriu de lado, com aquela cara de quem vai aprontar.–Falando em “gostar”... — Isaac estendeu o braço e pegou a lata de Coca-Cola.Revirei os olhos.–E vem.–Eli queria acordar você com um boca a boca.A menção de um boca a boca com o sátiro me fez querer o refrigerante de volta.–Ah, que... Nojo! — os pelos da minha nuca se eriçaram quando um tremor percorreu minha espinha.Isaac riu e tomou o refrigerante.–Você devia dar uma chance pro garoto.–Hmm... — o remédio de suco de minhoca ficou mais amargo em minha boca — Você não deixou, né?!–É claro que não! — ele percebeu que deu a resposta um pouco rápido demais. Seu rosto ficou tão vermelho quanto o de Eli.–Se tivesse deixado, eu ia matar você — resmunguei tentando ignorar o fato de que meu pescoço estava esquentando. Minhas orelhas pareciam estar pegando fogo.Ele sorriu, sua cor voltando ao normal, e se levantou jogando a lata vermelha e vazia em um cesto de lixo ao lado da cômoda.–Eu estava pensando naquele nosso acordo.Franzi a testa, começando a ficar emburrada. Tinha quase certeza de que ele Ia tocar naquele assunto mais tarde.–Eu sabia que você ia mudar de ideia.
–Eu não estou mudando de ideia — Isaac pareceu ofendido e senti culpa por isso — Eu só... Tipo, sua mãe também não tem medo de cachorro, né?–Ah — murmurei quando captei a proposta dele — Não, ela... Ela gostou de Gael.Percebi o que ele queria na hora. Eu só achava que, assim como Sarah, minha mãe não iria gostar de pelo no sofá dela. Até que a ideia não era ruim. Deixar Gael para tomar conta de mim poderia dar certo. Mas eu não achava que o sindico do prédio ia gostar muito.–Se ele passar a semana com você... — Isaac mordeu o lábio — não vai correr tanto perigo. E se Elijah tentar te possuir de novo, Gael pode ir até o Reformatório e eu vou saber o que aconteceu.Assenti devagar.–Obrigada. Por abrir mão do seu amiguinho.Ele me ajudou a levantar da cama e saímos do quarto. Darius, Sirena e Eli — que agora me assustava um pouco — estavam jogando carteado no balcão do bar. Darius havia aberto as persianas e lá fora havia o movimento de carros e pessoas. O céu estava pintado de rosa e laranja, parecia ser umas cinco ou seis horas da tarde.–Por quanto tempo eu dormi?–Umas dez horas, mais ou menos — disse Sirena como se não importasse.–Mas...–Gael já deve estar chegando — Isaac espiou as cartas de Darius e sorriu — E o ônibus para Manhattan para aqui em uns quinze minutos, mais ou menos. Daí você pode ir para casa.–Bati — exclamou Darius baixando as cartas. Sirena e Eli bufaram indignados.–Como Gael já pode estar chegando? — perguntei observando as pessoas que passavam na frente do bar. Elas nem pareciam nota-lo — Tipo, eu acho que ele não consegue atender um telefone. Ou consegue?–Ele é esperto, só isso. E além do mais, consegue viajar nas sombras.–Pensei que só cães infernais fizessem isso.–Pensou errado — disse Darius embaralhando as cartas — Elijah treinou Gael muito bem, tanto que...Darius se interrompeu quando percebeu que o encaravamos com incredulidade. Levei um susto quando ouvi pessoas gritando do lado de fora do bar, algumas dizendo “O que é isso?!” ou “Eu deveria chamar a carrocinha, seu vira-lata!”. Um vulto negro passou pela janela da direita e então um latido alto veio de frente a porta, sacudindo as dobradiças.Isaac se adiantou e abriu a porta. Antes que eu pudesse me proteger, uma massa negra e peluda ficou de pé nas patas traseiras e lambeu meu rosto.–Eu também estou feliz em te ver, garoto — falei cruzando os braços em frente ao rosto e impedindo outra lambida — Sai de cima de mim! Gael sentou e colocou a língua grande e rosa para fora da boca, a cauda peluda e grossa balançando de um lado para o outro no chão e aos poucos foi ficando cinza com a poeira que se acumulava no pelo lustroso.–Gael compensou o boca a boca — sussurrou Isaac no meu ouvido. Dei um soco na barriga dele.–Ele é bem... — Eli engoliu em seco, os olhos arregalados e as pupilas novamente em fendas — grande.Gael enclinou a cabeça alguns centímetros, como se agradecesse. Foi só então que notei duas mochilas largadas aos meus pés. Uma delas na verdade era uma bolsa longa e estreita de couro preto.Me agachei e peguei a a bolsa, abrindo uma frestra do zíper dourado. Lá dentro havia o brilho de madeira lisa e escura.–Porque o arco?–Você não pode se proteger só com uma faca — Isaac pegou a outra mochila, azul escuro e amarelo, e saiu do bar seguido por Gael. Sirena se aproximou e me deu um abraço de urso, dizendo que nos veríamos em uma semana — estávamos em um sábado e, graças aos deuses, não perdi aula já que as duas semanas que faltei quase me fizeram ser expulsa. Apertei a mão de Eli — com um pouco de medo — e a de Darius, que me disse o típico “volte sempre, querida”.Sai para a rua, o frio me atingindo como se jogassem pedras de gelo em mim. Felizmente, eu ainda estava com a jaqueta de Isaac, então só senti frio no rosto e através do tecido fino do meu jeans. Isaac estava ajoelhado de frente para Gael, dizendo alguma coisa, mas se levantou assim que me viu. Não fiz perguntas.–O seu ônibus vai chegar em alguns minutos — disse balançando a mochila azul de um jeito discreto.–Será que tem algum problema entrar em um transporte público com uma arma de longo alcance e um lobo semi-domesticado?Um meio sorriso surgiu nos lábios de Isaac e o abracei, fechando os olhos por alguns segundos.–Você vai sobreviver sem mim? — ele perguntou com um tom de divertimento.–Sem o seu sarcasmo? Espero que Gael não tenha aprendido a fazer piadinhas.Ele riu de leve e se afastou, segurando meus braços. Ele me olhou de cima a baixo, as sobrancelhas franzidas.–Estou preocupado — murmurou olhando nos meus olhos. Pude ver meu reflexo na imensidão azul e cristalina que eram os olhos dele.–Vai ficar tudo bem — fiz um esforço para sorrir — Prometo que vou voltar para o reformatório totalmente sã... E inteira.Ele tocou meu rosto com delicadeza e quando ia dizer alguma coisa um ônibus grande e cinza dobrou a esquina. Isaac me entregou a mochila e a segurei com as duas mãos, já que minhas costas estavam ocupadas pelo arco. Quando o ônibus parou em frente ao ponto, fiquei na ponta dos pés e beijei Isaac na bochecha.–Vai ficar tudo bem — repeti, dessa vez como uma promessa.Ele assentiu, sério, e me estendeu uma nota de cinco dólares.–Vou dizer a Eli que mandou lembranças.Fiz uma careta e subi no ônibus, entregrando a nota para a motorista que nem sequer reparou em Gael ou na bolsa com uma forma suspeitamente igual a um arco. Fui até o fim do ônibus e me sentei junto a janela, do lado direito do transporte. Gael sentou-se ao meu lado.Fechei os olhos e dormi durante a viagem, o coração acelerado, pensando em como cumpriria minha promessa dessa vez.
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