Filha de Apolo - Lights
28 Mortalha Vazia
Apertei o anel na minha palma, encarando o pequeno altar.
Parecia que foi há anos quando me arrastaram de Nova Orleans e fecharam o Ponto, para que ninguém soubesse antecipadamente sobre o corpo. Me sentei ao lado de Sirena no trem e choramos a viagem toda, ela me contando sobre quando Isaac chegou ao Reformatório. Eu mal me recordava de quando os oficiais romanos me seguraram pelos braços, me arrastando para longe do filho de Netuno. Não consegui entender como eles chegaram tão rápido. Talvez Ártemis tivesse chamado eles.
O funeral seria no dia seguinte. Não houve cerimônia ao velarem corpo. Nem ao menos me deixaram ver ele. Eu queria poder ter me despedido direito.
Solucei enquanto colocava o anel de prata no altar, ao lado de uma cesta com frutas novas. O templo de Netuno tinha uma aura salgada, que aumentou assim que depositei o anel ali, como uma oferenda.
Cruzei os braços e fechei os olhos, tentando não chorar de novo. Eu não conseguiria suportar. Nem sabia se conseguiria comparecer à queima da mortalha. Quando abri os olhos, uma mão pousou em meu ombro.
–Você está bem?
Assenti, não querendo olhar para Ártemis. Eu estava ressentida por ter gritado com a deusa.
–Porque nunca me contou sobre o fogo? — perguntei querendo mudar de assunto. Minha voz estava estranhamente rouca.
–Eu não tive coragem — a deusa confessou, parada ao meu lado. Ela estava na forma de uma moça, com cabelos negros. Seus olhos claros estavam pesarosos, mas ela mesmo assim mantinha o queixo erguido. Eu queria, um dia, ser como ela — Pensei que causaria um desastre se te contasse. Bem, um desastre maior ainda.
–Então eu sou um desastre?
–Não, querida — Ártemis me abraçou e fechei os olhos — Não tínhamos como evitar.
–Se eu tivesse morrido naquele dia, nada disso estaria acontecendo — esperei, mas a deusa não se pronunciou — Héstia disse...
–O destino que te acolheu foi pior que a morte — Ártemis completou, alisando meu cabelo — Eu sei.
Funguei, olhando para os meus pés.
–Ele levou dezesseis anos pra se mostrar.
–Você era instável — Ártemis murmurou — Era por isso que eu queria que você entrasse para a caçada.
Me afastei, franzindo a testa.
–Como assim?
–O fogo é desencadeado por sentimentos intensos, Daya; Raiva, medo, ódio. E quando o conheceu, você também descobriu o amor romântico — o lábio inferior da deusa estremeceu — Eu queria te privar disso. Era o único sentimento que faltava, e quando aconteceu... O fogo estava pronto.
Desviei o olhar para as pessoas se movendo mais abaixo, frenéticas. Eu não sabia o que dizer, então simplesmente fiquei quieta, com remorso. Mais ao longe, vi seis formas se aproximando. Eu conhecia todas elas.
–Vou deixar você com seus amigos — disse Ártemis se afastando. Antes que ela fosse embora, eu a abracei com força. Então me afastei sem dizer nada. Ártemis sorriu e se foi, o arco balançando em suas costas.
Um minuto depois, Sierra estava praticamente se pendurando em meu pescoço. Ela não falou, não disse que sentia muito. Nos conhecíamos a tempo o bastante para nos comunicarmos apenas por gestos.
Dei um sorriso tímido para Callum. A expressão de Elias era desolada, e a de Chistopher sombria. Me lembrei de que ele também gostava de Isaac. E muito.
Dakota parou com as mãos nos bolsos. Ele tinha olheiras fundas sobre os olhos e mal parece notar quando passou um braço pelos ombros de Sierra. Eu já sabia de tudo, eles sabiam que eu sabia, mas ainda assim me senti um pouco constrangida ao ver minha melhor amiga com ele.
–A gente pode dar uma volta? — perguntou Sirena, sua voz áspera. Os olhos dela, já pequenos, estavam inchados e vermelhos. Assenti e começamos a andar.
Diminui um pouco o passo até estar andando ao lado de Christopher. Ele franziu a testa, confuso, mas não falou nada.
–Tudo bem?
Ele encolheu os ombros, parecendo constrangido. O cabelo castanho avermelhado estava bagunçado, e os óculos tortos. Ele parecia não ter dormido durante a noite.
–Porque Sirena quis caminhar?
–Acho que ela está com remorso — Christopher me olhou pela primeira vez. Pude ver a antipatia em seus olhos — Quando Isaac saia de manhã, ela nunca queria ir junto.
Cruzei os braços, querendo me esquentar. Fazia frio ali, o vento soprava meu cabelo e minhas roupas.
–Isaac sabia? Que você...
–Não — os lábios de Christopher tremeram — Mas eu nunca tive real esperança. E quando você chegou, eu soube que estava tudo perdido.
Ri um pouco, mesmo que me sentisse totalmente acabada. Aquela era a primeira conversa que tínhamos, pelo menos a mais longa.
–Ei, eu sei que o que vou falar agora pode parecer meio... Sabe... Egoísta — ergui os olhos, investigando o rosto de Chistopher — Mas eu tenho um amigo com... Certas preferências.
–Se você queria me tirar da concorrência, devia ter feito isso antes, não acha?
–Não estou querendo te tirar da concorrência. Mas o Teo é meio sozinho. E eu achei que vocês dariam certo. Sei lá, acho que é uma coisa idiota mesmo.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
–Quantos anos?
Sorri quanto Chris fez a pergunta.
–Vinte. E ele é bonito. Se você quiser, eu te passo o número.
–Isso é tão doentio — o rosto dele corou.
–Não é doentio. É uma nova chance.
Chris arqueou uma sobrancelha, porém consegui captar um pequeno sorriso. Chegamos ao topo de uma pequena colina e meu coração parou. Estávamos no jardim onde beijei Isaac pela primeira vez. Gael descansava sob um banco e, quando me viu, veio correndo ao meu encontro. Abracei seu pescoço, sentindo o cheiro de terra no seu pelo.
–Daya, a gente pode conversar? — Callum estava agachado ao meu lado. Os outros haviam se reunido a um canto afastado.
Fiz que sim com a cabeça e me levantei, arrumando a camiseta. Gael se postou do meu lado. Ele ainda olhava Callum com desprezo.
–O que foi?
Callum respirou fundo.
–Daya, eu sei que isto está sendo difícil — ele começou devagar, evitando me olhar nos olhos — Mas eu acho que a gente...
–Eu quero terminar.
Falei aquilo com tanta facilidade, que nem pareceu sair da minha boca. Callum piscou.
–Sério? Que bom — o rosto dele enrubesceu — Não, tipo, não é bom. Mas é que eu ia dizer a mesma coisa. Só estou aliviado que você tenha dito antes.
Ri baixo. Não tinha percebido que torcia uma folha de rosa entre meus dedos. Eu já queria terminar com ele há um tempo. Como ele já havia dito, não parecia certo.
Callum percebeu que eu estava distraída e passou um braço pelas minhas costas. Não era um gesto romântico. Ele só queria me confortar.
Sierra vinha em nossa direção. Ela parou do meu lado e repetiu o gesto de Callum. Eu estava sendo amparada pelos dois.
–Dake está arrependido pelo que ele disse.
–Só acredito se ele disser.
–Ele acabou de perder o melhor amigo...
–Sierra, eu também perdi ele — senti as lágrimas insistindo para sair.
–Eu sei — ela beijou minha têmpora e me abraçou. Nesse ponto, eu já estava chorando de novo, mas de um jeito que eu conseguia controlar.
Ficamos assim por alguns minutos, abraçados. Ao menos, eu ainda tinha eles dois.
***
Mudei de posição, desconfortável, sem prestar atenção nas palavras da pretora.
Eu consegui entender algumas coisas sobre bravura, honra e arrependimento, mas eu não ligava. Estávamos na praça de Nova Roma. Haviam armado um pequeno pódio onde se encontrava uma fogueira circular, ainda apagada. No centro da fogueira estava o corpo de Isaac, enrolado em uma mortalha roxa com.um grande tridente dourado. Eu olhava para ela com repulsa. Não queria pensar que ele estivesse morto.
Todo o acampamento romano estava reunido, todos pesarosos. Uma menininha ruiva chorava silenciosamente, o rosto escondido na perna da mãe, que era uma das pessoas com a expressão mais triste ali.
Mesmo sendo expulso do lugar, percebi que muitas pessoas ali haviam gostado dele. Todos sentiam pena, mas só alguns mostravam real perda. Me lembrei que, mais cedo naquele dia, um garotinho me perguntou se conheci Isaac Belcourt. Quando eu disse que sim, o menino arregalou os olhos e disse, lentamente: “Sinto muito. Eu queria poder ter conhecido ele. Ele era meu herói. Mamãe diz que não, mas para mim ele era”. Isso só me fez chorar mais.
Eu me encontrava do lado mais distante da mortalha, ao lado de Callum. Ele percebeu meu desconforto e apertou meu pulso, perguntando baixinho se eu queria sair dali. Fiz que não com a cabeça e continuei encarando a pretora, ainda discursando. Olhei em volta e não vi Peggy em lugar algum.
Quando finalmente percebi que não aguentaria mais, o pior som do mundo veio atrás de mim. Um estalar das juntas dos dedos. Aquele som sempre me irritava e meu rosto ficouquente quando a pessoa mais atrás persistiu, parecendo esticar cada dedo como uma tortura. Cerrei os punhos e olhei por cima do ombro.
Meu coração disparou. Ele sorria, como se nada tivesse acontecido, como se tudo fosse apenas um mal entendido. Engasguei com as palavras, olhando bem fundo nos olhos azuis de Isaac, os olhos que eu pensei que nunca mais iria ver. Ele estava ali, e não no pódio, estirado sobre a fogueira pronta para ser acesa, mas sim encostado casualmente a uma parede. Ele estava vivo.
Livrei minha mão de Callum e corri até Isaac, pulando em seu pescoço. Ele beijou o alto da minha cabela, rindo. Algumas pessoas devem ter notado o rido, em meio a um funeral, e se viraram. Ouvi gritos, exclamações e risadas. Fiquei na ponta dos pés e beijei seu rosto algumas vezes, sem me importar com quem estava vendo.
–Você é um idiota — Gritei com a voz embargada. Ele sorriu abertamente.
–Eu estou realmente comovido com tudo isso.
Beijei-o na bochecha mais uma vez.
–Como você...
–Depois eu te explico. Preciso que você me encontre no Ponto.
–Mas...
Ouvi um grito atrás de mim e Sirena tomou meu lugar, quase puxando Isaac até o chão. Aos poucos as pessoas começaram a se amontoar em volta dele, rindo, perguntando o que acontecera. Dois três guardas foram xecar a mortalha, confusos. Quanto mais pessoas se juntavam, mais eu me afastava.
Mas eu sentia que, mesmo assim, nunca mais iriam nos separar de verdade.
Ele estava de volta.
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