Fechei a porta e apoiei-me nela, respirando fundo o cheiro do produto de limpeza que minha mãe usava.

Olhei a minha volta e sempre que fazia isso ficava ligeiramente espantada por ver o apartamento limpo, muito diferente de quando eu voltei do Olimpo.

Agora, todas as coisas estavam em seu devido lugar, desde os violões na parede da sala até os poucos quadros de quando eu era criança.

O apartamento estava em silêncio, exceto pelo relógio da cozinha que ficava constantemente naquele tic-tac hipnotizante.

Larguei minha mochila ao lado da entrada e fui ver os recados na caixa-postal. Havia apenas um, da minha mãe. Ela dissera que só chegaria a noite porque o ensaio da banda demoraria.

A banda não era da minha mãe, era dos amigos dela, mas quando nos mudamos para Nova Iorque e eles descobriram isso resolveram chamar minha mãe para atuar como empresária, ou alguma coisa assim. Minha mãe sempre gostou de música, então aceitou o convite. As vezes eu até tocava alguma música melosa com o Teo, o vocalista, só por diversão. A banda vivia se apresentando em lanchonetes grandes ou em boates, era isso que sustentava a mim e minha mãe.

suspirei e tentei livrar minha cabeça desses pensamentos, já que eu tinha outras coisas com as quais me precupar.

Andei até a cozinha e abri a geladeira procurando pela caixa de suco que eu havia aberto mais cedo. Pus a caixa no balcão e alguém bateu desajeitadamente na porta.

Havia a possibilidade de ser Jordan, mas ele tinha a chave de casa. Ou ele poderia tê-la perdido. Deixei meu suco de lado e destranquei a porta do apartamento, ainda desconfiada.

Mal coloquei a mão sobre a maçaneta e a porta se abriu com força.

O impacto da porta contra meu corpo foi tanto que me jogou pela sala.

Bati as costas om força no sofá e me inclinei sem fôlego, a visão embaçada.

Ouvi um rosnado baixo e raivoso a minha frente. Pisquei várias vezes e tentei me afastar quando vi o que estava a apenas alguns metros de mim.

Um lobo grande com pelagem cinzenta andava devagar de lado para o outro, repuxando os lábios negros e arreganhando os dentes afiados feito navalhas. A saliva pingava amarelada da boca e o rosnado ficou ainda mais intenso quando tentei me mover.

O lobo se preparou para saltar, os músculos tensos. Peguei a coisa mais próxima de um escudo: o tampo removível da mesa de centro.

Coloquei o tampo na minha frente na hora exata em que ele saltou. As unhas escorregaram na madeira fazendo aquele som agudo e horrível. Os dentes tentavam abocanhar minha cabeça por cima do meu escudo improvisado, mas na posição em que eu estava o tampo bloqueava quase todo o espaço de cima sobrando apenas um vão entre ele e o sofá.

Empurrei o tampo e gemi com o esforço quando finalmente consegui afastar o lobo de mim, chutando-o de encontro à porta do meu quarto. Levantei-me e tentei sair do apartamento, mas o animal se recuperou mais rápido do que eu esperava e saltou de novo, dessa vez me derrubando e fazendo o tampo escorregar para longe.

Berrei de dor quando as unhas dele rasgaram minha perna direita. O lobo abriu a boca bem em cima do meu rosto, o bafo quente e úmido, se preparando para morder quando ele foi jogado de lado.

Uma massa negra e peluda, mais ou menos do seu tamanho, se avultava sobre ele comprimindo-o no chão.

Com um susto, percebi que a coisa negra era outro lobo, e eu conhecia aqueles olhos dourados e o ar de inteligência superior.

Gael grudou as presas no pescoço do lobo enquanto este gania e se contorcia sob o peso do outro, que o atacava com fúria.

Eu estava assustada demais para prestar atenção nos passos no corredor atrás de mim, até que ouvi um assobio e Gael se afastou do lobo que jazia vivo no chão, porém com o corpo flácido e cheio de cortes profundos. Isso não durou muito, já que uma faca se cravou em seu peito, fazendo o animal dar seu último e breve suspiro. Então seu corpo começou a se desmanchar e a virar pó.

Senti um nó em minha garganta quando olhei para cima, e não sabia se chorava de felicidade, medo ou dor.

Isaac estava de pé ao meu lado, guardando uma segunda faca no cinto enquanto me observava de sobrancelhas arqueadas. Os olhos azuis dele mostravam indiferença como se fizesse aquilo todos os dias, ou como se nada tivesse acontecido no último mês.

–Eu já estou cansado de ter que salvar sua vida. – murmurou com um tom de insistência na voz.

Eu realmente não tinha a menor ideia do que fazer. É claro que fiquei feliz em vê-lo, muito feliz mesmo, mas isso me assustava. E eu tinha medo de pegar a mão dele, tinha medo dele praticamente e por muitos motivos diferentes.

De repente várias coisas se amarrotaram em minha garganta, coisas que eu queria dizer a ele, todas elas. Mas o que saiu da minha boca foi:

–Como você me encontrou? – a pergunta saiu como um suspiro.

Ele sorriu suavemente.

–Digamos que nosso amigo aqui gosta mesmo de você – respondeu e notei a tensão na voz dele. Gael se aproximou de nós e abanou o rabo, a língua pendurada para fora da boca e o olhar orgulhoso e contente.

Eu tinha pavor de cães, mas abria uma brecha para Gael já que ele salvara minha vida várias vezes. Estendi a mão e fiz um carinho breve em seu focinho escuro e macio.

–Precisamos ir logo – Isaac esticou a mão e me puxou para cima. Fiquei de pé cambaleante, minha perna quase cedendo. Ele percebeu o rasgo profundo e me deu ambrosia, que para os semideuses funcionava com um remédio divino – Vão mandar outro lobo em breve.

–Quem? – exclamei quando ele agarrou minha mão e me levou para fora do apartamento. Minha perna ainda queimava.

–Daya, agora não... – ele começou, mas livrei minha mão do aperto dele e me afastei.

–Fala – ordenei, a voz tremendo – Agora.

Ele torceu o nariz de desgosto e olhou para Gael por um momento, como se precisasse de algo para criar coragem ou até mesmo arranjar uma desculpa.

–Licáon – resmungou, os olhos claros brilhando com uma mistura rara de medo e angústia – Ele foi visto no Central Park e estava com o amuleto.