Filha de Apolo - Lights
24 Destruída
Isaac parou à base da escada e derramou um pouco de erva no soalho. Ergui uma sobrancelha, cética.
—É sério?
—Espera...
Cruzei os braços, pronta para dizer que aquilo era idiotice, quando as pequenas folinhas no chão se agruparam, rastejando pela escada. Isaac me olhou como quem diz: “Engole essa, agora”.
Revirei os olhos e fui atrás dele, subindo os degraus íngremes. Subimos dois lances de escada e tive tempo de ver, por baixo do braço de Isaac, o montinho de ervas passar por baixo de uma porta no meio de um corredor escuro e estreito. Das frestas da porta vinha um pouco de luz, e risadas e gritinho baixos.
—Que nojo — sussurrei imaginando a cena lá dentro.
—Isso não vai ser bonito.
Isaac se afastou da porta e então se jogou contra ela, que bateu contra a parede de dentro. Pelo menos cinco vozes gritaram lá dentro, uma masculina e grossa. Espiei por cima do ombro de Isaac e decidi que não podia perder essa. Quatro garotas seminuas estavam deitadas numa cama de casal larga, com um asiático gordo. Mas o meu olhar e o de Isaac recaiu especialmente na garota loira extremamente pálida.
—Olha só, você seguiu meu conselho — cuspi, sem conseguir conter um sorriso de deboche. Gwen mostrou as presas, se preparando para saltar. O rosto dela estava tão vermelho quanto a lingerie.
—Eu não faria isso, Gwendolyn — Isaac sacou a faca de caça dentada do cinto e as outras meninas gritaram histéricas.
—Saiam daqui, rápido — bradou o gordo, suas pelancas se movendo enquanto ele empurrava as quatro da cama. Se cobrindo com toalhas e lençóis, elas correram para o banheiro.
—Caramba, Lieng, empousai?
—Elas são profissionais — o homem se levantou, abrindo os braços. Ele usava um enorme robe de seda roxo e percebi que mantinha um ridículo rabo de cavalo preto atrás da cabeça, até então careca — Não pude resistir.
Olhei o quarto rapidamente; havia garrafas de whisky espalhadas pelo chão acarpetado, junto com um monte de roupas curtas. Pela parede espalhavam-se tapeçarias belíssimas e radiantes. A direita da cama, uma mesinha de três pernas, comprida e elegante, sustentava um vaso grande e azul, com dragões chineses pintados em branco.
—Trouxe mais uma para mim? — Lieng riu, apontando para mim, e senti uma onda violenta de repulsa.
—Se você tentar chegar perto dela — Isaac virou a faca na mão uma vez — eu juro que te castro.
—O que quer, garoto?
—Informações sobre Licáon.
—Há! — Lieng retumbou, segurando a enorme pança — Claro, como se eu fosse dizer o que ele está tramando.
—Sei o que ele pretende, quero saber onde ele está.
—Não sei porque você vai querer saber a localização dele.
—Você sabe do que eu estou falando — Isaac apontou para mim com o queixo — Aposto que já ouviu falar sobre o que ela fez com um dos seus.
Lieng franziu a testa, quase encobrindo os olhos miúdos, e então sua expressão tornou-se de total espanto.
—Não pode ser a garota.
—Quer descobrir?
Lieng tremeu, não se atrevendo a se aproximar.
—Eu não sei onde fica a caverna dele. Juro.
—E Elijah? — Isaac continuou. Ele sabia que Elijah estava em Nova Orleans, só queria garantir — Você sabe onde ele está?
O rosto de Lieng ficou muito vermelho.
—Não sei do que está falando.
Isaac deu um passo a frente e Lieng recuou, tropeçando na cama. O garoto estendeu a faca, tocando a borda do vaso com ela.
—Te dou três segundos.
Lieng soltou um riso nervoso, seu semblante solidificando.
—Não fará isso.
—Um...
—Você não tem coragem, garoto.
—Dois... — Isaac empurrou o vaso com a faca. Lieng arregalou os olhos.
—Não, por favor!
—Dois e meio... — ele empurrou mais o ornamento, agora precariamente inclinado em direção ao chão.
—Não, por favor! É um vaso da dinastia Ming!
—Dois vírgula setenta e cinco.
—E-ele está em Nova Orleans! — Lieng caiu de joelhos, suplicante, seu olhos colados no vaso raro — Bourbon Street! Quer juntar um exército, contra ela! Já recrutou Licáon e todos os seus lobos!
—Você foi de grande ajuda — Isaac se afastou e Lieng choramingou, aliviado. O garoto, porém, não pareceu satisfeito. Ele franziu a testa, girando a faca entre os dedos — Mas quer saber? Nunca gostei muito desse vaso.
E, com um movimento em arco, quebrou o objeto, de onde voaram vários cacos grandes e afiados, e um deles atingiu a garganta de Lieng. Não houve sangue. Ele simplesmente se dissolveu um pó dourado, rodopiou com o vento que entrava pela janela aberta, e voou pela noite.
—Jamais — Isaac guardou a faca no cinto, olhando para onde restaram vestígios da areia fina — diga que eu não tenho coragem.
—Você é incrível — murmurei.
—E persuasivo — ele pegou minha mão frouxamente. Havia um toque de carinho no gesto, que recebi de boa vontade — Olha, se der tempo, a gente também veio aqui pra se divertir.
—Ah, é? — ergui uma sobrancelha, caminhando pelo corredor ao lado dele — Se eu voltar chapada, a culpa é sua.
—Vai dizer que não gostou de hoje? Eu sei que você adorou andar na moto.
—Não gostei não.
—Se eu provar, você vai ter que dançar comigo.
Meu rosto esquentou, eu provavelmente estava muito vermelha.
—Minha mãe vai ficar sabendo?
Ele sorriu. Eu pude ver verdadeira felicidade em seu rosto, mas ele não respondeu, porque ouvi um silvo agudo atrás de nós. Sem pensar, me virei, e desferi um soco que atingiu carne. A sensação de trituramento sob os meus dedos foi até prazerosa.
Gwendolyn caiu inconsciente no corredor, já vestida, os cabelos loiros esparramados sobre o rosto, cujo nariz sangrava. Balancei minha mão que ardia, e mordi o lábio para conter as lágrimas.
—O que foi isso? — havia um tom de espanto e orgulho na voz de Isaac.
—Só sou legal até certo ponto.
Nos encaramos por um segundo e então começamos a rir. Percebi que eu adorava a risada dele, que enchia meu peito de calor. Nossas gargalhadas foram interrompidas por um uivo longo, de gelar o sangue. A música alta ainda retumbava nos andares abaixo, mas o uivo era a única coisa que eu ouvia realmente.
—Corre! — Isaac agarrou meu braço, me puxando pelo corredor. Ainda tive tempo de ver um enorme Pit Bull negro dobrando a esquina do outro lado. Isaac me levou para um lance de escadas que subia.
—Vamos embora! — Gritei, meu corpo tremendo de terror.
—Tem mortais lá embaixo!
Entramos em uma sala escura, trancando a porta atrás de nós. Alguns segundos se passaram até o cão infernal começar a socar a cabeçorra na porta, que sacudiu violentamente. Filetes de poeira se desprenderam do teto invisível.
—Vamos morrer.
—Vai ficar tudo bem — Isaac me abraçou quando comecei a chorar, escorregando para o chão — Só precisamos pensar em um jeito de matar ele. Tenta se acalmar. Me... Me faz alguma pergunta.
Respirei fundo várias vezes. Os latidos estrondosos pareciam rasgar meus tímpanos. Isaac estava sentado ao meu lado, os braços a minha volta. Eu soluçava contra seu ombro.
—Com quantas... — solucei — Com quantas garotas você já ficou?
—Eita, pergunta difícil — ele pensou um pouco — Não sei. Um monte.
—Nossa — murmurei — Você é um galinha.
Ele riu, apertando meu ombro.
—É, eu sei. Acho que é porque...Nunca encontrei a garota certa, sabe.
—Como assim? — ergui a cabeça, franzindo a testa. Mesmo que não pudesse vê-lo, senti sua respiração quente em meu rosto.
—Meu pai sempre disse que não valia a pena amar alguém, se entregar. Era perda de tempo. Mas eu não acreditei. Só que nenhuma das meninas com quem fiquei conseguiram fazer com que eu... Me importasse realmente com elas.
Olhei para baixo, torcendo minhas mãos.
—Você não se importa realmente comigo?
Ele segurou meu rosto, fazendo leves carícias em minha bochecha.
—Eu não estou ficando com você, estou? Isso é dif...
A porta se estraçalhou.
O Pit Bull saltou, rosnando, e não consegui gritar. O chão desmoronou sob nós. Senti meu corpo sem peso enquanto eu despencava. Meu corpo atingiu o solo com um baque surdo. Não muito longe de mim ouvi Isaac ofegar, logo após algo cair levantando poeira. Uma janela alta iluminava brevemente a sala. Pela luz fraca da lua vi Isaac, caído no chão, uma viga e pedras sobre suas costas.
—Isaac!
—Dayan...! — ele não terminou. O cão infernal aterrissou sobre mim, abocanhando o ar. Berrei, sendo absorvida por puro terror. Apertei o pescoço do demônio, tentando afasta-lo o máximo possível de mim, mas ele era forte demais.
Eu pensava que ia morrer, até o som de metal sobre rocha vir ao lado da minha cabeça. Olhei pelo canto do olho; Isaac tentava, desesperadamente, se livrar das pedras pesadas. Ele tinha conseguido jogar uma faca para mim.
Com muito esforço para não ter minha cabeça arrancada, peguei a arma e a cravei na testa do monstro, que ganiu surpreso e tombou sobre mim.
Eu estava paralisava. O gemido de dor de Isaac foi o que me acordou. Empurrei o cão infernal de cima de mim, que se dissolveu lentamente em areia, e corri cambaleante até o garoto. Cai de joelhos ao seu lado, ralando minhas pernas, e empurrei a viga de madeira.
Isaac se forçou sob a maior pedra e me joguei contra ela, que rolou. Ele tentou se levantar, agora livre, mas caiu sobre os destroços.
—Calma — as lágrimas abriram caminho no meu rosto em meio a fuligem. Tateei a camisa dele até encontrar um frasco de néctar. Ele deu um gole rápido e estendeu o resto para mim.
—Bebe.
—Você precisa mais do que eu!
—Já olhou para sua perna?
Olhei rapidamente para baixo. O cão infernal fizera um sulco fundo na minha coxa, que eu não havia percebido por causa da adrenalina.
—Já olhou para o seu braço? — retorqui trincando os dentes. Isaac empurrou o néctar para a minha mão, sem nem mesmo olhar para o bíceps que vertia sangue. Um talo rasgava sua carne, preto com a quantidade de sangue ali. O rosto dele já havia se curado, e notei que em sua mão ainda havia muitos cortes.
—Não é importante — ele se levantou, parecendo um pouco tonto. Meu rosto esquentou de raiva.
—Não é importante?!
—Dayannya, eu vou fazer você beber isso à força!
Engoli em seco, olhando para ele de olhos arregalados. Virei o néctar em minha boca e me ergui. Minha perna se curou com uma velocidade impressionante. Sem dizer mais nada, saímos da sala e descemos as escadas.
Passamos pelas pessoas que ainda dançavam, com certa dificuldade, e uma voz ecoou acima da música:
“Meia noite, pessoal! Já sabem o que fazer, tem dez segundos!”.
Ouviram-se gritos de alegria. Isaac tirou as garrafinhas de cristal do bolso e entregou uma para mim. Bebi o conteúdo sem reclamar. Tinha gosto de sorvete de chocolate.
—O que é isso? — perguntei quando Isaac tomou o dele.
—Lembra o que eu disse sobre a boate? Vão soltar um gás, alguma coisa com água do Lete, e isso aqui vai fazer com que a gente não perca a memória — ele ergueu o frasco vazio e, ao terminar de falar, as máquinas de fumaça soltaram um gás perolado, anormal. Imediatamente, algumas das pessoas mais normais por ali tiveram seu olhar desfocado.
Seguimos caminho, saindo da casa noturna. Recebi o ar fresco com alegria, quase chorando. Pelo menos, até Isaac gritar um palavrão.
—O que foi?
—A picape e a moto não estão aqui.
—O que? — exclamei virando nos calcanhares. Tirei os saltos, com raiva, e joguei em uma caçamba de lixo — Mas que m...
—Segura a língua.
—Ótimo — mordi o pulso, me impedindo de gritar de ódio — O que fazemos agora?
—Eu tenho um pouco de dinheiro, podemos pegar um táxi.
—Nesse estado? — perguntei apontando para nossas roupas rasgadas e para o braço ferrado dele.
—É quase Halloween, Dayannya. Pensa direito.
Revirei os olhos, seguindo ele pela rua. O asfalto estava gelado sob meus pés descalços, mas eu não me importei.
—Porque eles fizeram isso? — perguntei, o desespero tomando conta de mim.
—Não sei — Isaac colocou as mãos nos bolsos, olhando com raiva para a lua — Alguma brincadeira idiota.
Passamos por uma ponte que atravessava um pequeno canal e parei na amurada, querendo descansar. Isaac se sentou do meu lado.
—Foi divertido — murmurei tentando aliviar a tensão.
—Ah, é? — ele ergueu uma sobrancelha — E porque diz isso agora?
—Porque aqui eu não corro o perigo de ter que dançar com você.
Nós rimos um pouco, até o silêncio tomar conta do lugar. Eu me sentia exausta, despedaçada. Minha perna ardia, e meus olhos também ao se desviarem para o braço de Isaac.
—Você está bem?
Ele mordeu o lábio, claramente sentindo dor, mas não querendo demonstrar isso.
—Um pouco.
—Você... Não está com medo? De... Você sabe...
—Morrer? Não. Isso é só uma questão de tempo — ele passou os dedos pelos cabelos, que ficavam prateados à luz noturna — Todo mundo vai morrer um dia. Você só precisa torcer para que não seja hoje.
Olhei para o pequeno rio estreito abaixo de nós. “É só uma questão de tempo”. Eu poderia pular. Ele não precisaria mais se preocupar comigo. Eu não causaria dano a mais ninguém.
—Eu posso acabar com isso — murmurei mais para mim mesma, ficando na ponta dos pés, um desejo súbito de saltar dali me acometendo. Isaac ergueu os olhos azuis, assustado — Eu posso acabar com isso, e ninguém mais vai precisar se machucar por minha causa...
Isaac segurou meu braço, me puxando para longe da amurada.
—Para com isso.
Fechei os olhos, as lágrimas correndo pelo meu rosto.
—Eu não quero mais que você sofra...
—Eu prefiro viver nesse mundo, do que em um mundo sem você.
Abri os olhos. Meu peito ardeu, meu coração batia tão rápido que parecia impossível. Nossos rostos estavam muito perto um do outro. Ele não precisou dizer mais nada.
Fiquei mais uma vez na ponta do pés e o beijei, mais calorosamente do que já havia beijado. As lágrimas chegavam salgadas ao nossos lábios e ocilei quando ele me abraçou forte. Nossos corações batiam como um só, com tamanha intensidade que doía. Então, com a mesma rapidez a que respondeu o beijo, ele me afastou.
Pisquei sem entender quando ele franziu a testa, segurando meus pulsos.
—Não preciso repetir, não é?
Mais lágrimas se juntaram às outras. Ofeguei olhando para o chão. Isaac me soltou e tirou alguma coisa de sua própria mão, colocando na minha.
—Porque está me dando isso? — minha voz falhou enquanto eu encarava o anel de prata.
—Eu quero que você me faça um favor, ok? — ele apertou minha mão, me olhando com leve desespero — Eu preciso que, quando eu... Quando acontecer...
—Isaac, não...
—Me escuta! Eu quero que coloque o anel no templo do meu pai, no Acampamento Júpiter.
Solucei, meu peito sacudindo.
—Me promete.
Assenti, colocando o anel no dedo. Isaac me abraçou e solucei em seu peito,molhando sua camisa.
—Porque?
—Só faz isso — ele beijou o alto da minha cabeça.
Me afastei, enxugando o rosto. Ele me dispensou, e agora estava pedindo para eu guardar um anel. Eu não pude dizer não, não soube o porque. Mas sabia que me senti destruída ao ele reforçar a ideia de que éramos, e nada mais que isso, apenas amigos.
Pegamos um táxi para o Reformatório, sem dizer nada durante o caminho, pelo menos até Isaac entrar na casa.
—Qual o problema de vocês?!
Sirena e Dakota estavam sentados no sofá, com Eli, Callum e Christopher. Gael roía um osso à porta da cozinha.
—O que aconteceu? — Sirena se levantou de um pulo, os olhos pregados no braço de Isaac.
—O que aconteceu?! — Isaac gritou. Os olhos azuis dele estavam frios como gelo — Aconteceu que vocês nos deixaram sozinhos! Vocês arriscaram nossas vidas, a vida dela!
—A gente não pensou que isso fosse acontecer!
—O que está havendo? — Sarah desceu as escadas correndo, o olhar alternando entre todos na sala.
—Isso deu pra perceber, pelo jeito vocês não pensaram em nada! — Então Isaac se virou para Gael, que dava a impressão de querer afundar no chão. Isaac falou com uma suavidade surpreendente, mais ameaçadora que vê-lo com raiva — E você, seu traidorzinho...
—Não fala assim com ele.
Isaac se virou para mim, a expressão suavizando. Ele suspirou e caiu no sofá, escondendo o rosto nas mãos. Lancei um único olhar a Sirena e Dakota e eles foram para cima, os outros seguindo seu exemplo. Sarah me lançou um olhar agradecido antes de dar a bronca nos dois. Gael se arrastou até nós, agachado, como se quisesse se esconder.
—Se acalma, ok? — sentei do lado de Isaac, colocando a mão em sua costa. Ele ergueu a cabeça, olhando para Gael. Os olhos dourados do lobo o encararam, então ele se levantou nas patas traseiras e deitou a cabeça no colo do garoto — Não fizeram por querer.
—Eu só achei que pudesse confiar neles.
—É, eu sei como é isso — olhei novamente para o ferimento no braço dele — Quer que eu faça um curativo?
—Não, tudo bem. Eu me viro — ele me beijou no rosto, mais fraternalmente impossível — Eu iria dormir logo, se fosse você, ou a Sarah vai começar as interrogações.
Eu ri baixo e olhei para a janela. Isaac subiu, com Gael em seu encalço, que olhou para mim se certificando de que estava bem.
Respirei fundo, olhando para os meus pés descalços Não derramei mais nenhuma lágrima.
Mas eu estava completamente destruída por dentro.
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