A lua brilhava alta atrás das árvores, sua luz lúgubre fazendo sombras longas e escuras no tapete verde da floresta.

Um brilho avermelhado vinha de trás do tronco mais grosso, e então desapareceu. Segui naquela direção. Mais adiante, após dar a volta no tronco, voltei a ver os dois pontinhos cor de sangue. Sob a luz fraca e prateada da lua notei a silhueta esguia e perversa de um lobo. O animal começou a andar, as costas curvadas, e o segui devagar, tentando não fazer barulho, mesmo aquilo sendo um sonho.

Os pinheiros acabaram, dando lugar a raros troncos finos e retorcidos, em um morro alto. O lobo subiu o morro, pulando pedras e se desviando de buracos. Tomei cuidado para não prender minha perna em nada no caminho. Ali, sem a sombra das árvores, tudo era facilmente distinguível. As costas do lobo eram extremamente musculosas e cheias de cicatrizes. Senti um arrepio, uma vaga lembrança do animal, mas não me lembrava de onde.

No cume do.morro havia o que achei ser uma caverna, uma gruta pequena. Quando passei pela entrada o cheiro de morte me atingiu. Um animal jazia morto no canto, um vulto amorfo que, felizmente, não era exatamente visível por conta da falta de luz. Outros lobos rondavam o espaço apertado, ou então dormiam nos cantos.

O primeiro lobo seguiu em frente, recebendo rosnados e olhares furiosos. No fundo da gruta seca e escura uma tocha tremeluzia. O vulto de um homem encorpado se encontrava de costas para o lobo, parcialmente na luz dançante da tocha.

—O que quer, Nihal? — rosnou o homem, a voz gutural e afiada. Ele tinha algo reluzente em mãos.

—Meu senhor tem uma proposta — com um susto percebi que a voz seca, rouca e grossa demais para ser humana vinha do lobo. E, aterrorizada, me lembrei do nome dele. Era o lobo que esteve ao lado de Elijah, o lobo que, supostamente, Gael tinha mandado para as profundezas do Tártaro.

—Aquele velho não se cansa, não é? — tornou o homem com um sorriso rasgado, deixando seu rosto esticado ainda mais medonho, os dentes pontiagudos brilhando ameaçadoramente — Não devolverei o medalhão — Licáon se virou, o cheiro fétido das peles no seu corpo me dando ânsias. Um medalhão de ferro balançava para frente e para trás, prateado e cravejado de esmeraldas, a corrente de aparência pesada pendurada entre seus dedos. No centro do medalhão havia uma grande pedra translúcida e, dentro dela, o fogo branco dos deuses rodopiava. O fogo se intensificou quando me aproximei, mas eles não notaram — E meus rapazes estão dispostos à te impedir, Nihal, caso tente tira-lo de mim.

Os lobos por toda a caverna rosnavam e babavam, prontos para o ataque, mas Nihal olhava indiferente para o lobisomem à sua frente.

—Já deve ter ouvido falar da filha de Apolo — Nihal estreitou os olhos vermelhos, raivoso — Aquela garota tem muito mais poder do que este simples medalhão.

—Sim — Licáon tocou o rosto, se lembrando da única vez em que nos encontramos e Isaac rasgou seu rosto. Ele já estava recuperado — eu vi. Destruiu um de meus filhos.

—Não deve ter sido uma perda grande — Nihal repuxou os lábios em um sorriso aterrador. As cicatrizes pelo seu corpo tremeram e ele tencionou os músculos das pernas grossas.

—Realmente — Licáon olhou de soslaio para seus lobos, todos de guarda — Não foi preocupante. Exceto os poderes dela — os olhos sanguinários dele se estreitaram — Nunca vi nada parecido.

—O poder dela é ilimitado — grunhiu Nihal — Ela será uma arma em potencial. Com ela seremos mais fortes que os deuses! Nós...

—Blah! — Licáon desdenhou com a mão, seu rosto, ao envez de curiosidade, assumiu a fúria — Já me cansei de tentar dominar o mundo. Isso ficou enjoativo. Só quero vingança.

—Ótimo. Poderá ter sua vingança — Nihal começou andar em círculos — Meu senhor está juntando um exército, para o caso de ser preciso. Você viria a ser uma boa ajuda, como fez antigamente.

Licáon voltou a sorrir, maldoso,pensando em sua vingança. O sonho começou a se dissolver quando fui tomada pelo terror.

Os dois iriam se juntar, e provocariam uma guerra para me ter.

—E agora, retomaremos o ponto sobre William Shakespeare — disse a voz arrastada e embolorada de um milhão de anos.

Gemidos de reprovação, inclusive o meu, foram ouvidos por toda a sala, entre eles os dizeres: “Mas ele já morreu...”.

—Silêncio! — ordenou a professora raquítica, suas mãos esqueleticas e enrugadas tremendo enquanto ela varria a sala de aula por trás dos oclinhos embaçados. Quando todos terminaram suas reclamações, a professora começou a escrever na lousa, falando, pela milionésima vez, sobre a vida de Shakespeare. Ela falava dele tão apaixonadamente que me dava ânsias.

—Eles deviam ter um caso — sussurrou Sierra ao meu lado. Conti um riso pondo a mão sobre a boca e continuei copiando no meu caderno tudo o que era passado no quadro-negro. Antes da aula lhe devolvi o celular e pude ver claramente que ela temia que eu tivesse mexido em alguma coisa. Tive que me segurar para não apertar seu pescoço e gritar com ela, por estar ficando com alguém é não me contar.

—Antes dele, Fred Flintstone traiu a mulher com ela — respondi indicando a professora com a cabeça. Sierra teve ataques de riso silenciosos e meu corpo tremia tentando conter as risadas.

—Você acha que eles tiveram filhos?

—Sempre achei ela muito parecida com o Barney.

Sem querer Sierra deixou escapar um barulho da garganta e a professora se virou surpreendentemente rápido. Todos os alunos pararam de cochichar na mesma hora e começaram a escrever. A sra. Todd, a professora, examinou o recinto com sua carinha de rato. O cabelo grisalho, com alguns fios loiros remanescentes, estava preso em um coque muito apertado, que deixava suas feições mais esticadas e assustadoras.

—Aposto que ela vai colocar tudo isso na prova — disse baixinho Matthew Damon no fundo da sala. Não estou falando do ator bonitão — com quem eu me casaria -, mas sim do quinto garoto mais bonito do segundo ano do ensino medio e ex de Sierra. Devo deixar explícito que, o que ele tinha de beleza, tinha de estupidez. Dizíamos que a sra. Damon devia gostar muito do ator com o mesmo sobrenome que ela e, esperando que o filho um dia fosse tão famoso quanto, deu o nome ao nosso colega de Matthew.

Os amigos dele, menos bonitos e mais tontos, riram mesmo que o comentário de Matt não tivesse graça.

—São todos idiotas — cochichou Sierra com cara de desprezo.

—Até pouco tempo você dizia que ele era sua alma gêmea — a ponta do meu lápis quebrou quando impus força demais nele. Eu estava com raiva. Com raiva por Sierra estar se envolvendo com o melhor amigo do cara que Callum odiava e, supostamente, alguém por quem eu sentia completamente o contrário, e ela não me contara. Como ela podia ter feito isso?

—São águas passadas — o rosto dela corou rapidamente — Além do mais, tenho que tocar a vida, né?

“Não diga!”

Bufei e olhei para a janela a minha esquerda, duas mesas de distância de mim. Cheguei atrasada naquela aula, ficando assim longe da janela e na primeira mesa na fileira do meio. Eu podia sentir o cheiro de naftalina que emanava da sra. Todd.

Pelo vidro embaçado pude ver o topo do Empire State, o sol refletindo na longa antena. Pensei no Olimpo, pairando invisível ali em cima. Mesmo depois de tanto tempo, era difícil de acreditar que o cume de uma montanha com milhões de toneladas estivesse suspensa no topo de um dos maiores edifícios do mundo.

Pensei no sonho que tive na noite passada. O medo virou um grande companheiro depois dele, eu me sentia completamente exposta ao caminhar pelos corredores da escola, ou até andar o curto caminho do meu prédio para o ponto de ônibus. O que Elijah pretendia fazer não era bom, isso ficou claro, mas porque Licáon? Os dois eram inimigos e iriam unir forças para me controlar? Isso não estava certo. A palavra “traição” agora parecia marcada na testa de cada um deles.

Levei a mão a corrente em meu pescoço, respirando com força e tentando me acalmar.

—Ei, Daya — chamou a garota atrás de mim. Imediatamente o clima da sala toda ficou tenso. Os rapazes no fundo pararam de fazer a guerra de bolinhas para prestar atenção. Sierra arregalou os olhos e ergueu o livro de Inglês escondendo parcialmente o rosto — É verdade que você só tira nota alta porque sua mãe dorme com o professor?

O lápis em minha mão se partiu em dois. Annie Genkies riu debochadamente e ouvi ela lixando as unhas. Risos abafados e respirações prendidas como um sufoco correram pelas fileiras.

—Eu ouvi dizer que as suas notas são porque você dormiu com o professor — olhei por cima do ombro. O rosto de Annie ficou vermelho e ela empunhava a lixa como se fosse bater com ela em meu nariz — Estou errada?

—Daya, não...

—Senhorita Martinez, vai querer uma suspensão? — perguntou gentilmente a sra. Todd, os olhos parecidos com contas brilhando enraivecidos por ela ter sido interrompida em meio ao seu discurso inspirador. Então ela apontou o dedo magro e retorcido para mim — Isso cabe a vocês duas, também.

Quando ela se voltou para a lousa, procurei outro lápis em meu estojo, jogando as partes quebradas no fundo da minha bolsa, a raiva borbulhando dentro de mim. Desde que coloquei os pés na minha primeira escola em Nova Iorque, Anabel Genkies implicava comigo.

Me lembro de quando eu tinha cinco anos, ainda tentando me acostumar com tudo, e ela veio falar comigo na entrada da escola. “Veio para cá fugir das fábricas?” foi o que disse. Fiquei impressionada com o fato de uma menina de cinco anos dizer uma coisa daquelas. Ela não foi a única a me encher o saco porque eu era mexicana, e por causa da escravidão em meu país, mas foi a única que persistiu com aquilo. Quatro anos depois levei uma detenção porque quebrei o seu nariz no meio do intervalo.

—Sabe o que eu acho? — continuou Annie num sussurro, tomando cuidado para não chamar a atenção da sra. Todd — Você devia voltar para o seu lugar.

Respirei fundo. Meus olhos queimavam e as palavras apareceram borradas no meu caderno e onde a professora escrevia. Minha mão tremia e meus braços pareciam pegar fogo. Eu reconheci brevemente aquela sensação. Em pouco tempo, além do cheiro de naftalina, senti cheiro de madeira queimando lentamente. Olhei para o meu lápis e onde eu apertava com força ele começava a ficar preto, fumaça cinza subindo em filetes quase invisíveis.

Soltei o objeto abruptamente, sem ter idéia do que fazer. Aquilo nunca aconteceu antes e era rotina Annie me torrar a paciência. Sierra arregalou os olhos e me fez uma pergunta silenciosa. Dei de ombros, minhas mãos tremendo, meus braços quentes.

—Alguém está sentindo esse cheiro? — perguntou um garoto sentado ao meu lado.

—Você também? — exclamou baixinho a menina sentada atrás dele, com uma cara de espanto — Parece queimado, né?

Peguei o lápis de volta, discretamente, e esfreguei a parte preta em minha mão. A fumaça parou e joguei o lápis na minha bolsa junto com aquele quebrado.

—Já ficou tempo demais fugindo do trabalho — murmurou Annie em meu ouvido, se inclinando para a frente.

Sem pensar direito me virei, a mão em punho, desferindo um soco que parou a dois centímetros do rosto assustado de Annie.

—Já chega! — berrou a sra. Todd, me interrompendo. Virei-me de volta, me encolhendo na cadeira, mas o estrago já tinha sido feito. O olhar da professora faria todos os lápis naquela sala implodirem — Quero para agora um poema de duas paginas sobre alguém que te inspire! E você, srta. Garcia — ela apontou o dedo murcho e retorcido para o meu rosto, quase encostando em minha testa -, quero a senhorita na diretoria depois...

Ao som da palavra “diretoria” a porta da sala abriu. O rosto gordo e severo da diretora aparareceu, o nariz parecido com uma beterraba inflando quando ela olhou os alunos apavorados, um a um, com os olhos semicerrados. Ela entrou e olhou diretamente para mim. Por um momento pensei que fosse me meter em uma bela encrenca, talvez ficar à deriva no East por três dias, quando ela disse:

—Senhorita Garcia, está liberada pelo resto do dia. Por favor guarde suas coisas.

Pisquei, sem entender. Ela falava automaticamente, o olhar desfocado. Depois de um segundo revelador a resposta acendeu em minha cabeça. Aquilo, sem dúvida, tinha um dedo de Isaac envolvido.

—E Anabel — continuou a diretora, agora ríspida, encarando Annie com fúria incandescente — Detenção na minha sala depois da aula. Cinco horas.

E com um aceno de cabeça para a sra. Todd, que assistia aturdida àquela cena, saiu da sala. Quando a porta se fechou todas as cabeças se voltaram para mim.

—Você não ouviu? — disse a sra. Todd, atônita, os óculos tortos — Saia!

Guardei rapidamente minhas coisas e saí da sala, sem terminar as anotações. “Ao menos estou livre de uma poesia sobre o Batman” pensei.

Enquanto andava apressadamente pelo corredor olhei de relance por uma janela e tive a súbita impressão de ver uma picape preta.