Filha Vitaminada
1 Filha Vitaminada
A coisa toda começou quando ela nasceu. Quando eu estava naquela sala de parto prestes a desmaiar, vendo a minha esposa arreganhada sobre a mesa e o doutor todo de branco puxando a criaturinha engelhada pela cabeça. Tinha um flagelo comprido preso à barriga, estava coberta de sangue e, quando o doutor a segurou de ponta-cabeça e lhe deu um tapa no bumbum, emitiu um grito de estourar os tímpanos. Era a coisa mais sinistra que eu já tinha visto na vida, mas eu a amava ainda assim. Eu e sua mãe resolvemos chamá-la de Dalila.
Foram muitas noites mal dormidas. Muitas fraudas fedorentas para trocar. Muitas idas ao médico por causa de gripe, catapora, ingestão de moedas e outras mazelas que as crianças sempre têm. Eu a ensinei a andar de bicicleta, jogar pôquer, bater em meninos e dancei valsa com ela na sua festa de quinze anos. E eis que de repente a minha menina já estava na faculdade.
Num belo dia, eu fui à esquina comprar jornal e cigarros porque o meu cachorro, aquele inútil, não conseguia fazer aquilo por mim. Uma vez eu o mandei e ele me trouxe o troco errado.
Aí, eu voltei para casa, me sentei na poltrona, que já estava ajustada para o novo formato da minha bunda, que era um pouco maior do que quando Dalila nasceu, acendi o meu cigarro e comecei a ler o jornal.
Duas torcidas organizadas fizeram quebra-pau durante o jogo de quinta-feira. A PM apareceu e desceu o sarrafo em todo mundo. Mas, antes de saber a decisão da justiça com relação aos times, dei uma olhadela por cima do jornal e vi uma mulher magnífica de costas, limpando os móveis da sala.
Eu pensei “será que a dona encrenca contratou uma nova faxineira? O que havia de errado com a antiga?” Dei de ombros. “Que seja, vou apenas fingir que estou lendo o jornal e continuar admirando aquele traseirinho lindo”.
Ela estava super a vontade, usando uma camiseta sem manga, com uma das alças caída para o lado, andava com as pernas completamente nuas e usava um shortinho tão pequenininho que permitia ver as dobras de seus glúteos.
A fim de vê-la se abaixar mais um pouco, opinei no seu serviço.
— Olha querida — eu falei. — Não esqueça a mesa de centro. Tem um pouco de cinzas de cigarro sobre ela.
A faxineira virou-se para mim e disse:
— Ah, pai! Se toca, né? Eu só tô quebrando um galho. A sua faxineira é outra, tá?
Meu irmão, eu quase tive um troço! Eu estava de olho gordo na bunda da minha própria filha. Eu quis a morte!
Mas resolvi não deixar barato e também reclamei:
— Dalila! Quando foi que você deu de andar nesses trajes dentro de casa, hein?
— Ué! Desde sempre! Nesta região sempre faz o maior calorão.
— Você não costuma andar na rua desse jeito, né?
— Por que essa preocupação agora com o jeito que eu me visto, já?
— Olha! Faz o seguinte: deixa eu ler o meu jornal e vê se vai fazer limpeza em outro lugar, tá bom?
A menina me chamou de velho caduca e foi embora com aquele traseiro rebolante que eu não podia nem sequer olhar.
Fiquei pensando comigo mesmo: “se até eu ficava excitado ao ver a minha filha rebolando, o que dirá dos garotos com quem ela anda?” Fiquei desesperado ao imaginar que alguém poderia acabar introduzindo a sua jiripoca em Dalila. A minha queridinha das fraudas sujas profanada por um mortal malicioso.
O som da campainha tocou, me trazendo de volta ao mundo real. Olhei pela janela e vi que era o Rafa, o filho jovem, sorridente e bonitão da vizinha do lado.
Minha filha apareceu correndo para atender a porta com seu longo par de pernas ebúrneas.
Falei para ela deixar que eu mesmo iria abrir a porta. Ela disse, “mas...”, eu a interrompi e mandei que ela ficasse quieta em um lugar onde o rapaz não a pudesse ver naqueles trajes obscenos.
Abri a porta e perguntei grosseiramente o que o garoto queria. Ele disse que queria falar com Dalila. Eu disse que ela não estava. Dalila me empurrou e perguntou se eu estava maluco. Depois ficou falando toda sorridente com Rafael. Tirando o cabelo da frente dos olhos e pondo-o atrás da orelha. Apoiando o peso do corpo em uma perna só. Encolhendo os ombros com ligeira timidez e colocando a mão na cintura. Rafael ainda fez questão de levantar a alça caída de sua blusa que, de uma forma ou de outra, exibia quase todo o seu busto volumoso.
— Eu vim convidar você para ir a um churrasco lá em casa — disse o moleque tarado. — Lá só vai a galera da nossa antiga turma — os dois estudavam na mesma classe durante o ensino médio e, agora que estavam cursando faculdades diferentes, queriam promover um saudoso reencontro com os velhos amigos.
— Eu vou — disse Dalila, prontamente. — Quando vai ser?
— Hoje às 11 horas. Venha de biquíni, vamos ter uma piscina portátil de 3300 lt.
O sacana estava querendo ver a minha filinha de biquíni mergulhando em uma piscina de plástico... ou pior, ele certamente pretendia mergulhar junto com ela.
Interrompi a conversa e decretei que a minha filha não ia àquela festa de depravados. E ela falou:
— É claro que eu vou! O que você vai fazer pra me impedir? Me dar palmadas no bumbum?
Era uma ideia maravilhosa, mas lutei para afastá-la da cabeça.
— Olha pai! Eu não sei o que está acontecendo com você!
Ela se despediu do garoto e fechou a porta. Então ela foi para o quarto e, uma hora depois, ela estava de novo na minha frente toda lasciva. Felizmente ela não tinha biquíni, então vestiu um maiô. Por cima dele, usava um short amarelo de nylon que, depois de molhado, não serviria de nada a não ser para deixar os caras ainda mais malucos. Tinha sandálias de dedo nos pés, óculos escuros e um chapelão de praia quase tão grande quanto um sombreiro mexicano. E tinha um sorriso convidativo que me dava medo.
Se trepou no meu pescoço e me deu um beijo no rosto. Disse até logo e saiu feliz pela porta.
Por que ela não parou de crescer aos 6 anos, eu pensava comigo mesmo, ela não precisava ter se desenvolvido tanto. Ela mal se dava conta dos riscos que aquele corpo sinuoso podia lhe trazer. E ela andava por aí o exibindo a torto e a direito. Mas o que eu podia fazer? A natureza é assim mesmo.
Sentei-me na poltrona com meu amigo jornal e tentei descobrir como um helicóptero Esquilo poderia reforçar a segurança do Estado. Acabei adormecendo e sonhei que sobrevoava a cidade, tentando encontrar Dalila e Rafael com o sistema Movie Terrain da aeronave do governo. De repente um urubu ficou preso na hélice e eu fui abatido. Acordei gritando May-day e joguei o jornal no lixo.
Aí eu resolvi sair para dar uma espiada no churrasco do vizinho. A casa dele tinha um muro muito alto e foi difícil de subir para olhar. Fiquei apenas dependurado palas duas mãos, com o nariz colado no cume do muro.
O que vi parecia a visão do Olimpo, cheia de beldades promovendo orgia. Havia uma dúzia de garotas lindas e seminuas. Algumas delas brincavam com uma bola colorida dentro da piscina portátil, outras ficavam de agarramento com seus namorados pervertidos. Vasculhei todo o painel como se estivesse procurando o Wally e acabei encontrando a minha filha perto da churrasqueira, conversando com o anfitrião.
Eu não sei o que ele dizia, porque nunca aprendi a ler lábios, mas parecia que Dalila considerava engraçado, porque ela ria e encolhia os ombros.
“Maldito Rafael!” eu pensava com meus botões. Ele estava cortejando a minha filha. E estava fazendo tudo direitinho. Ela caia fácil na sua lábia, só faltava se atirar sobre ele como um frango se atira sobre o milho.
Rafael maldito! Quando viu que a carne estava no ponto, tirou um pedacinho do espeto, soprou para esfriar e deu na boca de Dalila. Deu a ela aquela carne coberta com suas bactérias.
Então Dalila pôs as mãos na cintura dele e Rafael soube que devia beijá-la. E foi um beijo do tipo que há anos eu não dou em minha esposa. Nessa hora eu escorreguei e caí de costas no chão. A hérnia que há tempos não me incomodava voltou numa explosão de dor que me fez uivar.
Decidi acabar com a festa, fazendo uma ligação para o corpo de bombeiros. Os homens encapotados chegaram apressados, fazendo um barulho imenso com suas sirenes escandalosas. Usaram uma escada para transpor o muro alto da casa que mais parecia uma fortaleza e lançaram o jato d’água sobre o ponto de origem da fumaça. Molharam toda a carne da churrasqueira deixando a molecada muito zangada. Todos discutiram por um longo tempo, depois os bombeiros foram embora envergonhados.
10 minutos depois, chegou, na casa, um entregador de pizza com 10 caixas na garupa e o furdunço continuou.
Olhei de novo por cima do muro e vi Dalila entrando na casa de mãos dadas com Rafael. Corri de novo para o telefone e fiz uma denúncia anônima.
Os canas chegaram com três pastores alemães e um mandado de busca e apreensão. Vasculharam toda a casa, mas só acharam maconha na cueca de um garoto que não podia falar porque estava com a boca cheia de pizza. O moleque foi dar um passeio de viatura e a festa continuou rolando.
Passei o resto da tarde pendurado no muro, vendo Dalila conversar com Rafael. Lá pelas 17 horas, a molecada começou a debandar. Dalila foi a ultima a se despedir. Deu apenas um selinho no namorado e veio para casa.
Desci do muro e fiquei por um instante deitado na grama. A minha hérnia ainda doía bastante. Eu queria ficar ali deitado, esperando o mundo acabar, mas, pior do que ser atacado por uma nuvem de gafanhotos venenosos, seria enfrentar a fúria de minha filha quando ela descobrisse que eu tinha ligado para os bombeiros e para a ROTAN. Então tive que me arrastar como uma lesma decrépita pelo quintal e me esconder atrás das plantas.
Jogado em um canto úmido entre os caramujos, vi Dalila caminhar até a frente da nossa casa. Apesar da minha situação deplorável, vê-la chegar em casa imaculada me fez sentir alívio e felicidade. Mas, como se para provar que eu não era nada, Rafael gritou de longe:
— Dalila! Você esqueceu o seu chapéu.
Dalila foi até lá para apanhar o chapéu e não voltou mais.
Fiz um novo esforço para me pendurar no muro e não vi nenhum dos dois jovens no quintal. Olhei para a janela do quarto de Rafael e o vi deitar-se na cama sem camisa. Em seguida, Dalila sentou-se sobre ele, arriou as alças do maiô, pôs seus dois peitões para fora e começou a beijá-lo.
Atingido pelo forte golpe da derrota, cai no chão e fiquei inconsciente. Acordei no outro dia com um caramujo andando em meu rosto, o cachorro latindo para mim e a faxineira feia me cutucando com uma vara para saber se eu estava vivo.
FIM
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