Filha De Hécate
5 Tenho um dom e uma punk louca me visita.
Notas iniciais
Então prontos para a visita?
Do jeito com que Quíron falou, até parecia que eles já tinham feito isso. Eu segui Quíron e o sátiro até o chalé vizinho ao meu. Você já viu um cassino? Com roletas, mesas de Pôquer, caça-níqueis, etc. Agora imagine isso em uma versão menor, quase como uma miniatura. O chalé de Tique era assim.
Os campistas se amontoaram na frente da porta do chalé. Quíron entrou e separou a briga, eu fiquei afastada dos outros campistas. Não gosto de multidões. Fiquei perto o suficiente para ver Quíron puxar um garoto pelo braço para fora do chalé pela porta dos fundos, os chalés tem portas dos fundos? Bem, Quíron parecia mais decepcionado do que bravo. A bronca me pareceu muito dura por que o garoto saiu correndo até uma construção que Claire tinha chamado de arena.
– Hérmia! Hérmia! – Claire veio correndo em minha direção. Segurou em meu braço e me carregou para longe. Ela era um ano mais nova, mas tinha quase a minha altura e muito mais força que eu. – Vamos.
– Vamos? Pra onde?
– Pro arsenal é claro, você já terminou de conversar com Quíron, não é?
– Eu acho que sim. – Falei e tropecei pela quinquagésima vez. Ela andava rápido demais para eu conseguir acompanhá-la. Então ia assim: meio correndo, meio tropeçando.
– Como assim você acha? – Disse ela, nem se preocupando em olhar para trás ou andar mais devagar.
– Bem, nossa conversa foi interrompida pela briga no chalé de Tique. – Comentei arfando.
– De novo – Claire riu. – Eles sempre arrumam confusão.
– Você os conhece?
– Claro, aqui no acampamento todos conhecem todos, mas o chalé de Tique e o de Hécate são bem ligados por causa de Las Vegas. Nossas mães gostam de lá, a nossa por causa dos mágicos e a deles pelos melhores cassinos. – Ela fez uma pausa. – Pronto chegamos, que arma será que você vai escolher?
Falar que o arsenal era grande é pouco. Centenas de armas encostadas nas paredes, armaduras, e equipamentos. Todos brilhando por causa da luz do sol refletida nas lâminas.
– Lindas não são? Bronze celestial puro.
– Muito, você também tem uma?
– Tenho. Eu tenho um cetro.
– Na verdade, é mais a arma que escolhe você. É estranho, ela simplesmente te chama.
Olhei ao meu redor, em um canto do arsenal vi três armas que pareciam diferentes, andei até elas: uma adaga de bronze com trinta centímetros, um chicote negro com detalhes dourados e uma varinha ,longa e cinza-escuro, de quarenta centímetros.
– Você disse que a arma me chamaria, então – comentei, apontando para as três armas. – Elas me chamaram.
– Três armas? Não sei se isso é possível. Nós temos somente uma arma principal, às vezes algum campista usa uma secundar. Mas eu nunca soube que alguém usasse três.
Quíron entrou seguido de um sátiro que parecia muito cansado.
– Eu preciso de apenas alguns minutos Green – disse Quíron ao sátiro.
– Mas senhor e o que eu faço com aquela guerra de argila e pincéis? – Green reclamou enquanto gesticulava a tal “guerra”.
– Você é esperto Green, vai pensar em algo. – E lá se foi um sátiro de ego inflado pelo elogio capaz de controlar artistas adolescentes.
Claire pigarreou.
– Quíron, temos um problema. Ela escolheu três armas, quero dizer, três armas a escolheram.
– Quais?
– Aquelas – eu disse. – Encostadas ali no canto. A varinha, a adaga e o chicote.
– Bem, Claire você pode deixar essa prancheta na casa grande para mim. Em cima da mesa de ping-pong, quero dizer, de reuniões.
– Claro Quíron – Ela foi correndo até a casa grande.
– Hérmia, você sentiu as armas?
– Elas me chamaram Quíron.
– Sim, mas você sentiu algo mais?
– Agora que falou, sim. Parece que elas transmitem algo. – Cheguei perto das armas. – A adaga tem um tipo de... aura neutra, já a da varinha é impiedosa.
– E o chicote?
– Ele... Ele me parece vingativo e extremamente poderoso.
– Impressionante. Alguns filhos de Hécate nascem com esse dom.
– Que dom?
– De sentir os sentimentos, ou melhor, os sentimentos da magia. – Ele estava inquieto, andava de um lado para o outro. – Quando alguém lança uma magia, os sentimentos que a pessoa possui naquele instante são passados para o objeto em questão.
– Então quem lançou a magia nesse chicote era poderosa e estava querendo vingança.
– Exatamente.
– Isso é incrível.
– Na verdade, você desenvolveu esse dom bem rápido. Estive observando o seu colar, sua mãe colocou sim uma magia nele. Essa magia não deixa monstros atacarem você, acobertam seus poderes e disfarçam as características de semideusa ou seu TDAH.
– Isso é bom, não é? – eu esperava que fosse, queria meu colar de volta. Sentei-me no chão, minhas pernas já estavam cansadas.
– Em parte sim, mas por outro lado a hiperatividade e o déficit de atenção são o que te mantém viva nas batalhas. – Quíron parecia estar medindo suas palavras, mas sentou-se também – Acontece que seu colar está perdendo o efeito, aparentemente sua mãe só colocou magia suficiente para você ter idade de ingressar no acampamento.
– Então, as letras vão continuar saindo das páginas?
– Creio que sim, não há nada que eu possa fazer.
– Mas eu sim. – Uma mulher de uns vinte e cinco anos com longos cabelos escuros e aveludados apareceu do nada.
Usava uma camiseta preta sem mangas onde se lia em letras brancas “Feiticeiras são demais”, calcas skinny de couro pretas e coturnos. Levava uma chave junto a um cinto de spikes. Tinha uma tatuagem de uma adaga com o punho no formato de chave na parte inferior do antebraço esquerdo e um chicote enrolado no pulso direito. Fisicamente ela se parecia comigo, mas era altiva, com olhos que nunca ficavam com a mesma cor, sempre um diferente do outro e contornados de delineador preto. Minha mãe.
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