Filha Da Noite

4 Capítulo Quatro


Depois das aulas da tarde, Mia encontrou-se sentada na cama, após um longo banho, telefonando para a mãe.

A garota falou um pouco de Melodie e Nicholas, dos professores e do que achara da escola. Deixou de lado o sonho, o colar e Eve. E também o garoto misterioso e lindo que trombara com ela. Quando o celular repousava sobre seu colo e ela pensava nas palavras da mãe, Melodie entrou no quarto e, assim que viu Mia, seu rosto se acendeu e um sorriso solidário cresceu em sua face.

– E então, Mia, o choque da Eve já passou?

– Não posso nem dizer que foi um choque. – Mia piscou, decidida.

– Mas você saiu correndo depois. Por quê? – a garota sentada gelou. Poderia dizer que não queriam que a vissem suja, mas todas já tinham visto. Se dissesse que ficara assustada, estaria se contradizendo. Entretanto, Melodie de repente abriu os olhos, como se lembrasse de algo. Um sorriso maldoso surgiu em seus lábios, e os olhos faiscaram. – Falando nisso, eu vi você conversando com um garoto logo depois, não é?

Mia deu um pequeno sorriso. Ela assentiu, tímida.

– Oh, não me diga que não sabe quem ele é! – Mel jogou-se na cama ao lado de Mia, rindo histericamente como uma garotinha. Talvez uma parte dela ainda trouxesse isso em sua personalidade. Ela mordeu o lábio inferior, e então soltou a bomba: — Aquele era William Hawkes; ele está um ano à nossa frente, e todas as garotas têm uma queda por ele.

– É mesmo? – Mia torceu o nariz e esperou.

– Sim, mas nenhuma realmente falou isso a ele. Mas elas tentam, e é bem engraçado. – Melodie ergueu-se num salto, imitando uma garota passando em frente a William. Ela andou normalmente até passar em frente à Mia, então começou a piscar e a mexer no cabelo compulsivamente, virando os olhos conforme seu corpo se movia e fazendo uma voz de falsete. – “Então, Will, você vai à festa hoje? Minhas amigas estarão lá, você deveria vir”.

Elas instantaneamente caíram na gargalhada. Por um momento, Mia era apenas uma jovem normal divertindo-se com sua nova colega de quarto. Mas tudo acabou quando um uivo discreto cruzou o ar, e ela lembrou-se que a lua cheia aconteceria daqui a duas semanas.

* * *

Mia andava pelos corredores da escola silenciosamente, no final da tarde daquele mesmo dia, após ter se perdido no andar superior das salas de aula. Ela ficou com medo de não achar o caminho da volta para seu quarto, e começou a ficar ansiosa quando não viu ninguém nos corredores que pudesse ao menos lhe dar a informação.

Mia virou o corpo para tentar voltar ao início mais uma vez, quando uma pessoa aproximou-se dela. Foi tão rápido que ela desequilibrou-se, mas alguém firmou seu corpo segurando seus ombros.

– Cuidado. – disse a voz. Era calma e macia, mas ainda assim poderosa. Um arrepio correu o corpo dela quando ela a reconheceu.

William sorriu ao ver que ela percebera que se tratava dele. Ele se afastou devagar, respeitoso quanto à distância que ela necessitava. Vira que a garota era tímida e misteriosa, e que, particularmente, não gostava que as pessoas a pressionassem fisicamente. Will notava a personalidade das pessoas que conhecia facilmente.

Mia observou a figura esbelta do garoto. Ele era magro e vistoso, trazia em seu rosto um sorriso relaxado e tinha olhos fulgurantes e brilhosos, que perscrutavam tudo que podiam em seu campo de visão, mas não de um jeito ansioso e frenético; apenas observador.

– O que está fazendo aqui? – ele se virou, parando ao lado de uma janela, com as mãos nos bolsos do jeans. Seu rosto estava iluminado pela metade, fazendo com que um olho ficasse caramelo, e o outro, mergulhado no escuro.

– Eu me perdi. – ela ergueu os ombros na defensiva. Sentia-se meio estúpida se perdendo na escola, tirando o fato que Mel e Nicholas haviam passeado com ela por toda a construção.

Ele riu discretamente, olhando para o chão.

– Se você tivesse me visto no primeiro dia... Eu também me perdi, mas não tinha ninguém por aqui. Eu tive que dormir no corredor, e estava bem mais frio do que hoje. E pela manhã, quando me acharam, precisei ir para a enfermaria com início de hipotermia. Foi... Estranho. – ele riu, dessa vez mais alto, os olhos focados em um ponto distante, lembrando-se da cena de anos atrás. – Todos os outros alunos ficavam me olhando nos corredores, como se eu fosse um idiota. Acho até que eu era.

Mia tentou sorrir, mas acabou com uma careta.

– Você, hm... Poderia me ajudar a voltar ao meu quarto?

– Claro. – ele fez a menção de se virar, mas bloqueou o caminho dela logo depois. – Mas só ajudo se você aceitar minha companhia até lá.

Ela foi pega de surpresa pelo pedido. Finalmente, depois de um longo conflito dentro de si, Mia aceitou andar ao seu lado, seguindo-o pela escola.

* * *

A porta apareceu, distante e escura, no fundo do corredor. Ela e William seguiam a passos lentos, conversando baixo. Eles dois haviam passado por praticamente toda a escola, e Mia tinha de admitir que se sentira constrangida em meio a tantos olhares. Várias garotas olhavam para eles e lançavam a ela olhares desaprovadores, invejando-a e perguntando às amigas, aos sussurros, como a novata estava andando com ele.

– Então, Mia, o que a fez mudar de escola? Sabe, vir para o meio do nada, sem poder sair nem nada disso? – ele perguntou, após um longo silêncio, ao se aproximarem da porta.

Ela encostou as costas e pensou um pouco.

– Eu não sei bem; foi idéia da minha mãe, na realidade.

Ele assentiu. Parecia querer mudar de assunto, então começou:

– Alguém te falou algo sobre as festas?

– Festas? Ah, sim, Melodie disse que fazem bailes no Natal e no Halloween.

William baixou o tom de voz. Nem sequer mudou a expressão por não saber quem era Melodie.

– Não essas festas. De vez em quando, conseguimos arrumar um jeito de organizar o quarto de alguém e dar uma festa lá. Mas é segredo.

– Tipo, sem ninguém ficar sabendo? Como?

Ele ergueu um sorriso pela metade mais uma vez. Mia começara a gostar desse sorriso.

– Eu disse que é segredo.

Dizendo isso, ele desaprumou-se da porta e seus olhos faiscaram, poderosos. Virou-se e saiu andando, sem olhar para trás nenhuma outra vez.

Mia ficou parada lá mais alguns segundos, tentando entender o que acontecera. Certo, William era meio estranho, com essas ações sombrias e misteriosas, por vezes brincalhonas. Tinha um humor sarcástico notável, mas a respeitava. Ela não sabia o que pensar a respeito do que dissera sobre as festas. Seria um convite? A garota balançou a cabeça e entrou no quarto.

Melodie estava de costas para ela, mexendo em seus pertences, quando se virou e sorriu sem mostrar os dentes. Seus olhos carregavam uma estranha intensidade, e pareciam prateados.

Algo incomodava Mia, mas ela deixou de lado logo. Mel falou baixo:

– Ouvi você conversando lá fora. E algo me diz que era William. Certo?

A garota assentiu rindo. Colocou uma mecha de seu cabelo escuro para trás da orelha. Melodie sorriu, mas logo olhou para baixo novamente.

– Bom, acho que não tem muito que fazer aqui. – parecia pensar alto, mas olhou para Mia mais uma vez. – Vou procurar Nicholas. Você quer vir comigo ou não se importa de ficar um pouco sozinha?

– Pode ir. – Mia sinalizou com a mão. – Ainda tenho que pôr minhas roupas no armário.

Mel assentiu. Logo não havia mais ninguém no cômodo além de Mia. Pôs-se a organizar as roupas no pequeno espaço escuro do armário, e quando finalmente terminou o céu já estava totalmente escuro. Olhou o relógio com uma dobra no meio da testa, e percebeu que eram 19:30. A jovem levantou-se do chão acarpetado para ir ao refeitório para jantar, mas instintivamente olhou pela janela uma vez.

Apesar da lua apenas dar seu primeiro indício de estar crescente, sua pele formigou, ansiando algo. E pelo resto da noite, Mia não pode deixar de pensar que havia algo de errado, enquanto seu corpo e mente entravam em um estado frenético.



Notas finais
Sei que nada de muito emocionante aconteceu nesse capítulo, mas espero que tenham gostado!P.S.: vou postar o desenho da Mia no próximo cap., se der.