Filha Da Noite
12 Capítulo Doze
Notas iniciais
Mia tentara se libertar das algemas à noite, mas pelo menos tinha a certeza de que nada acontecera. Seus pulsos estavam queimados e esfolados, e a prata doía como nada doera em sua pele. Mas os outros estiveram seguros dela durante aquelas sete horas agonizantes de sono.
Ela saíra das aulas da manhã como imaginara: sussurros abafados, palavras de consolo dos professores e algumas mentiras quando a pediram se estava bem.
Mia se dirigia à biblioteca, que ficava do lado direito da calçada se você a olhasse quando entrava na escola. O prédio não aparentava nada de diferente dos outros, visto de fora. No andar térreo estava uma porta de madeira escura, dupla e bastante alta. Mia teve que fazer um esforço para empurrá-las, e então um esforço para não suspirar quando entrou no recinto.
Ela sempre gostara de bibliotecas. Davam-lhe uma sensação de voltar para casa, já que um solitário nunca tem seu lugar no mundo. Por diversas vezes, a garota passara mais tempo com livros do que com seus colegas.
Mas esta biblioteca era muito maior do que outras que Mia já entrara. As estantes combinavam com as portas e as janelas, que eram longas e largas, enfeitando as paredes laterais. Uma escada espiralada subia no lado da sala, espalhando-se para o mezanino que dava para o final do corredor do andar superior. Algumas mesas se espalhavam diante da entrada, com luminárias e – graças a Deus – nenhum aluno. Nem mesmo a bibliotecária estava lá. Era quase o horário de almoço e, provavelmente, o dela era antes dos alunos.
Mia encaminhou-se para o meio das estantes, não sabendo por onde começar. Talvez em algum livro de couro, velho e provavelmente amaldiçoado. O problema era que ela não via nenhum livro assim.
Ela foi lendo plaquinhas espalhadas pelos corredores, indicando o gênero dos livros. Não encontrou nada.
Mia subiu para o segundo andar, examinando tudo. Ela queria saber como fizera aquilo na noite anterior, o lance de perceber a lua crescente na madeira da porta de James. Mia fechou os olhos, concentrando-se.
Uma imagem piscou em seus olhos. Assustadora, algo com presas. Tentou outra vez. Uivos. Mia cambaleou para trás, agarrando-se no corrimão atrás de si. Respirando fundo, tentou outra vez.
Lua, pensou ela. Vermelha, intensa. Quero algo que a explique. Por quê?, eu quero saber. Como?
Uma faísca leve se iluminou. Mas desapareceu rápido. Mia irritou-se. Onde?
E então apareceu. A imagem do corredor a três metros dali. Segunda estante de cima para baixo, livro preto com marcas fundas prateadas.
Aí está, Mia sorriu.
Ela correu para a estante. Na ponta dos pés, pegou a ponta do livro. Mas sua mão queimou-se.
Com um chiado, ela tentou novamente. Com mais convicção, dessa vez. Assim que puxou o livro, houve uma leve explosão. Todos os exemplares daquela parte voaram em cima dela.
Mia soltou um palavrão entre dentes. Ninguém sabia que ela estava ali; agora ainda teria que arrumar tudo, além de ter de ler o que encontrara. Tudo em um tempo sucessível para escapar.
Mia observou as páginas do chão. Alguns livros haviam caído abertos, em páginas aleatórias e sem nexo. Aquela sensação voltara, entretanto.
A resposta estava perto.
Ela jogou-se no chão, procurando por algo. Pistas, palavras, figuras...
Então ela viu. Números.
Acima de todas as páginas que haviam caído abertas. Pequenos números rabiscados de lápis. Pares de números em todas as folhas. Não havia nenhum padrão.
A garota ficou olhando por muito tempo para as folhas. Então viu outra coisa.
Na página com numeração menor do que as outras havia uma marca de lápis na terceira linha, abaixo da palavra “a”. Mia entendeu devagar.
3, 7.
Ela contou cada palavra até a letra sublinhada. Sete.
Era isso.
Mia correu até uma das mesas, agarrando um pedaço de papel abandonado e um lápis da porta-caneta. Ela despencou no meio das folhas. Algumas páginas tinham três ou quatro números, pegando mais que uma palavra. Era complicado decifrar tudo, mas Mia se concentrou.
Uma hora depois, pelo que parecera, ela sentara na cadeira olhando para a folha em sua mão. Os livros haviam voltado para seu lugar. Uma lágrima escorria pelo seu rosto.
“A lua vermelha, ou lua de sangue, acontece uma vez de século em século. O planeta vermelho alinha-se com a lua, e o sobrenatural é finalmente intercedido. É o tempo que o caos reina entre os Filhos do Segundo. O descontrole é inevitável, a morte não pode ser impedida. Quando as setas cruzarem o céu sangrento, nada os protegerá do fim. As caças serão escassas, as penas negras cairão ao último pio do corvo. A garota será entregue como sacrifício em nome do...”
A frase acabava assim. Não havia mais livros.
Não havia nada.
Mia queria realmente fugir dali.Agora que descobrira essa, de algum modo, terrível e inexplicável espécie de profecia maligna sozinha. A garota não poderia entender nada do que estava escrito ali. Talvez algumas partes, que ela realmente preferia não ter entendido. Como os Filhos do Segundo. E o tempo do caos.
E a lua vermelha que os lobos a mostraram. Era mais uma coisa que ela teria que adicionar a lista de “coisas que não entendo e que deveria perguntar para alguém que saiba, mas tenho medo da resposta”.
Porque ela tinha medo da resposta. E ela estava disposta a fugir dali.
Mas Mia não iria para casa, como quando era pequena e, na cidade, alguma pessoa via um lobo passeando por aí e ligava para a polícia ou o controle de animais. Não buscaria o conforto da mãe ou as palavras de explicação da avó. Não pensaria em seu pai insensível.
Mia estava sozinha. Talvez com o apoio de Melodie ou Nicholas, ou James. Mas eles nada poderiam fazer.
E a garota não tinha lugar algum para ir. Mas a biblioteca não seria mais perturbada com sua presença. Ela jurou não chegar perto daquele corredor novamente.
Mia saiu de lá sem rumo, desorientada. Perdera o apetite. Ela estava com a pele quente, apesar do vento frio. Então outro pensamento surgiu. Estaria se transformando de novo?
Sabia que a raiva e o medo a transformavam. Mas estava mais próxima do desespero. Era hora de tentar outra coisa além de se esconder.
Ela apertou os dedos, fechando-os aos lados do corpo. Escorando-se na coluna do interior do prédio, manteve sua respiração calma. Fechou os olhos, e então visualizou algo. Nada do esperado; ainda assim, tranqüilizador.
Estrelas. Nada de lua, nada de uivos. Apenas as inofensivas estrelas. As mesmas constelações que William mostrara para ela na noite passada. Então entendeu.
Seu lado humano. Agora eram as estrelas que suprimiam a lua. O lado pessoa tomando o controle na hora certa.
Era isso que a mantinha na forma certa quando ela queria. Era só lembrar qual lado ela queria mostrar. Talvez separar sua personalidade fosse algo bom.
Era como ser um espião e viver duas vidas. No caso de Mia, era como ser uma aluna normal e em tempo integral ter que lidar com assassinatos, luas cheias e profecias amaldiçoadas e milenares.
E agora teria que lidar com Evangeline.
A ruiva vinha na direção de Mia, caminhando tranquilamente. Talvez tensa, porque iria falar com Mia. Ou no mínimo provocá-la.
– Olá, Mia. Como está indo?
Mia fuzilou-a com o olhar.
– Estava melhor antes de você aparecer.
Eve nem sequer piscou com o insulto.
– Sabe, depois do que aconteceu ontem? Estão chamando aquilo de “Ataque do Lobo”. Sabia que nada assim tinha acontecido aqui antes?
Mia quase se via esmurrando a cara daquela garota estúpida. Evangeline continuou:
– Não é uma coincidência que aconteceu logo depois de você chegar? E que você estava lá? – ela abriu os olhos em falsa surpresa. O bicho era esperto. Aquelas conclusões não tinham como serem rebatidas.
– O que está insinuando, Eve? Que eu ataquei a garota? Não acha que se eu quisesse bater em alguém teria sido uma pessoa mais, não sei... Repugnante? Você, talvez?
A garota riu. Foi um som rascante e cruel. Quando olhou novamente para Mia, entretanto, seus olhos eram uma sentença de morte.
– Eu vi algo em seus olhos ontem, Mia. Antes do ataque. Eles não pareciam... Azuis, quem sabe? E eu estou olhando para eles nesse exato momento. São azuis como o céu.
Mia congelou internamente. Sua respiração foi suspensa. Entretanto, sua expressão continuava dura como pedra.
– Uma dica, garota. A popular nem sempre é burra. Vou estar te observando.
Ela virou-se e foi embora, andando decidida.
Um pensamento incoerente pairou sobre a razão de Mia.
Ela queria matá-la.
* * *
– Mia.
A voz de Melodie chegou até ela quando a porta do quarto fechou-se. A amiga estava sentada de pernas cruzadas, ela parecendo perfeitamente controlada, com olhos prateados.
– O que foi? – os olhos de Mia estavam ligeiramente arregalados, não sabia se por causa do alerta de Melodie ou a péssima conversa com Evangeline.
– Sei que alguma acabou de acontecer. Seus batimentos estão acelerados desde vários minutos. Eu sei que é sério. Você vai me contar?
Mia ficou surpresa com aquela sentença. Melodie sempre fora tão gentil e meiga, e agora usava um tom de voz firme. A coisa era séria. Ela também ficou impressionada e com raiva de si mesma; afinal, parecia que todos os outros lobos tinham um poder totalmente avançado, e Mia não conseguia nem se transformar apenas na lua cheia.
– O que quer saber?
– Comece a contar pela noite passada. Você disse que estava com William. O que aconteceu?
Pela pergunta direta, Mia tinha a impressão de que ela já sabia. Forçou-se a explicar.
– Ele me levou até o telhado do segundo andar. – Mia não queria contar onde era o lugar secreto de Will, mas parecia ser importante fazê-lo diante de Melodie. – Ele me mostrou as estrelas. Nós nos... Beijamos.
Melodie ergueu as sobrancelhas quase imperceptivelmente.
– Mia, eu sei que a vida é sua, e você faz o que bem entender, mas já parou para pensar que, se você ficar próxima de William, acabaria tendo que contar para ele sobre... Sabe, ser Lobo?
Mia ficou parada, encarando-a. Sabia que era verdade.
– Não vou ficar próxima dele. Foi só... Um beijo. No mundo dele, um beijo não deve significar nada.
As palavras eram amarguradas. Mia preferia não tê-las dito. Mas eram parcialmente verdade. William parecia o tipo de pessoa que usava jaquetas de couro e óculos escuros, e que gostava de brincar com o coração das meninas. Tinha esse tipo de fama, pelo que Mia vira. Melodie dissera que quase não havia garotas ali que não fossem ex-namoradas dele. Em outras palavras, péssima fama.
O problema é que ele não agia assim com ela. Era doce e cuidadoso, atencioso com ela. A respeitava. Mia gostava do tratamento que recebia da parte dele.
Ela ergueu os olhos novamente para Melodie. Os olhos da loira haviam voltado a serem cinza. Seu olhar era quase pesaroso. Ela deu duas palminhas no espaço ao lado dela na cama, para que Mia sentasse.
Mia foi até lá.
– O que mais aconteceu?
Mia ficou dividida entre contar ou não sobre a lenda, profecia ou seja lá o que fosse da biblioteca. Mas ela não podia assumir todos os riscos de saber sobre aquilo sozinha. Ela aprendera que decisões que pareciam estúpidas eram realmente estúpidas depois de resolvidas da forma mais fácil. Como manter-se em silêncio. Ela não gostava de arrepender-se dessas escolhas.
Então decidiu contar. Talvez não para a avó, que não precisava saber de tudo que Mia achava ser suspeito. Preocupações desnecessárias, em outras palavras.
– Fui até a biblioteca, no almoço. – começou com a voz baixa. – Queria saber mais sobre algo que pudesse explicar sobre... – interrompeu-se. Deveria dizer algo sobre as alucinações? -... A possibilidade de eu ter atacado Paige. – omitir sobre ficar louca estava entre as opções boas. Continuou devagar. – Então achei um livro.
Mia achou ter imaginado Melodie trancar a respiração.
– E então vários deles caíram no chão. E havia um padrão de números em cima de cada página. Acabou que eu encontrei um parágrafo inteiro.
Ela olhou de esguelha para Mel.
A garota olhava fixo para a parede. Minúsculas gotas de suor brotavam de sua testa. Talvez Mia tivesse sim um talento de Lobo. Ver quando alguém escondia algum segredo. Como quando ela sabia se alguém atrás da porta era perigo ou brincadeira. Como sabia, naquele dia, que o que Nicholas estava dizendo sobre William era verdade.
A história de William. Novamente esse assunto. Mais uma vez suas opiniões sobre ele colidiam.
Mas, no momento, não era o mais importante. Melodie sabia de alguma coisa.
– O que estava escrito lá?
Mia sentiu-se tentada a desafiá-la. Melodie não era a única que podia brincar ali. Mia pegou o papel, estendendo-o entre os dedos finos.
– Leia você mesma.
Mel pegou o bilhete e desdobrou-o olhando nos olhos da garota à sua frente. Leu devagar.
No final, seus olhos estavam apavorados. É claro que ela sabia de algo. Ela levantou-se sem uma palavra, e sussurrou para ela:
– Mia, eu tenho que falar com alguém. Espere aqui, por favor.
Mia não estava com medo. Sentia-se poderosa. Com o papel de volta em mãos, ela sabia que não precisava de nenhuma explicação da parte de Melodie. Só precisava de sua reação.
E é o que ela tinha ganhado.
Uma vez sozinha no quarto, deu-se ao luxo de não pensar em nada. Ficar só contemplando o sol perto do horizonte, dando ainda algumas horas antes de se pôr.
E ela encontrou outro papel perto da janela.
Parecia ter sido jogado lá, caído perto de sua cama. Uma caligrafia cuidadosa e leve, sem resquícios de personalidade, estava gravada lá dentro.
“Sabemos que você está aí. Não pode se esconder por muito tempo.”
Abaixo, o símbolo de duas flechas cruzadas.
Uma palavra soou leve na mente de Mia. Algo que a avó dela dissera por telefone.
Caçadores.
“Existem caçadores. Eles nos caçam.”
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